Vettel e os outros

Em acusação a Tilke
21/11/2011
Interlagos, Brasil
25/11/2011

Alonso, Vettel e Hamilton podendo ser ainda melhores que ano passado e Vettel já é campeão com quatro provas de antecedência? É! Esse Vettel é bom mesmo.

 

Falei na minha última coluna, e já havia mencionado isso ano passado, que a atual geração de pilotos traz à luz Nigel Mansell, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Alain Prost. No texto anterior, me ocupei de dizer porque Sebastian Vettel merece ser chamado de “Senna nos anos 10”. Hoje, também falarei de Lewis Hamilton, Fernando Alonso e Jenson Button.

Separador

Três declarações recentes me chamaram a atenção. A primeira delas foi de Vettel, afirmando que o carro de 2010 foi, na verdade, ainda melhor que o atual: isso nos leva a alguma discussão, mas a favor da frase de Vettel está o desempenho de Mark Webber, que foi pífio esse ano: não conseguiu nenhuma vitória, e foi menos ao pódio que Alonso e Button.

Se ano passado o canguru conquistou quatro vitórias, cinco poles e foi o segundo que mais liderou voltas, quer dizer que algo mudou. E colocar a culpa em chavões como “a motivação de Webber” ou mesmo na teoria da conspiração é se negar a ver a realidade.

Vettel afirmou que poderia ter feito o mesmo de 2011 um ano antes, mas “alguns azares e erros estúpidos impediram que isso se sucedesse. A diferença de 2011 pra 2010 foi que o jovem alemão não se envolveu em batidas como na Turquia e Bélgica, nem teve seu carro quebrando como na Coreia e no Bahrein.

Por outro lado, me parece que a Ferrari de 2010 também tinha sido muito melhor que a de 2011, e em vários GPs chegou a ser a segunda força, quando não mesmo a primeira (Hockenhein, por exemplo). E isso nos leva a uma outra declaração muito interessante

Separador

Ao contrário do que muitos esperariam, Alonso disse que 2011 foi “a melhor temporada de sua vida”. O espanhol citou o fato de ter conseguido completar quase todas as corridas e estar no pódio constantemente. De fato, se esquecermos que Vettel deitou e rolou esse ano, a performance de Alonso, já consideravelmente boa, se torna belíssima.

É grande a possibilidade de Alonso encerrar 2011 com mais pontos do que em 2010, quando venceu cinco GPs e fez duas poles, além de ter liderado boa parte do certame. Ano passado, ele totalizou 252 pontos e agora já soma 245. Um sexto lugar em Interlagos já basta para que ele some o maior número de pontos de sua história. Um pódio no GP paulista significará, também, um pódio a mais no comparativo à temporada anterior. E é importante ressaltar que o número de GPs é exatamente o mesmo.

A única prova em que Alonso não pontou em 2011 foi o GP do Canadá e lá o abandono aconteceu não por um erro de pilotagem ou falha mecânica: o McLaren de Button tocou o Ferrari do espanhol, obrigando-o a abandonar. Button foi punido e, vindo da última posição, chegou a um brilhante triunfo. Não é, pois, qualquer exagero afirmar que Alonso terminaria entre os três naquela tarde canadense.

Porém, o que dá ainda mais crédito à opinião de Alonso é o comparativo de sua performance com a de seu companheiro de equipe, Felipe Massa: em 2010, Massa não ganhou nenhuma corrida – quase chegou à vitória na Alemanha, sim, e podemos ficar até amanhã debatendo a manobra da Ferrari –, mas foi ao pódio em cinco oportunidades e terminou oito vezes entre os quatro melhores (esse ano, seus melhores resultados foram quintos lugares). Foi também o segundo piloto com maior número de Km percorridos (em 2011 é o sexto).

Alonso melhorou muito em relação ao ano passado ou Massa é que não consegue, diante de um equipamento que poucas vezes se mostrou verdadeiramente eficiente, fazer corridas em um nível bom?

Alonso, cada vez mais, emula Piquet. Há várias coincidências na carreira dos dois e, em termos técnicos, a semelhança é visível. Como bem definiu Márcio Madeira, Alonso, como Nelson, “é muito bom em treinos, ótimo em corridas e excelente em campeonatos”. Alonso faz da constância talvez seu maior trunfo diante dos outros pilotos.

Separador

E uma terceira frase de efeito foi a resposta de Jenson Button a Flavio Briatore, quando o piloto inglês foi elogiado pelo italiano: Briatore disse que “estava errado com relação a Jenson”, afirmando que ele é um piloto talentoso e não “mais lento que um bloco de concreto”, como dissera antes. O fanfarrão chegou, inclusive, a ridicularizar a manutenção de Button pela Brawn GP, em 2009.

