De cogumelo para abacaxi

Williams merece uma estátua (mas será que é quem você está pensando?) 2/2
27/03/2026

Numa dessas ironias da vida, a F1 recebeu parte do elenco do filme Super Mario Galaxy em Suzuka, promovendo a estreia do filme, semanas depois dos pilotos compararem o novo e já famigerado regulamento a outro joguinho da série Super Mario, o Super Mario Kart. Se antes os pilotos falavam de cogumelos, bastante usado por Mario e Luigi no joguinho da Nintendo, hoje a F1 fala mais sobre abacaxi, pois é exatamente isso que a categoria tem nas mãos. Pode parecer estranho dizer que a F1 está em crise após três corridas movimentadas com a chegada do novo regulamento, mas Suzuka escancarou os sérios problemas que a F1 vive com um motor elétrico que ‘brocha’ antes do final das retas e o acidente de Oliver Bearman demonstrou algo que muito pilotos falavam faz algum tempo: a diferença brutal de velocidade entre os carros em momentos diferentes de bateria poderia ser bastante perigosa.

Claro que Andrea Kimi Antonelli (foto que abre esta coluna) não tem muito do que reclamar e o italiano vem encantando tanto pela velocidade, como na maturidade.  O jovem italiano conseguiu mais uma vitória vindo da pole, mesmo largando mal novamente, mas Kimi teve sorte com o Safety-Car na hora certa e a partir daí dominar a corrida rumo a liderança do campeonato, sendo Antonelli o mais novo a conseguir o feito na história da F1.

Suzuka é um dos palcos icônicos da F1, com suas curvas rápidas e fluídas, mas estava nítido que com o novo regulamento, o circuito japonês seria palco de mais um vexame para a F1 nesse 2026. A longa reta oposta, seguida pela curva 130R é um dos pontos de mais longa aceleração do calendário. Para completar o cenário negativo, a Spoon não é exatamente uma curva de baixa, fazendo com que os pilotos chegassem nessa parte da pista sem estar com a bateria totalmente cheia.

Assim como as equipes, a Liberty está usando os treinos livres para indicar onde haverá câmeras on-board ou não no resto do final de semana. E como esperado, o que se viu no primeiro dia de treinos foi um motor ‘brocha’ no aproche da Chicane. Pilotos perdendo até 50 km/h, mesmo com o acelerador a pleno, pois o motor elétrico simplesmente não chegava até o final dessa parte ‘cheio’ o suficiente. Mais um vexame que a F1 está com sérias dificuldades de esconder e os fãs mais hardcore fazem questão de apontar e lamentar.

A F1 está com um dos maiores problemas a resolver em sua história. Regras que não deram certo já aconteceram e muitas vezes foram mudadas rapidamente. Alguém lembra da classificação onde os pilotos eram eliminados depois de um determinado tempo? Foi um tiro n’água tão grande, que rapidamente a invencionice caiu na lata de lixo da história. Mas como mudar um motor que falta, a grosso modo, de Tadalafila?

Enquanto isso, os pilotos não estão tendo pena em sentar a pua no novo regulamento, claro, com mais acidez dependendo de sua posição no grid. O recém papai Alonso repetiu que qualquer um dentro da Aston Martin pode fazer as famosas curvas rápidas de Suzuka. Albon, na decadente Williams, falou que hoje em dia todas as curvas de Suzuka são de média velocidade, pois não se consegue chegar ao limite do carro por causa do motor. No sábado os vídeos on-board antes da curva 130R desapareceram como com um milagre. E amigos, não foi coincidência.

Por mais que a F1 não esteja acabando, como alguns arautos da tragédia estão bradando por aí, não se pode negar uma crise que só aumenta com a continuidade das corridas. Por mais que Stefano Domenicali, CEO da Liberty, rebata as críticas cada vez mais presentes, muito provavelmente o italiano esteja perdendo os seus parcos cabelos com as estrelas do espetáculo que ele gere destruindo o novo regulamento. Não queria estar na pele dos diretores de monopostos da FIA nesse momento…

Por ironia da situação presente, um jovem de 19 anos, onde em teoria não precisa usar Tadafila, foi a estrela do sábado. Andrea Kimi Antonelli continua sua boa fase e marcou a segunda pole consecutiva, mostrando que o jovem italiano poderá tornar o trabalho de George Russell bem difícil nesse primeiro momento de domínio da Mercedes em 2026. O inglês reclamou bastante durante a classificação, mas ainda conseguiu completar a primeira fila da Mercedes. A McLaren finalmente deu o ar da graça em 2026 e Piastri conseguiu se colocar à frente da Ferrari na luta pelo melhor do resto, enquanto Norris sofreu com problemas na sua unidade de potência o final de semana inteiro e quase ficou de fora da classificação. Pior foi Verstappen. Para aumentar seu mau humor, que o fez expulsar um jornalista num evento da Red Bull, o neerlandês ficou de fora do Q3, superado inclusive por Hadjar, algo que Max não estava acostumado. Para colocar sal na ferida, Verstappen foi ‘bumpado’ do Q3 por Lindblad, jovem talento da Red Bull, ainda com a Racing Bulls.

