Zona restrita

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Há poucos dias completaram-se sessenta anos desde a assombrosa vitória de Juan Manuel Fangio em Nürburgring, 1957, quando o maestro finalmente revelou ao mundo toda a dimensão de sua incrível reserva técnica, adentrando uma zona mística e ainda pouco conhecida nas fronteiras de nossa humanidade, sobre a qual não tinha controle absoluto.

Imediatamente após terminar a corrida, Fangio já dizia que jamais pilotaria daquela forma novamente. Ele confessaria anos mais tarde ter ficado duas noites sem dormir, ainda sob impacto da experiência e dos riscos que havia assumido, como que assustado por ter de alguma forma perdido o controle. Não do carro, longe disso, mas de si mesmo, ainda que o resultado final sugira que, na verdade, estejamos falando apenas de um nível superior de controle, cujo acesso permanece um mistério. De qualquer modo não parece ser coincidência que o pentacampeão tenha feito apenas mais quatro aparições no campeonato mundial, sem jamais voltar a vencer.

Lendo comentários na internet a respeito daquele dia, não foram poucas as pessoas traçando paralelos com a famosa “experiência do túnel” descrita por Ayrton Senna com riqueza de detalhes, a respeito de seu enigmático desempenho durante o segundo treino classificatório para o GP de Mônaco de 1988. E a analogia certamente se justifica, para além de qualquer simpatia ou antipatia pessoal. Não apenas pela robustez da pilotagem apresentada, mas pela mesma sensação de medo, de fragilidade, de perda de controle, de ter adentrado alguma dimensão desconhecida. O próprio Senna foi o primeiro a afirmar que se assustou e não voltou a andar rápido outra vez naquele dia.

Sempre existiu, no entanto, uma profunda contradição unindo estes dois episódios que o tempo separou por 31 anos. Afinal, apesar das limitações técnicas da época e dos enormes desafios representados pela extensão do Inferno Verde, foi possível montar um resumo audiovisual de 22 minutos daquela corrida, incluindo imagens preciosas e esclarecedoras sobre o desastroso pit stop que atrasou Fangio em mais de um minuto, bem como outras de sua vigorosa caça às ferraris de Peter Collins e Mike Hawthorn. Por outro lado, jamais foram vistas imagens daquele treino televisionado 31 anos depois, que teria de estar arquivado pela geradora e também em gravações caseiras nos países que exibiam a qualificação naquela altura.

Pessoalmente, sempre considerei este um dos grandes mistérios da cobertura automobilística de nossa era. Tive esperanças de ver parte dessas imagens quando do lançamento do filme Senna, e foi grande minha decepção ao notar que, mais uma vez, a experiência era narrada tendo como pano de fundo gravações onboard colhidas em 1989 e 1990. Simplesmente não fazia sentido acreditar que tais registros não existissem. Mas, se existiam, por que diabos ninguém os utilizava, mesmo quando as fontes em questão certamente tinham acesso a todos os arquivos primários?

Bom, a resposta demorou, mas finalmente me foi revelada na semana passada. Para alguns de vocês, inclusive, é bem possível que tenha chegado antes disso, pois já faz algum tempo que a página de vídeos Daily Motion finalmente disponibilizou a transmissão daquela sessão. Era um sonho realizado, mas ao ver o vídeo veio a ducha de água fria: a transmissão simplesmente comeu uma mosca gigantesca e perdeu a parte mais importante da impressionante (e curta) sequência de voltas que entraria para a história.

De fato a situação beira o inacreditável, pelo grau de insensibilidade. Senna, afinal de contas, havia assinalado a pole position nas duas corridas já disputadas naquela temporada, e estava visivelmente rápido, abrindo uma distância enorme em relação aos demais conjuntos, como se fossem carros de categorias diferentes. O cronômetro logo indicaria que ele estava girando ao menos cinco segundos mais rápido que a imensa maioria dos pilotos, três segundos mais rápido que o segundo colocado, mas, ainda assim, a geradora focou em carros mais lentos ou ficou mostrando quem entrava ou saía dos boxes. Um absurdo.

“Ah, então quer dizer que a transmissão não jogou nenhuma luz sobre o que se convencionou falar a respeito daquele dia?” Bom, isso também não é verdade. O vídeo nos fornece informações importantes sobre o episódio, e permite até mesmo traçar um mapeamento volta a volta da famosa experiência, ainda que a volta definitiva tenha sido testemunhada integralmente apenas pelo próprio Senna.

Vamos à cronologia, portanto.

Logo após as imagens dos primeiros carros a irem para a pista, bem no início da sessão, a transmissão corta para Prost entrando em seu carro. Com menos de um minuto de vídeo ele já estava no cockpit. O francês teve muito mais tempo de pista do que Senna ao longo do treino.

A primeira volta cronometrada foi de Piquet, virando 1min31s4. Senna aparece pela primeira vez depois de 4min30s de vídeo, ainda nos pits, mas já dentro do carro. Em seguida a transmissão corta para Prost, já em volta rápida. O trecho entre o Cassino e a Mirabeau estava sob bandeira amarela, provocada pela March de Ivan Capelli. Após uma volta rápida, Prost aborta a seguinte. Câmeras seguem com o francês até 11min45s, quando são cortadas para mostrar volta rápida de Derek Warwick, que seria destruída pelo companheiro Eddie Cheever.