Button, comentando o novo elogio, afirmou que quando vê afirmações desse tipo apenas “lê, sorri e esquece”. Claro que ninguém subjugaria Button como fez Briatore, mas poucos eram os que o consideravam realmente um piloto de ponta: aliás, mesmo após o título dois anos atrás e as vitórias do ano passado, Button continuava sendo considerado um “segundo escalão” dentre os ponteiros.

Porém, 2011 mudou tudo: Button conseguiu as mesmas três vitórias de Hamilton e largou mais vezes atrás, mas foi muito mais constante que o companheiro de equipe e compatriota: não podemos imaginar esse vice-campeonato em melhores mãos que a de Button e as poucas vezes em que Vettel foi realmente batido (Canadá, Hungria e Japão), foi de Jenson o mérito.

Button de longa data é comparado a Prost, mas esse ano isso parece ter sido realmente confirmado: o trato com os pneus, a primazia da estratégia sobre a velocidade… A única diferença, e isso só pesa a favor de Button, para o francês é a qualidade dos dois na chuva: 10 a 0 para Jenson. A forma como superou Hamilton também nos remete a alguns momentos da carreira de Alain.

Separador

E para finalizar, uma vez que o citamos, Hamilton. Outra pergunta que Edu fez na sua defesa de Tilke foi sobre qual teria sido o pior do ano dentre Lewis, Webber e Massa. Os números mostrados acima, somados ao fato de Hamilton ter vencido três GPs e sido o único fora as RBR a marcar uma pole mostra que, mesmo em uma temporada onde foi de fato mal, Hamilton ainda consegue bons resultados.

E, vejam só: assim como dito sobre Alonso, Hamilton também tem boas chances de superar sua pontuação em 2010: ele soma, até aqui, 13 pontos a menos do que fez ao final de 2011. Um terceiro lugar em Interlagos já lhe garante a marca. Hamilton não tem como, porém, superar os pódios que marcou ano passado.

Mas sua pilotagem furiosa e sua inegável velocidade dão ao ainda jovem inglês a condição de Nigel Mansell de nossos tempos: talento lá em cima, mas uma falta de autocontrole e, quem sabe, de humildade.

Separador

Em resumo: Alonso, Vettel e Hamilton podendo ser ainda melhores que ano passado e Vettel já é campeão com quatro provas de antecedência? É! Ele é bom mesmo.

Separador

Em semana de GP do Brasil, não deixe de visitar nossa página no Facebook: estamos fazendo uma retrospectiva das maiores corridas que aconteceram em Interlagos e Jacarepaguá.

Boa corrida a todos

Marcel Pilatti

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

4 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Allan,

    esta politica de não interferir da RBR na disputa interna entre Webber e Vettel foi errada e revista a tempo pela equipe em 2010. O Webber sempre foi um piloto mediano e se bobear nem ele mesmo acredita até hoje ter tido tanta sorte em ter uma RBR vencedora nas mãos … ao contrario ele sequer estaria mais na Formula 1 …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Allan disse:

    Fernando, a Red Bull, desde o início do campeonato, já sabia que era Vettel o seu “homem”, mas sua política de não interferir (via Horner, porque se dependesse do Marko, o canguru viria com 2 cilindros a menos em cada GP…) nos resultados mostrou até certo ponto a igualdade dos dois. Mas aí o Vettel colocou a cabeça no lugar, desandou a andar como hoje está fazendo e monopolizou as atenções da equipe para ele – aí sim, diga-se, que vieram apenas na parte final da temporada, particularmente após o GP da Coréia.

  3. Fernando Marques disse:

    A superioridade do Vettel foi consolidada quando faltavam 3 ou 4 corridas para o termino da temporada de 2010 quando ele venceu estas corridas e se sagrou campeão mundial. Creio que naquele momento a RBR descobriu que Vettel era o melhor para seu conjunto. Manteve a politica e ele deu um passeio este ano. Enquanto este conjunto Vettel/RBR continuar forte acho dificil alguem bate-los a não ser que Alonso/Ferrari ou Hamilton/Mclaren façam milagres. Não coloco Button neste contexto pois creio que a pilotagem furiosa do Hamilton seria mais util do que o estilo limpo do Button neste milagre. E com relação ao MAssa seria necessário um milagre dentro da propria Ferrari para ele andar no mesmo nivel do Alonso.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. WESLEY disse:

    Prezado Marcell,

    Parece que o objetivo do seu texto é mostrar uma certa semelhança entre as características e circunstâncias dos quatro melhores pilotos da F1 atual com as dos quatro melhores dos anos 80/90. Se for só isso ,legal!
    Por outro lado,se alguém quiser comparar o talento, a tenacidade, a técnica, o autodomínio, a concentração e outros atributos do quarteto Piquet/Senna/Prost/Mansell com o do quarteto atual, pode mandar para o manicômio !
    Pois é, aqueles tempos provavelmente foram o ápice da história do automobilismo e não voltam nunca mais!

    Abraços, Wesley

Deixe uma resposta para Allan Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *