O que aprendi com Ralf Schumacher

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Eu deveria ter antevisto que a condição de caçula de uma família dominada por alguém tão impositivo como Michael seria provavelmente o fator determinante para a carreira de Ralf na F1

 

Ainda hoje amigos e leitores me gozam por ter eleito Ralf Schumacher favorito ao Mundial de F1 de 2003.

Não me arrependo de ter feito previsão tão arriscada. Ralf sempre foi um piloto mediano, com a carreira obviamente alavancada pelo sucesso retumbante do irmão mais velho, mas pilotos medianos também vencem Mundiais, com mais frequência do que tendemos a acreditar.

Quando arrisquei meu palpite, Ralf vinha de um 2º lugar e duas vitórias, em Mônaco, Nurburgring e França, e somava 53 pontos, estando atrás de Kimi Raikkonen, com 56, e Michael Schumacher, com 64. A Williams, equipe de Ralf, evoluía de forma indiscutível. Nas provas seguintes, Silverstone e Hockenheim, somaria um 2º lugar e outra vitória – mas com Juan Pablo Montoya. A excelente série de corridas de Ralf acabara na França; nas seis provas dali até o final do ano, ele só pontuou em uma. Seus sonhos de campeonato terminaram num cinzento 5º lugar – e ele só pioraria dali até 2007, quando encerrou a carreira na F1 – enquanto a minha previsão virava piada.

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Creio que minha aposta, por mais ousada que fosse, tinha uma justificativa técnica mas eu deveria ter antevisto que a condição de caçula de uma família dominada por alguém tão impositivo como Michael seria provavelmente o fator determinante para que a carreira de Ralf na F1, em 2003, ou em qualquer outro momento, terminasse com acento decididamente baixo, fossem quais fossem as credenciais técnicas e esportivas dele.

Pode-se sofrer muito nas mãos dos irmãos mais velhos e penso que Michael não poupou Ralf, seis anos mais jovem, quando se sentiu minimamente ameaçado por ele. Não importa se o Williams era o melhor carro naquele momento do campeonato ou as reais condições de habilidade, determinação e maturidade de Ralf na sua condução. O que talvez o tenha condenado a um final de campeonato tão melancólico tenha sido o olhar perfurante ou algo mais do que isso de que Michael é capaz e ele, Ralf, tema acima de tudo, lá no fundo do seu ser.

Jacky Ickx disse recentemente que vencer nas pistas decorre, antes de tudo, de um desejo que tudo supera. Isso não tem nada de bonito, nada de poético. Não se trata de um desejo cultivado; é algo quase sempre patológico, que deveria ter sido tratado com terapias potentes, de forma a livrar o paciente de algo que pode transtornar a sua vida e torna-lo vaidoso, ganancioso, ardiloso, violento, desonesto. Michael Schumacher mostrou estas e outras facetas muitas e muitas vezes nas pistas e certamente não teria nenhum pudor em somar este desejo perverso e doentio à condição própria dos primogênitos para pressionar o irmão da maneira que considerasse mais eficaz para atingir outra vitória, não importa se num GP ou campeonato. Se ele fez o que fez com Damon Hill e Jacques Villeneuve certamente não hesitaria em oprimir Ralf de alguma forma – palavras? Atos? Ameaças até físicas? -, pouco se importando com o que sobraria para o irmão. Aliás, ainda lembro vivamente de uma fechada espantosamente perigosa aplicado por Michael em Ralf na saída da Roggia, em Monza, perdoem mas não lembro o ano. Não foi uma simples fechada; foi o murro dolorido que o irmão mais velho dá pelas costas no mais novo, simplesmente porque pode bater, chutar e humilhar sem temer qualquer represália.

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Sei como é isso. Sou o mais velho de três irmãos. Durante a minha adolescência, acho que fui, digamos, um pouco impositivo em relação ao meu irmão e minha irmã. Certamente pensava ter este “direito” pelo simples fato de ter chegado primeiro e, por conta disso, ser maior e mais forte do que eles. Idade é posto, diz-se no exército. Idade é também experiência, conhecimento e força física. Tudo pode levar o mais velho a se sentir tentado a oprimir os mais novos. Não sei se Stalin e Hitler tinham irmãos mais jovens mas, caso eles tenham existido, devem ter sido as primeiras vítimas da trágica tirania que estes personagens exerceriam sobre a humanidade quando adultos.

