Finalmente, 2020

Campeão Moral – Epílogo
28/06/2020
Roberto Pupo Moreno no GPTotal
03/07/2020

A temporada de 2020 começa cheia de expectativas e de aflições.

Foi assim, com uma frase escrita cento e doze dias atrás, que deveria ter começado o primeiro fim-de-semana com corridas da Formula 1 aqui no GPTotal. Naquele momento ainda havia uma arrogante insistência da F1 para começar o campeonato em Melbourne. Sem deixar o otimismo de lado, proclamou-se que em míseros 45 dias estaríamos prontos para correr.

Águas passadas, chegamos ao momento crítico: vamos começar o campeonato na pacata Spielberg, para o Grande Prêmio da Áustria ter a honra inédita de ser a abertura do campeonato Mundial de 2020!

Por mais que F1 faça uma falta danada no nosso dia-a-dia, não deixa de ser precipitada essa volta para um esporte “multinacional”. Não podemos permitir aqui comparações com a NASCAR, DTM e Stock Car Brasil, campeonatos nacionais, regionais (sem ser pejorativo, por favor). Fábricas em diversos países, um campeonato “mundial” que, obrigatoriamente, deve sair do continente europeu, pilotos de múltiplas nacionalidades com residências fixadas em diversos países. É um quebra cabeças desnecessário de ser montado no cenário conturbado da saúde global.

Existe no ar um mar de interrogações. Um oceano de dúvidas que tiram o foco da disputa esportiva que poderíamos ter nas pistas.

Deixando aqui só uma das questões para discussão dos amigos: Um campeonato de 8 provas (ao invés das 22 previstas) com Valteri Bottas campeão será considerado válido pelos fãs?

Deixando de fora nossa opiniões e retornando até Melbourne nesse ano, o que acontecerá se um dos times se retirar do fim-de-semena como a Mclaren fez? E se algum piloto testar positivo para o COVID-19 apesar de todas as preocupações, cuidados e protocolos?

Vamos tentar não nos perder no calendário mutante desse ano. Logo abaixo as datas previstas, seguindo declarações oficiais da FIA e da Formula 1. São duas “trincas” e pela primeira vez correndo duas vezes seguidas na mesma pista.

Promete-se uma campeonato de no mínimo 16 corridas, sendo só 8 confirmadas até o momento.

1ª – 15 de março – Austrália – Melbourne
2ª – 22 de março – Barein – Sakhir
3ª – 5 de abril Vietnã – Hanói
4ª – 19 de abril – China – Xangai
5ª – 3 de maio – Holanda – Zandvoort
6ª – 10 de maio – Espanha – Barcelona
7ª – 24 de maio – Mônaco – Monte Carlo
8ª – 7 de junho – Azerbaijão – Baku
9ª – 14 de junho – Canadá – Montreal
10ª – 28 de junho – França – Le Castellet
1ª – 5 de julho – Áustria – Spielberg
2ª – 12 de julho – Estíria – Spielberg
3ª – 19 de julho – Hungria – Budapeste
4ª – 02 de agosto – Grã Bretanha – Silverstone
5ª – 09 de agosto – 70 Anos de F1 – Silverstone
6ª – 16 de agosto – Espanha – Barcelona
7ª – 30 de agosto – Bélgica – Spa-Francorchamps
8ª – 6 de setembro – Itália – Monza
9ª – 20 de setembro – Singapura – Marina Bay
10ª – 27 de setembro – Rússia – Sochi
11ª – 11 de outubro – Japão – Suzuka
12ª – 25 de outubro – EUA – Austin
13ª – 1 de novembro – México – Cidade do México
14ª – 15 de novembro – Brasil – São Paulo
15ª – 29 de novembro – Abu Dhabi – Yas Marina

Ter 16 corridas parece razoável. Já tivemos 48 campeonatos com número igual ou menor que esse. Todos válidos! 1951 (Fangio), 1952 (Ascari), 1956 (Fangio), 1957 (Fangio) e 1961 (Hill) tiveram só 8 corridas. 1950 (Nino Farina) e 1955 (Fangio) só 7! Impossível contestar o nome dos campeões de cada ano, correto?

Nos aproximando um pouco mais dos dias de hoje e da expansão da F1 pelo mundo, o campeonato mais recente a ter 16 provas foi o de 2003 vencido por Michael Schumacher com singelos dois pontos sobre Mika Hakkinen.

Aproveitando o hiato entre os testes e a corrida inaugural, os bastidores da F1 se movimentaram de forma intensa e bem prematura. Estamos já decidindo os lugares para 2021!

