Pistas

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Uma amiga, atriz, me contava sobre o palco, mais especificamente sobre o astral de cada teatro. Dizia ela que em alguns se sente uma energia diferente, um astral maior que em outros, e que isso reflete na atuação, claro. Acredito, pois de besta minha amiga não tem nada, e conseguir fazer no Brasil uma longa e premiada carreira sem ser “global” (ela jamais cederia aos padrões da Vênus Platinada…) é algo raríssimo.

E lembrei desse “causo” nesta semana* que antecede ao GP da Itália de F1, na lendária pista de Monza. E tal nome, para gente de minha geração, causa arrepios; nenhum deles tem a ver com o carro da GM, de fato um Opel Ascona made in São Caetano do Sul.

Ah, Monza! Cavocando no meu baú de memórias, encontrei o que talvez seja o primeiro indício da palavra na minha mente, um cartão postal recebido de um tio italiano onde um carrinho vermelho rasgava o asfalto cinza sob um intenso fundo verde. No verso, estava escrito: “John Surtees – Ferrari 158 – Monza”. Eu mal tinha cinco anos de idade e, sem saber ler, fazia minha mãe repetir o texto do cartão e a legenda da foto centenas de vezes.

E Dona Flora pronunciava “Súrtis” e não “Surtííís”…

Acredito que Monza, como certos teatros, como disse a amiga atriz, tem astral maior que outras pistas. Que me perdoem tranqueiras modernas assinadas pelo Tilke de sempre, traçados como o do Parco Nazionale não são para qualquer um. Ali se morre também – Von Trips, Rindt, Peterson… – mas se vive mais ainda. O simples fato de ser um Grande Prêmio em Monza já dá status de grande corrida a qualquer prova lá.

Andei a pé por Monza, de cabo a rabo. Infelizmente jamais dei uma volta motorizado, mas a sola dos meus sapatos captaram a grandiosidade daquele “palco”. E ouso traçar um paralelo com Interlagos, nosso mal cuidado autódromo que, porém, também é repleto de energia como a pista italiana.

Outro lugar em que estive e, nesse sim, rodei voltas e mais voltas num reles scooter, foi no germânico Hockenheim, cenário do acidente fatal do estupendo Jim Clark, o Ayrton Senna dos anos 60.  Aquela longa reta curva dentro do fiorde de árvores, que liga a Nord Kurve a Öst Kurve, dá calafrio, a Floresta Negra intimida e quando a longuíssima e fria esticada termina, desemboca num verdadeiro… teatro! O chamado “motodrom” cercado de arquibancadas coloridas que emolduram um emaranhado miolo de onde se sai quase tonto para entrar na reta de chegada e, depois, de volta no longo caminho entre as altas árvores. Numa delas, Clark se despediu da vida. Sim, Hockenheim – fatos trágicos à parte – é daquela estirpe de pistas intensas.

E já que linhas atrás falamos de Ayrton Senna, como deixar de citar Ímola? A pista na beira do Rio Santerno é, ao contrário de Monza e Hockenheim, ensolarada. Não está encravada numa floresta como a alemã e a italiana das cercanias de Milão, mas na região da Emilia Romagna, perto do mar Adriático, e praticamente encravada na cidade de Ímola, que é pequena e simpática. Mas a pista, como Monza e Hockenheim, é forte, e tem caráter e energia particulares.

A morte de Ayrton e de Roland Ratzemberger naquele trágico fim de semana de 1994 não deve ser considerada componente ou consequência dessa energia, mas sim o atormentado traçado. E considero que o local do “the end” do brasileiro perigoso, sim, mas não o lugar que faz de Ímola uma daquelas pistas que separam homens de meninos. Na verdade, é na fase final da volta, onde da parte alta da pista se desce até a curva esquerda onde Barrichello voou naquele mesmo fatídico GP que faz de Ímola algo de especial. Rodar ali, não rodei, mas dei várias voltas a pé prestando uma baita atenção em tudo, e bons dez anos antes do adeus de Senna.

Acabo meu discurso sobre palcos do esporte a motor com um clássico atemporal, que de seu anacronismo faz sua preciosidade: Mônaco. Ao volante de um Fiat qualquer, mal cheguei ao principado e fui achando o traçado, coisa que, convenhamos, não é nada difícil. Se você não está na água e nem encarapitado na montanha, a chance de estar num pedaço da pista é enorme…

Para mim, as memórias mais fortes de Mônaco são velhuscas, um GP em 1972 vencido por Jean-Pierre Beltoise com uma então nada competitiva BRM, mas que, com ajuda da chuva, fez corrida gloriosa – a derradeira vitória de BRM. E há o furibundo desempenho de Senna na Toleman, também na chuva, naquela que seria sua primeira vitória na F1 se não fosse a “francesada” encerrar o GP de supetão, para dar o troféu de 1º colocado a Prost.

Ali, a pista só se justifica pela moldura nababesca e insólita e não pelo valor intrínseco do traçado. Mas uma corrida de qualquer categoria ganha valor incomparável ali, pois se trata de duelo entre a impossibilidade de exigir desempenho naquele cenário e… conseguir desempenho exuberante! É um local que não tem histórico tenebroso – o único a perder a vida ali foi o italiano Lorenzo Bandini, em 1967, ao volante de uma Ferrari, e perto de um local que todavia parece ser alvo de visitas de bruxas malvadas, como a que este ano quase estraga a carreira recém-começada de Sergio Perez, e que em um passado nem muito distante, 1994, e no mesmo local, entre a saída do túnel e o porto, estragou a carreira do austríaco Karl Wendlinger.

Pistas e palcos. Monza. Espetáculo garantido.

Roberto Agresti

* Coluna publicada originalmente em setembro de 2011

Roberto Agresti
Roberto Agresti
"Rato" de Interlagos que, com sorte (e expediente), visitou profissionalmente Hockenheim, Mônaco, Monza, Suzuka e outras. Sempre com uma câmera na mão e uma caneta na outra.

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