O preço da paixão

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...fiquei com saudades do tempo em que acompanhava as corridas de Fórmula 1 pela televisão, e via ali heróis corajosos que aceleravam seus carros ao extremo preocupados apenas com uma coisa - a sensação maravilhosa de estar fazendo o que gostavam!

 

Recentemente estava assistindo um documentário sobre o Chacrinha. Bem, até aí qual a ligação disso com automobilismo? Na verdade, não tem nenhuma não. Mas o fato de assistir a esse documentário me remeteu a uma nostalgia do tempo que tudo era mais simples, a diversão, a televisão, as pessoas, … o mundo. Isso, o mundo era mais ingênuo, ou talvez somente eu era e não sabia. Enfim, assistindo aquele documentário fiquei com saudades do tempo em que acompanhava as corridas de Fórmula 1 pela televisão, e via ali heróis corajosos que aceleravam seus carros ao extremo preocupados apenas com uma coisa – a sensação maravilhosa de estar fazendo o que gostavam!

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Senti saudades do tempo em que chefes de equipe eram homens apaixonados pela velocidade, por carros. Do tempo em que jogavam seus chapéus para cima para comemorar as vitórias. Senti saudades do tempo em que a grana, o lado monstruoso financeiro das corridas não era a principal força motriz da Fórmula 1. Tenho saudades daquela minha ingenuidade. Aos meus olhos parecia que tudo era mais claro, evidente, e não com tanta obscuridade e com jogos por trás dos panos como infelizmente há hoje. Se naquela época isso também acontecia, e devia acontecer, tenho a impressão que até essas negociações eram mais ingênuas, hoje há uma profissionalização da paixão. Não se trata mais somente do amor ao esporte e a velocidade. O dinheiro fala mais alto. É triste pensar que as vagas estão aí abertas, e não basta ser um bom piloto, basta sim ter dinheiro para bancar o posto.

Antigamente, no início da era da Fórmula 1, uma década ainda depois, em 1960, os próprios circuitos pagavam as premiações aos pilotos. E mesmo assim não era isso que os movia até os autódromos, era a vontade de acelerar que os levava até as pistas. Estou lendo o livro “Não sou um anjo”, um tipo de biografia de Bernie Ecclestone , o chefão da Fórmula 1. Lá, é contada como essa era romântica, ingênua da Fórmula 1 funcionava, e mostra também como isso foi transformado em um gigante negócio capaz de montar uma Copa do Mundo de futebol a cada duas semanas, como afirma o próprio Bernie. Recomendo o livro. Hoje, o que mais me faz ver ainda onde essa paixão pela velocidade existe, é acompanhar as categorias amadoras. É muito gratificante como jornalista poder conversar com os pilotos assim que descem do carro, e não como acontece na Fórmula1, esperar os pilotos se reunirem com a cúpula da equipe, saber o que pode e não pode ser dito e só depois vir falar com a imprensa. Sinto falta desse contato pessoal no calor do resultado, das palavras ditas sem pensar, sinto falta da ingenuidade das respostas, e de suas veracidades.

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Acompanhar categorias ditas amadoras, ainda me deixa mais próximo dessa era apaixonante das corridas. Por isso mesmo fico atento quando elas surgem, e há no momento duas que quero prestar atenção para entendê-las melhor e torcer para que vinguem. No Ceará, no campeonato de marcas há um carro desenvolvido pelo cearense Alexandre Romcy chamado Spirit 1.8, usando um motor VW já bastante aprovado. O carro já é uma evolução de outro veículo desenvolvido por ele há uns anos. Me parece que hoje, já são 14 Spirits prontos para o grid. Todo o projeto foi pensado para diminuir os custos e tornar o carro mais acessível para pilotos amadores.

Lembrando que o Ceará é destaque naquela região do País quanto ao automobilismo, porque tem o melhor autódromo da região. A outra novidade em termos de categoria é a Fórmula +, criada pelos organizadores da Seletiva de Kart Petrobras, os irmãos Paulo e Binho Carcasci. O objetivo com as corridas desse monoposto é promover o renascimento dos campeonatos de base brasileiros direcionados à preparação de pilotos para a Fórmula 1 e Fórmula Indy. Os monopostos são fabricados na Itália e tem relação peso-potência superior a do Shifter Kart. Torço muito para que essas duas categorias vinguem, tanto no turismo quanto em monopostos. Queria ver paixão na pista de novo … tô com saudade da minha ingenuidade.

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Em tempo: Romain Grosjean ficou com a segunda vaga da Renault: “não basta ser um bom piloto, basta sim ter dinheiro para bancar o posto

Até a próxima

Tiago Toricelli

Tiago Toricelli
Tiago Toricelli
Jornalista, autor de "Rally dos Sertões" e "Manual do Alpinista de Primeira Montanha". Já cobriu 12 temporadas de F1 (CBN) e acompanhou de perto as principais categorias da velocidade.

1 Comment

  1. E aqui no Ceará teve o Esprom, quinze anos atrás e de sucesso nacional!

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