Com 13min53s a imagem pisca muito brevemente uma parcial dos tempos. Senna, ainda sem ir para a pista, tem 1min26s464, Prost tem 1min27s520 e Mansell aparece em terceiro com 1min28s475. Depois de 14 minutos e 20 segundos a imagem volta a mostrar Senna, ainda nos boxes, mas agora pronto para sair. Aos 15 minutos e 30s ele entra na pista, e as câmeras o acompanham durante toda a volta de aquecimento, mostrando inclusive o momento em que ele estraga a volta do que me pareceu ser a EuroBrun de Oscar Larrauri. Ayrton abre sua primeira volta em 17min20s, mas a aborta pouco depois. Abre de novo em 18min53s, mas alcança a March de Capelli e a Ligier de Arnoux na segunda parte dos esses da piscina. Seu tempo nesta volta é de 1min27s015, que o deixava atrás apenas dele mesmo. Considerando o tempo perdido na parte final da pista, é seguro afirmar que teria virado na casa de 25 alto se não tivesse sido atrapalhado.

A essa altura Senna e Prost ainda continuavam com suas melhores marcas de sexta, mas Mansell já havia melhorado para 27s704. Como a Ligier ainda estava à frente, Senna dá mais uma volta lenta. A meio da volta ele acelera e supera Arnoux. Gira em 1min39s e abre a volta com 22 minutos de sessão, sendo atrapalhado por uma Scuderia Italia logo na Sainte Devote. A transmissão então corta para a Ligier de Arnoux, nos boxes, e depois para Luis Perez-Sala, e então para Stefan Johansson entrando nos boxes. Neste momento é possível ver que Prost também estava na pista. A tevê não dá o tempo de volta obtido por Senna nesta volta, mas a transmissão o mostrou por duas voltas seguidas contornando a Sainte Devote, e a adoção de um referencial para cronometragem manual indica que ele virou muito perto de 1min25s0. Um tempo que já teria lhe valido a pole position. Ele continua andando rápido e a câmera posicionada no topo da Beau Rivage mostra Senna seguido por uma Larrousse, sem esclarecer se ele teve que fazer a ultrapassagem durante a volta anterior, ou se o carro ganhou a pista quando o brasileiro já rasgava a reta. Eddie Cheever está uns cinco segundos à frente, e quando Ayrton mergulha no Cassino topa com uma Tyrrell andando devagar. A câmera corta antes que saibamos se perdeu tempo para desviar.

A transmissão se perde, e quando reencontra Senna ele já abortou a volta, após ter superado Cheever. Ele torna a abrir volta com 25 minutos de sessão, mas a tevê inexplicavelmente acompanha o Arrows. O brasileiro está nitidamente voando, e quando Eddie entra na reta do túnel, Ayrton já não pode mais ser visto. Ele torna a aparecer brevemente quando Cheever contorna a chicane, o McLaren já mergulhando na Tabac. Os cronômetros revelariam mais tarde que a volta de Cheever lhe valeu a quinta posição naquela altura, dando a dimensão do quão rápido Senna estava: o brasileiro havia virado uma volta sensacional em 1min24s439, enquanto Prost continuava com 1min27s520. Apesar de ter ficado mais tempo na pista, o bicampeão estava levando mais de três segundos de seu companheiro no circuito mais curto do calendário!

Senna só volta a ser visto brevemente no topo da Beau Rivage, quando Cheever começa a subir. Neste momento, a March de Gugelmin surge entre Senna e Cheever, mas não sabemos se Ayrton precisou fazer a ultrapassagem durante a volta anterior. Por alguma razão Senna aborta a volta, mas não pode andar muito devagar porque Cheever está logo atrás. Ele vira na casa de 1min33s e abre a volta próximo aos 27min55s de sessão. Esta vai ser a grande volta de sua vida, mas a tevê corta para a Benetton de Nannini nos boxes, tão logo o brasileiro mergulha na Sainte Devote, e não mais o busca. E foi isso. Ele baixa mais meio segundo na nona volta do jogo de pneus e alcança a incrível marca de 1min23s998, sem que saibamos se pegou tráfego nesta ou na volta anterior, nem que possamos ver onde buscou este tempo, ou o quão perto passou dos rails. Quando a transmissão atualiza os tempos, mostra que Prost também havia baixado. Agora ele tinha 1min26s974 e estava a 2s976 do rival, com carro idêntico.

Se houvesse pneus de classificação em 1988, este provavelmente seria o panorama final do treino. Com pneus de corrida, no entanto, Prost teve tempo suficiente para buscar uma volta em 1min25s425 já no fim do treino, num esforço em que a única coisa em jogo era reduzir o prejuízo à própria imagem, e o ganho de moral por parte do adversário.

A História, claro, nos mostra que ele fez mais do que isso no dia seguinte, usando sua genialidade para reverter a força do adversário contra ele próprio. Essa parte, no entanto, todos já tínhamos visto.

