Reforma da Previdência

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A lua de mel entre a Liberty Media e as equipes de Fórmula 1 aproxima-se do seu fim, se é que já não acabou. A cinzenta agonia cotidiana vai se impondo, enquanto as partes fazem os movimentos iniciais para a renegociação do Pacto da Concordia, o contrato que une os proprietários/organizadores da categoria aos seus principais protagonistas e vence no final de 2020.

Já vimos esta novela antes, agora a teremos com novos protagonistas. As ameaças grosseiras do interminável Bernie Ecclestone devem ser substituídas pela maior discrição dos homens da Liberty Media. Não se espere, porém, por termos menos violentos de lado a lado.

Sergio Marchionne, o chefão da Ferrari, deu início às beligerâncias no começo deste ano, sacando a carta de uma liga 100% de propriedade das equipes, aquele papo que já ouvimos de Luca di Montezemolo, a quem Marchione botinou sem maiores considerações, tomando-lhe o cargo. Uma liga, como se observa em várias modalidades esportivas americanas, dispensa intermediários como a Liberty Media: ela mesmo negocia com organizadores de GPs, emissoras de TV e rádio, patrocinadores institucionais, comerciantes de produtos e serviços licenciados, entre outras mumunhas, centralizando as receitas, abatendo custos administrativos e dividindo o restante entre as equipes.

No modelo atual, regulado pelo Pacto da Concórdia e que vem sendo renovado desde os anos 80, as equipes cedem a um ente organizador – antes Bernie, agora a Liberty Media – o direito de negociar em nome delas. No centro das discussões está a vilã de sempre: grana, a onipresente, a onipotente, a onisciente. Falamos de uns US$ 800 milhões ao ano, dinheiro que fica com a Liberty Media e que, em teoria, podia engrossar o montante distribuído às equipes, coisa de US$ 1 bilhão.

As negociações que estão começando prometem doses altas de tensão, pois a Liberty Media, por meio de seu principal executivo, Chase Carey – o do bigode – anunciou que pretende mudar o modelo do Pacto. Até agora, ele é um contrato formal, uns dez anos de duração, com obrigações e deveres e uma fórmula ultradetalhada de divisão das receitas. Por envolver partes fortes, as negociações são para valer e não como acontece em situações do nosso cotidiano, como quando vamos a um banco e eles simplesmente estendem um contrato impresso ao qual nada podemos alterar.

Chase prefere, a partir de 2020, um acordo de duração mais longa, transformando as equipes em sócias da Fórmula 1 (escrevi brevissimamente sobre isso em O Outono do Patriarca).

O mais provável é que se chegue a um acordo, como sempre se chegou até agora. A Liberty Media tem contratos com as emissoras de TV e os proprietários dos autódromos que os impedem de transmitir e promover corridas concorrentes à F1. Logo se Ferrari, Mercedes, RBR & Cia resolverem seguir o próprio caminho, teriam de se entender, aqui no Brasil, com uma emissora de TV que não seja a Globo e promover a corrida em outro lugar que não Interlagos, que não poderia se chamar GP nem mencionar F1, pois estas são marcas da Liberty. Suponho que existam também restrições contratuais aos patrocinadores dos GPs etc., de forma que a tal liga das equipes teria de constituir uma categoria toda nova. Vimos algo do gênero décadas atrás, quando a Fórmula Indy cindiu-se em duas, com enorme perda de relevância. Não parece ser uma alternativa boa para ninguém.

Tenho uma compreensão não mais do que superficial do assunto, mas creio que temos aqui um típico caso de jogo de soma-zero: as equipes só ganham se a Liberty Media perder algo e vice-e-versa.

Em jogos de soma-zero, a melhor resposta é a colaboração, mas é sempre difícil superar a cupidez humana. Logo, não se pode descartar a hipótese de que as coisas tomem rumos irracionais e violentos, que uma parte se decida por afundar, desde que a outra vá junto.

Enquanto isso, Bernie Ecclestone se compraz em lançar dardos envenenados em direção à Liberty Media, criticando a sucessora sempre que solicitado pela imprensa e não faltam jornalistas que, em busca do joio que lhes é tão caro, discam o número do provecto ex dirigente.

Cada um se diverte como pode.

Com 21 GPs em 2018, a Liberty Media não deve ter um problema agudo de perda de receita, ainda que certamente tenha flexibilizado os termos impostos por Bernie aos organizadores de GPs, arrancando deles cada centavo que podia e condenando-os a prejuízos só cobertos, na maioria dos casos, pela irresponsabilidade de governos nacionais. Nota quase que inacreditável: o Brasil escapou dessa sina, sabe-se lá porque, a nossa própria irresponsabilidade pública tendo sido canalizada para estádios para a Copa e Olimpíadas que ora apodrecem ao sol e à chuva.

As discussões não se esgotam na grana. Ross Brawn, a face técnica da Liberty Media, prega contra o regulamento vigentes de motores, defendendo pela simplicidade e custos menores a volta de motores a explosão pura.

Aqui, creio eu, também temos um jogo de soma-zero, mas diferente em sua expressão. Mercedes, Ferrari e Renault por motivos particulares a cada uma, preferem não abrir mão das respectivas posições, considerando que começar o jogo de novo pode ser pior do que a situação atual.

É fácil intuir o pensamento da Mercedes, dona do melhor motor híbrido. No caso da Ferrari e Renault, imagino que eles combinem em suas ponderações a perda dos investimentos já feitos, os custos de criar um motor e também o sonho de ultrapassar os alemães, coisa que a Ferrari quase conseguiu no ano passado.

No entanto, esta situação de motores pode enfraquecer a Fórmula 1. A queda das audiências tem sido constante, mesmo o regulamento técnico sendo apenas parte do problema. O jogo de soma-zero representa aqui um problema que pode piorar a situação geral, envenenando as relações entre as partes e contribuindo para a redução do interesse pela categoria, o que tornará mais grave os problemas no futuro próximo.

Uma solução exigiria postura colaborativa, cada um cedendo um pouco em prol do bem maior. Não vejo disposição das partes para tanto.

O leitor, a esta altura, deve ter percebido o nexo entre o que escrevi até agora e o título da coluna. É mais ou menos o mesmo que observamos nas até agora inúteis discussões sobre a reforma da Previdência no Brasil, um caso típico de jogo de soma-zero.

Não sei o que será feito, não sei o deve ser feito, ninguém sabe, ninguém pode garantir resultados (lembrem-se de Douglass North…).

Claro que sempre se pode argumentar: “não fui eu quem começou”. É verdade, ainda que se possa aprender muito caminhando para trás, sobre os próprios passos, em busca da origem dos problemas. A questão que importa não é saber quem começou, mas quem vai encerrar a discussão, encaminhando uma solução convergente, na Fórmula 1, no Brasil, no mundo.

Este é o desafio urgente e importante. Uma hora dessas teremos de enfrenta-lo

Abraços

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

1 Comentário

  1. Carlos Chiesa disse:

    Muito lúcida, Edu, como de hábito. E gostei da foto, sou torcedor da Alfa Romeo desde criancinha…

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