
No primeiro dia dos pilotos da MotoGP em Goiânia, um cantor sertanejo os recebia com um carregado ‘Welcome to Goiânia’. Marc Márquez, Marco Bezzecchi e as demais estrelas da principal categoria do Mundial de Motovelocidade recebiam bandeiras brasileiras e acenavam para as câmeras denotando alegria. Mesmo não tendo a tradição e a longevidade do Grande Prêmio Brasil de F1, pode-se afirmar que os pilotos do Mundial de Motovelocidade estavam realmente felizes de estarem de volta ao Brasil depois de vinte e dois anos.
O público lotou o Autódromo Internacional Ayrton Senna e a festa foi bonita, mas não se pode afirmar que a etapa de Goiânia foi um sucesso. O episódio do buraco no asfalto no sábado e a diminuição do número de voltas no domingo, devido a problemas no asfalto marcaram o final de semana e esperamos que os organizadores tomem nota e corrijam isso para os próximos anos.
Apesar dos pesares, Marco Bezzecchi conseguiu passar por cima de todos os problemas no final de semana goiano e venceu pela quarta vez consecutiva na MotoGP, assumindo pela primeira vez na carreira a liderança do campeonato na MotoGP e, vendo o rendimento da Aprilia, será difícil uma reviravolta da Ducati.
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A história do Brasil no Mundial de Motovelocidade começou na década de 1970 com Adu Celso, passando por outros pilotos de forma pontual nos anos seguintes como Edmar Ferreira, Antônio Jorge Neto e Marco Greco. Mesmo sem nenhum piloto no grid o Mundial de Motovelocidade aportou no Brasil pela primeira vez em 1987 no circuito de Goiânia, uma cidade fora do eixo Rio-São Paulo, mas que tinha uma pista muito boa para corridas de moto. Como lembrado por Lucas Carioli no site parceiro Notícias Motociclísticas, o que ninguém sabia na época foi que um acidente radioativo de grandes proporções tinha ocorrido em Goiânia, mas os gringos foram embora sem notarem isso e celebrando Wayne Gardner como o primeiro campeão das 500cc vindo da Austrália. Um fato curioso, descoberto essa semana pelo irmão Lucas Giavoni, foi que o lendário Freddie Spencer não participou dessa corrida por uma intoxicação alimentar.
A corrida no Planalto Central entrou para o rol das corridas favoritas dos pilotos e equipes, mas problemas de organização e público não muito grande fez com que a edição de 1989 fosse a última em Goiânia num primeiro momento, onde Eddie Lawson conquistou o tetracampeonato numa luta forte contra Wayne Rainey, em prova vencia pelo não menos lendário Kevin Schwantz.
O Brasil esperou três anos antes de retornar ao calendário do Mundial de Motovelocidade, mas a edição em Interlagos acabou sendo traumática para todos os envolvidos. O circuito paulistano pode ser um palco lendário para a F1, mas seus muros próximos tornam Interlagos uma pista perigosa para corridas de motos, onde vários pilotos pareceram ao longo dos anos. Mesmo com a experiência da F1, Interlagos sofreu severas críticas dos pilotos pela falta de segurança e até mesmo uma chicane improvisada foi construída na Subida do Café. Para aumentar ainda mais a tensão naquele final de semana, Mick Doohan fazia um retorno miraculoso após quase perder uma perna num acidente em Assen. O australiano mal conseguia andar, mas participou da corrida que foi vencida por Rainey, que encaminhou ali seu tricampeonato.
Outros três anos se passaram antes do Brasil voltar a figurar entre as etapas do Mundial. E no terceiro palco diferente. Jacarepaguá era um autódromo icônico e que recebera por praticamente a década de 1980 inteira a F1, mas quando perdeu a primazia para Interlagos, a pista carioca se voltou para outras categorias e em 1995 receberia o Mundial de Motovelocidade pela primeira vez. Foi um sucesso. A bela pista e a natureza deslumbrante do Rio de Janeiro tornaram a corrida carioca uma das mais populares do calendário. Para melhorar a situação, Alexandre Barros havia se tornado um piloto consolidado nas 500cc, fazendo com que a torcida tivesse para quem torcer. Após os anos de domínio do taciturno Mick Doohan, o Mundial veria a chegada de Valentino Rossi, um piloto muito diferente do australiano, transbordando talento e carisma na mesma proporção. Rossi adorava vir ao Brasil, onde venceu por quatro anos consecutivos (2000-2003), além de garantir o tricampeonato da MotoGP em 2002.
