Amplitude de onda

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A maior parte dos atletas seria capaz de vencer, quando dispondo de condições ideais. As diferenças de qualidade tendem a ganhar destaque à medida que as condições pioram. A abrangência dessa janela de sucesso, tal qual a amplitude de uma onda, irá definir o que um esportista é capaz de alcançar.

 

Pelé, Maradona ou Messi? Jordan, Johnson ou Jabbar? Laver, Borg, Sampras ou Federer? Robinson, Ali ou Louis? Schumacher, Fangio, Clark ou Senna? Surtees, Agostini, Hailwood, Tormo, Spencer, Doohan, Vale ou Stoner?

Goste-se ou não, a análise por trás de cada evento esportivo de continuidade tem sempre por fundo essa busca por uma organização hierárquico-histórica que permita, em alguma medida, recontar a história do esporte através de seus personagens principais. Conscientemente ou não, comparações são feitas o tempo todo, e em diversas escalas.

Dentro dessa realidade, momentos banais e cotidianos oferecem, no máximo, informações sobre estilos e técnicas pessoais, além de um parâmetro de rendimento médio que poderíamos chamar de consistência, e que, no frigir dos ovos, talvez seja a característica mais importante de um esportista. Entre os analistas de plantão, muita gente séria realmente tenta – com argumentos certamente válidos – parar por aqui. Mas, claro, a vida de um atleta não é feita apenas de dias banais.

Felizmente existem os clássicos, os confrontos de exceção, as vitórias difíceis ou as atuações emblemáticas, que servem muito bem para posicionar competidores em relação a seus contemporâneos, tanto em valores absolutos, quanto em quesitos específicos. Tal boxer foi o mais ágil de seu tempo, tal piloto o mais rápido de sua era, tal tenista o mais completo de sua geração, e por aí vai.

E, por fim, existem os momentos extremos, da glória impensável, ou do momento em que a derrota se impõe, apesar de todo o talento e todo o esforço.

Talvez seja algo injusto, dada a pequena representatividade de tais momentos dentro da carreira dos melhores esportistas, mas a verdade é que no instante do veredicto, em que o senso comum vaticina o valor histórico de uma trajetória esportiva, estes recortes serão os de maior peso avaliativo.

A lógica por trás de tal procedimento é simples. Em teoria, a maior parte dos atletas seria capaz de vencer, quando dispondo de condições ideais ou favoráveis. As diferenças de qualidade, obviamente, tendem a ganhar destaque à medida que as condições pioram, e mesmo assim alguns indivíduos especiais continuam vencendo. A abrangência dessa janela de sucesso, tal qual a amplitude de uma onda, irá definir o que um esportista é capaz de alcançar – e o que não é capaz. Ou, falando de maneira mais direta, sob quais circunstâncias ele é capaz de vencer, e quais os contextos capazes de derrotá-lo.

Exemplos não faltam. Eduardo Correa, por exemplo, disse certa vez que não poderia incluir Stirling Moss entre os candidatos a melhor piloto de todos os tempos, pelo fato do inglês não ter vencido o campeonato mundial de pilotos uma única vez. Outros certamente lembrarão que ele foi largamente superado por Fangio quando ambos dividiram o ambiente da Mercedes em 1955, ao menos quando guiavam monopostos. E no fim dá no mesmo, pois ambos os argumentos se enquadram na condição de limitadores. Sob estas circunstâncias, Moss não venceu. Seus limites apareceram, e todos sabemos até onde ele era capaz de ir.

O mesmo poderia ser dito de Zico, por exemplo, ou da geração de 1982 de maneira mais ampla. Ninguém jamais questiona o valor ou o potencial daquela safra de jogadores, mas o fato de não terem vencido a Copa da Espanha sempre se revela um obstáculo incontornável no caminho de quem destina a eles um lugar mais elevado entre os gênios do esporte. “Faltou ganhar a Copa”, dirão eternamente. Diego Maradona, por outro lado, tem passaporte vitalício entre as lendas graças a tudo que fez no México, em 1986 – especialmente contra a odiada Inglaterra. Pouco importa se, na totalidade da carreira, Zico foi um jogador menos problemático e mais confiável.

É a amplitude da onda, companheiro.

Ocorre que, pela própria dinâmica dos confrontos, em alguns momentos especiais dois adversários cujos limites ainda não estão claros são lançados à mesma arena, e então a glória de um será a limitação do outro. Aconteceu com Alonso e Hamilton na McLaren; com Senna e Prost na mesma equipe; com Fangio e Moss na Mercedes; com Ali e Foreman no Zaire e por aí vai. Até mesmo em relação a categorias esportivas, em casos como a troca entre Michael Andretti e Nigel Mansell envolvendo F1 e Indy, em 1993, na qual restou a impressão de que os pilotos da primeira eram infinitamente melhores que os da segunda. E aqui eu chego ao ponto que me motivou a escrever este texto.

