Papéis invertidos

Murphy em Interlagos 1
24/06/2021
Murphy em Interlagos 2
01/07/2021

Nos últimos sete anos, Lewis Hamilton esteve acostumado a estar por cima em todas as disputas pelo campeonato, tendo o melhor carro da F1 nas suas habilidosas mãos. De forma geral, o inglês esteve em disputas internas contra seus dois companheiros de equipe nesse período, talvez com exceção de 2017 e 2018, quando houve uma ameaça da Ferrari, mas Sebastian Vettel nunca esteve completamente confortável na scuderia e havia a sensação de que a Mercedes tinha uma reserva para derrotar os italianos. Hamilton nadou de braçada durante a Era híbrida até agora.

Por outro lado, as entrevistas pós-corrida de Max Verstappen mostravam um piloto resignado e até mesmo frustrado pelo limite que tinha de equipamento. Estava claro que Max estava correndo sempre no limite do seu Red Bull e muitas vezes isso significava um solitário terceiro lugar na bandeirada.

Então veio a temporada 2021. Ainda no rescaldo dessa trágica pandemia, o regulamento pouco mudou, mas foi mais do que suficiente para mexer nas estruturas de forças da F1. Em Zeltweg nesse domingo, Max Verstappen realizou um verdadeiro atropelo em cima dos rivais com seu Red Bull, vencendo a corrida de ponta a ponta, enquanto Hamilton se conformava com uma distante e solitária segunda posição.

Os críticos de Hamilton cobram do inglês uma disputa mano a mano com alguém tão forte quanto ele e essa temporada pode ser a oportunidade que Lewis tem para provar que pode vencer mesmo quando nem tudo está ao seu favor. Pode-se argumentar que Hamilton não venceu todos os seus títulos com o melhor carro, usando como exemplo o ano de 2008, mas há uma grande diferença para 2021: derrotar um Max Verstappen em ascensão é um trabalho bem mais difícil do que bater um motivado Felipe Massa naquela ocasião. E nesse momento a Red Bull está com um carro superior ao da Mercedes de Hamilton. Com a Honda se despedindo esse ano da F1, os japoneses investiram tudo nessa temporada para sair por cima da F1 e a Red Bull está aproveitando isso para voltar aos áureos tempos do começo dos anos 2010, onde dominou a F1.

As constantes derrotas para a Mercedes nos últimos anos moldaram a pilotagem selvagem de Max e o neerlandês percebeu que para bater alguém como Hamilton, ele precisa ser mais do que um piloto rápido. Ele precisa ser um piloto completo e mesmo tendo apenas 23 anos de idade, Max chegou a esse objetivo. A junção de uma grande montadora querendo uma saída honrosa, uma equipe faminta por títulos e um piloto forjado para ser campeão mundial tirou a Mercedes de sua zona de conforto, deixando a turma de Toto Wolff e seus blue caps atordoada.

Depois da corrida, ele anunciou que a Mercedes pararia o desenvolvimento do carro em 2021 para se concentrar no novíssimo bólido do esperado e revolucionário novo regulamento, previsto para 2022. Pode ser um blefe de Wolff, em constantes escaramuças com Christian Horner da Red Bull, mas Hamilton precisa colocar as barbas de molho. Ou cobrar uma mudança de estratégia, pois a Honda provou que continuará desenvolvendo seus motores no limite do regulamento.

Como principal piloto da Mercedes e dono de números absurdos, o papel de Lewis Hamilton nesse momento é de liderar sua equipe e dar uma resposta o mais rápido possível aos seus rivais. Repetir atuações como no Bahrein, quando Hamilton tirou a vitória de Verstappen à fórceps terão que ser mais frequentes.

Até a oitava etapa do campeonato de 2021, Hamilton marcou mais ou menos o mesmo número de pontos do que as campanhas vitoriosas de 2014, 2017 e 2018. No entanto, para quem colocou o sarrafo tão no alto para si, há a sensação que o inglês precisa mostrar ainda mais para fazer merecer seus recordes. 2021 será um ano de como iremos vê-lo na história da F1.

Na corrida de hoje, Max largou da pole, ligou o rádio na primeira FM que sintonizou, colocou o braço para fora da janela e passeou nas 71 voltas do Red Bull Ring. Foi uma vitória avassaladora no parque de propriedade dos seus patrões. Com quatro vitórias em 2021, Verstappen desempatou com Hamilton no número de vitórias, aumentando sua margem na liderança do campeonato e a perspectiva para ele continua ótima, pois próxima semana a corrida será também em Red Bull Ring.

O ritmo de Max e Lewis foi tão forte hoje, que antes da segunda parada de Hamilton para ele garantir o ponto de melhor volta da corrida, Bottas vinha 30s atrás do seu companheiro de equipe. Bottas se aproveitou de um raro pit-stop ruim da Red Bull, que derrubou Pérez para quarto. Valtteri segurou a pressão do mexicano, que mudou de estratégia, no fim da corrida para completar o pódio. Se atualmente Red Bull e Mercedes estão em outro patamar em comparação às demais equipes de F1, Verstappen e Hamilton estão em outro patamar em comparação aos dezoito pilotos do grid atual.

