“Só Schumacher e Senna” – parte 1

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O passar do tempo é um remédio para (quase) tudo: Esaú e Jacó, na passagem bíblica, após anos de traição, ódio e separação, se reencontram. Jacó, temeroso, antecipa o pedido de perdão e a humilhação, mas Esaú o abraça e beija como, de fato, dois irmãos deveriam fazer. Do mesmo modo, opiniões podem e devem ser revistas – o que não significa que devam sempre mudar, mas, se for o caso, reavaliadas e melhor complementadas sem qualquer constrangimento.

Tornou-se opinião aparentemente comum (e, de certa forma, obrigatória) dizer que, em 1992, Senna pilotou abaixo do esperado, que “foi batido por Schumacher” etc. Igualmente, mesmo que sejam olhares mais condescendentes, o primeiro ano de Schumacher na Ferrari é “overlooked”, ou seja, não lhe é dado o devido crédito.

Outro dia, assisti a um video do excelente canal Enerto (parênteses: todo leitor do GPTotal deveria ser inscrito no canal do site, disponível aqui, e também no Enerto). Neste filmete, Eddie Irvine reflete sobre o tempo de Ferrari com Schumacher, sobre a relação com o alemão, sobre a influência com os mecânicos e também sobre a qualidade dos equipamentos que tiveram à disposição naqueles 4 anos.

O que mais me chamou a atenção foi sobre 1996, quando Irvine descreve as más qualidades do carro e, mesmo tentando colocar o alemão pra baixo – apesar da insistência do jornalista –, afirma que ele era rapidíssimo. Irvine diz: “Somente alguém com a habilidade dele (Schumacher), e talvez Senna, para conseguir pilotar aquele carro”.

Vou fazer de conta que o talvez não foi dito e vou afirmar que, sim, “só Schumacher e Senna para pilotar aquele carro” (Clark, Alonso, Max e alguns outros também…). Nesta coluna, irei analisar as temporadas para entender como, onde e por que “somente os dois” poderiam fazer aquilo: Schumacher, por óbvio, de fato pilotou aquela cadeira elétrica, enquanto Senna provou isso na temporada de 1992 — já havia provado em 1987, mas o contexto era bem diferente.

Entre 1992 e 1996, há muitas semelhanças. Em vários aspectos.

As Williams como carro imbatível

O primeiro aspecto semelhante entre 1992 e 1996 e que nos leva a perceber a diferença realizada pelos pilotos está no quão dominante foram as Williams nas respectivas temporadas.

Em 1992, a equipe britânica somou 164 pontos nas 16 etapas, sendo 108 de Mansell (campeão) e 56 de Patrese (vice). Ambos foram responsáveis por 15 poles (Mansell 14, Patrese 1) e 10 vitórias (Mansell 9, Patrese 1), além de somarem 21 pódios (pelo menos um dos dois esteve presente em 13 ocasiões), marcarem presença na primeira fila em todas as etapas e liderarem mais 4 mil km – juntas, as outras equipes somaram apenas 751 km na ponta.

Apesar de quatro anos antes o domínio – impulsionado pela performance de Mansell – parecer mais eloquente, os números de 1996 foram mais uniformes: a dupla de pilotos somou 11 pontos a mais, totalizando 175 nos mesmos 16 GPs (97 para Hill, o campeão, e 78 para Villeneuve, o vice). Amealharam 12 poles (Damon 9, Jacques 3) e venceram também 12 etapas (8 para o filho de Graham, 4 para o herdeiro de Gilles). No somatório, foram ao pódio as mesmas 21 vezes de 1992 (pelo menos um dos dois fechou no top 3 por 14 vezes), estiveram na 1ª fila em 100% das corridas e lideraram pouco menos de 3.600 km (as rivais totalizaram quase 1.300 km). 

Destaque para os desempenhos próximos de Damon Hill e Nigel Mansell – Jacques, por sua vez, foi muito mais eficiente do que Patrese –, merecidamente campeões nas respectivas temporadas: Damon Hill largou na primeira fila em todas as corridas (9 em 1º, 7 em 2º, igualando o feito de Ayrton Senna em 1989 e de Prost em 1993), enquanto que Mansell, apesar de ter perdido a 1ª fila uma vez (foi 3º no Canadá), marcou 14 poles, feito só superado uma vez até hoje (Vettel, 2011). A posição média de largada de Mansell foi 1,19; de Hill, 1,44.

