A trágica história de Tim Richmond

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Há 30 anos, um promissor piloto vencia suas últimas corridas na Nascar. Sem medo de acelerar além dos limites e aproveitar as melhores coisas da vida, Tim Richmond foi um dos maiores nomes da categoria nos anos 1980. Entretanto ele guardava para si um terrível segredo que o resto do mundo só saberia muito tempo depois.

Nascido em Ashland, Ohio em 7 de junho de 1955, Richmond era o único filho homem de seus pais Al e Evelyn. Entretanto, o menino nasceu frágil, com uma precoce hérnia. Isso fez com que necessitasse de cuidados constantes, com toda a família precisando ajudar-lhe a ficar em pé e a sentar-se.

Nas décadas de 60 e 70,  família não passava dificuldades. Al Richmond era um soldador para empresas de construção de tubulação e mais tarde, projetou uma máquina que perfurava rodovias debaixo do chão. Para comercializar este invento, ele fundou “Richmond Manufacturing”, que eventualmente passou a exportar máquinas para todo o mundo.

Assim, mimado pela família e sem problemas financeiros, Tim Richmond foi moldando sua personalidade, acostumado a ter todos ao redor de si. O costume com o estilo de vida luxuoso começou cedo. Com apenas 16 anos, já possuia um Pontiac Trans Am, uma lancha e um avião Piper Cherokee. Desse jeito, o menino não queria trabalhar. Designado para uma função de escritório na empresa do pai, Richmond, certa vez, foi pego dormindo em pleno horário de serviço!

Mas se trabalhos convencionais não lhe interessavam, esportes sim. Ainda no colégio, Richmond chegou a estabelecer um recorde em corrida de obstáculos e era um dos melhores no time de futebol da escola, bom o suficiente para que a academia aposentasse sua camiseta, depois que parou de jogar. A academia militar de Miami chegou a nomeá-lo “Atleta do Ano” em 1970. Tudo mudou, no entanto, no dia em que pisou numa pista de corrida.

Em 1976, Richmond passou a andar com um amigo de seu pai, que era co-proprietário de uma equipe da Sprint Cup. Tim, então com 21 anos, passou a integrar a equipe do piloto Dave Shoemaker. No oval de Lakeville, em Ohio, Richmond pediu para dar uma volta, apenas de curiosidade. Sem nunca ter pilotado um carro de corridas antes, virou tempos mais rápidos que Shoemaker. Sua verdadeira vocação estava descoberta.

Após alguns anos experimentando diversos tipos de corrida, Richmond estabeleceu-se na Fórmula Indy em 1979 (então ainda no controle da USAC). Seu talento apareceu para o mundo, pela primeira vez, nas 500 Milhas de Indianápolis de 1980.

Embora tenha se classificado apenas em 19º, Richmond foi evoluindo durante a prova até ficar entre os dez primeiros, arrancando elogios de ninguém menos do que Jackie Stewart, que naquela época comentava a Indy500.  Contudo, o combustível do carro acabou na última volta. Richmond não se fez de rogado e pegou carona de volta aos boxes com o vencedor Johnny Rutherford. Mesmo sem chegar a lugar nenhum, sua estrela começava a brilhar aí.

Parecia que sua carreira na Indy estava prestes a decolar, mas uma sucessão de fortes acidentes (principalmente no oval de Michigan onde dividiu o carro em dois), criaram um impasse. Richmond, então, recebeu um convite da Nascar, se adaptando mais rapidamente aos carros da Stock Car norte-americana. Entretanto, fora da pista, as coisas não foram tão fáceis.

Se a Nascar até hoje ainda é uma festa, imagine nos anos 80. Aquela era época de nomes como Dale Earnhardt, Richard Petty, Terry Labonte e Bobby Allison, pilotos que representavam o mais puro estilo americano de automobilismo. Naturalmente, eles eram conservadores e avessos a “forasteiros”. Richmond, porém, era o oposto.

Sempre a bordo de carros esportivos, apartamentos luxuosos e cercado de belas mulheres, Richmond unia a aparência de Keke Rosberg, com a fome sexual de James Hunt e o carisma hollywoodiano de Tom Cruise. Isso era cosmopolita demais para os padrões da Nascar. Não demorou ao piloto criar desafetos. Earnhardt foi um deles.

Richmond roubou a vitória de Earnhardt algumas vezes, o que é uma proeza para alguém que é reconhecido quase como um Ayrton Senna por lá. O auge foi em 1986, quando eles disputaram palmo a palmo o título. Earnhardt foi o campeão, mas Richmond venceu mais corridas, sete ao todo. De quebra, ainda elevou a Hendrick ao status de equipe grande. O céu parecia o limite, mas…

Ao longo de 1986, ninguém reparou que Richmond tossia com frequência e foi ficando com uma aparência cada vez mais debilitada. O piloto constantemente queixava-se que sofria de uma gripe interminável e chegou a perder alguns treinos livres por conta disso. Preocupado, fez exames e quando os resultados chegaram, um abismo abriu sob seus pés: ele havia contraído a Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida, a temida AIDS.