Esse abismo fica explícito quando Lando Norris completou a corrida em quinto lugar com uma volta de desvantagem para Verstappen. A McLaren luta com a Ferrari para ser a terceira força da F1 atual, mas simplesmente não há como os tradicionais times se meterem entre as equipes top-2 numa luta verdadeira por vitória ou pódio numa corrida normal. A Ferrari se recuperou de um final de semana medíocre em Paul Ricard e seus dois pilotos marcaram bons pontos vindo de corridas complicadas, onde Sainz largou em 12º para subir para 6º, enquanto Leclerc fez ainda mais, pois ele tocou com Pierre Gasly na primeira volta, caiu para último e se recuperou a ponto de terminar em sétimo.

Outro destaque vai para George Russell. O inglês da Williams corria confortavelmente na zona de pontuação no primeiro stint da corrida e tinha reais possibilidades de marcar seus primeiros pontos como piloto da Wiliams, mas um problema de motor destruiu a corrida de Russell. A equação de uma rodada bisonha de Valtteri Bottas no pit-lane na sexta-feira com uma corrida acima da média de Russell dá voz às especulações onde se diz que a Mercedes terá uma dupla inglesa em 2022.

A Haas continua sofrendo com seu carro ruim e sem desenvolvimento, mas ainda há espaço para humor. Antes da prova, Günther Steiner deu um presente para o seu irascível piloto Nikita Mazepin: um peão. Mazespin. Por sinal, pela terceira corrida consecutiva os dois pilotos da Haas se encontraram na pista e houve contatos imediatos de terceiro grau, para desespero de Steiner, mas sem feridos dessa vez.

Mesmo Red Bull Ring sendo um circuito cheio de áreas de escape asfaltadas, não houveram muitos avisos dos famigerados ‘Track Limits’ durante a corrida. Mas quem disse que uma pessoa como Michael Masi não iria querer aparecer no final de semana? A singela comemoração de Max Verstappen na bandeirada, quando fez um burnout em frente a sua equipe mereceu uma reprimenda do australiano. Masi e um pavão, tudo a ver!

Era esperada chuva em todo o final de semana austríaco, mas o sistema de meteorologia austríaco errou feio e sequer pingou nos três dias de Grande Prêmio, resultando na corrida mais morna dessa temporada.

Com essa sequencia de vitórias, Max tem agora dezoito pontos em cima de Lewis Hamilton, uma diferença que pode ser liquidada com um abandono do piloto da Red Bull. Desde que foi considerado um fenômeno no kart, ele foi treinado para estar na situação atual, de líder do campeonato e favorito ao título da F1.

Há uma comparação justa entre a briga atual entre Max e Lewis com a disputa travada entre Alonso e Schumacher quinze anos atrás, quando um piloto emergente lutou contra um heptacampeão estabelecido. Contudo, há uma grande diferença entre essas batalhas: na ocasião, Fernando Alonso já tinha um título. Isso fez toda a diferença na confiança do espanhol, que derrotou Schumacher numa batalha épica.

Da mesma forma que Lewis Hamilton terá que se provar para dar uma resposta quando agora está no papel de underdog, Max também terá que provar que tudo que se espera dele se confirme, agora que ele está no papel de favorito. Ainda temos dois terços de campeonato pela frente e mesmo abalada, não devemos esquecer que a Mercedes conquistou sete títulos seguidos e tem um entrosamento poucas vezes visto na história da F1. Os tedescos quererão dar a mesma volta por cima que a Red Bull deu quando foi derrotada na passagem ibérica da F1, em Portimão e Barcelona.

Hoje, Red Bull e Max estão por cima, porém, nunca se deve subestimar legendas como Mercedes e Hamilton. Senhores, que campeonato!

Hoje comemoro minha 50ª coluna no GPTotal, algo do qual me dá muita honra e felicidade. Se não falei da classificação do sábado, foi por um motivo justo: havia chegado minha vez de se vacinar. Viva as vacinas e continuem se cuidando!

Abraços!

João Carlos Viana

 

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

3 Comments

  1. Como sempre, excelentes ponderações. Parabéns pela vacina! Mas cuide-se, eu fui vacinado com as duas doses e ainda assim me infectei, ainda que de maneira mais leve. Abraço.

  2. Fernando Marques disse:

    JC,

    Parabéns pela sua 50° coluna. Como sempre nota 1000.
    Parabéns por ter sido vacinado.

    Verstappen/RBR/Honda foram incrivelmente dominantes no Go da Estiria
    A ponto de, e isso fica claro na sua coluna, seus comentários estarem focados no cenário atual da disputa pelo título entre verstappen e Hamilton. E você está certo. A corrida em si foi sem graça, e não houve estratégia que permitisse a Hamilton) Mercedes inverter a situação na pista. Ou seja o lógico da Mercedez foi acumular pontos.
    Eu ainda acredito que a Mercedes tem gorduras a queimar e pode estar esperando a hora certa de fazer uso dessas gorduras.
    É isso que pode tornar está disputa entre Verstappen e Hamilton histórica e inesquecível.
    Ao contrário, a hegemonia na Formula 1 definitivamente muda de donos em 2021.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. JOSE FARIAS DE OLIVEIRA disse:

    Falou tudo JC, excelente.

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