Respeito máximo

Colunas inesquecíveis: Enterrem meu coração em Monza
11/02/2026

Quem porventura acompanha nosso canal no YouTube com alguma regularidade provavelmente teve conhecimento de que no fim de novembro do ano passado sofri um pequeno acidente de moto, no qual meu cotovelo esquerdo chocou-se contra o piso de paralelepípedos resultando na quebra da cabeça do rádio em dois pontos, bem como na rotação desta massa óssea.

Em razão da complexidade do procedimento cirúrgico, que demandou prótese e também a fixação de uma pequena peça metálica, acabei ficando internado durante vinte dias, doze dos quais numa cidade distante da minha, sem receber qualquer visita. E aqui eu preciso fazer uma breve pausa.

Quem já ficou internado ou acompanhou alguém nesta situação sabe que o tempo passa muito lentamente dentro dos muros de um hospital. Nos quartos em que fiquei, salvo uma breve exceção de uns poucos dias, não havia televisão, nem tampouco Wi-Fi. Para piorar, no processo de minha transferência alguém em minha família quis montar uma bolsa leve e focada no essencial, e tirou de lá o livro que eu estava lendo. Em resumo, durante a maior parte do tempo eu tive apenas a companhia de meus pensamentos e orações, tendo de administrar com parcimônia meu próprio plano de internet móvel.

Tudo isso, por si só, já teria bastado para me conduzir a muitas reflexões e aprendizados, mas estamos ainda tratando apenas da parte visível do iceberg. Afinal, o acidente que há pouco mais de dois meses se faz sentir praticamente o tempo todo foi causado por responsabilidade exclusivamente minha, quando permiti que um longo acúmulo de situações estressantes afetasse meu comportamento. Esta consciência, bem como o impacto da dor e da lentidão das primeiras horas, associado à perspectiva de que pudesse passar mais de um mês no hospital, atravessando natal e ano novo distante de amigos e parentes, me conduziu a um ambiente de enorme exposição psicológica. O fato de ter sido medicado neste estado com um analgésico opioide, sem qualquer conhecimento prévio a respeito de suas possíveis atuações psicológicas, me levou ao primeiro episódio de ansiedade de minha vida. E posso dizer que foi uma experiência muito, muito traumatizante.

Tão traumatizante, de fato, que me expôs a um medo com o qual definitivamente não estava preparado para lidar, e que se retroalimentava na medida em que passei a ter medo do medo. Sensações novas para mim, medo e ansiedade, e ambas tornaram infinitamente mais pesado e desafiador o período de internação, em especial após a transferência, quando solidão e saudade potencializavam toda e qualquer emoção.

Felizmente aceitei com franqueza os fatos e solicitei apoio psicológico, que momentaneamente adentrou também a parte de medicação de apoio. O testemunho de dores e sofrimentos de outros pacientes também foi componente importante, tanto para lembrar que tudo sempre pode ser pior – e essa é uma daquelas coisas que sabemos, mas rotineiramente, em meio a nossas reclamações diárias, não assimilamos em sua verdadeira dimensão –, quanto para alimentar a ansiedade em relação ao que estava por vir, a cirurgia, e as dores e limitações inerentes ao pós-operatório. Dores estas que no meu caso, em razão da reação ao tal opioide, acabaram sendo extremamente potencializadas, na medida em que tive de me contentar com analgésicos muito mais brandos e ineficazes. Sim, houve momentos nos quais a dor foi mesmo muito, muito forte.

Meu acidente ocorreu pouco antes das 22h do dia 27 de novembro, durante o intervalo do jogo no qual meu Fluminense iria golear o São Paulo por 6 a 0. Curiosamente, para apenas dois dias depois eu e Lucas Giavoni tínhamos uma entrevista agendada com Martin Donnelly, para o canal do GPTotal no YouTube. Do hospital, e ainda com o braço quebrado, precisei escrever uma mensagem a Donnelly explicando o ocorrido e pedindo a gentileza de que mantivesse nossa conversa em suspenso, sem desistir de falar conosco quando isso for finalmente possível. Tendo passado por situações tão mais sérias que a minha, Donnelly naturalmente compreendeu o contexto e tem se mantido próximo e atencioso desde então. Espero que em breve possamos concretizar esta entrevista.

Mas minha citação a Donnelly não tem o intuito de antecipar de forma um tanto arriscada um conteúdo que ainda não foi gravado – e, portanto, poderia se converter aqui numa expectativa não concretizada –, mas para dizer que certamente hoje sou uma pessoa diferente da que era dois meses atrás, e que meu olhar sobre personagens como o próprio Donnelly, ou outros como Niki Lauda, Robert Kubica, Alessandro Zanardi, Johnny Herbert, Helmut Marko, Roberto Moreno, Jacques Laffite, Didier Pironi, John Surtees, Felipe Massa, Cristiano da Matta, Nelson Piquet, Karl Wendlinger, Clay Regazzoni, Patrick Depailler, Martin Brundle, Mick Doohan e tantos outros que ao longo da história do esporte a motor pagaram preços físicos, sacrificaram os próprios corpos e suas perspectivas de vida em nome desta paixão pela velocidade, e mesmo após experimentarem dores e enormes sacrifícios tantas vezes ainda retornaram às competições, ou continuaram envolvidos com elas de alguma maneira.

Empatia é certamente uma característica inata, algo que algumas pessoas por natureza possuem mais do que outras, mas não restam dúvidas de que pode, e costuma ser, ampliada a partir de nossas experiências de vida. Prefiro evitar exemplos práticos, que poderiam ferir sensibilidades, mas em termos simples é muito mais fácil nos colocarmos no lugar de alguém em sofrimento quando nós mesmos já passamos por dores em alguma medida semelhantes, ou temos algo semelhante a perder. E não há nenhum demérito nisso, apenas um potencial maior de identificação a partir de noções mais próximas a respeito do que verdadeiramente significa estar naquela posição, e do preço que se paga para sair dela, mesmo que apenas de maneira parcial.

O fato é que hoje olho de maneira diferente para esses homens, e os respeito ainda mais do que já respeitava anteriormente. Ainda que a atenção médica dispensada a estes astros seja certamente muito maior do que aquela dedicada a pessoas “comuns”, por assim dizer, na contramão de juramentos e de muitos dos princípios mais nobres de nosso leque comportamental, não me resta outra alternativa que não seja reverenciar o incrível retorno de Lauda às pistas apenas 40 dias após encarar a morte; ou os esforços de Doohan ao fim de 1992, quando se arriscou ao guidão pouco tempo após ter enfrentado sérios riscos de amputação de sua perna direita, entre tantos exemplos possíveis.

Ainda não sei se meu acidente poderá ter encerrado minhas chances de entrevistar um dos personagens do esporte a motor que mais respeitei ao longo de minha vida. Espero sinceramente que não. Mas, mesmo que não consiga concretizar a entrevista com Donnelly, a experiência de ter tangenciado muito levemente uma realidade com a qual ele bateu de frente em duas ocasiões distintas já serviu para ampliar grandemente minha compreensão a respeito de seu valor. E também me rendeu a oportunidade de testemunhar sua compreensão e humanidade em conversas que guardarei para sempre em minha memória.

Forte abraço a todos.

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

1 Comments

  1. Manuel disse:

    Força e adiante amigo !

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