Ricciardo vai pra McLaren! Sainz pra Ferrari! Vettel vai pra onde? Quem senta na Renault? Hamilton ainda não renovou e seu amigão/chefe/patrão é sócio de outro time! Valteri Bottas só tem contratos anuais e também é dúvida para o próximo ano na Mercedes. Não vamos nem considerar o que a Haas pode fazer com sua (fraca) dupla de pilotos que só tem contrato por um ano.

A distribuição de assentos para 2021 virou assunto antes de um campeonato existir em 2020.

Dois fatores são de maior destaque e preocupação: a continuidade do tetracampeão Vettel na categoria e a existência da Williams.

Vettel está sem planos aparentes e sem visível paciência para os tradicionais projetos “vamos crescer juntos rumo ao título” de longo prazo. Apesar dos erros (pontuais) dos últimos anos, é uma piloto de alta classe e indispensável tetracampeão do mundo.

A Williams vive o dilema melancólico de uma gestão familiar ultrapassada. A Williams, como potência de engenharia e indústria tecnológica, segue firme e forte. A Williams Racing, continua sofrendo para existir. Perdeu seu principal patrocinador abruptamente e sem claras justificativas e sofre pra montar um carro minimamente não vergonhoso. Tal qual a Mclaren, amargura a dura jornada para sobreviver com o mínimo de dignidade. Sua conterrânea Mclaren traçou um caminho de restruturação e crescimento. Lento, talvez insuficiente para evitar ser engolida pelo dinheiro que move esse esporte, mas ao menos há um caminho e uma visão. A Williams, agoniza.

Nenhuma pena ou dor olhando para seus pilotos atuais. Russel tem bons padrinhos e Lafitti, veja bem, pode fazer absolutamente qualquer coisa vida, inclusive, nada. Nossos sentimentos pela história do time e, principalmente, seus funcionários que mantem esse nome histórico vivo.

Esse gigantesco intervalo entre Melbourne-cancelada e o começo do campeonato deixou ainda mais interrogações na cabeça dos fãs da F1. Mesmo sabendo que os testes de pré-temporada não apresentam a real ordem que será vista na primeira etapa, como prever um cenário com mais de 100 dias adicionais de reflexão e estudos para os times.

Tivemos um fechamento das fábricas? Claro que tivemos, mas isso só impediu a produção e construção de novas partes. Ninguém ficou em casa cuidando das hortaliças no jardim. Todos os times chegam com atualizações em seu carros ou nas unidades potência. Só lembrar que pelo calendário “tradicional pré-2020”, já teríamos passado pela prova de Barcelona, costumeiro ponto de apresentações de extensas revisões nos times.

Ainda tem toda a especulação e curiosidade sobre o funcionamento do novo DAS da Mercedes. Com motores dominantes e com regras estabilizadas, o departamento de engenharia da fábrica alemão resolveu tirar do papel a ideia do volante que muda o ângulo das rodas dianteiras. Foi avaliado, permitido para 2020 e banido para 2021.

Ponto nevrálgico (mais um) são as mudanças de regras que congelam os carros para 2021 e adiam a introdução dos novos bólidos para 2022. São regras novas e complexas que não impactam somente esse campeonato mas mostram uma nova dimensão para o futuro da Fórmula 1 nos próximos anos. Vamos explorar essas tecnicidades em uma coluna especifica sobre o tema e seus impactos.

Na era hibrida, ano entra, ano sai, a Mercedes segue favorita. Não será diferente em 2020. Já chega na Áustria com uma especificação nova de motor (disponível para todos os clientes) e está pronta para levar mais um título. O fator primordial de diferenciação aqui são as duas corridas seguidas na Áustria, onde a Red Bull venceu nos dois últimos anos. Em um campeonato curtinho pode haver um grau de dificuldade adicional, mas havendo mais provas essa pequena antecipada vantagem pode ser aniquilada pelo time germânico.

A Red Bull vem entusiasmada. Antes mesmo do adiamento da temporada já comemorava ter um carro pronto de forma antecipada como nunca antes visto na sua história. Ganhou tempo e um novo motor Honda, atualizado em relação ao modelo dos testes de inverno. Hora de Max mostrar ser é proprietário de corridas espetaculares e grande ultrapassagens ou postulante ao título ao logo do ano. Conduzir um Red Bull – Honda ao título poderá ser digno de um ingresso clube dos maiores pilotos da F1.

Pela Ferarri, lamentações. Leclerc é o novo ídolo, às custas de queimar um tetracampeão do mundo. Junto com essa decisão destemida, um carro com problemas. É difícil acreditar no blefe perfeito, na escondida de jogo proposital para enganar os adversários. A Ferrari não é competente nesse aspecto. Se chegar na pista e vencer, pode canonizar Binotto pelo feito de esconder isso de tudo, de todos e da imprensa italiana. Fora o blefe, a equipe já avisou que corre as duas próximas etapas com o mesmo carro que iria para Melbourne, se preparando para uma grande atualização na Hungria. Esperar para ver, mas não ser párea para Mercedes tem um limite: 3 provas em 2020! Após isso, difícil não imaginar que a direção do time italiano não sofrerá consequências.

