Visitando as raízes 3/5

Visitando as raízes 2/5
26/01/2026

Depois de nossas primeiras visitas às raizes, começa a temporada 64. Começa com provas extracampeonato, que não valiam pontos mas serviam como testes reais, além de atrair público. Naquela época sem patrocínio, os prêmios eram grande fonte de renda para as equipes.

Indy Jones: Outros tempos. Todo mundo queria correr e o público queria ver corridas.

Em 14 de março o circo todo, exceto Ferrari, foi a Snetterton para o IIº Daily Mirror Trophy.

Estavam previstas 50 voltas mas devido a condições atrozes de clima, que incluía neve, acabaram sendo 35.

Jim Clark fez a pole. O vencedor foi o britânico Innes Ireland, com BRP-BRM. Jim Clark e Jack Brabham sofreram com carros equipados com rodas menores e abandonaram por problemas mecânicos.

Graham Hill aquaplanou quando liderava, na volta 6, e foi parar em um barranco. O britânico Peter Arundell, com Lotus, assumiu a liderança até ter problemas com sua caixa de caâmbio na volta 22, mas antes fazendo a volta mais rápida.

O sueco Jo Bonnier (Cooper-Climax T66 da Rob Walker) assumiu mas Ireland o ultrapassou na volta 26 e se manteve aí até a bandeirada.

Bruce McLaren, com Cooper-Climax (Cooper Car Company) foi terceiro, Phill Hill (BRM da Scuderia Centro Sud) quarto, Chris Amon (Lotus-BRM da Reg Parnell), o britânico Jackie Epstein (BRM da Epstein-Eyre Racing Team) sexto e o belga Andre Pillette (Scirocco-Climax da Equipe Scirocco Belge) fechou a raia, porque apenas estes sete passaram pela quadriculada.

Em 30 de março foi a vez de Goodwood receber a turma, para o 1º News of the World Trophy (anteriormente chamado de Glover Trophy ou Richmond Trophy). Jack Brabham fez a pole.

Jim Clark (Lotus 25) foi o vencedor, mas Graham Hill liderou por 40 voltas até quebrar, e a corrida terminou duas voltas depois. Graham marcou a melhor volta, como consolação.

Peter Arundell foi o segundo, o britânico Trevor Taylor, com a Lotus-Climax da BRP terceiro, Richard Attwood (britânico) com a outra BRM quarto, Mike Hailwood (Lotus-BRM da Reg Parnell) quinto e Andre Pillette sexto.

O XIIIº GP de Siracusa, na cidade do mesmo nome na Sicília, teve lugar no dia 12 de abril. Estavam previstas 56 voltas mas acabaram encerrando com 40, a pedido de Jo Bonnier, representante da GPDA (Grand Prix Drivers Association), devido à forte chuva.

Talvez tenha sido mesmo uma boa ideia, já que nos treinos Jo Siffert se machucou ao capotar sua Lotus 24 (equipe própria).

A pole foi obtida por Lorenzo Bandini, mesmo com a Ferrari V6 e sua boa forma foi confirmada na corrida, com a volta mais rápida.

John Surtees, a bordo da Ferrari 158 de oito cilindros venceu com facilidade, seguido por Bandini.

A Lotus levou carros para Peter Arundell e Mike Spence, também britânico. O carro de Arundell teve problemas de cambio. Ele parou e trocou com o team mate, voltando a tempo de travar boa briga com Bandini, e terminar em terceiro. O regulamento permitia.

Spence abandonou logo após pegar o carro avariado de Arundell.

Jo Bonnier foi o 4º e Chris Amon o 5º.

Em sexto veio o americano Masten Gregory, com a BRM da Scuderia Centro Sud.

Indy Jones: Décimo-terceiro GP de Siracusa. Significa que era uma prova tradicional, que permitia aos sicilianos tomarem contato direto com a F1. Agora só pela TV.

No dia 18 do mesmo mês o circo, sem a Ferrari, se reuniu no circuito de Aintree, Inglaterra. Graham Hill fez a pole com a BRM.

