O céu de Monza

Colunas inesquecíveis: o 1º brasileiro nas 24 Horas de Le Mans
22/04/2026

É dia de GP em Monza!

Acima do autódromo paira uma enorme nuvem branca. Dentro dela habitam seres invisíveis, que observam com muito interesse o que ocorre nesse templo da velocidade. E conversam entre si.

 

Mauro Forghieri: Mas como são feios esses carros!

Enzo (foto acima): É, eu costumava dizer que carro bonito é o que vence corridas, mas tenho que admitir que esses regulamentos recentes resultam em soluções muito semelhantes, deixando pouco espaço para a criatividade, para experiências radicais. Ficaram horríveis mesmo.

Mauro: Imagina alguém tentar algo como as nossas T… Impossível.

Enzo: E os motores? Se estivesse vivo compraria briga com a FIA. Já chega ter tido que aguentar aqueles motores de litro e meio aspirados…

 

Mauro (foto abaixo, com o pé sobre o pneu): Que saudade dos nossos 12 cilindros!

Enzo: Nem me fale! Aqui não preciso esconder meu orgulho… para mim eram mais que um órgão de catedral secular… eram sinfônicas completas, cada um tinha sua harmonia particular…

Tazio Nuvolari (foto abaixo): Como eu gostaria de ter podido pilotar algum carro com esses motores. Só pude me satisfazer com as Auto Union do Dr. Porsche.

Tem uma outra nuvem perto. Dela alguém fala:

 

Você se lembra, Tazio, 16 cilindros em V, 600 HP, colocados entre-eixos atrás do piloto…

Tazio: Claro que lembro, Dr. Porsche, eram carros espetaculares, fomos mesmo precursores. Difíceis de entender para a gente, que vinha de carros com motor dianteiro. Só o Bernd para tirar o máximo deles.

Bernd Rosemeyer: Tive a sorte de ir das motos direto para esse foguete e como não tinha referência…

Rudi Caracciola (foto abaixo): Você me deu muito trabalho mesmo. Foi campeão com muito mérito. Teria adorado duelar com você no ano seguinte.

Mauro: E o que você acha dessa fórmula com motores elétricos, Ferdinand?

Ferdinand Porsche: Equivocada! E olha que o primeiro motor que desenvolvi era elétrico…

Achille Varzi (foto abaixo): Imagine, ter que tirar o pé para recarregar a bateria… Uma coisa é você administrar o equipamento para terminar a corrida, outra é ter que andar devagar por causa do regulamento! Eu sempre corri tratando de controlar o ritmo para chegar ao final com o carro inteiro, mas isso é ridículo, totalmente incoerente com uma competição, ainda mais de alto nível.

Tazio: O público fica confuso, o duelo é pra valer ou o que ficou para trás está apenas tendo que recarregar a bateria? Onde está o mérito? O talento? A determinação?

Rudi: E esse mecanismo de ultrapassagem? Que coisa mais artificial!

Bernd (foto acima): Horrível! A gente tinha que se empenhar a fundo para encontrar um jeito de passar, às vezes ficava nessa luta quase a corrida toda e eles só têm que acionar um mecanismo e pronto.

Varzi: Imagina isso naquele duelo que tivemos em Mônaco, hein, Tazio?

Tazio: O mecanismo iria pifar antes dos nossos motores, tantas as vezes que trocamos de lugar… E em Mônaco, onde sempre foi difícil ultrapassar!

Alfred Neubauer: A geração atual acha praticamente impossível passar lá. Tenho a impressão de que isso leva esses pilotos a desenvolverem um tipo de técnica que não é mais o automobilismo puro, o que nós praticamos.

Enzo: Também acho, Alfred. O que eu temia parece estar acontecendo, estão transformando o automobilismo de alta complexidade em um espetáculo, ao invés de uma competição real, em que todo mundo está disposto a encontrar soluções inesperadas, o tempo todo, colocando paixão em todos os momentos. Será que é isso que o público quer? Uma competição artificial? Não seria melhor explicar mais profundamente o valor de cada momento de superação do que deixar predominar emoções superficiais?

Varzi: Rudi, você também era um piloto que administrava bem o ritmo, você se destacava pela suavidade. Creio que nós éramos os pilotos mais frios, mais cerebrais da nossa época. O que você acha?

Rudi: Nós cuidávamos do equipamento, mas quando era hora de atacar nós dávamos tudo e mais um pouco. Fosse o Tazio, o Bernd, o Chiron, o Borzacchini, o von Brauchitsch… Nós nos enfrentávamos sem descanso. E sempre com lealdade. Nós sabíamos dos riscos. Tivemos duelos extraordinários, todos nós, e o público se entusiasmava.

Bernd: Fico com a impressão de que essa turma de pilotos tem que aprender muito mais coisas do que simplesmente guiar. Tem que decorar e treinar todas aquelas funções que aparecem no volante. Não há um excesso de tecnologia que não tem a ver com a pilotagem pura?

Rudi: Fico na dúvida se iriam encarar aquele vento que você enfrentou com a Auto Union carenada para bater o meu recorde de velocidade…

Bernd: É, você me avisou. Mas era um enorme desafio e eu nunca iria fugir dele. Mesmo com uma esposa e um bebê me esperando em casa.

Alfred: Vejo a Mercedes e a Ferrari se empenhando para manter suas tradições, seu espírito de competição, na busca incessante por tecnologia vencedora, mas também vejo a maioria dos pilotos detestando as novas regras. Me parece claro que esses valores poderiam ser melhor canalizados.

Enzo: Entendo que se queira reaproveitar a energia gerada pelos motores a combustão, mas desde que não torne a corrida artificial. Do jeito que está, é um desrespeito a nós e a todos que dedicaram suas vidas a um automobilismo puro e verdadeiro.

Ninguém diz mais nada. Alguns se entreolham, outros abaixam a cabeça ou olham para o céu. Talvez estejam lembrando dos colegas que perderam suas vidas nas pistas, tentando superar  seus limites, sem artifícios.

Convido a quem segue o GPTotal para manifestar sua opinião sobre o novo regulamento, a partir da visão dos pioneiros aqui mencionados.

Pode usar os mesmos argumentos ou agregar outros. Não há limite para nuvens nesse céu. Para quem acha que Adrian Newey é o maior projetista de todos os tempos, sugiro ler a coluna do Edu Correa a respeito de Mauro Forghieri.

Para quem não está familiarizado com as colunas cobrindo as corridas pré-2a. Guerra, chamadas genericamente de Grand Prix, esclareço:

 

  • Ferdinand Porsche foi o principal nome técnico da Auto Union, que rivalizou com a Mercedes nos últimos campeonatos antes do conflito.
  • Alfred Neubauer era o chefe da equipe Mercedes nessa época e no pós-guerra.
  • Rudolf Caracciola era o principal piloto dessa equipe no pré-guerra e
  • Bernd Rosemeyer o da Auto Union (hoje chamada Audi – sigla para Auto Union Deutsche Industrie).
  • Tazio Nuvolari e Achille Varzi eram rivais e amigos, competiram por Alfa, Bugatti e Auto Union, com atuações lendárias.

Abraços

Carlos Chiesa

 

 

 

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

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