É o lobo! É o lobo!

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LAT

Mais um começo de temporada chegou! Em um momento de isolamento e desesperança com o futuro brasileiro, a volta das corridas ao vivo é um alento para a distração da mente. Temos um ano de transição para o regulamento de 2022 com seus novos carros e muitas novidades dentro das pistas e nas regras.

Sempre às vésperas de um campeonato fica a expectativa de quem vai quebrar a hegemonia do conjunto dominante, será que 2021 vai nos apresentar algo diferente nesse sentido?

Durante anos (da era hibrida) todos os testes de pré-temporada contavam uma história de equilíbrio. Quando surgiu a era dominante da Mercedes, nos testes subsequentes a mais um domínio avassalador do time tedesco, uma história de um novo favorito surgia.

Desde de 2014, assistimos um mesmo enredo fabuloso: muitos candidatos a destronar o rei, muito alarde e o mesmo resultado de sempre. Todos os campeonatos nas mãos de um único time.

Há um momento da vida de um fã da Fórmula 1 que ele passa a não acreditar mais nas promessas feitas aos microfones e passa somente a acreditar nas imagens do pódio de domingo de um final de semana de Grande Prêmio. Esse momento chega em épocas diferentes, com grande variação de pessoa para pessoa. Nesse tempos líquidos, é complexo definir quantos títulos seguidos um time precisa vencer para ser considerado favorito no ano seguinte.

A maior novidade em terras brasileiras é a mudança da transmissão televisiva. Depois de décadas, a F1 deixa a manhã de domingo na Globo para ser recebida como carro chefe do automobilismo da Bandeirantes.

Sem maldade, sinto muito pela era “Galvão Bueno” ter terminado dessa forma: sem despedida, uma última bandeirada, enclausurado em um mundo pandêmico. Por mais que sua condução tenha sido polêmica e polarizadora de opiniões na história mais recente, nenhum ser humano, profissional tão dedicado (e apaixonado) quanto ele, merece um corte tão abrupto do papel que desempenhou por tantos anos.

Há a promessa de termos mais reportagens, o pódio ser transmitido em sua totalidade na televisão aberta e um tratamento mais carinhoso com o “produto F1”. A equipe é boa, se tiver espaço na programação, certamente fará um bom trabalho.

Além disso, a Band chega também como a voz “em português” do F1TV. Finalmente o serviço de transmissão oficial está disponível no Brasil. Em primeira vista, de cara podemos encontrar todas as sessões de treino ao vivo. Ainda com conteúdo em inglês, uma infinidade de horas de bom material. É um bom ganho para fã da F1, por um custo similar a inclusão da BandSPORTS nos pacotes básicos de tv por assinatura.

Já que tudo é novo, abaixo a programação desse fim de semana:

Sexta-feira (26), 8h30 – 1º Treino livre – BandSports
Sexta-feira (26), 12h – 2º Treino livre – BandSports
Sábado (27), 9h – 3º Treino livre – BandSports
Sábado (27), 12h – Treino classificatório – Band
Domingo (28), 12h – Corrida – Band

Apesar de poucas mudanças técnicas, elas são sensíveis para 2021. A maior dela, obviamente, é o tão falado recorte do assoalho do carro. Aparentemente simples, abriu uma oportunidade de reformulação de conceito para vários times. Junte a isso uma nova estrutura de pneus com mais durabilidade e maior peso. Esses fatores já alteram sensivelmente os conjuntos mais bem ajustados da temporada de 2020.

Durante os testes (ridiculamente minúsculos em duração esse ano) a Mercedes se apresentou mais instável que a concorrência. Possivelmente questão de acerto, que o time mais eficiente da história recente da F1 vai corrigir.

Contando com essas mudanças na traseira dos carros, a Honda, em seu último ano, tomou uma decisão ousada: não apostar em uma grande evolução do motor em 2020 e investir na antecipação para 2021 do motor planejado para 2022. Além do fato obvio de não desperdiçar o projeto (vendido para Red Bull), a fábrica japonesa acreditava que seria melhor avaliar um novo motor com um chassi da RBR que não nasceria do zero em 2021. Essa decisão veio tarde, mas é a grande esperança do time austríaco. É falado que eles voltaram para política “Size Zero” do início da parceria com a McLaren. Dessa vez, como visto nos testes, sem problemas de confiabilidade críticos e dando pra RBR uma grande chance de desenvolver melhor a aerodinâmica do assoalho do carro.