Surgida em 1981, mas reconhecida como um problema de saúde pública apenas em 1985, a AIDS era – ao lado da bomba atômica – o grande medo do mundo na década de 80. Enquanto os médicos ainda engatinhavam nos seus estudos, a taxa de mortalidade era altíssima. Além de tudo, havia um enorme tabu sociológico envolvido, com a doença sendo inicialmente associada aos homosexuais, chegando a ser chamada de “praga gay”.

No auge da fama e da carreira, Richmond guardou a enfermidade apenas para si. Como o maior ‘garanhão’ da categoria poderia confessar ao preconceituoso mundo da Nascar que possuia AIDS, uma doença então associada apenas aos gays? Seria defenestração na certa, pensou. O norte-americano, então passou a dizer que estava com pneumonia dupla.

O choque foi tamanho que, segundo sua família, Richmond não conseguia acreditar que havia contraído AIDS, chegando a negar para si mesmo o fato. Apesar de iniciado o tratamento, o piloto inexplicávelmente continuou vivendo a vida de sempre, aparentemente sem se importar no perigo que estava expondo as pessoas a sua volta.

Uma das vítimas acabou sendo a namorada, Lagena Lookabill Greene. Richmond a pediu em casamento em setembro de 1986, supostamente antes do diagnóstico. Entretanto, Greene hoje acredita que ele já sabia que tinha AIDS quando tiveram relações sexuais naquele dia.

Devido à deterioração de sua saúde, Richmond perdeu boa parte da temporada de 1987 e ninguém entendia ao certo o porquê. Ainda assim, o piloto conquistou duas vitórias antológicas, em Pocono e Riverside. Sua última corrida foi a Ligue 400, no oval de Michigan em agosto, onde abandonou com o motor quebrado. Em setembro, demitiu-se da Hendrick Motorsports.

No fundo, Richmond sabia que iria morrer em breve, portanto queria encerrar sua carreira na Nascar em grande estilo, participando das lendárias 500 milhas de Daytona de 1988. Entretanto, a pressão da mídia e dos organizadores para saber exatamente o que acontecia com sua saúde estava aumentando e os primeiros teste anti-dopping foram realizados naquele ano. Submetido ao exame, o laudo de Richmond apontou positivo.

Ironicamente, aqueles tinham sido exames manipulados pela direção da Nascar para retirar Richmond definitivamente da categoria! O piloto processou a entidade e realizou um novo teste, que dessa vez deu negativo e não revelou o vírus HIV. Mais irônico ainda foi ver Richmond recebendo apoio de seu maior rival, Dale Earnhardt para participar da Daytona 500.

O caso da Nascar foi resolvido fora dos tribunais, mas tendo perdido a corrida e sem um carro para pilotar no restante de 1988, não restou ao piloto outra saída a não ser se retirar para seu condomínio na Flórida. Mais tarde naquele ano, ele foi hospitalizado em West Palm Beach.

Em julho de 1989, durante a transmissão da etapa de Pocono, a ESPN realizou uma pequena homenagem à Richmond, mostrando os melhores momentos de sua vitória de 1987, além de entrevistas com pessoas que conviveram com ele. O piloto assistiu à homenagem do hospital, onde morreria em 13 de agosto, cercado de seus familiares, como na infância.

Até o fim, Richmond nunca admitiu publicamente estar com AIDS. A confirmação veio apenas depois de sua morte, pela família, o que gerou um verdadeiro pandemômio entre os que conviveram com ele. Sua ex-noiva, Lagena Lookabill Greene, por exemplo, recebeu mais de 30 ligações de mulheres apavoradas.

Seu comportamento reprovável em relação à AIDS acabou servindo de ‘inspiração reversa’, digamos. O próximo esportista famoso a ser diagnosticado com a doença, o jogador de basquete ‘Magic’ Johnson, fez exatamente o oposto em 1991, declarando-se imediatamente portador do vírus, atitude até hoje considerada um exemplo.

Apesar de tudo, Com 13 vitórias e 14 poles, Richmond foi considerado, em 1998, um dos 50 maiores pilotos da história da Nascar. Em 2002, foi introduzido no Hall da Fama do automobilismo. Ao conceber o personagem Cole Trickle para o filme “Dias de Trovão”, Tom Cruise revelou que se inspirou também na história de Tim Richmond. É a arte imitando a vida.

Lucas Carioli
Lucas Carioli
Publicitário de formação, mas jornalista de coração. Sua primeira grande lembrança da F1 é o acidente de Gerhard Berger em Imola 1989.

2 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    não conhecia a incrível historia do Tim Richmond.
    Muito bom!!!

    Fernando MArques
    Niterói – RJ

  2. Mauro Santana disse:

    Grande Lucas!

    Show de coluna, e que tema fantástico!

    Realmente, os anos 80 foram muito loucos, mas a bruxa estava solta, rondando com a assombração da AIDS.

    Tom Cruise acertou em cheio quando se inspirou nesta lenda dos ovais americanos.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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