Apesar de algumas ameaças de chuva, o sol esteve presente em Suzuka na hora da largada (foto acima), atrasada devido a um impressionante acidente durante a corrida da Porsche Cup. George Russell reclamou ainda durante a pré-temporada que não adiantava nada ter o melhor ritmo do pelotão se largar ser um ponto fraco para a Mercedes. Novamente a dupla da Mercedes, que dominava a primeira fila, largou de forma terrível e a forma como Oscar Piastri, finalmente largando para um Grande Prêmio oficial em 2026, saiu da terceira para a primeira posição indica que o problema não se trata do motor Mercedes, mas do carro da fábrica. O pole Antonelli teve uma largada horrorosa, patinando claramente e despencando para sexto, enquanto Russell ainda conseguiu ficar em terceiro, atrás de Piastri e Leclerc, ocupantes da segunda fila.

A corrida começou animada com a dupla da Mercedes galgando posições, mas Russell não conseguiu efetuar um ataque mais efetivo em Piastri (foto acima), enquanto Antonelli demorou um pouco para se livrar das Ferraris e de Norris. Quando teve ar limpo, Antonelli mostrou que tinha o melhor conjunto do final de semana e se aproximava de Russell, na medida em que o momento do único pit-stop se aproximou. Piastri, Leclerc e Russell foram os primeiros do pelotão da frente a visitar os pits, quando o momento decisivo da corrida, e até mesmo da temporada, aconteceu.

Oliver Bearman foi eliminado no Q1 de forma surpreendente no sábado e estava andando no pelotão intermediário, quando fez sua parada para trocar pneus. O inglês da Haas fez seu pit-stop e se aproximava da Alpine de Franco Colapinto. Um dos pontos críticos de Suzuka com relação à bateria era a aproximação da curva Spoon e Bearman apertou o botão de ‘ultrapassagem’ nesse momento, enquanto Colapinto viu sua bateria descarregar. O argentino ainda fez menção em fechar a porta, mas a velocidade de Bearman comparada a sua lembrava um Hypercar ultrapassando um LMGT3. Só que não estamos falando do WEC, mas de F1. Para não estampar a traseira de Colapinto, que vinha 50 km/h mais lento, Bearman jogou seu carro na grama, que sem controle bateu forte no muro de pneus (foto abaixo).

Um acidente feio, em que Bearman saiu do carro mancando, mas felizmente sem maiores problemas. Além dos problemas de bateria que fez a F1 passar mais um vexame com os motores ‘brochando’ entre a 130R e a Chicane, a diferença excessiva de velocidade entre um carro com bateria e outro sem fez com que um forte acidente acontecesse. Depois da corrida o paddock ficou em pânico e pilotos como Carlos Sainz foram bem vocais em afirmar que isso estava prestes a acontecer. Vozes cada vez mais eloquentes se levantaram e a FIA anunciou após a prova que reuniões serão feitas para que ajustes sejam feitos. Basta imaginar isso acontecendo em Monza ou Baku.

Talvez por linhas tortas, não ter a corrida na Arábia Saudita foi bom, pois o rápido e perigoso circuito de Jedá, com suas curvas cegas, seria um convite a tragédia numa F1 claramente em crise com suas baterias. Talvez os dirigentes da F1 tenham o maior abacaxi nas mãos em mais de 75 anos de história. Afinal, montadoras foram atraídas para a F1 por causa regulamentação do motor a combustão interno e elétrico a 50/50, mas estamos vendo na prática que a F1 deu um passo maior do que a perna com essa unidade de potência, criando uma crise enorme.

Em Suzuka, quem entrava em crise era George Russell (foto abaixo, disputando posição com Hamilton). Tendo a primazia de entrar nos boxes primeiro entre os pilotos da Mercedes, o inglês teve uma falta de sorte gigantesca ao ver Antonelli fazer sua parada com o SC na pista, ganhando bastante terreno frente à Russell, que caiu para terceiro na manobra. Era esperado que o inglês da Mercedes relargasse de forma agressiva e fosse para cima de Piastri, mas o que se viu foi Russell novamente atacado por uma Ferrari nesse momento, ultrapassado pelo compatriota Hamilton, outro favorecido pela entrada do SC. Assim como aconteceu na China, Russell pareceu ter problemas de aquecimento de pneus duros e para completar, oito voltas depois ele teve problemas na bateria na entrada da Spoon e foi ‘ultrapassado’ por Leclerc.

O monegasco rapidamente encostou no companheiro de equipe e foi logo soltando que ‘estava perdendo tempo’. Antes que a Ferrari pensasse em algo, Leclerc atacou Hamilton e assumiu a terceira posição em outra disputa acirrada, enquanto Russell finalmente ultrapassou o ex-companheiro de equipe logo depois. Duas semanas depois do primeiro pódio com a Ferrari, Hamilton voltou aos tempos em não estar nada ‘grateful’ e foi ultrapassado por Norris na penúltima volta, ficando em ‘último’ entre as três equipes de ponta em 2026.