A Honda, como na sua saída anterior da F1, pode deixar como legado, do seu grandioso investimento feito durante esses anos todos, as bases de mais um time campeão e hegemônico.

Com duas provas no começo do ano confirmadas, o calendário ficou assim:

28 de março: Bahrain (Sakhir)
18 de abril: Itália (Imola)
2 de maio: Portugal (Portimão)
9 de maio: Espanha (Barcelona)
23 de maio: Mônaco (Monte Carlo)
6 de junho: Azerbaijão (Baku)
13 de junho: Canadá (Montreal)
27 de junho: França (Paul Ricard)
4 de julho: Áustria (Red Bull Ring)
18 de julho: Inglaterra (Silverstone)
1 de agosto: Hungria (Budapeste)
29 de agosto: Bélgica (Spa-Francorchamps)
5 de setembro: Holanda (Zandvoort)
12 de setembro: Itália (Monza)
26 de setembro: Rússia (Sochi)
3 de outubro: Cingapura (Marina Bay)
10 de outubro: Japão (Suzuka)
24 de outubro: EUA (Austin)
31 de outubro: México (Cidade do México)
7 de novembro: Brasil (Interlagos)
21 de novembro: Austrália (Melbourne)
5 de dezembro: Arábia Saudita (Jedá)
12 de dezembro: Abu Dhabi (Yas Marina)

Se nos carros, poucas mudanças, já nos demais regulamentos temos mudanças importantes.

A primeira é estapafúrdia ideia de corridas de classificação. Não F1. Heróis foram construídos em voltas lançadas. Perdão Galvão (ou seria perdão leitores?), mas vou lhe citar. “No limite extremo!”. F1 um sempre foi busca do limite tecnológico, limite de pilotagem, limite do desafio. Do que vale uma corrida pra determinar a pole-position de um Grande Prêmio? Fecha logo o campeonato e faz as 24 Horas de Mônaco.

Na sequência temos algumas regras interessantes. Limite de custos é fundamental para atrair mais interessados em competir no Mundial com alguma chance de ser rentável. Não vamos nos enganar, a regra era mais do que necessária para manter os times atuais vivos. Haas, Williams, Aston Martin e Alfa Romeo dificilmente seguiriam para 2022 sem esse acordo. Há o pano de fundo de dar mais chance dos pequenos competirem com os gigantes, é uma aposta para se observar.

Exatamente nesse ponto de diminuir as distâncias entre times que surge uma regra mais interessante. A F1 resolveu limitar o tempo de testes e simulações aerodinâmicas em túnel de vento. Quem chega na frente no campeonato perde tempo. Quem chega em último, ganha mais tempo. Em 2021, a diferença de tempo com o túnel de vento ligado entre Williams e Mercedes será de 22,5% a favor da Williams (com as demais equipes espalhadas de forma equidistante nesse intervalo). Já em 2022, a distância entre o primeiro e último será ampliada para 45%. Uma questão importante fica no ar: teremos times abrindo mão de resultados em pista na última etapa do ano pra conseguir alguma vantagem percentual para o ano seguinte?

No desértico Bahrein (e apesar de ser no Bahrein), teremos a chance de ver mais um início de temporada cheio de tramas paralelas além da disputa do título.

O primeiro parâmetro será a classificação. Faz poucos meses que Hamilton desfilou num sábado qualquer e aplicou 0.289s em seu companheiro de equipe e 0.0414 no primeiro não Mercedes que aparecia na fila. Uma derrota da Mercedes aqui é o fim do domínio anunciado? Ainda não. É uma pista que o time alemão não é tão dominante assim nos últimos anos.

Olhando mais adiante, temos as reinvenção dos campeões mundiais. Como Alonso e Vettel se sairão nesse ano de ressurgimento? Vettel tenta mostrar que é o líder veloz e cirúrgico, merecedor dos 4 títulos mundiais que tem no bolso. Alonso, com só duas taças, tenta provar para todo seu ego que é o melhor piloto de qualquer coisa sobre rodas na face da Terra. Mesmo saindo por uns aninhos pra andar nas coisas mais divertidas do planeta, tem tudo para mostrar sua classe numa equipe que até 2021 brincou com um volumoso orçamento e onde ele se sente bem.

