
Começo de março de 2026. Em meio a algum desânimo sobre o GP do Brasil da MotoGP em Goiânia – afinal de contas, eu não iria pra lá… – abro meu Instagram (coisa rara) e dou de cara com o seguinte recado em vídeo:
– Olá Brasil! Aqui é Freddie Spencer e estou muito ansioso para voltar e ver vocês em apenas algumas semanas! Durante a semana do Grande Prêmio, estarei em São Paulo e Goiânia e depois eu vou para o fim de semana da corrida.
Soou um alarme interno que beirava o desespero. Eu precisava encontrar alguma maneira de vê-lo em São Paulo. E precisaria ainda fazer alguns movimentos estratégicos a fim de levar algumas coisinhas comigo…
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Embaixador e coach da Royal Enfield, o lendário Fast Freddie Spencer estava a caminho do Brasil…
Bem-vindos a mais um texto não-linear escrito por mim. Cheio de vaivéns propositais, assim como foi a saga da jaqueta da Copersucar – da qual estou devendo uma sequência apropriada, pois muita coisa aconteceu nos últimos anos…
Esquece março de 2026. Volta comigo pra antevéspera do Natal 2025.
Nos meus estudos sobre capacetes de competição (que, entre outras coisas, resultou na coluna tripla sobre a história do icônico Bell Star), conheci muita gente legal e fiz boas amizades. Um dos amigos de jornada é um tremendo colecionador de capacetes de competição. Pensem em uma coleção de cair o queixo…
Por minha indicação, esse amigo colecionador acabou arrematando, em um leilão online, o capacete Bell de um piloto brasileiro de Indy. Um artigo lindo, raro, exclusivo e… autografado.
Como retribuição pela dica e contente pelo desfecho altamente positivo (afinal, eu entrei em contato com o piloto, que confirmou tratar-se de um capacete realmente usado em corridas), meu amigo, em plena semana de Natal, me deu um senhor presente – eu apenas precisaria ir a São Paulo buscá-lo, em data a combinar.
Em meio a tantos capacetes de automobilismo, ele possuía um modelo de moto muito especial, que eu já tinha visto (e elogiado) dois meses antes. Tal capacete era irmão direto do Arai GP-N de automobilismo, usado naqueles tempos por caras como Nigel Mansell, Keke Rosberg, Stefan Johansson, Gerhard Berger, entre outros.
Era um Arai Astro Super Vent 1985, nas cores de um dos pilotos de moto que mais admiro no mundo das duas rodas: Fast Freddie Spencer.
Começaram a entender por que bateu desespero em mim quando vi que o lendário Freddie Spencer estava a caminho do Brasil?
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Spencer, seu capacete Arai Astro e as motos dos títulos das 250cc e 500cc 1985
E aqui vem uma importante contextualização. Spencer era incrivelmente, espetacularmente, absurdamente rápido.
Ou existe outro predicado para alguém que começa nas motos aos quatro (!!!) anos e quando tinha 18 recém-completados, já derrotava campeões mundiais como Barry Sheene e Kenny Roberts, como em Brands Hatch 1980, no Transatlantic Trophy?
Quando Spencer, após brilhar nos Estados Unidos, se estabeleceu no Campeonato Mundial de Motovelocidade, tornou-se indubitavelmente realmente o ser humano mais rápido do mundo em duas rodas, com títulos mundiais das 500cc em 1983 e na fantástica jornada dupla de títulos das 250cc e 500cc em 1985… justamente o ano do referido capacete que eu acabara de ganhar.
Foram conquistas em máquinas que flertavam com o descontrole como talvez em nenhum outro momento do esporte. As 500cc 2T daquela época eram potentes, leves, brutais… e imperdoáveis: exigiam não menos que a perfeição se você quisesse realmente ser rápido. E Freddie foi simplesmente perfeito, sublime, nos seus anos de título.
Não fossem as limitações físicas a partir de 1986, ele certamente teria em seu caminho muito mais vitórias e títulos, pois em termos de talento e velocidade, está rigorosamente no mesmo nível dos mais bem sucedidos pilotos que integram o panteão dos multicampeões, como Hailwood, Agostini, Rossi e Márquez.
Ninguém, absolutamente ninguém incorpora Fast no nome sem a devida contrapartida.

