
Ao receber a bandeirada, George Russell exclamou via rádio que ‘amava esse carro e esse motor’. Provável e justificadamente, o inglês foi o único que curtiu o novo carro da F1. Após muita polêmica e reclamações de praticamente todo o grid, o Grande Prêmio da Austrália aconteceu nesse domingo sem maiores incidentes graves e a esperada dobradinha da Mercedes, que era a principal favorita mesmo após inconclusivos testes de pré-temporada. Os alemães se aproveitaram ainda de mais um vacilo estratégico da Ferrari em um início de corrida de bastante ‘trocação’ entre os três primeiros.
Russell dominou quando não teve uma Ferrari por perto e lidera o campeonato da F1 pela primeira vez na carreira na abertura do campeonato. Antonelli se recuperou de sua péssima largada, onde chegou a cair para sétimo e fechou a dobradinha da Mercedes, com Leclerc completando o pódio, corroborando com a sensação de que a Ferrari é a segunda força da F1 nesse novo regulamento.

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Nunca uma mudança de regulamento, e já ocorreram várias ao longo dos mais de setenta e cinco anos de história da F1, causou tanta polêmica como a vista em 2026. Piloto sempre reclama quando há uma grande mudança, isso é um fato, ainda mais quando veem uma mudança no estilo de pilotagem tão grande, além de poder tirar sua competitividade. Com os motores ganhando um protagonismo cada vez maior na parte elétrica, foram vistas situações que desagradaram bastante. Em plena reta, os carros chegavam a perder até 50 km/h mesmo com o piloto pisando o pedal do acelerador até o fim. Uma situação perigosa em Melbourne, mas que tem um potencial de periculosidade ainda maior em Baku e Monza.
Os testes de pré-temporada não foram nada esclarecedores em termos de desempenho, com as equipes fazendo o chamado ‘sandbagging’, o que em bom português significa ‘esconder o leite’. Apesar de ter ficado muito claro que as quatro equipes grandes dos anos anteriores (McLaren, Mercedes, Ferrari e Red Bull) permaneceriam no topo, a ordem ainda não era clara, mas Melbourne mostrou que a Mercedes iniciou 2026 um degrau acima das demais, ainda com a polêmica da taxa de compressão do seu motor.
Nos momentos mais decisivos, George Russell (foto que abre esta coluna, brigando com Leclerc) meteu mais de meio segundo na concorrência e mesmo a Mercedes ainda tendo muito trabalho com o forte acidente de Andrea Kimi Antonelli no terceiro treino livre, a equipe capitaneada por Toto Wolff conseguiu a dobradinha no grid em Albert Park. Com sobras.
Porém, antes dos carros irem para a pista em Melbourne, todos os olhos estavam na Aston Martin. O que parecia um sonho de juntar o poderio financeiro da família Stroll, a genialidade de Adrian Newey e a capacidade da Honda se tornou rapidamente um pesadelo de proporções históricas, com notícias constrangedoras chegando a todo momento. A Honda mudou todo o seu staff técnico e pareceu ‘esquecer’ de avisar à Aston Martin sobre esse detalhe, demonstrando uma falta de integração da parceria que resultaria num motor que falta confiabilidade junto a um carro onde Newey pensou mais na parte aerodinâmica e menos na parte mecânica. Isso tudo resultou em um quase W.O. da Aston Martin na Austrália.
Como a sensação na Aston Martin é de que a pior notícia sempre é a próxima, surgiu antes dos treinos livres o relato de que a vibração causada pelo motor Honda era tamanha, que os pilotos poderiam ter problemas em suas mãos após algumas voltas. Por sinal, mais uma vez Fernando Alonso se vê numa situação em que o motor Honda destrói mais um ano seu…
Como não poderia deixar de ser, problemas ocorreram aos montes em várias equipes nesses primeiros momentos de novo regulamento. Stroll passou o sábado contemplando o desastre que se tornou a equipe do seu pai, equipe Sainz teve problemas no seu Williams e sequer se classificou. A Williams foi outra equipe que não iniciou o ano de forma auspiciosa, faltando a primeira semana de testes, após um ótimo quinto lugar no Mundial de Construtores em 2025.
Como esperado, a Cadillac teve problemas de noviciado e ficou com as últimas posições. E finalmente Max Verstappen, um dos mais vocais nas críticas ao novo regulamento, terá motivos de ter mal humor ao bater em sua primeira tentativa no Q1, tendo que largar das últimas posições.