A MotoGP viveu um desses momentos no ano passado, através da dança das cadeiras envolvendo Valentino Rossi e Casey Stoner. E o que está acontecendo dialoga diretamente com o período entre 2002 e 2004, e os limitadores que se abateram de forma implacável sobre a carreira de Alexandre Barros.

Separador

O ano é 2002, e a motovelocidade vive um ano de transição. Na categoria máxima, as antigas e maravilhosas 500cc de dois tempos fazem sua temporada derradeira, dividindo as pistas com as novas 990cc de quatro tempos, mais velozes e pesadas.

Ao guidão da Honda oficial, uma 990, Valentino Rossi massacra a concorrência, vencendo 11 provas e sendo segundo nas restantes, exceto na República Tcheca, quando abandona. Das primeiras doze corridas ele vence nada menos que dez, garantindo o título com enorme antecipação. E é então que a Honda disponibiliza uma de suas 990 à equipe satélite de Sito Pons, ainda que numa versão ligeiramente desatualizada. Esta moto é destinada a Barros, enquanto seu companheiro, Loris Capirossi, continua com a NSR500. E os resultados mudam drasticamente, apesar da tremenda adaptação na pilotagem que se faz necessária.

De imediato Barros vence em Motegi, após uma corrida extremamente disputada. Na Malásia o brasileiro larga na pole e termina em terceiro, após uma disputa crua com Rossi (2º) e Biaggi, o vencedor naquele dia com a Yamaha. Na Austrália Barros briga novamente pela vitória, e só termina em segundo por conta de um erro ao ultrapassar Rossi um pouco além do limite, na última volta. E por fim, em Valência, o brasileiro volta a vencer com autoridade, terminando o ano extremamente bem cotado. Afinal, apesar do equipamento ligeiramente inferior, e da experiência mínima com aquela motocicleta tão diferente, ele havia marcado mais pontos que qualquer outro piloto na soma daquelas quatro corridas.

Acredite: muita gente, naquele momento, se perguntou se ali não estaria um talento tão grande quanto o de Rossi, sendo longamente desperdiçado em motos pouco competitivas. E havia razões para tal questionamento.

As atuações brilhantes valem a Alexandre um convite para liderar o time oficial da Yamaha no ano seguinte, abrindo a perspectiva de lutas consistentes por vitórias, e de uma parceria que poderia evoluir rumo a um título mundial no médio prazo. A realidade, no entanto, se revela desastrosa.

A moto pouco tinha a ver com o modelo que havia levado Biaggi ao vice-campeonato em 2002. Concebida em meio a diretrizes desesperadas, a máquina partia de concepções equivocadas já na disposição dos cilindros, contagiando quadro, suspensões e todo o resto. A transferência de potência era sutil como um tsunami, tornando-a não apenas lenta, mas também perigosa. Barros começa a cair, e passa a maior parte do ano lutando contra dores e problemas físicos. Ao fim da temporada o brasileiro é apenas o 9º no campeonato, tendo uma mísero 3º lugar como melhor resultado.

Apesar do fracasso, a Honda mantém sua fé em Alex, convidando-o a assumir o time oficial após a saída de Rossi, justamente rumo à Yamaha. Agora sim o céu parecia abrir para Barros, primeiro piloto do time que há anos dominava as competições, e sem a sombra de Rossi, condenado a uma moto sabidamente inguiável. E todos conhecem o fim da história…

Enquanto a Yamaha engoliu o orgulho para acolher todo um time técnico migrado da principal rival, dispondo-se a reconstruir a moto do zero, de acordo com as linhas ditadas por Rossi e Cia, a Honda tomou caminho oposto e levou a coisa para o lado pessoal. Construiu uma moto “anti-Rossi” extremamente radical, nascida com a missão de humilhar o ex-piloto, que havia tido a petulância de se julgar mais importante que o equipamento.

Resultado: Rossi comandou o campeonato já a partir da 1ª corrida, enquanto Barros foi apenas o 4º colocado, sem nenhuma vitória. Sete Gibernau, com uma Honda mais convencional, foi o vice-campeão, e poucos se lembraram de que Nick Hayden, futuro campeão mundial e então companheiro de Alexandre, tinha obtido resultados ainda muito piores que os do brasileiro. O estrago já estava feito: Rossi era um deus, e Barros era uma fraude.

Separador

Estamos agora em 2010 e, após derrotar por dois anos dentro da mesma equipe o jovem e talentosíssimo espanhol Jorge Lorenzo, Rossi sofre o acidente mais grave de sua carreira, e vê pela primeira vez um companheiro de equipe sagrar-se campeão mundial. Sem contar com o apoio de outros tempos, o italiano migra para a Ducati, onde há anos Casey Stoner – e apenas ele – vinha se mantendo competitivo a ponto de brigar constantemente por vitórias. O australiano, por sua vez, faz as malas rumo à Honda, que não vencia um mundial desde 2006… com Hayden!

