Max, Max, Max, Super Max…

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Como o amigo leitor já deve ter percebido, estou fugindo daqueles resumos tradicionais das corridas. Afinal, resumo de corrida tem aos montes em sites de notícias, que correm loucamente para redigi-los assim que baixa o pano quadriculado. Tem até o resumão em vídeo, que a própria Liberty faz com competência.

Como aqui é um site de análise, vou concentrar meu texto em formatos alternativos. Tenho devorado o conteúdo do canal História & Esporte do Youtube, do meu maninho Marcel Pilatti. Ele já convidou muitos dos nossos colegas colunistas, incluindo este escriba aqui.

Mas uma das modalidades de vídeo do canal que mais gostei foi o de Perguntas & Respostas, em que o Marcel compila as perguntas dos espectadores e manda bala em sequência.

Pois é o que vou fazer com a coluna desta etapa da Áustria 2021, com uma diferença: eu mesmo pensei nas perguntas. Vamos lá:

 

Que tal esse GP da Áustria de 2021?

Não propriamente deleitoso pra assistir, mas muito bom em termos de campeonato. E o “não deleitoso” nem é pela falta de “emoção” (seja lá o que essa palavra signifique pra você), é mais pela F1 da atualidade me irritar um bocado com seu processo desenfreado e emalucado de judicialização – assunto pra mais adiante.

Max Verstappen conquistou seu primeiro Grand Slam (pole, vitória de ponta a ponta e volta mais rápida), mostrando pela primeira vez domínio total em uma prova de F1. E o fez com a naturalidade típica de um campeão.

 

O que mudou de um GP pro outro, já que a etapa anterior também foi na Áustria?

A primeira corrida deu às equipes uma incerteza quanto ao número de pits a fazer, com táticas variando entre uma ou duas paradas. Para essa segunda corrida, os times tiveram a certeza que largar de médios (amarelos) e trocar apenas uma vez para os duros (brancos) era a tática mais acertada.

Pra Red Bull isso foi tão acertado que Max abriu o suficiente para fazer um pit a mais, calçar novamente os pneus brancos e arrasar na volta mais rápida. O tempo de 1:06.200 foi destruidor, nada menos que um segundo e meio mais rápido que a segunda melhor marca do dia, de Carlos Sainz, com 1:07.762. Apenas para comparar, a volta mais rápida do GP anterior foi de Hamilton, com 1:07.058 – não chega nem perto da marca de Verstappen.

O espanhol da Ferrari, por sinal, fez tática diferente: largou de pneus brancos e trocou para amarelos. Isso fez sua Ferrari ficar mais esperta no stint final e lhe garantir um bom quinto lugar, defendendo-se de um Sergio Pérez que certamente tinha mais carro.

O que mudou também foi a pressão em Lewis Hamilton. Ele sentiu o golpe de ter perdido semana passada e cometeu erros na qualificação e também na corrida, tanto que danificou o assoalho do carro e teve uma performance limitada. Um quarto lugar ainda saiu barato.

A questão é que temos um cenário genuinamente novo, em que Hamilton não apenas volta a ter realmente um rival forte para a disputa do título, só que desta vez fora da equipe.

À época em que Hamilton estava ganhando tudo (e nem faz tanto tempo assim), os apressadinhos de plantão já queriam saber o tamanho de Hamilton na História da F1. Minha resposta sempre foi de que isso não podia ser feito no momento, era preciso que ele finalmente encerrasse a carreira para podermos medir com um distanciamento devido. E mais: sempre bati na tecla que estávamos vendo Lewis no topo da montanha e era preciso ver como seria se alguém tivesse disposto a fazê-lo descer.

É exatamente isso que está acontecendo agora, meus amiguinhos com ejaculação precoce.

 

A punição de grid do Vettel foi justa?

Recapitulando: Alonso foi atrapalhado por Vettel na Q2 do treino e acabou eliminado precocemente do qualify, o que também viria a prejudicar sua corrida, já que tinha potencial para largar mais adiante.

O problema é que Vettel é o menos culpado dessa patifaria toda. Havia vários carros lentos à sua frente, esperando o momento certo de estilingar e abrir volta rápida. Alonso vinha voando quando, nas últimas curvas, deu de cara com essa turma. E Vettel era o último deles.