Jack Brabham foi o vencedor, com sua Brabham BT7, depois de duelar com Jim Clark. Este tomou uma fechada de Andre Pillette e bateu no guard-rail na volta 47, se machucando.

Antes disso deixou seu cartão de visita, marcando a volta mais rápida. Hill chegou em segundo, Peter Arundell terceiro, Jo Bonnier quarto, o britânico John Taylor com uma Lotus Ford da Gerard Racing em quinto.

O regulamento dessa corrida permitia a inclusão de carros de F2 e Mike Spence foi o vencedor dessa categoria com Lotus Cosworth, chegando em sexto na geral.

Pelo caminho foi ficando gente como Phill Hill, Bruce McLaren, Dan Gurney, Denny Hulme, Chris Amon, Mike Hailwood, Innes Ireland.

Em 2 de Maio ocorreu o Daily Express International Trophy Race em Silverstone. Dan Gurney faz a pole.

Novamente Jack Brabham vence, fazendo inclusive a volta mais rápida, desta vez com apenas meio carro à frente de Graham Hill. Os dois brigaram pela ponta até o fim e o australiano se impôs somente na última volta.

Jim Clark não participou, ainda machucado, e John Surtees parou com um problema na bomba de gasolina.

Peter Arundell fez as honras da equipe Lotus, em terceiro, Phill Hill as da Cooper em quarto, Chris Amon e Mike Hailwood, ambos da Reg Parnell chegaram a seguir. Nesta corrida aparece o Porsche 718, da Ecurie Maarsbergen, pilotado pelo holandês Carel Godin de Beaufort. Carro já antigo, larga em 22º e chega em 13º.

Em 10 de maio o campeonato começa efetivamente, com sua mais tradicional prova: Mônaco. Jim (Lotus-Climax 25) fez a pole, seguido por Brabham (Brabham-Climax BT7), Surtees (158), Graham (foto acima, com BRM P261), Arundell (Lotus 25), Gurney (BT7), Ginther (BRM P261) e Bandini (156). Innes Ireland tinha machucado um joelho em um acidente a caminho de Monaco e bateu nos treinos, por isso não pode alinhar.

Jim manteve a ponta na largada, sendo seguido por Brabham, Graham, Gurney, Surtees e Ginther. Gurney conseguiu ultrapassar Hill pouco depois enquanto Surtees e Brabham perdiam posições, com problemas de cambio e motor, respectivamente. John abandonou na volta 14 e Jack na 29. A Lotus de Clark teve uma barra anti-roll solta e sendo arrastada ainda no estágio inicial da corrida e, para evitar a bandeira preta, Colin resolveu chamar seu piloto aos pits. Jim volta ainda em terceiro, atrás de Gurney e Graham. O carro do americano apresenta um vazamento de combustível, Graham se aproxima, Clark também. Os três correm embolados por um bom tempo até que na volta 53 Hill consegue dar um bote certeiro e assumir a ponta. Gurney ia se mantendo em segundo até que na volta 62 é obrigado a abandonar por problemas de cambio. O motor de Clark começa a falhar nas voltas finais e assim a BRM faz 1-2, com Ginther em segundo e Arundell em terceiro. Jo Bonnier foi o quarto, Mike The Bike Hailwood chegou atrás de Clark, que ainda conseguiu um quinto.

Graham estabeleceu o recorde da volta, com média de 120,575 km/h, que deve ter sido uma enormidade, pois seu colega Ginther chegou uma volta atrás.

Indy Jones: Reparou quantas corridas tiveram duelos acirrados pela ponta? E com carros de diferentes equipes?

Curiosidades: Phill Hill agora corria pela Cooper, com o modelo T73, ao lado de McLaren, com o modelo T66. O ano começou mal para a Cooper e para a Ferrari. Estas estavam entre os 4 carros que abandonaram com problemas de cambio, preço cobrado habitualmente por Mônaco naqueles tempos sem automatismos.

O veteraníssimo Maurice Trintignant, 46 anos, abandonou por exaustão na volta 53 (Graham percorreu 100).

Menos de duas semanas depois da vitória de Hill no Principado, o circo desembarca em Zandvoort, na Holanda, para a segunda prova oficial do ano.