No entanto, como ocorre normalmente no lado de cá da linha do Equador, fatores políticos acabaram com a festa em Jacarepaguá. O Rio de Janeiro fora escolhido para receber os Jogos Pan-Americanos em 2007 e o circuito acabou se tornando local de obras para eventos olímpicos. Makoto Tamada seria o último vencedor de uma corrida da MotoGP em 2004. Poucos anos depois, o mítico circuito de Jacarepaguá teria o destino que todos conhecemos.
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Parecia que aquela corrida de vinte e dois anos atrás seria a última vez que o Brasil receberia o Mundial de Motovelocidade. O sucesso de Valentino fez do Mundial um evento muito popular, algo que a Dorna aproveitou bastante para fazer um país estar no calendário algo bastante dispendioso. A saída de Barros em 2007 da MotoGP não ajudava em aumentar o interesse para ter uma prova no Brasil.
Porém, como falado mais cedo, fatores políticos movem muito mais os interesses do que os fatores esportivos. E vindo lá de Goiás, local da primeira corrida no Brasil, surgiu a oportunidade de a MotoGP voltar para cá. Uma corrida na Argentina já acontecia desde 2014 em Termas de Río Hondo e trazer uma prova para cá não parecia impossível. O Autódromo Internacional Ayrton Senna chegou a ser abandonado anos atrás, mas uma ampla reforma fez com que a MotoGP estivesse de volta para Goiânia.
E o timing parecia perfeito. Diogo Moreira surgiu como um prospecto de estrela da motovelocidade ainda muito novo, cooptado por Alexandre Barros, Diogo foi morar na Espanha, onde construiu uma bela carreira nas categorias de base ibéricas, culminando com o título do Mundial de Moto2 em 2025, se tornando o primeiro brasileiro Campeão Mundial de Motovelocidade em quase 80 anos de história. Moreira chegava à MotoGP pela porta da frente, contratado pela poderosa Honda, mesmo ainda correndo pela equipe satélite LCR.
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Além de Diogo Moreira, o público brasileiro teria a oportunidade de ver in-loco um dos gigantes do esporte a motor: Marc Márquez. O espanhol da Ducati superou quatro cirurgias no braço direito após um acidente ainda em 2020 para vencer seu sétimo título da MotoGP, numa das maiores recuperações da história do esporte.
Goiânia foi a segunda etapa do campeonato 2026. Marco Bezzecchi venceu a corrida de abertura em Buriram, na Tailândia e confirmava o crescimento da Aprilia frente ao domínio da Ducati, que vence todos os títulos desde 2022. Com uma grande mudança de regulamento marcada para 2027, a MotoGP se volta cada vez mais para a temporada seguinte, principalmente no mercado de pilotos. O talentoso Fabio Quartararo estará indo para a Honda? Em troca, a Yamaha contratará Jorge Martin, o campeão de 2024? Pecco Bagnaia, bicampeão mundial, mas eclipsado dentro da Ducati de fábrica por Marc Márquez, estará indo mesmo para a Aprilia, correr ao lado de Bezzecchi? E a estrela emergente Pedro Acosta trocará a quase falida KTM pela Ducati de fábrica? Marc Márquez irá querer ter um piloto tão forte, jovem e faminto ao seu lado?
Enquanto essas perguntas não são respondidas e ainda teremos nove meses até 2027, a MotoGP chegou em Goiânia com bastante ansiedade. Os pilotos gostaram do circuito fluído de Goiânia, diferente dos novos circuitos ‘acelera-freia’. Chuvas fortes causaram grandes alagamentos em Goiânia e mesmo tendo sido divulgado que as obras tinham sido concluídas dentro do prazo, ainda havia materiais de construção pelo circuito. A chuva voltou forte na sexta-feira e barro entrou na pista, atrasando o cronograma. Havia, sim, reclamações aqui e ali sobre problemas de estrutura, mas então veio a classificação da MotoGP…
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As chuvas fortes dessa semana causaram o estourou de uma tubulação debaixo da reta dos boxes, fazendo aparecer um buraco (!) no local. Infelizmente todo o cronograma foi atrasado, inclusive com a classificação da Moto2 indo para domingo. Foi um vexame, mas felizmente foi contornado e a Sprint Race aconteceu, com horas de atraso, com vitória de Marc Márquez, ultrapassando o pole Fabio Di Giannantonio na última volta.