Junto com esses dois campeões temos as novas duplas de pilotos em diversas equipes. Perez fará frente ao badalado Max? Como será a estreia do filho de Schumacher (além de emocionante) ao lado de um russo inconsequente? Ricciardo e Norris vão confirmar a potência que a Mclaren têm prometida no papel? Sainz (faz tanto tempo que anunciaram que seria piloto Ferrari que se esquece que ele ainda não estreou pelo time) será escudeiro de Leclerc ou vem pra briga para arranhar o brilho do Monegasco? Será que o jovem Tsunoda pode ser o próximo piloto da Red Bull? São perguntas para serem respondidas ao longo das 23 corridas desse ano, será incrível acompanhar cada uma delas.

Por último, mas igualmente divertido, será o pelotão intermediário. Com a queda da Ferrari em 2020 e com a perspectiva de carros mais próximos em 2021, é bem capaz de termos 3 blocos esse ano: 1. Mercedes e Red Bull; 2. Renault, McLaren, Alpha Tauri, Aston Martin, Ferrari, Alfa Romeo e Williams; e 3. Haas. Será divertidíssimo e vai variar de pista para pista. Não será fácil imaginar quem vai render melhor em cada circuito!

Mais uma pitada de emoção. Os carros podem trazer muito de 2020 para 2021, são evoluções. Mas o carros de 2020 não disputaram provas em 11 circuitos do calendário de 2021.

E essa temporada tem tom de despedida.

Certamente para os pneus Pirelli atuais de 13 polegadas. Ano que vem todo mundo de aro 18, perfil baixo. Muito mais próximo do que encontramos na rua. Será estranho no começo, mas nos acostumaremos. O resultado visual é interessante nos carros da F2.

A grande dúvida que ficará no ar ao longo de 2021: veremos a última temporada de Hamilton? Em tom misterioso, não há pistas sobre o futuro do piloto. Difícil acreditar que ele perderá a oportunidade de pilotar os novos carros em 2022. Só que 2020 provou para todos nós que coisas inacreditáveis acontecem, 2021 continua na mesma trajetória e já não é possível especular mais nada.

Como nas Fábulas de Esopo, gritar repetidas vezes que esse ano vai ser diferente como o menino que sempre pedia a atenção dos pastores para a ameaça irreal dos lobos, pode nos levar a acreditar que o fato nunca ocorrerá.

Esse campeonato tem muitas tramas para serem acompanhadas. Disputas, batalhas e despedidas. Podemos, até, ver a coroação inalcançável de um oitavo título mundial para um campeão que se aposentaria ao final do ano.

É um ano imperdível. Que deixa dúvidas no ar: teremos um lobo saciado ou será mais um alarme do menino aos pastores? Será que as demais equipes são dignas de confiança depois de tantos anos de promessas ao ponto de desafiar realmente a Mercedes ao longo de 23 etapas?

Quais são as suas apostas?

Abraços!
Flaviz Guerra

Flaviz Guerra
Flaviz Guerra
Apaixonado por automobilismo de todos os tipos, colabora com o GPTotal desde 2004 com sua visão sobre a temporada da F1.

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    Flaviz

    então … você disse tudo … a partir deste domingo as cartas estarão sobre a mesa e começaremos a saber o que será da temporada de Formula 1 em 2021 … minhas maiores expectativas são:
    – será que Hamilton ganha seu 8° titulo?
    – será que Fernando Alonso terá sucesso na sua volta a Formula 1?
    – será que S. Vettel continuará a comer poeira dos tops da Formula 1?
    – será que o filho do Schumacher vai conseguir ter algum destaque andando possivelmente no pior carro do grid?
    – será que o G. Russel finalmente será anunciado como piloto da Mercedes, sem ser parceiro do Hamilton e o Bottas?
    – será que a transmissões da Band serão melhores que a da Globo nestes ultimos anos … Galvão que me perdoe, ótimo narrador … só que como Piquet sempre disse, não entende nada de Formula 1 …

    ou seja

    Vamos que vamos …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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