Não cheguei, felizmente, a impor aos meus irmãos nada equivalente à fechada de Michael. Mesmo assim, há algumas broncas e safanões dos quais me arrependo, aproveitando a oportunidade para me desculpar com Mauro e Maria Ângela.

Com o tempo, aprendi que é entre irmãos que se descobre a fraternidade e me ajudou muito a amadurecer este ponto de vista a leitura do admirável “Vida”, a autobiografia de Keith Richards, o guitarrista do Stones. Nela, Keith, que considero ser o meu maior ídolo, fala das suas terríveis brigas com Mick Jagger, mas que sempre acabam bem porque eles são… irmãos e isso é algo maior e mais importante do que qualquer outra coisa. “Há um conflito aqui e ali. Mas se você pesar tudo isso, essas coisas não representam nada”, disse Keith em uma entrevista.

Espero que Ralf, hoje penando na DTM, tenha conseguido se livrar das vilanias do irmão mais velho. Eu, felizmente, deixei de lado qualquer pretensão de impor o que quer que seja aos meus irmãos. Por sinal, ver a serenidade de Mauro na convivência com seus dois filhos pequenos – que prometem ser aficionados de automobilismo, tal o gosto que demonstram por miniaturas de todos os tipos – é dos grandes prazeres que tenho na vida.

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Boa semana a todos

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

7 Comments

  1. Roberto Madoglio disse:

    Caro Edu,

    Voce só tem um defeito como colunista do GPTOTAL: escreve muito pouco !

    Abraço

  2. Fernando Marques disse:

    Edu,

    existe um caso onde fica claro uma controversia nesta historia de primogenito entre os irmão Schumacher … falo de Wilson e Emerson Fittipaldi onde o grande campeão foi o caçula … como o amigo me explica este fato?

    Fernando Marques
    Niterói – RJ

    • Edu disse:

      Hummm. Acho que pelo fato de Emerson ser um piloto extraordinário e Wilson “apenas” uma grande piloto

      Abraços

      Edu

  3. Salve Mauro!
    Infelizmente essa similaridade dos carros é uma tendência praticamente irreversível na atualidade. Com o regulamento cada vez mais engessado, visando reduzir custos, as equipes acabam buscando desempenho nas poucas áreas onde a pesquisa ainda é permitida. A principal delas, você sabe, é a aerodinâmica.
    Com o aprimoramento dos túneis de vento e dos simuladores CFD fica reduzido o espaço para a experimentação criativa, uma vez que a razão matemática entre arrasto e carga acaba apontando para uma única direção, inevitavelmente adotada pela maioria dos times. Obviamente que após alguns anos de estabilidade esportiva os conceitos por trás dos melhores carros foram também estudados e aprimorados, de forma que os verdadeiros diferenciais acabam ficando por conta de alguma inventividade menos óbvia, como dutos frontais, difusores duplos ou soprados, ou suspensões reativas.
    E assim nós chegamos a um ponto no qual a hipótese de espionagem, com equipes copiando o desenho umas das outras, acaba sendo a mais otimista de todas. A realidade, talvez, seja um tanto menos animadora, com os projetistas simplesmente seguindo o mesmo caminho por falta de opções viáveis, tanto por restrições regulamentares quanto de orçamento.
    Abraço,

  4. Belo texto, meu amigo, com o convite a uma reflexão muito válida, especialmente para primogênitos como eu.
    Sua aposta no Ralf, no entanto, continua firme no rol dos grandes momentos do Gepeto, rs.
    Aquele abraço e uma ótima semana.

  5. Mauro Santana disse:

    Eu, tenho uma pergunta:

    Sabemos que na F1, pouco se cria, e muito se copia, mas vamos e venhamos, como que pode isso!?

    A Caterham foi a primeira equipe a lançar o novo modelo para 2012, e até o momento, a única equipe que não seguiu este caminho com o degrau no bico, foi a Mclaren.

    Aí que te pergunto, como pode isso!?

    Cadê a criatividade dos engenheiros!?

    Quem esta copiando quem!?

    Não acredito que as grandes equipes iriam copiar a mediana Caterham.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  6. Mauro Santana disse:

    Bela Coluna Edu!

    É uma questão de vencer a qualquer custo.

    Uma vez, fui perguntado por um amigo o por que do Piquet não ter deixado o Moreno vencer no Japão 1990, devido o fato de Piquet já ser tricampeão do Mundo.

    Minha resposta foi, “Os grandes campeões, só pensam na vitória!”

    Na história da F1, isso esta mais que comprovado pelos grandes campeões!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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