Treinos GP da Itália

MEU NOVO HERÓI
15/09/2001
Monza, a corrida
16/09/2001

Caro Panda

Tem horas que a Fórmula 1 me deixa envergonhado. O mundo de luto, à espera de um ataque americano de consequências imprevisíveis, e eles lá, como se nada ou quase nada tivesse acontecido.

Compreendo que voltar à normalidade é uma forma de não se render aos atos de terror mas, prá cima de mim, não.

O problema para a Fórmula 1 é que cancelar uma corrida é uma operação que nem a iminência de uma guerra é capaz de desencadear. Você não pode mudar a data de um GP porque o calendário é imexível – que mundo este em que o Magri acabou tendo razão… -, porque os interesses comerciais dos organizadores, das equipes, das redes de TV, dos patrocinadores e do camarada que vende pipoca na porta do autódromo estão de tal forma amarrados, compromissados, emaranhados que não podem sequer dar um tempo para velar os milhares de mortos.

A Fórmula 1 nunca me enganou. Nos oferece um Esporte que em muitas circunstâncias dignifica a coragem e o engenho humanos mas que, para quem vive dela, não passa de um circo cruel e insensível que move alguns bilhões de dólares e isso é mais importante do que o luto por uma tragédia ou a proximidade de uma guerra que pode, inclusive, começar enquanto os pilotos alinham para a largada.

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Nesta triste situação, um voto de louvor para a Ferrari; ela corre mas sem a marca dos seus patrocinadores.

Você pode considerar que a Fórmula 1 é um esporte mas para os patrocinadores, ela é apenas uma mídia que lhes permite exibir suas marcas associadas a uma atividade, uma mística, uma lenda que empolga o público do mundo inteiro.

Melhor se os motores estivessem em silêncio mas, na impossibilidade de, a solução da Ferrari é uma forma um pouco mais digna de cumprir luto pelos acontecimentos nos Estados Unidos.

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Mas vamos tapar o nariz e falar do treino, ok? Confesso surpresa e decepção com os tempos. Esperava um verdadeiro massacre da serra elétrica, com o tempo do pole baixando de um 1:20.

Na Alemanha, os tempos foram impiedosamente triturados em grande parte pela guerra dos pneus. A pole do simpático Montoya na Alemanha foi sete segundos e meio mais rápida do que a do Coulthard (lembra-se dele? coitado…) no ano passado.

Ainda na Alemanha, Tarso Marques, tadinho, marcou um tempo – claro que o pior do treino – três segundos mais rápido do que o do Coulthard e dez segundos mais rápido do que o último colocado no grid de 2000 – adivinhe de quem? Uma Minardi, claro… (Aliás, pode-se argumentar com toda a justiça que foi a equipe que mais evoluiu nos últimos doze meses.)

Diante disso, imaginava o pessoal pisando mais na Itália. Deve haver alguma explicação técnica para isso – temperatura da pista ou mescla mais dura e resistente dos pneus, agora que o campeonato está definido – ou então é só baixo astral mesmo, a ponto do Rubinho ter batido o Schumacher.

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Vou falar de uma vez: eu gosto do Galvão Bueno. Falei, pronto. Sei que sou um dos poucos mas acho que Galvão entende o que se passa nas pistas, percebe estratégias, conhece histórias, sabe das coisas. Como todo locutor esportivo, está sujeitos aos problema de quem fala ao vivo durante muito tempo mas acho que se sai bem.

Hoje, contudo, embarcou numa péssima idéia: a de reduzir a duração dos treinos oficiais para meia hora, sob a alegação de que, nos primeiros minutos do treino, ou a pista fica vazia ou se presta à exibições lamentáveis, como a proporcionada pela Minardi hoje de manhã.

É a lógica da TV, que nos obriga a todos às emoções instantâneas, à excitação automática, renovada, turbinada, sempre com objetivos consumistas, que nos condena a ver os acontecimentos de Nova York e só saber compará-los à “coisas de cinema”.

Galvão não entende que esperar pela emoção é tão bom e importante quanto a emoção em si. A Fórmula Indy – a antiga, aquela que ninguém mais sabe como chama – tornou a disputa uma coisa insignificante exatamente porque a expôs a um volume de ultrapassagens tão grande que acabou por banaliza-las. Quem liga para uma ultrapassagem na Indy? Quem se importa com quem ganha a corrida?

Não é assim na Fórmula 1 exatamente porque as ultrapassagens são tão escassas, tornando-se acontecimentos inesquecíveis, como quando Montoya passou Schumacher no Brasil e por aí vai.

Galvão: não embarca nesta não. A Fórmula 1 é boa também porque é rara.

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Nas retas de Monza, os Fórmula 1 raspam os 360 km/h. Sabe o que isso significa? Pois deixa eu te contar depois de brincar um pouco com a calculadora. Significa percorrer 6 km no intervalo de um minuto ou 100 metros em um segundo. Dá para imaginar?

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Entendo a necessidade do Galvão ser gentil com o Pedro Paulo Diniz mas, francamente. Esta história de que ele evoluiu muito como piloto, só se for no Casseta&Planeta. Também não entendo tanta torcida para ele comprar a Prost. O que o Galvão acha? Que o Diniz vai fazer a equipe ganhar o Mundial? Fórmula 1 demanda níveis de tecnologia, investimento e administração que não nascem em árvore e me parecem muito distantes da capacidade de Diniz, mesmo ele tendo “evoluído” tanto nos últimos anos.

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Como o baixo astral é geral, deixa eu terminar fazendo uma volta diferente por Monza.

Você larga e passa pelo local do acidente mortal do Ronnie Peterson. Depois, vem a curva onde Fangio se acidentou em 52, depois daquela louca jornada de Londres a Milão, de avião e carro, durante a madrugada inteira. Logo adiante é onde o bombeiro italiano morreu no GP do ano passado. Segue para as Curvas de Lesmo, onde o McLaren de John Watson desintegrou em 81 ou 82.

A seguir, mergulhamos em direção à Variante Ascari, que tem este nome porque ali morreu Alberto Ascari num dos mais misteriosos acidentes automobilísticos de todos os tempos. Siga pela reta oposta e passe pelos locais onde Wolfgang von Trips e mais onze pessoas morreram em 61 e, em 70, Rindt encontrou a morte. Tome então a Parabólica, onde Derek Warwick sobreviveu milagrosamente àquela capotagem em 90, se não me engano.

Desculpe pelas lembranças macabras mas é que a Fórmula 1 acaba deixando a gente com a pele dura.

Amanhã, lá pelas duas da tarde, mando meus comentários sobre a corrida.

A propósito, como na Bélgica, acho que a Williams leva, provavelmente com Montoya. Mas a Ferrari tem uma boa chance e, pelo baixo astral do Schumacher, talvez seja a grande chance do Rubinho.

Abraços

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

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