O campeão da FIA

Vencedor Moral – 2021
09/12/2021
“É ele!”
16/12/2021
Max Campeão

Olá, amigos!

Chegamos ao fim de mais um campeonato de F1, o septuagésimo segundo na história, um dos mais disputados de todos os tempos, ainda que somente dois pilotos tivessem realmente chance de vencer. Um campeonato onde a imbatível Mercedes se viu com as costas na parede ao se deparar com a extrema velocidade da Red Bull. Lewis Hamilton não teve a relativa vida fácil dos anos anteriores, mas como o próprio disse, ele sempre prefere a batalha. O que talvez Lewis e a Mercedes não esperavam é que a batalha não seria somente na pista, e muito menos com o respeito mútuo.

Com a chance de provar que a Mercedes poderia ser vencida, a equipe liderada por Christian Horner e Helmut Marko, sem esquecer do maior projetista de todos os tempos Adrian Newey, apostou suas fichas em uma dupla muita rápida e experiente, com a chegada de Sergio Perez para ser o escudeiro de Max Verstappen.

A Mercedes não promoveu mudanças muito grandes e entrou no campeonato confiando que seu carro permaneceria o melhor de todo o grid, sem esquecer de trabalhar no novo carro de 2022. Talvez a equipe tenha acreditado que não teria muito trabalho para vencer mais um campeonato, já que em 2020 dominou de forma categórica, com Hamilton levando o título com três provas de antecedência, o sétimo de sua carreira.

Max Verstappen começou o ano bem, cravando a pole position na primeira prova do ano, mas a vitória ficou com Hamilton, mesmo que Max tenha conseguido a ultrapassagem por fora da pista, sendo obrigado a devolver a posição. Na segunda prova, o cenário se inverteu e o piloto da Red Bull somou os pontos da vitória. Hamilton voltou ao controle ao vencer as duas provas seguintes, mas a Red Bull venceu as cinco provas seguintes, sendo quatro com Max e uma com Perez. O sinal de alerta na equipe de Toto Wolff. A equipe que previa pouco desenvolvimento para seu carro em 2021, pensando já no novo regulamento de 2022 se viu obrigada e dividir esforços na fábrica para garantir uma disputa na pista.

Hamilton estava levando o carro no braço e uma prova disso é a ausência de sequer uma vitória de Bottas até a décima sexta prova do ano, na Turquia.

Apesar do equilíbrio de performance dos carros, era evidente até o meio da temporada que a Red Bull estava com vantagem. Seu conceito aerodinâmico trazia vantagem nas curvas de alta e seu motor Honda evoluiu muito, dando melhor tração e atingindo uma velocidade final muito boa. Em muitas provas, particularmente na Holanda, a impressão era de que a Red Bull anda sobre trilhos. Nenhuma saída de traseira, ou de frente. A Mercedes ainda tinha um motor muito forte, mas nas câmeras onboard era possível ver Hamilton brigando com o carro.

O campeonato seria maravilhoso se a disputa permanecesse na pista, com pilotos disputando as posições de forma leal e respeitosa, mas infelizmente não foi isso que vimos. Relembrando os momentos mais tristes das disputas entre Senna e Prost (89 e 90), tivemos um dos campeonatos com mais toques e batidas entre os postulantes ao título em todos os tempos. Por diversas vezes Hamilton precisou desviar seu carro de um ataque kamikaze de Verstappen e isso gerou polêmicas constantes.

O show de horror foi ainda pior com Christian Horner e Helmut Marko esbravejando em cada entrevista sobre como Hamilton era favorecido pela FIA, nos rádios pavorosos de seu time negociando punições com Michael Masi, o diretor de corridas da F1 desde o falecimento de Charlie Whiting em 2019.

Michael Mais merece um parágrafo dele, mas não por bons motivos. Falta de consistência, interpretações dúbias, negociação com equipes por posição de relargada, algo que me deixa de cabelo em pé só de lembrar, critérios diferentes a cada corrida, em resumo, um show de horror. A falta de um direcionamento claro e decisões contundentes abriu margem para manobras arriscadas, discussões políticas e uma infindável chuva de reclamações de todos os lados. Horner reclamou, Toto reclamou, até Alonso reclamou.

