A geração que não viu

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Quando o ano de 2014 chegou, o GPTotal começou a se organziar para prestar homenagens ao nosso último campeão da F1. A ano seria marcante, 20 anos daquela manhã de domingo que mudou a vida de tantas pessoas e mudou os rumos do automobilismo mundial. Todos os colaboradores aqui do GPeto (como chamamos o GPTotal ‘internamente’) foram convidados a falar sobre sua relação com Ayrton e a Fórmula 1.

A coluna trazida aqui hoje foi publicada originalmente em 24 de Abril de 2014. Um texto mais curto que o nosso habitual, mas mantido assim por toda a carga emocional e a dificuldade que foi escrevê-lo na época. 

Agora não são mais 20 anos,  há 26 anos entre nós. Por isso revisitamos esse momemento, para lembrar de uma geração inteira que convivemos hoje.

Obrigado! #SennaSempre


Em 1994, uma geração inteira de crianças e jovens começava o ritual dominical de acordar e assistir alguma prova da Fórmula 1 em seus circuitos clássicos da Europa. Levados por seus pais, tios e parentes, a criançada sentava a frente da televisão para ver o sucessor de Pace, Fittipaldi e Piquet. Estávamos embalados pelo sucesso internacional. Todos os 8 títulos mundiais brasileiros já estavam “em casa”.

Ayrton Senna trazia consigo os anos de sucesso mais recente em 1988, 1990 e 1991 que mantinham a chama do Brasil como um “celeiro de craques” do automobilismo.

O Brasil finalmente não era só futebol. Depois de uma temporada cinematográfica em 1993, não havia espaço para pessimismo, 1994 seria o nosso ano do Tetra: no futebol e no automobilismo.

Parece um clichê batido e surrado. E sim, é: as manhãs de domingo de Fórmula 1 nunca mais foram as mesmas. Além do piloto, havia a costrução de um ídolo. Não só pela Globo e seu jornalista/amigo/apoiador Galvão Bueno, mas também cuidadosamente criada pelo próprio piloto.

Senna assumidamente carregava o peso de trabalhar a nação para manter viva a imagem dos imbatíveis pilotos brasileiros. Carregou consigo pela primeira vez a bandeirinha do Brasil por uma volta da vitória em uma assumida resposta a derrota da seleção brasileira para a francesa. Tudo milimetricamente pensado por ele.

As crianças sentadas na sala ouviam os relatos desse dia. Ouviam relatos de outras façanhas como as de Emerson e Piquet, mas conforme cresciam só havia o domingo de Senna. E por isso elas acordavam.

As manhãs de domingo prometiam a presença de algo encantador sobre os olhos juvenis. Concentração. Arrojo. O risco calculado de um piloto vencendo os limites da racionalidade em uma pista de corrida. Fora dela, a imagem de um jovem bem-sucedido. Uma bela namorada, carros, passeios de lacha e jet-ski, uma fala serena e espiritualizada. Não culpe seus pais, mas eles te apresentavam um modelo de “bom moço” que, sim, deveria ser espelho para toda uma geração.

Essa geração, do dia para a noite, perdeu a sua referência.

A faixa de adultos hoje entre 30 e 35 anos busca nas lembranças dos pais – e nas inúmeras gravações – as memórias épicas desses dias. É cruel. Cruel como um jogador de futebol sendo vendido para uma torcida com um DVD dos melhores lances de sua carreira filtrado pelo seu empresário. Essa geração não acompanhou os dramas e batalhas do dia-a-dia de Senna. Não viu as corridas ruins, as brigas de bastidores, a política por trás de suas ações.

Não entenda errado: tudo isso tornaria o piloto ainda maior. É um lamento, uma geração hoje acostumada com tanta informação na palma da mão estar limitada ao pouco que foi gravado e que Bernie Ecclestone não retira da internet.

Aproveite e leia também os outros textos desse Especial:
“O combate contra Prost”, de Eduardo Correa
“O perfil descendente”, de Márcio Madeira
“Because it’s there!”, de Manuel Blanco
“The turning point”, de Marcel Pilatti
“Enigma e chuva”, de Carlos Chiesa
“A maturidade de Senna”, de Lucas Giavoni
“Senna e a bandeira”, de Alessandra Alves

Não é estranho, portanto, olhar os números da audiência da Fórmula 1 em 2013 e reparar na divisão de faixas etárias que encontramos. Simplesmente quase 61% da audiência da Formula 1 no Brasil está na faixa que começa aos 35 anos de idade. Outros 18% estão entre 25-34.

Começando pelos mais novos dessas duas faixas: um cidadão que em 2013 tinha 25 anos, provavelmente nasceu em 1988 e “perdeu” as recordações dos três títulos de Ayrton. Mesmo que alguém o tenha colocado sentadinho na frente da TV para ver as corridas, é praticamente impossível ele ter lembrança disso. Com muita sorte e bastante esforço de memória, pode ter lembranças, ainda que desconexas, daquela que foi a temporada mais espetacular de Senna, o ano de 1993, descrita com precisão por Marcel Pilatti como um roteiro de filme, onde a vitória final foi o que menos importou.