E agora é a vez de Rossi amargar derrotas ao guidão de uma moto com a qual não se entende, enquanto Stoner emula o mesmo tipo de domínio que costumávamos ver quando era Rossi quem liderava a poderosa HRC. Ou, colocando em termos de limitações, Stoner mostrou ser capaz de fazer o que Rossi fazia, enquanto o italiano não fez, até agora, o que Casey sempre fez.

O mundo dá voltas, não?

Claro que nada disso significa que Stoner seja mais piloto que Rossi, ou que Alex esteja no mesmo patamar destes dois. No entanto, me parece que essa parábola serve bem para levantar alguns questionamentos acerca da maneira empolgada e talvez distorcida pela qual temos avaliado esportistas ao longo de todos estes anos.

E sim, talvez o mundo da motovelocidade deva algumas considerações a Alexandre Barros.

httpv://www.youtube.com/watch?v=RSsxOQ2Dq_U

Meu forte abraço a todos.

Márcio Madeira

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

14 Comments

  1. Julio Cesar Rosendo disse:

    Olá Márcio!
    Parabéns pela matéria e pelo texto. Muito boa argumentação e avaliação dos fatos de bastidores e de pista que fazem o esporte a motor, em 2 e 4 rodas.
    Tenho apenas 1 detalhe para acrescentar que serviu para mostrar que o nosso Alex Barros não era uma fraude:
    Logo na prova de abertura do mundial de 2005 em Estoril, o brasileiro bateu Rossi (então defendendo o título pela Yamaha) e Biaggi (contratado para seu lugar na Honda oficial HRC) de volta ao time Honda Pons (de 2002) e com uma moto menos evoluída, contudo, com um pneu que ele desenvolveu com a Michelin nos testes de inverno e, o qual, o HRC proibiu que a fábrica francesa fornecesse para ele novamente, irritada por ele não ter vencido 1 prova sequer em 2004 na Honda oficial e feito isso na 1ª prova de 2005 numa Honda satélite. E ele foi boicotado o resto de 2005, indo para o SBK em 2006.
    E ele seria novamente boicotado pela Ducati em 2007, depois de “roubar” um 3º lugar na prova de Mugello (Casa da Ducati) do então primeiro piloto da Ducati Corse, Casey Stoner. O australiano reclamou e o time oficial da Ducati boicotou motores pro time satelite Pramac Ducati D’Antin no resto da temporada.
    Um abraço!

  2. Fernando Marques disse:

    Eu tenho uma moto … sempre adorei andar de moto … tenho carteira desde os meus 19 anos … mas fazer o que estes caras fazem nas pistas com motos é coisa de maluco … ali só tem fera …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Fernando Marques disse:

      Hoje tenho 51 anos pra quem não sabe

      Fernando Marques
      Niterói

    • Concordo, Fernando! Só para estar ali, já tem que ser bom demais. Manter-se por tantos anos então…
      Aproveito para dividir com os amigos o comentário do próprio Alex sobre o texto, via twitter: “A matéria tá 10, parabéns!”
      Sempre um alívio receber esse tipo de aval.
      Abraços!

  3. Willian disse:

    Messi, Jordan, Federer, Ali, Senna, Hailwood

  4. Mauro Santana disse:

    O Barros fez uma primeira volta estilo Senna em 93.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Verdade Mauro. Coisa linda de se ver, e vale o registro: o próprio Michael Doohan o considerava o melhor freador de todo o circuito.
      Sobre possíveis sucessores, é difícil dizer. Se em nosso país já é difícil viver do automobilismo, imagine do motociclismo. Não existe nada parecido com uma estrutura preparatória, com campeonatos sólidos e apoio financeiro. Talento, com certeza tem, mas quase todos se perdem no caminho.
      Roberto Pupo Moreno mesmo, e pouca gente sabe disso, se considera um piloto muito melhor nas motos do que foi nos carros – e olha que ele foi muito bom. O mesmo poderia ser dito do Antônio Jorge Neto, por exemplo.
      Talvez nosso principal nome na atualidade seja o Eric Granado, mas sempre dependendo de um forte apoio familiar, uma vez que o suporte, como eu disse, inexiste.
      Aquele abraço, e um ótimo fim de semana.

  5. Moy disse:

    Análise nota 10 !!!
    Parabéns!

  6. Mauro Santana disse:

    Belo texto Marcio!

    Hoje, na categoria de motovelocidade, temos algum brasileiro que possa futuramente dar continuidade ao legado que Barros deixou em aberto?

    Abraço a todos!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  7. Baita time! E ótimo texto!

  8. Edu disse:

    Pelé, Johnson, Borg, Ali, Clark, Hailwood.

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