Você gostaria de ser esse cara?

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A sensacional história de Jean-Pierre Beltoise.

Imagine que você é um adolescente. Nascido em uma família bem classe média. Digamos que seu pai tem um…. açougue, por exemplo. Em uma cidade de médio porte mas perto de uma cidade grande. Você e seus amigos adoram automobilismo. Sabem tudo sobre Monza, Spa, Mônaco… Na saída da escola ou do trabalho (é comum ajudar o pai no negócio da família) vocês pegam suas motonetas de 50cc e saem rugindo pelo circuito formato pelo quadrilátero da praça principal.

Conforme o tempo vai passando, as qualidades vão se aprimorando e os tempos de volta baixando. Então começa a busca por novos desafios, representados por circuitos com S, subidas e descidas, curvas de raio longo etc.. Certas garagens se transformam em oficinas, onde você e seus amigos tratam de polir, limar, aplainar, submetendo válvulas de admissão e escapamento a toda espécie de experiência, no afã de obter um pouco mais de potencia.

Não é só isso. Você usa e abusa do pequeno furgão do açougue, fazendo entregas em tempo recorde. E assim você vai se aventurando cada vez mais no mundo da velocidade, em duas e quatro rodas.

Chega o momento em que o inevitável acontece: você precisa correr. De moto, que é mais acessível. Com uma 125 ultrapassada você encara os concorrentes e, de repente, percebe que freia mais tarde e acelera mais cedo que eles. Atacando desde o início, buscando rapidamente o limite e mantendo um ritmo forte, em alguns momentos você consegue abrir vantagem suficiente sobre os concorrentes a ponto deles cometerem erros em sua perseguição e assim acaba ganhando suas primeiras corridas.

Alguém resolve apostar em você e empresta uma moto mais competitiva e, de repente, você ganha um campeonato local, com direito a bater recorde de volta… nas 250 e 350cc! Você começa a achar que a coisa funcionaria do mesmo jeito em 500cc. Com suas economias, compra uma moto competitiva.

Seis corridas, seis vitórias.

Em dois anos você vence nada menos que 11 títulos nacionais, correndo em todas as categorias. Você chama suficiente atenção para que o dono de uma equipe nacional que constrói seus próprios carros para a categoria GT, com motores pequenos, te ofereça um lugar de piloto de testes.

Você se sai bem e ele logo o inscreve entre os pilotos oficiais em uma corrida de 12 horas. Você é escalado para dar a largada e cumprir o primeiro turno. Você larga bem e já se coloca atrás de um de seus concorrentes diretos.

Uma Ferrari GT que vai logo na frente dele apresenta um vazamento de combustível. O brilho da poça dura três a quatro segundos. Seu rival tem tempo de ver e diminui a velocidade.

Você não teve chance de ver e acha que é uma oportunidade de ultrapassar, portanto mantém o pé no pedal da direita. A rodada é inevitável. O carro fica destruído e você vai passar uma longa temporada no hospital. Diversos ossos quebrados. Diversas e delicadas cirurgias. Será que voltará a competir?

Aparece um importante industrial para te fazer uma visita. Ele dirige uma grande empresa, que cria e fabrica equipamentos de alta tecnologia e tem planos para você no futuro, porque quer alinhar um carro criado e fabricado no país, numa categoria imediatamente anterior à da GP2, com uma equipe 100% nacional.

Um modo de mostrar ao mundo do que sua indústria é capaz. Os pilotos serão você e mais dois rapazes muito bem reputados. Eles terão direito aos dois motores melhores, ao menos no início. As sequelas do acidente colocam um ponto de interrogação sobre sua cabeça então é melhor apostar em quem tem mais chance.

Ainda inseguro com sua condição física, você larga em terceiro na primeira corrida, e logo ultrapassa o segundo colocado, que tem muito mais experiência. O ponteiro está 7 segundos à frente mas você não se intimida. Quando a diferença está em um mísero segundo, seu pedal do acelerador amolece. A quebra de um simples cabo significa que as partes mais importantes do carro passaram no teste e o piloto também. Será uma temporada competitiva? Sim.

Na corrida seguinte você larga em sexto, atrás de um pelotão composto por rapazes de destaque na categoria. Você anda embolado com eles, achando que chegar ali já seria um bom resultado. Uma pequena freada na entrada de uma curva, um leve toque na traseira e lá vai você passear pela grama.