Como normalmente acontece quando a porta é arrombada, a boiada passa e os pilotos passaram a reclamar da sujeira da pista, fazendo-os ter apenas um traçado para correr, além do asfalto já estar bastante ondulado. E a situação pioraria depois…
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As corridas de Moto3 e Moto2 ocorreram sem maiores problemas, mesmo com uma bandeira vermelha aparecendo na categoria menor por causa de um acidente envolvendo Scott Ogden. A nova esperança espanhola Máximo Quiles venceu na Moto3, enquanto Daniel Holgado passou por cima dos favoritos Manu González (derrotado por Diogo Moreira ano passado) e David Alonso para vencer na Moto2 e assumir a liderança do campeonato.
No intervalo entre as corridas da Moto2 e da MotoGP, a organização anunciou, quatro minutos antes da largada, que a corrida da categoria principal teria oito voltas a menos por problemas no asfalto no último setor da pista. Além das ondulações, os pilotos reclamaram que, mesmo numa prova Sprint, os pneus se desgastaram demais. Depois da corrida, Fabio Di Giannantonio falou que o asfalto estava se esfarelando. Mais um ponto negativo nesse final de semana…
Se antes havia receio pela chuva, que tantos transtornos causou antes do final de semana, o forte calor no Planalto Central se fez presente no domingo. A festa estava bonita e o Autódromo Internacional Ayrton Senna estava lotado para ver o domínio de Marco Bezzecchi. O italiano não parecia muito confortável durante o final de semana, sendo uma das vítimas da curva 4 durante os treinos, mas ainda conquistara uma segunda posição no grid, ficando atrás do compatriota Di Giannantonio.

No domingo Bezzecchi largou bem (foto acima), deixou Di Giannantonio para trás e dominou a prova com bastante tranquilidade. A animada briga pela segunda posição logo na primeira volta tornou a vida de Bezzecchi (foto que abre esta coluna) ainda mais fácil, abrindo quase 2s quando Jorge Martín se assentou na segunda posição. Pedro Acosta se segurou o quanto pôde, mas foi sendo ultrapassado até terminar na sétima posição, cedendo a liderança do campeonato para Bezzecchi.
A KTM vive de lampejos de Acosta, com as outras motos longe do top-10 e Maverick Viñales em último. Pior foi ainda foi a Yamaha. Após conseguir colocar três pilotos no Q2 pelas condições traiçoeiras de sexta-feira, os representantes da Yamaha caíram pelotão abaixo na corrida e apenas Rins marcou pontos. Quartararo não vê a hora de assinar com a Honda. Isso, se já não tiver assinado…
A briga pela terceira posição entre Di Giannantonio e Marc Márquez foi a diversão do final da corrida, com o italiano tomando uma ultrapassagem agressiva de Márquez, mas retomando a posição quando o espanhol errou na volta seguinte. Se na Sprint Marc Márquez conseguiu se sobressair frente à Di Giannantonio, o piloto da VR46 deu o troco no domingo. Apesar da vitória no sábado, Márquez não subiu ao pódio ainda em corridas principais e vê a Aprilia crescendo à olhos vistos. Ogura ainda tirou uma casquinha de Acosta e Alex Márquez para ser quinto, ou seja, assim como ocorreu na Tailândia, a Aprilia dominou e colocou três motos entre os cinco primeiros em Goiânia.
Marc Márquez ainda sofre com a última cirurgia e nem foi a melhor Ducati do dia, mas se quiser o oitavo título, precisará escalar uma montanha já grande. Diogo Moreira fez outra corrida decente. O brasileiro da LCR Honda largou mal, caindo para 19º e foi recuperando posições na medida em que seu equipamento era superior à KTM’s e Yamaha’s, bisando o 13º lugar conquistado três semanas atrás em Buriram.
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A Aprilia sai de Goiânia deixando a sensação de ter melhor moto do pelotão, talvez terminando o domínio da Ducati nos últimos anos. A fase de Marco Bezzecchi é sensacional, mas Jorge Martin (foto abaixo) está em claro crescimento e cada vez mais confiante em sua Aprilia. Todos conhecemos o talento do espanhol. No lado da Ducati, jamais deveremos subestimar o fator Marc Márquez.

O ano de 2026 está apenas começando, mas tudo segue indefinido para o resto do campeonato da MotoGP, que deve ser mais animado que ano passado.
Entre mortos e feridos, que a edição do Grande Prêmio Brasil de 2026 da MotoGP sirva de muita lição para os organizadores. A festa foi bonita e é importante ter eventos assim no nosso país, mas há bastante pontos de melhoria.
Abraços!
João Carlos Viana