Aplicar punições que não punem de verdade alguém não faz sentido nenhum. Se o piloto não perder posições e, por consequência, pontos, não vai sentir a dor de arcar com seus atos. Chega a ser ridículo, mas é como educar uma criança. Se não há uma perda de algo que ela valoriza, como ela vai aprender?

Outro ponto extremamente baixo do ano foi a não corrida em Spa, devido a chuva. Considerar uma prova com três voltas atrás de um safety car como uma corrida disputada é uma piada de muito mal gosto para qualquer um.

Em uma corrida onde os postulantes chegaram empatados no número de pontos, Verstappen fez uma volta absurda no Q3 e garantiu a pole, com Hamilton largando ao seu lado. No momento do apagar das luzes vermelhas, Hamilton pulou na frente e não deu chance para Verstappen reagir, mas ainda na primeira volta tivemos mais um ataque suicida de Max, jogando o carro para cima de Hamilton de forma descarada, obrigando o inglês a sair da pista. Claro que a Red Bull reclamou no rádio, mas felizmente não houve interferência da FIA nesse caso.

A Mercedes tinha mais pace e estava abrindo aos poucos sua distância, liderando tranquilamente em todos os momentos. Após as primeiras paradas, Perez permaneceu na pista e fez um trabalho brilhante ao segurar Hamilton, que vinha mais rápido e de pneus novos. Só nessa manobra, Max conseguiu tirar sete segundos do rival.

Após muitas voltas e a Red Bull não tendo ação contra um tranquilo Hamilton, o imprevisto aconteceu. Em uma disputa pela última posição, Latifi perdeu o controle do carro e acertou o muro, sendo necessário a entrada do safety car. A RBR rapidamente chamou Max para colocar pneus novos e a Mercedes teve medo de perder a posição de pista. Parecia tudo bem, já que havia cinco carros entre Hamilton e Verstappen. Faltando apenas cinco voltas, era somente ir até o fim e vencer a prova.

Estava claro que Hamilton iria ganhar o campeonato pois tinha ritmo melhor do que Verstappen, com onze segundos de vantagem antes da entrada do carro de segurança.
Mandar o safety car para a pista foi a decisão acertada no momento da batida de Latifi, porém liberar somente os carros que estavam entre Hamilton e Max foi uma manobra clara e descarada de promover uma corrida de uma volta, com vantagem para a RBR que tinha pneus novos frente os com mais de trinta voltas de Hamilton. Pergunto o porquê de não terem deixado todos os carros darem a volta completa, mas apenas os que estavam entre os postulantes ao título. O fim da prova foi o que a FIA esperava, Max atacou Hamilton que simplesmente não teve ação para reagir, dado o desgaste dos pneus.

Lewis Hamilton fez uma das melhores temporadas de sua carreira com corridas impressionantes como em Silverstone, Brasil, Catar e Arábia Saudita, mas a verdade é que faltou peitar Verstappen e impor respeito sobre os limites das disputas roda a roda. A Mercedes, ainda que tenha sido campeã de construtores, deveu bastante em termos de tática de corrida. Tivemos provas onde seus carros eram melhores e os resultados não vieram por pura ineficiência de leitura da corrida, algo que a Red Bull fez com maestria.

Max Verstappen fez corridas impressionantes e pouco errou, mas suas táticas de jogar o carro em Hamilton não me permitem ter o mesmo respeito em suas vitórias controversas. Fora isso, suas declarações arrogantes combinam com seu estilo dentro da pista. Dizer que não precisa de conselhos de ninguém (leia-se Nelson Piquet, seu sogro) e que venceria o campeonato muito antes se estivesse guiando a Mercedes é achar que está acima de qualquer um. O talento deveria ser o bastante para vencer uma disputa na pista, mas qualquer um que já correu de algo na vida sabe que existe um limite até onde se deve ir, e Max ultrapassou esse limite diversas vezes.

Para a FIA o resultado foi ótimo. Sangue novo, um jovem, uma mudança para sair da mesmice de ser sempre o mesmo vencedor. O campeão do ano foi o que melhor que ela poderia querer, mas fomos privados de ver o melhor piloto conseguir o maior feito da categoria.