Atraso inevitável, felizmente sem danos. Você se atira novamente à perseguição e vai diminuindo a diferença até encostar novamente na turma da frente. Você se entusiasma. Não enxerga apenas a possibilidade de chegar junto; sente, efetivamente, chance de ganhar. Na última volta aproveita um retardatário e consegue encher seu motor antes de todo mundo na saída de uma curva difícil.

Cruza a linha de chegada com uma fila atrás do seu cano de escape. Seis meses atrás os carros da equipe estavam apenas desenhados e você andando de moto. O industrial se entusiasma e… vamos para a GP2!

Só que agora não é mais uma equipe 100% nacional. Ele vai alinhar 4 carros, os outros três serão pilotados por talentos já confirmados (um deles futuramente será campeão do mundo, inclusive). Você quebra nas três primeiras corridas e na quarta, mas nesta última já estava andando embolado com gente consagrada e planejando ultrapassagens.

Em uma folga do campeonato, vai fazer Mônaco em F3 e ganha com autoridade. Mais alguns insucessos na GP2 e chega Nurburgring, versão Inferno Verde. Uma pista onde o piloto conta mais que o carro. Chove, para complicar. Mas seu carro é bom na chuva e você está em plena forma: primeira vitória na categoria. Sua e da equipe.

Na corrida seguinte você larga na primeira fila, pela primeira vez. Ia terminar em quarto, na frente de muita gente boa, mas é traído por uma pane de combustível.

O passo seguinte é a F1. Todo mundo sabe que o buraco fica em outro lugar, muito mais difícil de alcançar. Mas você está bem na foto. Tem lugar garantido na equipe. Logo nas primeiras voltas, você vê as três primeiras letras do seu sobrenome aparecendo nos dispositivos de indicação. Você chegou lá. Está alinhando com todos aqueles caras que sempre admirou e com caras novos muito promissores, que terá que vencer.

Até onde poderá chegar?

Seu carro ainda está pesado demais, mas o motor parece ser até superior aos demais. É uma questão de emagrecer o chassis, que parece bom, e você ganhar experiência para os bons resultados aparecerem. De qualquer forma, você já é o depositário das esperanças nacionais, o cavaleiro que vai representar as cores de seu país nos torneios de maior prestígio do mundo.

No primeiro GP você consegue o melhor tempo de volta e marca pontos, mesmo tendo sofrido com uma junta de filtro de óleo mal fixada. Durante a temporada, obtém um encorajador segundo lugar como melhor resultado.

No ano seguinte, o carro se apresenta um pouco mais competitivo e você termina em quinto no campeonato, tendo como melhor resultado outro segundo lugar, no GP do seu país natal. Mas os rivais também continuam melhorando e as vitórias não aparecem.

Sua equipe se funde com outra, fornecendo o chassis, e você vai junto. O primeiro piloto é uma das estrelas da categoria, tendo vencido vários GPs. Ele se torna campeão e você finaliza em quinto. Bom aprendizado, com outra referencia de piloto e outro motor. No ano seguinte a equipe nacional volta com tudo, motor e chassis próprios, e você volta para ela. Mas mais um ano se passa, sem a tão desejada vitória. O industrial talvez tenha achado que era preciso um outro piloto de ponta para obter melhores resultados e, de repente, você se vê na condição de piloto nº 2. Chega.

Você muda para uma equipe que já foi campeã do mundo há alguns anos e, quem sabe?, talvez reencontre o caminho da vitória. Não é favorita mas as letras iniciais do seu sobrenome continuam aparecendo no topo do automobilismo. Você tem valor no mercado, é atraente mesmo para equipes de outros países.

Nos primeiros GPs fica claro que não haverá muito a fazer, seu motor é o menos potente do grid e o chassis não compensa isso. Chega Mônaco. Nivela a potencia por baixo. É um dos seus circuitos favoritos, você venceu lá brilhantemente na F3, lembra?

No dia da corrida, chove. Forte. Potencia passa a fazer menos diferença ainda. Com uma largada espetacular, você faz uma corrida impecável, e vence de ponta a ponta. Durante o campeonato você percebe que a idade está começando a fazer diferença e que não vai mais ter chance de ser campeão do mundo. Quando decide deixar a F1 vai correr de esporte-protótipo, turismo e até rallye, obtendo vitórias em todas elas.

Que tal?

