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Próximos de mais um GP da Bélgica, vamos relembrar uma das edições clássicas da mítica prova que acontece em Spa-Francorchamps.

Veja, numa gentileza de George Monkhouse e seu livro Motor racing with Mercedes-Benz, lançado nos anos 40, como já era bonito e difícil o circuito de Spa-Francorchamps nos anos 30. Veja como os pneus já decidiam quem ganhava ou perdia, mesmo sendo um fornecimento praticamente monomarca, como vai ser no ano que vem na Fórmula 1. Veja como a Auto-Union, hoje Audi, era um páreo duríssimo para a Mercedes.  E, finalmente, veja como a cabeça já fazia mais diferença do que o pé pesado para vencer.

O GRAND PRIX DA BÉLGICA – 11 DE JULHO

O último GP da Bélgica tinha ocorrido em 1935, quando Rudi Caracciola venceu com uma Mercedes. Em 1936, a corrida tinha se tornado uma competição de 24 horas para carros-esporte. O circuito usado era o famoso Spa-Francorchamps, um dos mais bonitos da Europa, estendendo-se ao longo do vale repleto de florestas de Eau Rouge.

A corrida deste ano deveria ter mais de 30 voltas no circuito de pouco mais de 15 km. A largada e os pits ficam numa curva em descida, seguida imediatamente por uma curva para a esquerda em subida que leva à curva Old Frontier. Aí vem uma subida através de densa floresta e a descida sinuosa até a curva Malmedy, onde a pista vira para a direita seguida da rápida reta que leva à aldeia de Masta. Do outro lado de Masta está a aguda curva Stavelot, seguida pela perna rápida do circuito, com diversas curvas feitas de pé embaixo e curtas retas ao longo da crista da colina, justo acima da largada.

Infelizmente o grid de largada havia sido reduzido para sete carros, a Mercedes sendo representada por Lang, Brauchitsch e Kautz, a Auto-Union por Stuck e Hasse e a Alfa-Romeo por Trossi e Sommer.

A razão para esse grid empobrecido devia-se, é claro, ao fato de que Caracciola, Seaman, Rosemeyer e Delius, junto com Nuvolari e Farina, haviam todos ido para a América participar da Vanderbilt Cup Race, já comentada aqui neste espaço. O único competidor belga foi Gouvion em uma Maserati bastante antiga, que estourou seu carro durante os treinos.

A Mercedes também teve seus problemas, com Brauchitsch capotando durante os treinos na curva Frontier, bem atrás dos pits. Felizmente, Brauchitsch saiu ileso do acidente, o carro sendo pouco afetado.

Na largada, Stuck disparou na liderança com Lang colado nele. Nas primeiras voltas, Stuck fez média de 165 km/h e, na , Brauchitsch, para não ficar para trás, cravou 169 km/h, batendo assim seu recorde de 1935. Então, Trossi explodiu seu Alfa, ficando assim a prova reduzida a seis carros o que, em um circuito tão longo, deve ter reforçado a sensação de muito poucos competidores.

A enorme platéia que se espalhava pelo circuito, junto com o próprio Rei Leopold na Tribuna Real, podia desfrutar de grande excitação, uma vez que na oitava volta Stuck passou da barreira dos 170 km/h. Essa volta meteórica, no entanto, foi demais para seus pneus, de modo que na volta seguinte ele veio para os boxes com um deles em pedaços, deixando Lang na liderança com Hasse a pouca distância, seguido por Kautz.

Stuck retomou o quarto lugar na 12a volta. Hasse, guiando brilhantemente, tinha conseguido passar Lang, e na volta 17 tinha ampliado sua liderança para 42 segundos, batendo o recorde de volta novamente, esbarrando nos 174 km/h. Enquanto isso, Brauchitsh abandonava com problemas no motor.

Na volta 19, no entanto, Lang, que vinha virando em torno de 167 km/h, ao ultrapassar Sommer, bateu o recorde de volta de Hasse, retomando a liderança, apenas para ter que parar na volta 20 para trocar pneus, o que o jogou para 3o lugar. Stuck fez então um esforço tremendo e retomou a liderança de Hasse por 2 segundos, com Lang em 3o, cerca de um minuto atrás.

Durante as voltas seguintes, Lang pisou fundo para alcançar Hasse, o que conseguiu, e ambos passaram Stuck, que não se deu por achado e repassou Lang na 13a. volta, assumindo o 2o lugar.

Quando faltavam apenas quatro voltas para o final, a multidão entrou em frenesi. Lang estava fazendo um desesperado último esforço para ultrapassar Stuck. Isto, todavia, estava fora do seu alcance e com duas voltas pela frente, Hasse liderava com 1m3 à frente de Stuck que, por sua vez, estava 1m5 à frente de Lang.

Na última volta, Stuck reduziu a distância para o líder para 35 segundos e aumentou a sua para Lang para 2m3. Kautz, que tinha saído da pista por duas vezes, terminou em 4o e Sommer em 5o, mais de uma volta atrás.

A vitória de Hasse não foi propriamente uma surpresa, já que não era sorte de principiante e também porque ele tinha feito uma corrida brilhante da largada até a bandeirada. Seu sucesso deveu-se, sem dúvida, ao seu extenso conhecimento do circuito, uma vez que ele dirigiu um Adler na corrida de carros-esporte de 1936.

*Coluna publicada originalmente em 08 de dezembro de 2006

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

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