Para encerrar, destaco a melhora significativa da McLaren, vencendo prova e sendo competitiva no início do ano, a melhora da Ferrari durante o campeonato, a vitória de Ocon, um excelente piloto que soube aproveitar o momento, a volta do público em peso nos EUA (efeito Netflix?), a volta de Interlagos em uma corrida emocionante e uma transmissão muito melhor da Band em relação a mesmice da enfadonha Globo.

Que o próximo ano, com novo regulamento, traga mais disputas emocionantes, mas dessa vez sem ouvirmos tantos rádios da FIA.

Abraços!
Rafael Mansano

Rafael Mansano
Rafael Mansano
Viciado em F1 desde pequeno, piloto de kart amador e torcedor de pilotos excepcionais.

5 Comments

  1. Thiago Rocha disse:

    Adorei o ”Campeão da FIA”, exatamente isto. Tirem a vitória da Bélgica e a Marmelada de Abu Dhabi e teremos o verdadeiro campeão de pilotos. Abraços e bom final de ano.

  2. MarcioD disse:

    Apesar de eu não torcer por ele, devido a traços da sua personalidade e da forma excessivamente agressiva usada para defender e conquistar posições, Max fez por merecer o titulo desse ano. Além da determinante pontuação maior, teve mais vitorias, poles, pódios, empatando em VMR com Hamilton.

    A questão toda é que para se chegar a esse resultado final no campeonato houve uma interferência catastrófica do diretor Michael Masi em varias provas, notadamente na ultima, o que vem tirar algo do brilho da conquista de Max.

    Num comentário anterior meu, no post “Que Noite”, falei do interesse financeiro e midiático que representava uma vitória de Max no campeonato de F1 para a FIA/ Liberty.

    Acho que nos momentos finais da ultima prova a Mercedes bobeou em termos de estratégia, onde nesse caso o que se faz é marcar o adversário, copiando suas atitudes, no caso colocação de pneus macios, e, por conseguinte tentar anula-as.

    Achei o Hamilton pouco combativo, entregando facilmente sua posição de líder no final, em um momento em que o campeonato estava em jogo. Por que não jogar duro num momento como esse, fazendo Max beber do próprio veneno?
    Já que ele estava de pneus duros gastos e Max com pneus macios novos, uma situação totalmente desigual, e se tratava só de mais uma volta, era necessário ser extremamente agressivo na defesa de posição. Era tudo ou nada.

    Perez defendeu sua posição contra Hamilton também em condições inferiores com unhas e dentes.

    Acredito que não vai dar em nada essa questão de protestos da Mercedes

    Uma vantagem que achei desse titulo de Max é quebrar essa sequencia de títulos de Hamilton.
    Não vejo graça alguma nesses campeonatos sequenciais de pilotos que pipocaram no automobilismo notadamente a partir dos anos 2000 com Schumacher, Vettel e Hamilton na F1, Jimmie Johnson na Nascar, Loeb e Ogier no Rallye.

    Acho muito mais interessante um Stewart, por exemplo, com 3 títulos não sequenciais, isso mostra que o sujeito enfrentou uma certa dificuldade para conseguir seus objetivos.
    De 61 a 85 não houve títulos sequenciais de pilotos na F1, algo impensável nos dias atuais e que as gerações mais novas custam a acreditar que aconteceu.

  3. Fernando Marques disse:

    Rafael,

    gostei muito do que você escreveu na sua coluna … mas vou deixar aqui a minha opinião:

    1) O Max Verstappen e a RBR fizeram uma grande temporada … acredito no quanto eles trabalharam para quebrar a duradoura hegemonia da Mercedes, pelo menos em parte, já que que não levaram o Mundial de Construtores.