Exatamente: Vettel não era quem determinava o ritmo, mas acabou sendo o único punido, sem ter culpa alguma.

Depois vão dizer que eu pego pesado quando digo que comissários de F1 atuais são um bando de estúpidos que não possuem a menor noção de senso de justiça.

 

O que achou do Safety Car logo na largada, pelo incidente do Ocon?

Ah, fiquei bastante puto. Xinguei mesmo, descarreguei o caminhão de melancia.

Mais uma situação em que o senhor Michael Masi faz o fã de Fórmula 1 de idiota e coloca o SC na pista. Afinal, Ocon parou a MEIO METRO de uma reentrância do guard-rail: era só empurrar um pouquinho, manobrar, e puxar ele para a região segura.

Masi, por favor, pare de ser esse pavão constrangedor.

 

Já que Masi foi espinafrado aqui, e esse monte de punições?

Claro que não dá pra liberar geral como na Nascar, onde os toques e os revides acontecem direto. Primeiro porque é mais fácil “encontrar” quem te sacaneou na pista na modalidade americana, e em segundo (e principalmente), estamos falando de stock cars com carroceria fechada e que permitem empurrões e esfregões – e como diziam no Dias de Trovão, rubbin’, son, is racin’.

Tudo está judicializado demais. Cansa ter que esperar decisões de burocratas de cabelos brancos pra saber se o lance está valendo ou se haverá punições. Mas novamente bato na tecla de senso de justiça e também de interpretação de “incidente de corrida”.

Como se não bastasse, ainda há o problema das áreas de escape asfaltadas, que abrem um mundo de interpretações em que Michael Masi tem seu palco para brilhar. Não há como não ficar aborrecido.

A preliminar da Fórmula 3 na Áustria foi absolutamente caótica, com um monte de tempos deletados na qualificação e uma Bateria 1 em que houve nada menos que 11 punições – que, claro, tiveram consequência para a formação de grid da Bateria 2. O que era pra ser apenas um fim de semana normal com carros de aspirantes à F1 correndo virou um emaranhado de papéis voando para todos os lados.

É como se Masi fosse o carimbador maluco, disposto a burocratizar até o café da manhã dos pilotos.

 

Você acha que Max entrou na cabeça de Hamilton?

Vou responder com as palavras do meu amigo Marcelo Barroso, um dos superfãs do GPTo: ele entrou na cabeça, montou um apê e todo dia, às 5h da manhã, liga uma serra Makita na mente do inglês.

Sempre duvidei desse papo de “maturidade” do Hamilton. Ele se aprimorou na pilotagem, mas não no sentido de amadurecer como piloto. Depois que ele foi derrotado por Nico Rosberg em 2016, não teve grandes ameaças, nem fora, muito menos dentro da equipe.

 

Qual é a situação da Mercedes?

Bom, não estão desesperados, arrancando os cabelos, mas já tinham se esquecido como é comer poeira e estão reaprendendo a lidar com isso. Não consigo dizer categoricamente que a Red Bull tem um carro mais rápido, mas sim que o conjunto Red Bull + Verstappen é melhor que o conjunto Mercedes + Hamilton neste momento. Essa noção ainda estava meio turva nas primeiras corridas, mas agora se torna transparente.

A Mercedes está em situação de cobertor curto, o mesmo cobertor que assombrou todos os outros concorrentes nos últimos 7 anos de Era Híbrida: investir em atualizações ou jogar a toalha e concentrar fogo no próximo carro?

Toto Wolff já cravou que a Mercedes estaria disposta a jogar a toalha. Claro que pode (e deve) ser um blefe bem sem-vergonha, mas isso faz parte do enfadonho jornalismo declaratório, quem ainda não está acostumado a isso, por favor, acostume-se.

O certo é que está cada vez mais difícil investir em um carro de 2021 não apenas pelas regras técnicas mudarem radicalmente pra 2022, como pelo teto de gastos. A diferença entre a premiação de campeão e de segundo lugar foi de “apenas” 8 milhões de dólares em 2020 (Mercedes ganhou 124mi, Red Bull ganhou 116mi).

No momento, o placar é 286 a 242 em favor da Red Bull.

 

E esse enrosco do Kimi com o Vettel no finalzinho?