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O terceiro treino livre já tinha dado a letra de que a Mercedes não estava para brincadeira, com Russell matando a concorrência com um tempo muito superior, mesmo Toto Wolff lamentando o acidente de Antonelli. A equipe Mercedes mostrou sua eficiência ao consertar o carro do italiano, se aproveitando da bandeira vermelha causada por Max, mas Kimi não andou no mesmo nível de Russell. O inglês marcou uma pole enfática, com as demais equipes mais atrás e já com pulgas atrás da orelha.
Hadjar mostrou que poderá ser um segundo piloto digno na Red Bull e com Max no lado de fora, o francês colocou a Red Bull em terceiro, superando McLaren e Ferrari, que chegou a assustar ao marcar bons tempos no Q1 com pneus médios, mas depois ficou longe dos rivais tedescos. Arvid Lindblad executou um ótimo treino em sua estreia, indo ao Q3 sempre à frente de Liam Lawson, enquanto Gabriel Bortoleto teve problemas no final do Q2, não podendo participar do Q3. O brasileiro, contudo, claramente andou na frente de Hulkenberg.
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Havia bastante receio para o que aconteceria na largada, já que sem uma das baterias haveria o chamado turbo lag, lembrando as péssimas largadas dos primeiros Renault Turbo no final da década de 1970. A FIA ainda deu uma colher de chá ao dar tempo para os pilotos encherem os turbos antes da largada, mas o que ninguém poderia imaginar era que o ídolo local Oscar Piastri batesse sua McLaren na volta de instalação, numa cena lamentável e reforçando que os pilotos australianos não dão ‘match’ com suas corridas caseiras.
Mesmo com todo o apoio da FIA, vimos um grid em que boa parte dos carros saíram patinando como se o asfalto estivesse molhado. A Ferrari havia alertado sobre esse problema do turbo lag e trabalhou nesse item, resultando numa saída espetacular de Leclerc, pulando de quarto para primeiro, com Hamilton quase tomando o terceiro lugar de Hadjar e Lindblad, que brigavam pela posição, mas logo o veterano inglês se solidificaria no terceiro posto.
Quando as posições se assentaram, era esperado que Russell ultrapassasse Leclerc e desaparecesse na ponta, mas o que se viu foi uma surpreendente troca de posições entre os dois, fazendo com que Hamilton se aproximasse e mais tarde, um recuperado Antonelli se juntasse à animada batalha pela primeira posição. Para quem esperava um passeio no parque da Mercedes, as várias trocas de posições era uma agradável surpresa, mesmo que isso tenha acontecido muito pelas novas regras de gestão de energia, com os pilotos ainda tateando um novo terreno onde consolidar uma ultrapassagem requer um cálculo que pode não ser dos mais fáceis nesse início de regulamento. Para os mais atentos, a transmissão da Liberty passou a cortar o gráfico de velocidade quando os carros chegavam na curva 8 e a velocidade despencava vertiginosamente. Não foi coincidência…
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O novo motor da Red Bull/Ford estava se comportando maravilhosamente bem nesses primeiros momentos de um projeto totalmente novo, mas as dificuldades de noviciado apareceram e o motor de Isack Hadjar explodiu na décima volta (foto abaixo), trazendo na sequência o SC Virtual. A maioria do pelotão, inclusive a dupla da Mercedes, foi aos boxes colocar pneus duros, tirando os médios, enquanto a Ferrari preferiu ficar na pista com seus dois pilotos, para protesto de Hamilton.

Cinco voltas depois da relargada o carro de Valtteri Bottas ficou parado na entrada dos pits e a Ferrari teve uma falta de sorte incrível. Primeiro que o SC Virtual apareceu quando os dois carros tinham acabado de passar da entrada dos boxes, enquanto outra parte do pelotão fez sua parada, incluindo aí um Max Verstappen em outra corrida de recuperação forte, vindo da vigésima posição no grid. No entanto, quando a Ferrari se preparava para entrar nos pits, a direção de prova fechou a entrada dos pits para tirar o Cadillac de Bottas, fazendo com que a Ferrari tivesse que trazer seus pilotos em bandeira verde, praticamente os únicos. Mais um vacilo ferrarista na estratégia.
Quando Hamilton parou ao final da volta 27, muito próximo da metade da corrida, Russell já tinha ultrapassado o compatriota e reassumido a liderança da corrida. Pela parada ainda na volta 12 de 58, era esperado que a dupla da Mercedes visitasse os boxes uma segunda vez, mas o equilíbrio do carro da Mercedes era tal que Russell e um hesitante Antonelli levaram seus carros até a bandeirada sem maiores arroubos.