Passada a frustração por descobrir que jamais verei a fabulosa volta em 23s998, minha inata tendência a buscar significados poéticos onde talvez não existam me trouxe duas sensações à mente. A primeira nasceu durante a volta em 1min24s, na qual as câmeras acompanharam Cheever, quando me dei conta que Senna só não foi visto porque correu demais, andou mais rápido do que a transmissão.

Já a segunda brotou quando a transmissão ignorou sua melhor volta, ainda na primeira curva. Foi quando me lembrei que vimos Fangio em Nürburgring, mas não o vimos decolando nas quatro rodas no miolo impenetrável do circuito. Quando lembrei que temos imagens de Monza 67, mas não vimos as voltas míticas de Jim Clark naquela prova. Quando me lembrei que também não vimos o auge de Jackie Stewart, na mesma pista italiana seis anos depois, ou a disputa entre Varzi e Nuvolari em Mônaco 1932.

Talvez seja apenas meu cérebro em negação, mas no fundo resta a sensação de que não me cabe ver nada disso. Talvez não seja digno, sei lá. Ou talvez lendas não devam mesmo ser vistas, mas eternamente imaginadas, sentidas, cultuadas, respeitadas.

Talvez, inclusive, este seja um requisito para que sejam lendas.

Talvez seja melhor assim.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

8 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Texto Fantástico meu Amigo!

    Muito bom mesmo!

    Meu pai e meus tios tiveram o privilégio de ver ao vivo os GPs Brasil de 88 e 89, e sim, testemunharam no sábado a tarde, nos dois anos, as duas voltas rápidas que renderam a Senna as duas Pole Position, e foi assombroso, uma experiência unica, que mesmo o brasileiro não tendo vencido ambas as provas, já valeu o privilégio de terem viajados 800km até o Rio de Janeiro.

    Como se diz no futebol quando algum jogador marca um famoso gol de placa, “Era de sair do autódromo, pagar o ingresso novamente, e voltar para a arquibancada”.

    Senna foi sem dúvida o melhor neste quesito.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  2. Rubergil Jr. disse:

    Mais um texto espetacular. Arrepiante imaginar como terão sido estas “epifanias automobilísticas”. Lembro também que Suzuka 1988 e 1989 foram duas corridas que Senna quase visitou esta zona restrita.

    A lembrança destas corridas me traz à tona uma outra questão: à exceção óbvia de Varzi/Nuvolari, todas as atuações titânicas citadas no seu texto ocorreram em situações em que os envolvidos não tinham qualquer preocupação mínima em poupar equipamento e combustível. Ou seja, durante quase toda a história da F1 era altamente improvável, em condições de corrida, ver tais exibições, posto que poupar equipamento sempre foi uma qualidade requerida para ser um vencedor.

    Nos anos 80 e até 1993 isto foi particularmente evidente. Por isso só poderíamos ver estas exibições de gala em treinos, e aí Senna era estrela de primeira grandeza – e além de Mônaco 88, vale a pena citar Brands Hatch 85, Detroit 88, Phoenix 91 e Hungria 91.

    E isso nos lembra que Imola 1994 talvez nos tenha privado de presenciar outras epifanias. O resultado da equação Senna + Williams inquebrável + pneus e combustível à vontade, certamente nos faria testemunhar corridas épicas. E como você bem lembrou no seu texto sobre Senna e a Williams, Schummy também brilharia nesta condição, e com certeza teríamos duelos como o de Varzi e Nuvolari por diversas ocasiões em 1994.

    Mas acho que o acidente de Senna apenas confirma aquilo que você conclui: não nos cabia ver isso, não
    éramos dignos de presenciar tais feitos. Então, que os deuses do automobilismo possam contemplar o que nos foi negado, e acho que em breve o farão mesmo – sem nenhum desejo de morte, apenas espero que Schumacher possa encontrar o descanso merecido depois de tanta luta, e terminar lá o duelo com Senna.

    Pra finalizar, apenas uma dúvida: o duelo Varzi/Nuvolari não terá sido em Monaco 1933?

    Rubergil Jr.

    • Obrigado pelo retorno preciso de sempre Rubergil.
      Concordo com tudo.
      E sim, vc está certo, a disputa foi em 1933. Falha minha.
      Até já dediquei uma coluna a ela, intitulada “Carruagens de Fogo”.
      Abraço, meu amigo.

  3. Obrigado pela leitura e pelo retorno, meus caros.
    Concordo com os dois.
    Abraço!

  4. Fernando Marques disse:

    Marcio,

    como bem disse o Chiesa, esta volta do Senna em Mônaco virou uma lenda.
    Mesmo sabendo que no conjunto da obra havia o melhor carro da categoria e o piloto mais veloz idem … nada além do que aconteceu poderia ser esperado até por que Senna e Mônaco tinha tudo a ver …
    Quanto ao Fangio que belas as imagens do video … que show!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  5. Carlos Chiesa disse:

    Assim começam as lendas, amigo.

  6. Que texto Márcio! Que texto…

  7. PH disse:

    Belo texto!!!

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