Um pouco mais pra frente, a turma dos seus 34-35 anos: esses sim possuem alguma lembrança mais concreta e sólida, ao menos do que foi 1991 e certamente do que foram os anos de 1993 e 1994 para o automobilismo. E ainda assim, fãs da Formula 1 até hoje, passaram 20 anos buscando as imagens dessas lembranças em qualquer fonte possível.

Os números, crus, nos entregam esses fatos. Inconscientemente isso mudou algumas percepções em relação ao automobilismo. Desde que, por exemplo eu, tomei conhecimento do vazio que é ter visto corridas épicas só por VT, nunca mais perdi uma decisão de F1. Não é concebível permitir, mais uma vez, ter a história contada e não vista.

Para essa geração que começava a crescer pronta para dominar seu cotidiano dominical com as manhãs de Formula 1, sobrou apenas o silêncio do primeiro dia de Maio.

Um silencio seco. Um nó. Uma batida que já trazia a frustração de mais uma corrida sem pontos. A primeira reação era de decepção. Aquela temporada era pra ser a maior “barbada” da F1. Nós tinhamos Ayton Senna na pista. Ayrton Senna tinha a poderosa Williams Renault em suas mãos.

Alguns momentos se passaram e nada do piloto sair do seu carro. A decepção virou preocupação. A preocupação virou a tristeza que calou um país. Durante o dia, esperávamos notícias. Ela veio da forma que mais temíamos. Lembro muito bem que essa espera fiz sozinho: meu pai – até hoje – não gosta desse assunto e desse dia.

Os reflexos mais imediatos daquela data vieram logo no dia seguinte. Na escola, todos no patio. Fomos ouvir o hino em homenagem ao campeão. Alguns garotos e eu lembraram também de Roland Ratzenberger. Mais uma vez o silêncio respeitoso de uma garotada que já sofria com o buraco deixado.

Pela primeira vez na vida, logo em 1995, eu iria ver Fórmula 1 em Interlagos. Já havia visto corridas menores e regionais sempre levado pelo pai (obrigado!). Éramos pura empolgação e chegamos em um Interlagos desolador. A gente sempre ouvia falar das logas filas da madrugada, o setor G lotado, a correria para chegar cedo no melhor lugar possível. Entramos em um autódromo vazio. Em dado momento da corrida estávamos deitados na arquibancada, como em um confortável sofá, e lá bateu a certeza que o vazio era permanente e irrecuperável.

Desde aquele mês de maio em 1994, uma geração inteira passou a conhecer mais da Fórmula 1 pelo o que ela foi do que pelo o que ela poderia ser ou é. Com pais que presenciaram a carreira de Ayrton Senna ao vivo ou com pais mais jovens que já acessaram os canais que resgatam essas lembranças, até hoje crianças buscam a F1 e as imagens inspiracionais de Senna.

Há os que gostam e há os que desprezam (não há motivo para dimuir ou menosprezar), mas é um fenômeno: Senna até hoje é referência de um automobilismo brasileiro cativante e de uma pessoa que inspira vidas.

Abraços
Flaviz Guerra

 

Flaviz Guerra
Flaviz Guerra
Apaixonado por automobilismo de todos os tipos, colabora com o GPTotal desde 2004 com sua visão sobre a temporada da F1.

1 Comment

  1. Leandro disse:

    Na época eu assistia F1 esporadicamente, só quando estava passando já em uma TV ligada, não tinha noção que era um campeonato, horários, etc, mas lembro de ser noticiada nos jornais.

    Eu lembro de ver poucas corridas e sinceramente, das que vi, nem sei onde foram, mas esta eu me lembro bem. meu pai ligou a TV, não lembro se ele estava assistindo, sei que eu estava e quando vi a batida, seguida da narração: “Senna bateu forte”, não me pareceu grave, pelo pouco que eu já havia assitido de corridas, aquela batida foi mais uma e aparentemente mais leve que outras que eu já havia visto. Eu não tinha 10 anos ainda, era uma criança e muitas vezes queria ver uma batida, achava bonito as peças voando, terra, grama, um pouco de fumaça e o piloto saindo são e salvo daquilo tudo.

    “Senna mexe a cabeça”

    Ali eu tive certeza que estava tudo bem, mas ele devia estar com dores… mas a demora começou a preocupar. Não sei se pelo Senna ter “abandonado” ou estar na hora de abrir o comércio, meu pai desligou a TV.

    Fui saber à tarde que Senna havia morrido. Não senti nada naquela hora.

    Na segunda-feira sim.

    No colégio, toda a comoção pela morte dele, “que eu mal conhecia, mas já considerava pacas”. Lembro de ter escrito na carteira que eu estava: “Senna para sempre”, com aquele ésse estilizado, que eu acho, apenas copiei de alguém.

    Houve um hiato, voltei a assistir F1 em 1997, agora por gosto próprio e a partir de 1998 de forma continua, até os dias de hoje.

    Faço parte da geração que viu Senna correr, mas eu nem sabia a importância disso e que isso teria para minha vida. Eu não posso estufar o peito e falar que vi, que me lembro de tudo, disso e daquilo… muitas coisas são falsas memórias, menos Imola 94, isso eu vivi.

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