A pandemia e sua necessidade de isolamento social também nos proporcionou a chance de “esticar as pernas” em outras áreas. No 19º ano de existência do GPTotal, saímos das letras digitadas e passamos para o mundo de imagens ao vivo. Mantendo aquele tradicional propósito de valorizar a história do automobilismo e não perdemos a chance de revistar as Lendas do Automobilismo brasileiro em uma série de “Lives”. Se perdeu, confere com a gente no VT! Teve Emerson Fittipaldi (aqui, aqui e aqui), teve Alex Dias Ribeiro (aqui e aqui) e também Roberto Pupo Moreno (aqui)!

Em breve mais novidades para vocês!

Em 2020 não desistiremos do nosso animadíssimo pelotão intermediário!

Se você quiser errar uma previsão para 2020, aqui é o lugar. A estabilidade das regras fez esse grupo se aproximar ano após ano. Aproveitando a incompetência que assolou a Renault nos últimos anos, um grande time de fábrica se juntou ao grupo e fez a tempestade perfeita.

A Racing Point copiou um carro campeão de quem compra os motores. Justificativa mais sincera impossível: mesmo motor, o conceito deles funciona, não vou gastar dinheiro com meu ego gigante, digo, meu conceito único, para jogar tudo fora no ano seguinte com o novo regulamento. Tem grandes chances de começar o ano liderando o pelotão e acumular pontos importantes para o campeonato.

A Renault e McLaren vão se estapear logo atrás. A McLaren tomou um rumo certo de reestruturação e vem mostrando resultados crescentes. Obviamente a equipe de fábrica não pode perder, novamente, essa batalha e investiu na reformulação da plataforma para 2020. Vem para temporada machucada, mordida. Perdeu no caminho o seu piloto que deveria liderar a condução para as vitórias. A perda é dolorida porque seu piloto irá para sua maior concorrente em 2020, que ainda por cima esnobou seus motores para 2021.

Em segundo plano, mas não distante sensivelmente no cronometro, teremos o bolo de Haas, Alfa e Alpha. Infelizmente a Haas manteve a sua dupla de pilotos e isso não deve permitir grandes aproveitamentos de oportunidades durante a temporada. A Alfa Romeu se prepara para a saída de Raikkonen, torcendo desesperadamente para a confirmação de Giovanazi como um piloto merecedor da F1. Já na Alpha Tauri, expectativa. Cada vez mais trazendo novas integrações com sua equipe-mãe, pode dar um salto de qualidade e um sopro de esperança para seus pilotos. Será importante para manter a motivação dos dois rapazes e o futuro da equipe: sem novos nomes na fila de sucessão, o que podem sonhar Gasly e Kvyat para os seus respectivos futuros além da Aplha Tauri?

Não teremos a Williams nesse pelotão intermediário? Nem pertinho? Aqui, só desejos de pronta recuperação. Russel, recém coroado campeão da F1 Virtual tem a obrigação de massacrar seu companheiro de equipe. Sem desculpas, sem meias palavras, todas as corridas que estiverem juntos na pista ele tem que ter a melhor posição de classificação, o melhor tempo de volta do fim-de-semana e da corrida e a melhor posição de chegada. Todas as provas, todos os itens. Só assim, mesmo com um péssimo carro, ele pode buscar uma vaga melhor para ter a chance de justificar a fama que lhe foi atribuída de futuro campeão.

Sem clientes para 2021, a Renault será um um repeteco do início da Honda na próxima temporada? Sem espaço para testar e crescer?

A Formula 1 é ápice tecnológico e esportivo do automobilismo mundial. Certamente uma das mais valiosas plataformas de marketing do planeta. Absolutamente reconhecida como força motriz da inovação na indústria automobilística. Além disso, permeia nossas vidas com absoluto encantamento. Isso justifica o desafio à uma pandemia global?

Campeonato iniciado, esperamos que se conclua de forma digna! As previsões são as mais incertas possíveis e estamos entre a coroação absoluta de Hamilton e ascensão de novos postulantes ao trono.

Que sua arrogância de desafiar a pandemia não deixe marcas no campeão de 2020.

Sentimos sua falta, F1!

Abraços,
Flaviz Guerra!

Flaviz Guerra
Flaviz Guerra
Apaixonado por automobilismo de todos os tipos, colabora com o GPTotal desde 2004 com sua visão sobre a temporada da F1.

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