A gente adora o Kimi, mas tem que admitir que ele anda um pouco mais descuidado que de costume. Já tinha se enroscado como o próprio companheiro Giovinazzi porque estava distraído com o painel do carro, e agora tem esse enrosco do final – que, por sinal, fez com que OITO pilotos tivessem que comparecer à torre e dar explicações para o pavão Masi por “não respeitarem bandeiras amarelas”.

E nessa inquisição, Nicholas Latifi e Nikita Mazepin acabaram tomando 30s de punição, além do próprio Kimi ter tomado seus 20s por causar a colisão.

Mas a parte realmente mais asquerosa é que George Russell precisou dar explicações a Masi sobre supostas “freadas tardias” em sua disputa de 10º lugar com Fernando Alonso. Difícil ter sangue frio o suficiente e não mandar o famigerado inquisitor ir chifrar barranco.

Some-se a isso punições de corrida para Pérez (duas), Sainz, Norris, Stroll e Tsunoda (duas) e eu sinceramente não sei onde a gente vai parar com tanta interferência.

 

Já que falou de Russell, qualé que é a do cara?

Parece realmente ser um piloto com bastante potencial, e sua participação ano passado com a Mercedes no Bahrein foi digno de nota. Suas tentativas de conseguir o ansiado primeiro ponto da carreira já tem a solidariedade de praticamente todo o circo – tanto que Fernando Alonso, que lhe tomou a 10ª posição, foi consolá-lo após a bandeirada.

Ele tem feito grandes treinos qualificatórios, ao mesmo tempo em que sabemos que a Williams tem o segundo pior carro do grid em ritmo de corrida.

Mas o que realmente pega é o lobby lamentável da imprensa britânica, cada vez mais pacheca nesse assunto, e com aval da Liberty, para inflar o balão de Russell. É como se a mídia britânica não cobrisse Russell, mas sim fosse sua assessoria de imprensa, com objetivo claro de colocá-lo na Mercedes ano que vem no lugar de Valtteri Bottas.

A questão é que nem precisava de todo esse pachequismo baixo. O próprio Bottas este ano não está conseguindo dar motivos para a Mercedes mantê-lo para 2022.

 

E o Lando Norris, que tal?

Esse sim já deu mais provas de potencial que o próprio Russell – claro, por estar com muito mais equipamento. Mas já começam a tratá-lo como o futuro próximo campeão britânico. Tem sido rápido e com uma consistência assombrosa, mesmo com tão pouca idade. Tenho uma leve impressão que já estão falando mais de Norris que de Hamilton…

 

Por que Ricciardo está tomando uma surra tão grande do Norris?

Acho que finalmente descobrimos o ponto fraco do australiano sorridente: as frenagens. Em seus tempos de Red Bull, ele certamente tinha um carro mais voltado às suas características. Ele era conhecido por ultrapassagens com frenagens muito precisas.

Com a McLaren, Ricciardo dá impressão que não confia nos freios do carro, pisa no pedal antes e… perde tempo para Norris.

Mas ele realmente mostra que está se esforçando para melhorar. O pensamento tem que ser mais ou menos como o do Sergio Pérez: se o carro é manhoso e diferente do meu estilo, eu é que tenho que me adaptá-lo a ele.

 

O que achou do visual do Hamilton nesse fim de semana?

Bom, sou um cara de matriz liberal, cada um veste o que quer. Só não espere que eu goste…

O que eu realmente acho? Bom, acho que quem veste um treco desses está desesperadamente querendo chamar atenção e holofotes para si. O problema é que um piloto de Fórmula 1 deve chamar atenção com sua pilotagem, não pelo seu gosto de vestuário.

Hamilton teve uma primeira disputa com Norris no começo da corrida e, na base do politicamente correto, elogiou o rival pelo rádio após ultrapassá-lo. Fiquei esperando (sentado) o mesmo elogio quando Norris passou por ele como um trator no estágio seguinte da corrida…

 

Você confia no serviço meteorológico da Áustria?

Nem um pouquinho. Nas duas semanas de GP falou-se que ia chover. Choveu tanto quanto no Atacama…

 

Max, Max, Max, Super Max… Que raios de título é esse de coluna, rapá?

É o hit do momento. Três holandeses ligeiramente tiozões, intitulados “Pitstop Boys”, bolaram, ainda em 2016, uma música em homenagem ao Max – que agora explodiu como as arquibancadas cobertas de laranja em todos os GPs.