Leclerc tentou uma aproximação em cima de Piastri, mas logo o representante da Ferrari teve que segurar os ataques de Russell, contudo, assim como seu compatriota Hamilton, George Russell não estava num bom dia e pela primeira vez em 2026 ficou fora do pódio. Enquanto isso Antonelli aproveitou-se muito bem do SC a seu favor e dominou a corrida após a relargada, não sendo sequer fustigado por Piastri, que fez uma ótima corrida de ‘estreia’ em 2026, após seus dissabores nas duas primeiras provas. Kimi assumiu a liderança do campeonato e fez história, sendo o mais jovem a conseguir o feito, mas mais importante do que isso, começa a colocar pulgas atrás da orelha de Russell, que não esteve numa boa jornada. Na luta pelo campeonato, a confiança pender para um lado ou para outro pode ser decisivo e com a Mercedes tendo o melhor carro do pelotão, está claro que Antonelli estava em viés de alta.

A McLaren deu sinal de vida e conseguiu seu primeiro pódio do ano, mesmo com todos os problemas de Norris ao longo do final de semana, fazendo o atual campeão ficar longe de Piastri o tempo inteiro. A Ferrari viu a McLaren se aproximar e ter um ritmo parecido com o seu em Suzuka. Mais uma vez Leclerc e Hamilton se encontraram na pista e a luta entre os dois foi no limite. Por enquanto estão todos sorrindo, mas o toque entre os dois está próximo…

E a Red Bull? Antes considerada a quarta força do campeonato, o time austríaco teve um final de semana complicado em Suzuka. Max Verstappen finalmente teve uma largada decente e ainda nas primeiras voltas entrou na zona de pontuação, ultrapassando seu companheiro de equipe, Hadjar. Contudo, o neerlandês ficou a corrida inteira tendo a traseira da Alpine de Pierre Gasly à sua frente. Max chegou a ultrapassar o francês, mas logo levava o troco, por causa da bateria do motor Ford/Red Bull descarregar, aumentando a frustração de Verstappen, que após a corrida mencionou a palavra aposentadoria.

Isso não diminui a ótima corrida de Gasly (foto acima), que segurou Max a corrida inteira e marcou bons pontos para a Alpine, que se vê com apenas um piloto pontuando, pois Colapinto esteve o tempo todo longe dos pontos. Hadjar perdeu terreno com a entrada do SC e não pontuou, chegando a ser ultrapassado por Hulkenberg nas voltas finais. Quem se aproveitou bem da entrada do SC foram Liam Lawson e Esteban Ocon, que fecharam a zona de pontos, mesmo que bem longe de Verstappen.

A Audi largou com seus dois carros e viu seus dois pilotos receberem a bandeirada, mas dessa vez sem pontos para Bortoleto e Hulkenberg, mas precisando melhorar as largadas, assim como a Mercedes, o calcanhar-de-Aquiles da Audi. Lindblad chegou a andar na zona de pontuação, mas acabou fora dos pontos. Williams e Cadillac fizeram corridas anônimas, enquanto Fernando Alonso chegou ao fim da corrida, mesmo ainda sofrendo com vibrações. E sem gritar ‘F2 engine’ na casa da Honda…

Num final de semana em que a crise se instalou na F1 de vez, Andrea Kimi Antonelli vai encantando a F1 ao sobrepujar George Russell nesse momento, que precisa de respostas caso queira brigar pelo título. E até mesmo ficar na Mercedes, já que o inglês vive com o fantasma de Max Verstappen, que mesmo frustrado pelo novo regulamento, estaria mais feliz se estivesse vestindo preto nesse momento.

Pelos piores motivos (uma guerra sem sentido no Oriente Médio), a F1 terá uma parada de um mês que poderá ser bem proveitosa. As cenas dos carros perdendo potência e o grave acidente de Bearman mostraram que o novo regulamento, mesmo com a propulsão de ultrapassagens, está se mostrando um passo muito maior do que a perna e a F1 terá pouco tempo para se ajustar, até mesmo para evitar problemas potencialmente graves.

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

1 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    J. C. Viana,

    Regulamento a parte, que os dirigentes consigam logo resolver esse abacaxi , penso que GP do Japão foi a melhor corrida da temporada. Não foi uma corrida chata… A batida do Bergman de certa forma deu um grande tchan e por causa dela muito da história que parecia que seria contada, mudou. Típico daquela frase que carreras são carreras. É quando isso acontece muita cidade bom aparece.
    Nesse caso da corrida ter ficado interessante depois do pit stop. Tirando antonelli que sumiu na frente levantando uma bela poeira, vimos uma boa disputa entre Piastri, Leclerck, Russel, Noris e Hamilton ( mesmo ficando sem forças na parte final? É essa disputa achei legal.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

Deixe um comentário para Fernando Marques Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *