
Vinte e quatro de outubro de 1999, Rio de Janeiro. Alex Crivillé consegue um suficiente sexto lugar para se sagrar Campeão Mundial das 500cc, tornando-se o primeiro espanhol a vencer a classe principal do Mundial de Motovelocidade. Ninguém poderia imaginar que aquela tarde quente no finado autódromo de Jacarepaguá seria mais um passo para que a Espanha se tornasse o principal país da Motovelocidade da atualidade.
Passados quase vinte e sete anos, a Espanha se tornou a meca da motovelocidade mundial e suas corridas são sempre bastante esperadas tanto pelo público, como pelos pilotos, que em sua grande maioria fez sua base na Espanha e conhecem Jerez, Barcelona, Aragón e Valencia muito bem.
Além da F1, a MotoGP foi outra categoria afetada pela guerra no Oriente Médio, com praticamente um mês sem corridas, fazendo com que equipes e montadoras ajustassem suas motos novas. Menos mal que a MotoGP não precisou fazer acertos paliativos no regulamento, mas aí é outra história. Com a Aprilia dominando a temporada 2026 da MotoGP, a moto italiana se tornou a referência para as demais e a Ducati, antiga dominadora, pareceu trabalhar bastante nesse intervalo, principalmente com Alex Márquez (foto que abre esta coluna). Com um ritmo forte na sexta, indicando ter o melhor conjunto do final de semana em Jerez, o irmão mais novo de Marc confirmou as expectativas no domingo, vencendo de forma enfática a corrida principal.
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O Mundial de Motovelocidade já passou por algumas eras de domínio, onde determinado país esteve à frente dos demais, começando com a Inglaterra, onde tivemos na primeira década do Mundial nomes como Leslie Graham, Geoff Duke e John Surtees. Na década de 1960, com o surgimento forte da MV Agusta, a Itália dominou com o onipresente Giacomo Agostini. Nos anos 1980, nos tempos das ‘Unrideables’, os americanos surgiram com sua pilotagem criada nas pistas de terra (e inspirada no finlandês Jarno Saarinen) para conquistar praticamente tudo.
A Espanha sempre teve uma certa tradição nas motos, mas com motores de menores cilindradas. Após a Segunda Guerra Mundial, a Espanha ficou numa situação complicada no cenário geopolítico, pois permaneceu numa neutralidade hipócrita durante a guerra, mesmo tendo a mesma ideologia dos países do Eixo, lado derrotado em 1945. O General Franco garantiu um certo isolamento da Espanha, fazendo com que a indústria local se desenvolvesse, surgindo uma insípida indústria nacional de motos, aparecendo marcas como Bultaco e Derbi. Eram motos de baixa cilindrada e simples, mas num país que ainda se recuperava de uma guerra civil, era o bastante para que os jovens começassem a ter suas motos. E se apaixonarem.
Ao longo dos anos Bultaco e Derbi começaram a promover competições locais e se aventurarem no Mundial de Motovelocidade, fazendo surgir um dos maiores nomes da história: Angel Nieto. Com treze títulos mundiais (ou 12+1, como Nieto gostava de dizer), o espanhol se tornou dominador nas classes menores durante a década de 1970, justamente o tipo de moto que as marcas espanholas eram especialistas. Vale lembrar que até meados da década de 1990, as classes menores do Mundial não serviam de trampolim para que um jovem piloto subisse de categoria até as 500cc, chamada categoria-rainha do Mundial de Motovelocidade. Era comum pilotos fazerem suas carreiras nas 50cc ou 125cc, como foi o caso de Nieto, que se tornou um herói na Espanha.
Na esteira de Nieto surgiram pilotos como Ricardo Tormo, Sito Pons e Aspar Martínez. Todos eles destaques nas categorias menores do Mundial.
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Próximo do final da carreira, Angel Nieto tentou participar de uma prova do Mundial com uma 500cc. A Espanha ainda não produzia grandes motos e ainda haviam políticas protecionistas que impediam a importação de motos japonesas, que tinham as melhores máquinas desse porte. Nieto não tinha experiência nesse tipo de moto e acabou sofrendo um sério acidente em Jarama, quebrando várias costelas.
Na década de 1980 a motovelocidade já era uma modalidade bastante popular na Espanha, ao lado do futebol e do basquete. A Espanha buscava gradativamente o reconhecimento como protagonista no Mundial de Motovelocidade e todos sabiam que, mesmo vencendo nas classes menores, se um espanhol vencesse nas 500cc, o país seria visto de maneira diferente.

Alex Crivillé (foto acima) surgiu nas categorias menores espanholas ainda na metade da década de 1980 e logo pulou para o Mundial, conquistando o título das 125cc em 1989. Contudo, ao contrário dos seus compatriotas, Crivillé resolveu não fazer carreira nas classes menores e foi subindo de categoria, chegando em 1992 às 500cc, com uma Honda. A montadora japonesa tinha construído um motor conhecido como ‘Big Bang’, considerada mais dócil na pilotagem e que quase deu o título para Mick Doohan. Com um estilo mais parecido com as motos de cilindrada menor, Crivillé se adaptou bem à moto e venceu uma corrida nas 500cc no seu ano de estreia. Três anos depois da vitória de Crivillé, uma petrolífera espanhola viu com bons olhos investir no Mundial de Motovelocidade e com isso a Repsol se associou à Honda, criando uma parceria histórica.
Outras marcas espanholas também entraram com força no Mundial (Telefônica e a cervejaria Estrella Galicia). Sito Pons havia abandonado a carreira de piloto e logo em seguida se tornou chefe de equipe, colocando a equipe Pons nas 500cc. Porém, o fator decisivo foi a entrada em cena da Dorna, comandada por Carmelo Ezpeleta, uma empresa de marketing esportivo que derrotou simplesmente Bernie Ecclestone e conseguiu a administração e direitos exclusivos de transmissões de TV do Mundial de Motovelocidade da FIM. A ocupação espanhola era quase completa: pilotos espanhóis, equipes espanholas, patrocinadores espanhóis e uma empresa espanhola dona dos direitos de mídia.
Faltava o título nas 500cc. Alex Crivillé ganharia a companhia de Carlos Checa e logo depois de Sete Gibernau como as esperanças espanholas para conseguir o feito, mas como desde 1994 Crivillé estava na equipe de fábrica da Honda, ele era a ponta de lança para conseguir o feito. No entanto, a Repsol Honda tinha em Mick Doohan a sua principal estrela e o australiano dominou a década de 1990, onde conquistou um pentacampeonato nas 500cc. Crivillé ficou muito tempo nas sombras de Doohan, onde perdeu inúmeras corridas para o companheiro de equipe. Sem dúvida alguma, a derrota mais dolorida ocorreu no Grande Prêmio da Espanha de 1996, em Jerez. Crivillé liderava à frente de Doohan na última volta, fazendo com que a torcida espanhola invadisse a pista com a prova em andamento. Doohan tentou a manobra na última curva e Crivillé foi cruelmente ao chão, vendo o australiano vencer mais uma vez.
Na mesma Jerez, em 1999, Doohan sofreria um terrível acidente nos treinos livres e encerraria sua carreira. Como consequência, Alex Crivillé se tornou o primeiro piloto da Repsol Honda, onde enfrentaria a Yamaha de Max Biaggi e a surpreendente Suzuki de Kenny Roberts Jr. Foi um campeonato onde Crivillé pareceu muitas vezes que entregaria a paçoca. Após uma sequência de quatro vitórias consecutivas no primeiro terço de campeonato, Crivillé perdeu algumas vitórias, mas não a liderança do campeonato. Mesmo claramente tenso, Crivillé garantiu o título no Grande Prêmio do Brasil.
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Da mesma maneira que a Dorna promovia cada vez mais o Mundial de Motovelocidade, se aproveitando do surgimento de Valentino Rossi na virada do milênio, a empresa desenvolvia os campeonatos nacionais na Espanha, tornando-os altamente competitivos e desenvolvendo mais e mais os pilotos que por lá estavam.
Já haviam sinais que a Espanha estava se tornando a grande referência da motovelocidade mundial. Um exemplo claro disso foi quando Kenny Roberts colocou Kenny Jr em corridas espanholas em preparação para o Mundial. Nos anos 2000, mais e mais pilotos vindos dos campeonatos espanhóis surgiam fortes no Mundial, atraindo jovens pilotos de outros países, como foi o caso de Casey Stoner. Em 2010 a Espanha fez história ao vencer todas as três categorias do Mundial de Motovelocidade: Márquez venceu o título da 125cc, Toni Elias a Moto2 e Jorge Lorenzo a MotoGP.
Hoje a Espanha mantém quatro corridas bastante populares no calendário do Mundial (Jerez, Barcelona, Aragón e Valencia) e boa parte do grid não apenas da MotoGP, como também da Moto2 e da Moto3, são de pilotos ibéricos ou, como é o caso do brasileiro Diogo Moreira, fizeram sua base na Espanha.
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Mesmo com quatro pistas espanholas no calendário da MotoGP, Jerez ficou com a alcunha de ‘Grande Prêmio da Espanha’, normalmente sendo a primeira pista ibérica a receber o Mundial. Desde 1987 no calendário do Mundial, Jerez já viu inúmeros momentos históricos, mesmo que algumas vezes não favorecendo um espanhol. Além do citado caso de 1996, tivemos em 2005 um dos momentos mais controversos da década. Sete Gibernau era um dos poucos pilotos a bater de frente com Valentino Rossi no prime do italiano. Meses antes da abertura do Mundial em 2005 em Jerez, a equipe de Gibernau teria denunciado a Yamaha antes do GP do Catar e Rossi foi punido. Gibernau se aproveitou da punição e venceu a prova. Injuriado, Valentino prometera que Gibernau nunca mais venceria uma corrida. Rossi e Gibernau duelaram a corrida inteira na luta pela vitória em Jerez e na última curva da última volta, Rossi mergulhou por dentro, bateu em Gibernau e venceu a corrida. Sete ficou furioso com a manobra, assim como a torcida. E realmente Gibernau nunca mais venceu uma corrida na MotoGP…
Oito anos depois, na mesma curva, Marc Márquez fez uma manobra parecida em cima de Jorge Lorenzo para ser segundo.
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Jerez recebeu mais uma vez nesse domingo a MotoGP e ao contrário do que se viu na Sprint Race no sábado, quando a chuva deu as caras e embaralhou o pelotão, a corrida de domingo foi bastante monótona em sua maior parte, principalmente na luta pelas primeiras posições. Com pista molhada, Marc Márquez tirou mais uma pole da cartola e venceu de forma incrível a Sprint Race, com direito a queda na última curva quando a chuva aumentou, dar um jeitinho para entrar nos pits para trocar de moto, com pneus para piso molhado, e ultrapassagem decisiva em cima de Bagnaia nas últimas voltas.

Com sol à pino, Marc Márquez largou muito bem no domingo, mas o espanhol da Ducati de fábrica viu ótimas largadas da dupla da Aprilia de fábrica e de Alex Márquez. Três pilotos que demonstraram ter um ritmo melhor do que o dele. Normalmente eclipsado pelo irmão mais velho e lendário, Alex repetiu o que fez ano passado, quando venceu em Jerez com um ritmo superior aos demais. O piloto da Gresini já tinha conseguido um ótimo tempo nos treinos livres da sexta, liderou a Sprint com piso seco antes de cair com pista molhada. Alex rapidamente ultrapassou Bezzecchi e partiu para cima do irmão mais velho, o ultrapassando ainda no começo da corrida.
Era esperado uma disputa caseira entre os irmão Márquez, mas antes que pudéssemos vislumbrar um belo pega, Marc caiu espetacularmente na volta 4, destruindo sua Ducati e zerando mais uma vez num GP. Mesmo todos nós conhecendo toda a exuberância de Marc Márquez, a situação do espanhol vai se complicando no campeonato e como as coisas ainda podem piorar, a Ducati oficial ainda viu Pecco Bagnaia, que largou mal, abandonar com problemas técnicos quando ocupava a insossa nona posição.
Já a Ducati 2026 restante do grid permaneceu dominando. Alex Márquez não teve adversários em Jerez e venceu com tranquilidade, restando saber se Alex, cujo melhor resultado em 2026 era um sexto lugar, terá consistência necessária para avançar no campeonato. Sem moto para brigar pela vitória em Jerez, Marco Bezzecchi fez o que um piloto que luta pelo campeonato precisa fazer nessas situações: marcar o maior número de pontos possíveis. O segundo lugar fez com que Bezzecchi aumentasse a sua vantagem no campeonato, já que Jorge Martin perdeu o lugar no pódio para Fabio di Giannantonio, terceiro colocado em Jerez e também no campeonato, sendo a melhor moto da Ducati no momento.
A dupla da Trackhouse confirmou a boa fase da Aprilia, com Ai Ogura terminando em quinto vindo de boa corrida de recuperação, ultrapassando seu companheiro de equipe na última volta. Ogura, que estaria de malas prontas para a Yamaha substituir Alex Rins, prova que está merecendo a atenção que recebe, mesmo que ir para a Yamaha atualmente não parece o melhor caminho a seguir. Johan Zarco largou na primeira fila e por muito tempo acompanhou de perto a Aprilia de Martin, mas o francês perdeu o fôlego e acabou atropelado pela dupla da Trackhouse no fim. Zarco se garantiu como a melhor Honda com o sétimo lugar, bem à frente dos pilotos de fábrica. Quartararo, apenas 14º e sendo a melhor Yamaha do dia, curtiu. Diogo Moreira não brilhou e pela primeira vez em sua curta carreira na MotoGP, não pontuou.
A MotoGP retornou de suas ‘férias forçadas’ com uma corrida sem muita emoção em Jerez, mesmo que a torcida que lotou, como sempre, as arquibancadas não tenha reclamado, com uma vitória categórica de Alex Márquez com sua Ducati 2026. Será um recomeço para a Ducati? Bezzecchi se mantém na liderança, mesmo com suas quedas seguidas na Sprint Race. Seu companheiro de equipe, Jorge Martin, provou em 2024 que esses pontos conquistados no sábado podem fazer muita diferença. Por sinal, dentro da cabeça de Marc Márquez já soa um sinal amarelo pensando no campeonato, mas esse domingo foi dia do seu irmão mais novo.
Abraços!
João Carlos Viana