Desfalcada dos BRP, devido à falta de peças. Como compensação Rob Walker inscreveu um Brabham para Jo Bonnier e o holandês Carel Godin de Beaufort o seu velho Porsche 718 pintado de laranja, completando um grid de 17 carros.

Na classificação Dan Gurney mostra seu talento dando à equipe Brabham a primeira pole de sua história. A seu lado irão alinhar Jim Clark e Graham Hill.

Indy Jones: lembre-se que naquela época as filas era compostas por três carros, a segunda por dois, a terceira três e assim por diante.

Na segunda fila largariam John Surtees e Bruce McLaren (Cooper-Climax), na terceira fila o segundo Lotus de Peter Arundell, o segundo Brabham de Jack Brabham e o segundo BRM de  Richie Ginther. Fechando o “top ten” estavam o segundo Cooper-Climax de Phil Hill e o segundo Ferrari de Lorenzo Bandini.

O sul-africano Tony Maggs capotou com seu BRM da Scuderia Centro Sud nos treinos. Apesar de ter saído ileso, seu carro não pode ser recuperado a tempo e assim não alinhou.

Na largada Clark (foto acima) leva a melhor sobre Hill e Gurney, com Arundell em quarto, se mostrando bom de largada, Surtees em quinto. Big John se encarrega da geração de emoções e vai passando seus adversários até chegar à segunda posição na volta 22. Nessa altura, Jim Clark estava completamente fora do alcance e John não tem mais nada a fazer do que consolidar essa posição.

Gurney tem o volante do seu Brabham quebrado e abandona, entregando o terceiro lugar a Graham, que tratava de se defender dos ataques de Arundell.

Na metade da prova, o motor do BRM começa a falhar e ele gradualmente perde contato com os lideres até finalmente ceder o terceiro lugar na volta 47 para o segundo piloto da Lotus.

Com Jim e John consolidados na primeira e segunda posição Peter Arundell consegue seu primeiro pódio, logo na sua terceira corrida oficial na Formula 1, mostrando que o faro de Chapman para descobrir novos talentos está em forma.

A diferença de Clark para Surtees foi de quase um minuto e sobre Peter uma volta.

Um exemplo icônico de como sua tática de andar o mais rápido possível no início, abrindo distância confortável dos colegas, para depois fazer uma corrida de regularidade, velocidade de cruzeiro, era eficaz. Nos restantes lugares ficaram Graham, o jovem neozelandês Chris Amon, obtendo os primeiros pontos da sua carreira, e Bob Anderson, num Brabham particular.

McLaren e Phill Hill chegam fora da zona de pontos, que na época ia até o sexto lugar. Compreensível, em um grid de 17 carros, com quebras frequentes.

Jack Brabham e Bandini abandonaram, ambos com problemas de ignição.

Pouco menos de 20 dias depois é a vez de Spa-Francorchamps.

A BRP reaparece com seus dois carros, para Innes Ireland e Trevor Taylor. O piloto local Andre Pillette foi inscrito com um Scirocco-Climax.

Novamente Gurney faz a pole, seguido por Graham e o chefe Jack B.

Na segunda fila o surpreendente Peter Arundell  e John. Na terceira, Jim, McLaren e Ginther. A seguir vinham Bandini e Peter Revson, causando boa impressão com a Lotus-BRM da Parnell.

A Lotus levou o modelo 33, uma evolução do 25, especialmente em termos de suspensão e eixos, reprojetados para calçar novos pneus, agora mais largos, para estrear. Esse carro tinha sido reconstruído após o acidente de Aintree mas não desempenhou como se esperava e Clark teve que correr com o 25.

Peter Arundell mais uma vez larga esplendidamente e toma a liderança, mas no final da primeira volta Clark, Gurney (foto acima) e Surtees já estão na sua frente. Na segunda volta, o inglês da Ferrari leva a melhor sobre o americano da Brabham, e Graham Hill também encontra o caminho para deslocar Arundell do quarto lugar. Essa interessante batalha no pelotão dianteiro infelizmente dura pouco, porque Surtees começa a ter problemas de motor e vai ficando para trás. Gurney assume a liderança, seguido por Clark e Hill, com Bruce McLaren, no seu Cooper, em quarto lugar, à frente de Arundell e Jack Brabham.