1983: Primeiro título mundial das 500cc, aos 21 anos de idade
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Muitos conflitos de agenda depois, voltamos a Março de 2026. Eu precisava urgentemente saber qual seria o evento de São Paulo a contar com Spencer e, óbvio, precisava buscar o capacete.
A primeira parte, quem resolveu foi o Roberto Agresti, nosso colega de GPTotal – com quem batemos um ótimo papo em nosso canal. Ele não apenas tinha as informações (18 de março, quarta-feira, em um Hotel próximo à Av. Paulista) como já tinha passado meu nome para a assessoria do evento – a sensacional Thaís Germano. Não se fazem mais caras como ele…
A segunda parte foi buscar o capacete, o que aconteceu dia 14 de Março, um sábado, e resultou em um ótimo pretexto para pegar estrada e realizar um passeio muito agradável. Não apenas preparei o capacete, como também imprimi um retrato e dois pôsteres para levar junto.

O evento da Royal Enfield apresentou as quatro pilotos brasileiras do programa BTR 2026, do qual Spencer é coach: Karina Simões, Tati Paze, Sany Max e Juliana Chile
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O evento com presença do Fast Freddie era da Royal Enfield, marca muito tradicional que, desde que desembarcou no Brasil, tem mostrado crescimento significativo, com motos que realmente caíram no gosto dos brasileiros.
Spencer não é apenas um embaixador da marca, como figura fundamental do programa Built.Train.Race de formação de mulheres pilotos. Elas literalmente constroem a própria moto (transformando uma GT 650 de rua em um modelo de competição), treinam com ninguém menos que Freddie como coach, e depois vão para as corridas, dentro do calendário da MotoAmerica. Ou seja, um programa de sonho para qualquer entusiasta.
A coletiva apresentou as quatro brasileiras integrantes do programa: Sany Max e Juliana Chile acabavam de se juntar às já selecionadas de 2025, Karina Simões e Tati Paze. Todas embarcariam para os Estados Unidos após irem com Freddie para Goiânia, para o início das atividades 2026 do BTR, que terá sua primeira corrida no calendário no fim de semana de 19 de Abril, em Road Atlanta.
Assim que abriram para as perguntas, fiz questão de parabenizar cada uma delas e finalmente me dirigi ao Fast Freddie, a fim de resolver um mistério prestes a completar 40 anos…

“Freddie, por que você não largou no GP de 1987? Tenho provas de que você estava lá…”
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Volta para 1987. Era a primeira visita do Mundial ao Brasil. Freddie Spencer não estava mais na equipe Rothmans Honda, mas contava com uma linda Honda de fábrica em vermelho e branco. Ele havia se acidentado duas etapas antes, em San Marino, pulou a etapa de Portugal para se recuperar e estava pronto para explorar o novo circuito de Goiânia. Treinou, se qualificou em uma sólida 7ª colocação e… não largou. Mistério.
Por muitos anos, circulou a história que Spencer estava tendo problemas de visão, sofrendo com o ar seco do nosso Planalto Central, incluindo histórias que envolviam lentes de contato. Diante da falta de respostas concretas, finalmente perguntei sobre a ausência dele naquela corrida. E a resposta foi surpreendente: intoxicação alimentar.
Isso rendeu uma dobradinha com o xará e amigão Lucas Carioli, que publicou a “novidade” de 39 anos atrás em uma publicação de seu site, o Notícias Motociclísticas…
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Fim da coletiva, Freddie simpaticamente se rendeu à inevitável tietagem e atendeu aos fãs, com bate-papo e distribuição de autógrafos. Ele estava posicionado em uma mesinha tipo bistrô, assinando cartões, quando finalmente pude chamá-lo. “Hey Freddie, tenho uma surpresa aqui…”.
Usei uma providencial mesinha ao lado para posicionar o retrato, os pôsteres… e o capacete, que durante a coletiva, ele ainda não tinha visto.



“Freddie Spencer – 1985 250 / 500 World Champion”
Ver um ídolo abrir um sorriso no rosto daquele jeito, ao ver aquela peça com quatro décadas de existência, não tem preço. Assim como não tem preço ouvir do próprio Freddie “você sabe muito bem o quanto este capacete traz de boas memórias para mim”.
Voltei para casa com as fotos assinadas, um capacete que agora tem história própria e… a promessa de uma entrevista exclusiva em nosso canal de Youtube.
Vamos lá, Fast Freddie?
Abração!
Lucas Giavoni
2 Comments
Putz lendário
Lucas,
O que eu posso falar ?
Luxo!!!
Muito feliz por vc por esse momento certamente inesquecível .
Vc mais que merece
Fernando Marques
Niterói RJ