Experiências na Fórmula 1: os carros de 6 rodas

por Adrián Bueno*

*Psicólogo formado e atuante da área no âmbito acadêmico, o argentino Adrián é leitor assíduo do GPTotal há muitos anos. Sua contribuição para o site é um convite a conhecermos mais sobre a história do famoso Tyrrell P34, um dos modelos mais marcantes da história da F1, e a de outros experimentos semelhantes.

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A introdução das primeiras asas em carros de F1 durante a temporada de 1968 resultou em grandes mudanças e inovações em engenharia e aerodinâmica; por isso, durante os anos 70 e até a consolidação do turbo nos motores na década seguinte, apareceram os mais variados chasis, se construíram os desenhos mais radicais e formaram-se os grids mais diferentes já vistos na história da categoria.

Dois dos principias problemas sobre os quais trabalhava-se naqueles anos foram como reduzir a resistência e a  turbulência geradas pelas asas dianteiras, e dar aos carros a maior aderência possível ao asfalto. Neste contexto, Derek Gardner, projetista-chefe da equipe Tyrrell, propôs a adição de mais duas rodas com eixo correspondente às rodas dianteiras do carro, com a particularidade de que estas 4 rodas dianteiras foram de menor diâmetro do que os normalmente utilizados naquele tempo.

Parece que a ideia circulou desde 1970, mas só no final de 1975, a equipe mostrou à imprensa um carro de seis rodas chamado  Tyrrell P34 (pois era o prometo número 34 da equipe). A estreia em pista veio na quarta corrida da temporada 1976, na Espanha, onde a Tyrrell apresentou um único chassi P34, evidenciando algumas modificações do modelo inicialmente exposto à imprensa. Pilotado por Patrick Depailler, conseguiu um terceiro lugar promissor para o grid, mas teve que abandonar a prova devido a problemas mecânicos.

Os resultados daquele ano foram bastante aceitáveis, considerando que a Tyrrell terminou em terceiro lugar entre os Construtores e seus pilotos, terceiro e quarto no geral, subiram regularmente ao pódio e ainda fizeram uma dobradinha no GP da Suecia. Foi assim que Jody Scheckter se tornou o primeiro e até agora único piloto a vencer uma corrida de F1 com um carro de  6 rodas. Ainda assim, ao final do ano o sul-africano deixaria a equipe, duvidando da seriedade do projeto.

Em 1977, Ronnie Peterson tomou o lugar de Scheckter e a equipe apresentou a versão P34-B, com o motor coberto e um chassi melhor acabado em relação ao ano anterior. No entanto, eles tinham muitos problemas com a evolução e o desenvolvimento dos pneus dianteiros, os quais eram feitos sob medida pela Goodyear para a Tyrrell. Os resultados foram muito modestos: não obtiveram vitórias, e o projeto foi encerrado no final da temporada, com a consequente substituição de Derek  Gardner por Maurice Philippe, um excelente engenheiro que tinha trabalhado com Colin Chapman na Lotus.

Por outro lado, a equipe March apresentou, em novembro de 1976, a sua própria versão de um carro de 6 rodas (chamado 2-4-0) que era uma adaptação do chassis  761 com o qual tinha corrido naquele ano. Desenhado por Wayne Ekersley e Robin Herd, ao contrário do Tyrrell este carro tinha seis pneus do mesmo diâmetro (usando rodas dianteiras), com um único eixo à frente e dois eixos atrás, e a tração do motor aplicada em ambos os eixos traseiros, pelo qual o carro tinha quatro rodas motrizes. O projeto parecia promissor, mas quando o carro foi testado pelos pilotos                 Ian Sheckter e Howden Ganley em Silverstone, os resultados foram decepcionantes e o  March 2-4-0 nunca estreou oficialmente na F1.

Há crítica histórica dirigida aos proprietários da March, principalmente por fazer um projeto para obtenção de patrocínios para melhorar a sua situação financeira: certamente, com o March 2-4-0 foram feitas mais publicidades do que aparesentações de pista. Além disso, a March também apresentou um carro de 8 rodas que  nunca pisou em um circuito e só foi utilizado para propaganda.

Por sua vez, ao longo de 1976, uma revista de esportes publicou uma foto em preto e branco de uma Ferrari conduzida por Clay Regazzoni e que foi chamado de 312 T8, com um total de 8 rodas, 4 à frente e 4 atrás. Porta-vozes da Ferrari tiveram o cuidado de negar o fato e logo se tornou evidente que a imagem era o resultado de um truque fotográfico, mas isso não conseguiu conter o forte rumor de que em Maranello se estava trabalhando num projeto semelhante, e em dezembro foi publicado um artigo muito importante onde se afirmava  a existência de uma Ferrari com 6 rodas com um design diferente dos de Tyrrell e March.

De fato, no início de março de 1977, antes do anúncio à imprensa, a Ferrari apresentou em Fiorano seu carro de 6 rodas, todas do tamanho das rodas dianteiras, com 2 rodas à frente e 4 atrás. Porém, ao contrário do March, as quatro rodas de trás estavam no mesmo  eixo, dispostas em pares uma do lado da outra. O carro era uma adaptação da versão T2 312, e era chamado informalmente como o Ferrari 312 T6.

Duas semanas depois, Niki Lauda e Carlos Reutemann testaram o carro no traçado  oval de  Nardo, e depois continuaram testes em Fiorano, onde Reutemann teve um acidente do qual saiu ileso, mas que levou a uma discussão acalorada com o próprio Enzo Ferrari. Mais tarde, os mecânicos demostraram que o acidente tinha sido causado por uma falha mecânica na suspensão traseira do carro, e não por um erro de condução, como argumentava Don Enzo. No entanto, mesmo com o desenvolvimento contínuo com Giorgio Enrico incorporado como  piloto de testes, o carro nunca atingiu a velocidade do 312 T2, e os problemas de suspensão traseira não conseguiram ser resolvidos completamente. Portanto, em maio do mesmo ano o projeto foi cancelado e a Ferrari 312 T6 nunca debutou oficialmente.

Outra equipe que nesses anos foi associada com o desenvolvimento de um carro de 6 rodas foi a Lotus, apesar de que as informações que circulavam eram  baseadas em rumores contraditórios e falsas fotomontagens. Efetivamente, em 1976 apareceu uma imagem de um Lotus 78 com 6 rodas dispostas da mesma forma que no Tyrrell P34. A data de publicação é surpreendente, pois o modelo de 78 Lotus não competiu oficialmente até o primeiro GP de 1977, mas a empresa de tabaco patrocinadora da Lotus apresentara o carro para fins de publicidade em julho de 1976. Por isso, provavelmente, a fotografia do truque foi feita sobre uma foto daquela apresentação. Outra foto de um falso Lotus 6 rodas apareceu em 1977, mostrando um modelo 72 com os eixos dispostos como no March 2-4-0.

A verdade é que nunca foi conhecido formalmente um projeto de Lotus dedicado a fazer um carro 6 rodas, e isso parece muito improvável, já que Colin Chapman naqueles estava desenvolvendo a inovação do efeito solo, que revolucionou a categoria e ganhou títulos de Pilotos e Construtores em 1978, quando os carros de 6 rodas já pareciam ter caído no esquecimento.

No entanto, o advento de motores turbo no final dos anos 70 forçou a fazer alterações no chassis e os modelos auto-asa (wing car) tornaram-se modelos obsoletos. Então, no começo da década de 80, a tendência de aerodinâmica tomou outra direção, a pesar de algumas equipes não terem oportunidade imediata de desenvolvimento ou aquisição de turbo, pelo qual os engenheiros tiveram de recorrer a alternativas viáveis do regulamento ​​para dar mais velocidade aos seus carros.

Uma dessas equipes foi a Williams, conduzida por Patrick Head, que em 1980 assumiu a ideia de projetar um carro de 6 rodas, basicamente seguindo as premissas de March: as 6 rodas do tamanho dos pneus dianteiros, um eixo para a frente e dois para trás e com a motrocidade aplicada às quatro rodas traseiras. Só que  agora a Williams acrescentou o benefício aerodinâmico do efeito-solo, em um carro que permitia pelas suas características a aplicaçao de “polleritas” mais compridas.

Assim, em 1981 e pensando na temporada de 82, a equipe embarcou no projeto de desenvolvimento da Williams FW-08 em duas versões, uma de 4 rodas, chamada FW-08A, e uma de 6, chamada FW-08B. Paralelamente trabalhou na adaptação de 6 rodas ao chassis FW-07, com o qual corriam  esse ano, conseguindo  testar o carro pela primeira vez em outubro, em Donintgon Park. O carro foi pilotado por Alan Jones, sob o nome de Williams FW-07E. Entre novembro e dezembro de 1981, a mesma versão do FW-07E, mas com algumas melhorias, foi testado em Paul Ricard por Keke Rosberg, quem já havia substituído Jones.

Iniciado 1982, Rosberg vai pilotar novamente um Williams de  6 rodas, mas desta vez será o FW-08B em Silverstone, e uma versão  melhoroada deste modelo, o FW-08D, será comandado pouco depois por Jaques Laffite em Croix-en-Ternois, onde eles simularam o layout de Mônaco e testaram  o carro com o asfalto molhado. Os resultados foram muito bons em termos de velocidade máxima e agarre em curva, mas o experimento teve complicações. Por isso, Patrick Head procurou resolver vários problemas mecânicos e encontrar soluções principalmente para aliviar o peso do carro.

No entanto, durante 1982, o projeto foi interrompido e teve de ser arquivado pelas  mudanças de regulamento, que entrariam em vigor no final da temporada de 82, com a qual eles foram proibidos o uso do efeito-solo e a motricidade aplicada nas  4 rodas; Um ano depois, as proibições se estenderam aos carros com mais de 4 rodas de forma explícita.

Duas décadas depois, ao final de 2003, em um jornal apareceu uma entrevista que foi feita a quem naquela época era Engenheiro de Projetos Especiais da Williams, Frank Dernie, que foi convidado para projetar um carro de F1 com tecnologia e conhecimento de então, mas usando um regulamento mais permeável e mais permissivo do que os vigentes naquele momento. O resultado foi um carro que introduziu seis rodas, com acentuada reminiscência ao modelo 1982.

Infelizmente, até que os regulamentos da F1 permitam, não veremos um carro de 6 rodas em um grid de largada. É assim que o Tyrrell P34, o único carro de 6 rodas que venceu uma corrida na F1, tornou-se um verdadeiro marco e representa um dos mais revolucionários e mais memoráveis ​​na história da categoria.

3 thoughts on “Experiências na Fórmula 1: os carros de 6 rodas

  1. Adrian

    parabéns pelo texto e que venham mais no futuro

    o mais bacana desse relato que você nos traz, é a possibilidade de lembrarmos que já houve uma época na Fórmula 1 ,onde além da emoção nós também tínhamos a expectativa em relação as inovações proporcionadas

    abraços

    Mário

  2. Belo texto!!

    A Tyrrell P34 sempre será lembrada com muito carinho.

    Hoje, numa F1 cada vez mais em crise, olha, conseguir alinhar carros de 4 rodas já esta de bom tamanho rsrs.

    A reportagem foi muito boa Fernando, e também notei a P34 bela e reluzente ao fundo.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Muito bom!!!
    Neste fim de semana a TV Globo homenageou o Emerson Fittipaldi no programa Esporte Espetacular pelo aniversário de 40 anos do bi campeonato em 1974. Entre os entrevistados estava o Jody Scheckter, que mostrou a sua coleção de carros particular e entre eles estava o P-34 belo e reluzente.
    O projeto do P-34 não decolou. Faltou dinheiro e talvez o projeto não teve como evoluir. Também teve o surgimento dos carros asa. Mas numa época em que a criatividade corria a solta na Formula 1 o conceito do carro de 6 rodas fez sucesso.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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