Dan vai ampliando a distância para Jim, este para Graham e este para Bruce. Aparentemente tudo tranquilo, até que fantasmas começam a aparecer.

Faltando 4 voltas, Clark é obrigado a parar nos boxes para se abastecer de água, por risco de superaquecimento. Gurney é obrigado a parar nos boxes para abastecer de combustível, por risco de pane seca.

Graham Hill e McLaren assumem primeiro e segundo lugares.

Mas a Brabham não está preparada para por combustível e Gurney parte de novo, sem alternativa. Melhor arriscar a pane seca do que ficar parado. Na volta 31 Hill continuava liderando mas com problemas na bomba de combustível. Logo a seguir vinha McLaren, mas seu motor também não funcionava bem. Mas nessa volta final, que só um roteirista de cinema talentoso poderia imaginar, tudo acontece: Gurney passa McLaren mas em seguida acaba a gasolina do seu Brabham e ele pára. Graham assume a ponta mas logo em seguida a bomba de combustível entrega os pontos. Bruce herda a liderança mas, com o motor funcionando mal, Clark vai se aproximando rapidamente.

Pouco antes da La Source o motor de McLaren finalmente falece. Ele consegue contornar o grampo e passa a se arrastar até à meta. Jim vem com tudo que tem direito. O escocês consegue passar o neozelandês nos últimos metros.

Jack fecha o pódio. Em quarto chega Ginther. Graham e Gurney pontuam a seguir, mesmo abandonando.

Detalhe: Clark fica sem combustível na volta de desaceleração.

Peter Arundell cumpre apenas 28 voltas.

As duas Ferrari ficaram pelo caminho com problemas de motor, assim como Phill Hill, com a outra Cooper-Climax.

Indy: Alguém aí disse que o único piloto que Jim Clark temia era Dan Gurney?

O GP seguinte é o da França, dia 28 de junho, voltando a Rouen Les Essarts.

Nesse momento a batalha pela liderança era claramente entre Jim e Dan.

Desta vez foi o escocês quem obteve a pole, com o americano em seguida. Fechando a fila dianteira, John. Na segunda Arundell e Jack.

As BRM não mantiveram o pique na classificação e Graham iniciou a terceira fila, secundado por Bruce e Lorenzo.

Como não houve treino no sábado, Mike Hailwood pode se ausentar para correr (e vencer) o Dutch TT em Assen, mostrando sua maestria sobre duas rodas.

Até aí ótimo, mas uma greve de aeronautas nessa noite impediu que ele pudesse voltar de avião. A solução foi guiar a noite toda, o que obviamente não é o ideal.

Jim largou na frente, com Dan e John em seus escapamentos.

McLaren se encarregou de criar emoção na plateia rodando na primeira volta, no fundo do grid. Na terceira volta John voltou a ter problemas em sua Ferrari, desta vez um duto de óleo rachado. Graham rodou e assim a briga na frente ficou entre Jim e Dan, com o chefe Brabham passando para um distante terceiro posto.

Graham se recuperou da rodada e assumiu a 4a. posição na volta 24. Na volta 31 o motor de Jim o deixa a mão. Brabham continua longe e agora está na alça de mira de Graham, que o passa na volta 37. Jack não se dá por vencido e combate até a volta final, cruzando a linha a menos de 1 segundo do britânico. Na época uma diferença minúscula.

Não teria grandes motivos para reclamar: Gurney (foto que abre esta coluna) tinha obtido a primeira vitória para a escuderia que levava seu nome.

Peter Arundell em quarto, Ginther e McLaren fecham a zona de pontuação.

A seguir vieram Phill Hill, Hailwood, Bandini e Amon.

John tinha parado cedo, portanto as Ferrari estavam devendo.

Indy: Diante desse resultado, nada mais lógico apostar que o campeão estaria entre Jim e Dan, certo?

Seguimos amanhã

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

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