A Mercedes confirmou algo que todos comentavam ainda no ano passado, quando se falava que os alemães teriam a mesma vantagem que obtiveram quando houve a última grande mudança de regulamento técnico, em 2014, e a chegada dos motores híbridos. Não foi um domínio escandaloso como doze anos atrás, mas observando os demais clientes da Mercedes, a vantagem da equipe de fábrica também passa por um chassi bem nascido, além do melhor motor da F1 atual. Russell controlou bem a corrida, como gosta de fazer quando tem o melhor carro, algo que terá mais vezes em 2026, enquanto Antonelli sofreu com uma largada horrorosa, mas a vantagem do seu carro o colocou rapidamente entre os primeiros colocados e o italiano pôde completar a dobradinha da Mercedes.
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A Ferrari pôde colher os frutos de ter parado o desenvolvimento do carro do ano passado ainda em abril, mas Fred Vasseur e seus red caps queriam mais. O forte início da Mercedes deixou a Ferrari como a segunda força da F1 com alguma vantagem, mas aparentemente sem força para bater de frente com a Mercedes. As animadas dez primeiras voltas pareceram mais uma exceção do que uma regra propriamente dita, tanto que quando as Mercedes tiveram ar limpo, despacharam as Ferraris sem maiores problemas.
Leclerc mais uma vez superou Hamilton no final de semana, mesmo com Lewis encostando bastante no companheiro de equipe nas voltas finais. Hamilton parece estar de ânimo renovado e quase conquistou o seu primeiro pódio pela Ferrari.
Lando Norris foi um dos poucos a fazer duas paradas, mas isso não diminui a sensação de que a McLaren terá que correr atrás se quiser defender seus dois títulos conquistados em 2025. Lando ainda teve que lidar com a pressão de Max Verstappen nas voltas finais. O neerlandês fez uma bela corrida de recuperação, mas ao largar com pneus duros, teve que colocar os médios na primeira parada, fazendo-o ir para uma estratégia de duas paradas. Mesmo com pneus mais novos do que Lando, Max não foi capaz de efetuar a ultrapassagem, tendo que se conformar com a sexta posição. Os dois primeiros colocados de 2025 terminaram a corrida inaugural de 2026 mais de 50s atrás dos líderes.
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Com os abandonos de Piastri e Hadjar, o meio do pelotão brigou pelo sétimo lugar para ser ‘o melhor do resto’ e quem ficou com essa posição foi Oliver Bearman (foto acima), após uma briga forte com outro jovem inglês, o promissor Arvid Lindblad, que chegou a ocupar a terceira posição na primeira volta, mas depois foi perdendo muito rendimento. Os dois se digladiaram nas voltas finais com vantagem para o piloto da Haas, mostrando um certo equilíbrio no pelotão intermediário pelos pilotos a seguir.
Gabriel Bortoleto fez uma corrida sólida, parando duas vezes nos boxes e terminando em nono, bastante próximo de Lindblad. Primeiros pontos para a Audi logo em sua primeira corrida, mesmo que Nico Hulkenberg tenha tido problemas ainda antes da largada, se tornando o segundo abandono do dia. Pierre Gasly fechou a zona de pontuação com a Alpine após uma luta fratricida com seu compatriota e rival Esteban Ocon. Apenas Williams, Aston Martin e Cadillac saíram da Austrália sem pontos.
A Cadillac sofreu com problemas de noviciado, com peças de soltando e um carro bem mais lento que os demais, mas ao menos Checo Pérez finalizou a corrida. A Aston Martin utilizou a corrida australiana para fazer um grande teste, enquanto seus pilotos guiavam um carro que vibrava de forma absurda e a melhor frase foi de Lance Stroll, que ao ser perguntado sobre a corrida, o canadense falou que ‘não correu, apenas circulou’ pela pista. Destaque para a ótima largada de Fernando Alonso (foto abaixo, brigando com Verstappen), chegando a ocupar a décima posição, no que foi o único momento de alívio para a Aston Martin até o momento.

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A F1 fez questão de mostrar em suas redes sociais que ocorreram 120 ultrapassagens na prova de ontem, mais do que o dobro do ano passado. Após a corrida, porém, os pilotos usaram de forma praticamente uníssona um adjetivo: artificialismo.
As brigas por posição foram diferentes do que era visto nos últimos anos. Vimos batalhas onde a gestão de energia fazia enorme diferença entre ganhar ou perder posição. Uma situação nova para todos, mas a excelência da engenharia da F1 irá consertar isso em breve, até porque um piloto ficando muito mais lento que o outro poderá ser perigoso em algumas situações ao longo da temporada.
O atual campeão Norris se juntou à Verstappen nas críticas mais ácidas ao novo regulamento, assim como Hamilton, Leclerc e Alonso já tinham feito antes mesmo da temporada se iniciar. Pelo jeito, apenas o vencedor George Russell curtiu.
Abraços!
João Carlos Viana