Por fim, Mansell venceu 8 das primeiras 11 etapas, quando assegurou o título. Hill venceu 7 das primeiras 11, embora só garantisse o caneco matematicamente na última etapa.

A Benetton como bólido equivalente

Em 1992, Schumacher e Brundle formaram a dupla da Benetton, um carro que tinha menos potência do que a McLaren, mas que tinha muito mais confiabilidade. Os números confirmam: Em 32 GPs, as Benetton abandonaram por algum problema de equipamento em apenas 4 ocasiões (2 com Schumacher, 2 com Brundle). A McLaren, por outro lado, sofreu 10 abandonos com sua dupla de pilotos (5 para Berger e 5 para Senna) causados por falhas de toda ordem: quebra de câmbio, de motor, pane elétrica ou pane seca.

Outro fato notório se dá pelo desempenho de Brundle: tendo perdido rigorosamente TODOS os treinos para Schumacher, o inglês foi o único piloto das três equipes principais a pontuar em 9 etapas consecutivas – inclusive “superando” Schumacher a partir do GP do Canadá, somando 6 pontos a mais (33 a 27) do que o alemão da oitava etapa em diante (em Montreal, Brundle teve uma de suas duas quebras do ano quando estava à frente de Schumy).

No total, a Benetton somou 91 pontos (a McLaren 99), conquistando um pódio a mais do que a equipe de Woking (13 a 12, a Benetton vendo pelo menos um de seus drivers completar o top 3 por 11 vezes, a McLaren 9) e completando mais de mil quilômetros em relação à rival (7.995 ante 6.877). 

Em 1996, a equipe seria comandada pela experiente dupla da Ferrari de 1993 a 95: Jean Alesi e Gerhard Berger. Alesi e Berger, tiveram duas boas temporadas nos anos anteriores, cada um conquistando uma vitória e também poles. Portanto, eram pilotos credenciados a guiar o atual carro campeão, ainda impulsionado pelos motores Renault.

Embora nem Berger nem Alesi tenham vencido corridas — Alesi quase chegou lá em Mônaco e Berger deu grande azar em Hockenheim… –, a dupla liderou um número muito próximo de voltas (91 x 114) e km (492 x 590) em relação à Ferrari, coisa que em 1992 não aconteceu para com a McLaren (a Benetton só liderou a corrida da vitória). Ao todo, os Benetton lideraram mais de uma volta em 6 GPs diferentes de 96 — a Ferrari, em 4.

Novamente, foi a consistência do B196 o fator diferencial no comparativo com o F310: em número de falhas de equipamento, foram 10 quebras contra 13 (incluindo 3 GPs seguidos com os dois pilotos abandonando) da Scuderia. Vale destacar, ainda, que a Benetton amealhou a melhor volta das corridas em três etapas — a Ferrari, em duas.

No total, o time de Flavio Briatore somou 68 pontos (a Ferrari 70), conquistando um pódio a mais do que a equipe de Maranello (10 a 9, mesmo número de corridas em que pelo menos um dos drivers das respectivas equipes fechou no top 3) e completando mais de 1,2 mil quilômetros em relação à rival (7.632 ante 6.351).

Como se vê, parecem duas “temporadas espelho”. E foi esse o contexto que Senna e Schumacher enfrentaram em 1992 e 96: adentraram terreno muito hostil e desconhecido.

Assim, ambos sabiam de antemão que iriam encarar temporadas nas quais o título simplesmente não era uma possibilidade. No entanto, teriam diante de si uma oportunidade de mostrar ao mundo que, embora cada vez mais o carro fosse o ponto decisivo, os pilotos ainda podiam fazer a diferença.

Na segunda parte desta coluna, veremos como eles se saíram.

Abraços,
Marcel Pilatti

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

1 Comments

  1. Leandro disse:

    Muito bom! São temporadas que eu poderia ter acompanhado, 96 ainda peguei alguma coisa, mas ainda não tinha pego gosto de verdade pela F1…

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