Estivemos falando da carreira de Jean Pierre Beltoise. Ninguém, nem mesmos os franceses, diria que foi uma das maiores estrelas da F1 em todos os tempos. Mas seria justo desprezá-lo? Fazer piadinhas pejorativas, como se fosse um incompetente?

Penso que não. Seguramente era um piloto talentoso, determinado, apaixonado pelo que fazia. Superou um acidente que quase o invalidou (nunca recuperou totalmente os movimentos do braço esquerdo), as mortes de diversos colegas e amigos, incluindo seu cunhado François Cevert. Antes disso teve que superar também a morte de sua primeira esposa, namorada desde a adolescência, em um acidente de estrada.

Ele mesmo se colocava abaixo de Jim Clark, mas parece que todos, na época, compartilhavam esse sentimento.

Não creio que os franceses faziam piadas com ele por causa disso. Não creio que os franceses o desprezavam por não ter sido campeão do mundo. Assim como os ingleses não glorificam mas mostram sempre respeito por seus pilotos que obtiveram algum destaque na F1 mas não foram campeões do mundo.

A carreira de Beltoise mostra que não basta ter talento, determinação e um bom apoio para se tornar campeão mundial. Não sei dizer se ele, como Stirling Moss, também foi prejudicado por ter feito apostas nacionalistas. O que me ocorre é que qualquer piloto que chegue até a F1 e nela se mantenha por vários anos com atuações dignas, merece profundo respeito. Foi melhor que a imensa maioria dos colegas de profissão.

R.I.P., Beltoise.

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

13 Comments

  1. Robinson Araujo disse:

    Excelente!
    A vitória no GP de Mônaco em 1972. deixando Ickx, Fittipaldi, Regazzoni e Stewart para trás com um BRM que dava para o gasto demonstra bem o potencial deste francês.
    Escolhas erradas em um universo restrito podem gerar, a cada curva, resultados insuficientes omitindo muito do que se tem potencial (assim como a vida).
    Chiesa, parabéns pelo texto, como sempre preciso!

    • Carlos Chiesa disse:

      Muito obrigado, Robinson.Você tem toda razão em sua analise. Veja como alguns colegas abordaram a carreira de Jean Alesi, bem simétrica com a de JPB e a de Nico Rosberg, talvez um candidato a eterno vice?

  2. Lucas Giavoni disse:

    Belíssimo texto!

    Uma homenagem mais que justa, e extremamente feliz, ao JPB.

  3. Baita coluna!

    Espero um dia que pilotos sejam considerados, mesmo não sendo super-campeões!

    • Carlos Chiesa disse:

      Pois é, João Carlos. O Fernando Marques aqui lista vários nomes de não-campeões que talvez tenham sido melhores que alguns campeões.

  4. Carlos Chiesa disse:

    Vocês são todos incrivelmente gentis. Este tema é recorrente nas minhas colunas. De-tes-to esse superficialismo tão brasileiro, de endeusar num dia e enxovalhar no outro, decorrente do futebol. O meio-termo está cheio de gente interessante, valorosa, que merece ser olhada com atenção. Felizmente para mim, como vocês demonstram, o GPTo se destaca pela qualidade excepcional dos seus leitores. Marcel, seu elogio é uma medalha para mim.

  5. Fernando Marques disse:

    Chiesa,

    que texto!!!
    Show de bola!!!

    A Formula 1 dos anos 70 alem de produzir campeões, produzia muitos ídolos que não necessitavam de um titulo mundial para ser tornar um grande ídolo. Nomes como o de J. Ickx, F. Cevert, R. Perterson, Clay Regazzoni, G. Villenueve são exemplos. Jean Pierre Betoise, por sinal sempre achei um belo nome, também merece fazer parte deste time.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  6. Mauro Santana disse:

    Belíssima coluna Chiesa!!

    Realmente, os pilotos que passaram pelo automobilismo e pela F1 de maneira digna, com certeza devem ser respeitados.

    Porem, infelizmente, a sorte de um tão sonhado título mundial, não chega para todos.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  7. Marcel Pilatti disse:

    Querido amigo Chiesa: uma de suas melhores (se não a melhor) colunas para o GPTo!

    Que narrativa!

    Obrigado.

    • Rubergil Jr disse:

      Palmas de pé para este texto!

      É por isso que eu adoro o GPTotal. Aqui não é só medalhão que tem vez; mesmo aqueles pilotos que quase passam despercebidos têm muita história boa pra contar.

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