E vou dizer, a música ficou boa, é dançante e divertida. E cantada, claro, em holandês, língua que parece um pastiche de inglês e alemão ao mesmo tempo, mas que não é, naturalmente, nenhuma das duas. Confiram:

Ah, detalhe: Max tem música de homenagem. Hamilton não tem. Mais um detalhe: na data dessa coluna, a música já tinha 2,2 milhões de visualizações no Youtube.

 

Cedo pra falar em Max Campeão?

Cedo sim, mas só o fato de começar a surgir o tema “Max Campeão” já é um indicativo forte de que poderemos estar diante de um piloto que tem todas as credenciais para isso, um talento que foi notado desde as suas primeiras aparições num carro de F1.

Max é aquele caso raro de piloto que já nasce com estirpe de campeão. Reúne um pacote completo.

Não sei se esse formato agradou. Só sei que ficou mais fácil para trazer os pontos principais da corrida.

Abração!

 

Lucas Giavoni

 

P.S.: Aproveito para desejar uma rápida recuperação ao nosso amigo Flaviz Guerra, que machucou o dedo na mão e me escalou como seu substituto nessa coluna.

Ou seja, se você não gostou da coluna, o culpado é ELE.

Ótima recuperação, Flaviz!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1, da Indy 500 e de Le Mans.

4 Comments

  1. wladimir disse:

    Boa noite, Lucas.
    Os comissários da F1 são estúpidos ou seguem ordens de estúpidos chamados Derek Warwick e Pascal Fabre? Esteban é um cabeça Ocon?
    Há muito espero que Max Verstappen resolvesse administrar melhor seu talento e se tornasse real candidato ao título mas esta nova vitória na casa de sua equipe foi tão arrasadora que me fez lembrar grand chelems de campeões lendários como Lauda, Prost, Piquet, Senna,…
    Começou com a pole e terminou 17s a frente de Bottas que só ficou a frente de Lando Norris graças à punição de 5s dada ao inglês. Hamilton sofreu outra derrota e o placar de vitórias esta 5 a 3 para Max. Só lamento que Max, mesmo sendo campeão este ano, não pode tirar o título de campeão
    e pole mais jovem que ainda é de Vettel mas ainda é o mais jovem vencedor e mais jovem a fazer a volta mais rápida em uma corrida. Não sei se Charles Russell, que pode despontar como revelação do ano, vai para a Mercedes mas vejo Bottas ser bottinado a qualquer momento.

  2. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    1) Gostei do formato da sua coluna …
    2) Não gostei a roupa do Hamilton, deve ter pegado emprestado com Neymar …
    3) Não gostei da musica do Max … musiquinha chata … ainda mais com 3 Patetas cantando
    4) Não sei se é cedo para dizer se Max é o campeão … agora se for, a temporada de 2021 que prometia histórica em razão da disputa do titulo entre Hamilton x Verstappen, irá pelo ralo … pelo que parece a Formula 1 tem uma nova categoria chamada RBR/Honda … o que nos impede de ver esta disputa palmo a palmo nas pistas, como deu a entender as primeiras provas da temporada …
    5) Este regulamento ” a la NASCAR, está lascando a Formula 1″ … o que não falta são interferências e muito chororô … o que deixa muitas saudades de quando o automobilismo era verdadeiramente raiz …
    6) Não sei por que a batida entre Raikkonen e Vettel, pareceu pra mim barbeiragem de ambos os pilotos … e não propriamente um erro do Raikkonen … e sim uma consequência de que não cabem dois corpos num mesmo espaço …
    7) A geração inglesa de pilotos na Formula 1 vive a sua melhor fase desde que a Formula 1 existe … Hamilton na condição de maior piloto da história com Lando Norris e George Russel mostrando que podem ser os maiores rivais do Max … abra o olho Charles Le Clerck, se bobear vai ficar pra trás comendo poeira …
    8) Pra terminar eu gostei de ver o GP da Austria, foi bem mais animado que o GP da Estiria

    Continuo na torcida pelo Hamilton

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Carlos Chiesa disse:

    O Flaviz vai ter que se explicar com o Michael Masi?

  4. Flaviz disse:

    Eu adorei o formato!
    Obrigado Lucas!!!

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