    2) Eu penso também que Hamilton/Mercedes fizeram uma temporada excelente, tiveram que sair da zona de conforto que tinha e reagir … eles conseguiram isso …

    3) Tanto Verstappen quanto Hamilton mereciam o titulo desta temporada, apesar da minha torcida pelo Hamilton … deu Verstappen …

    4) Mas o final da forma como aconteceu, houve “manipulação sim” … o acidente do Latife não foi uma farsa … mas o que aconteceu depois parece ficar claro que a FIA não queria ver Hamilton pela oitava vez campeão …

    5) A Formula 1 segue a passos longos e firmes para ficar igual a NASCAR em termos de regulamento … essa situação de devolver voltas atrasadas para reagrupar o grid e fazer uma nova largada pode ser muito bom para torcedores americanos ver, mas fere totalmente a cultura da Formula 1 e do automobilismo …

    6) Duas situações claras: se Latife não tivesse batido, Verstappen alcançaria o Hamilton? … Acho que não teria tempo pra isso … estava 11 segundos atrás e restavam 4 ou 5 voltas para acabar a corrida … se o a relargada fosse dada sem que os carros que estavam entre Hamilton e Verstappen fossem autorizados a recuperar a volta atrasada Verstappen alcançaria Hamilton em apenas uma volta? … Acho que não também … afinal tinham 5 carros entre eles … não teria tempo … talvez em duas ou três voltas sim … tudo isso na ultima volta não …

    5) Querido Gus … o Hamilton não deu nenhuma chance ao Verstappen no decorrer de toda a corrida … sempre esteve numa margem boa e segura na frente … numa temporada onde os dois decidiram o campeonato na ultima corrida, o que mais queríamos era uma corrida limpa … e infelizmente houve uma interferência vinda de fora que não deveria ocorrer … a utilização das asas abertas para ultrapassar é uma farsa … essa de reagrupar e formar um novo grid para uma relargada é outra farsa … não gosto destes regulamentos usados na NASCAR e cada vez mais eles estão sendo inseridos na Formula 1… daí discordar da sua opinião com todo respeito …

    6) Numa Formula 1 tão tecnológica, é inadmissível que a bandeira amarela virtual não tenha sido acionada …

    7) Por outro lado, reconheço como interessante para a Formula 1 o titulo conquistado pelo Vertappen … bom pois existe um adversário a altura da Mercedes … mas repito o Vertappen apesar de excelente está muitos degraus abaixo do Hamilton em termos de pilotagem …

    8) Outra situação interessante é que Hamilton sentiu na pele a mesma coisa que Felipe Massa em 2008 quando perdeu o título na ultima volta … corridas são corridas e o acidente do Latife é prova disso … arruinou a corrida do Hamilton …

    9) Tinha dito em outras colunas que torceria pra Verstappen ser campeão em 2022, em favor de torcer pro Hamilton ser octa em 2021 … queria ver esta marca batida … assim sendo minha torcda é novamente do Hamilton em 2022 …

    10 Ou será que teremos um tapetão ainda esse ano? …

    Fernando Marques
    Ntierói RJ

  4. Gus disse:

    “Campeão da FIA” é um tanto desrespeitoso com o que Max fez nas pistas, levando tanto o carro nas costas como Lewis fez (o terceiro colocado no campeonato, não foi o Checo…) – e essa FIA que tanto ajudou o Max, também aplicou 10 segundos de penalidade em Hamilton, dentro da pista de Silverstone, quando este teve um carro que chegou 30 segundos antes que o segundo colocado…
    Acabar o campeonato em SC? Não…um campeonato nunca acaba na derradeira prova, apesar de parecer o contrário em 2021.

    • Gus disse:

      Acho que não podemos interpretar o final do campeonato de 2021 sob o signo de “interferência de fora”; o único erro do diretor de prova não foi ter autorizado imediatamente a formação de todo o grid original, passando não apenas os cinco carros, mas todo o grupo de uma vez com o Safety em pista, assim que ele entrou. A demora e a hesitação que soou estranho, mas tecnicamente, a solução teria que ser dada antes e ninguém iria sequer questionar, já que acidentes acontecem e não são interferências de fora.
      Hamilton ia ganhar, é claro, mas a corrida só acaba com a bandeirada final…Max também quase ganhou uma corrida (e com folga) até o pneu estourar, essas coisas acontecem. O grande erro ali no final, foi a falta de pulso do diretor de prova, seguindo a cartilha normal, de imediato ele teria reposicionado todo o grid como deveria ser, sem atrasos.

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