Clangor

Hasta la vista, Bernie
18/03/2015
Eles virão
23/03/2015

O futuro da F1 está sendo decidido em alguma sala de reuniões, quase certamente em Nova York, nas imediações de Wall Street

Tenho de escrever sobre Fórmula 1 mas queira falar sobre o Brasil.

Mas como fazê-lo sem amplificar o sectarismo e o egocentrismo juvenil que imperam? Tanto problema sério, real, complexo e tudo o que conseguimos é este tiroteio insensato e perigoso, inclusive por ser em grande parte inconsequente, crianças fazendo algazarra no salão.

Queria manifestar opiniões, mesmo que roucas, feridas, desesperançadas, das quais não tenho nenhuma certeza, sobre erros em série, malversações, más intenções, exploração das ilusões alheias, multiplicadas por pontos de vista disparatados, irrelevantes ou simplesmente imaturos.

Queria poder sugerir alternativas adultas mas só posso sussurrar, ou nem isso, frases desconexas, infelizes e irrelevantes em meio ao clangor dos tambores, motores e multidões, cacofonia e insanidade significando nada.

O futuro da Fórmula 1?

Enquanto Lucas Giavoni, Alessandra Alves, Flavio Gomes e tantos outros honestos apaixonados por automobilismo se debatem em dúvidas quanto ao futuro da F1- justificadamente, diga-se, tanto mais depois do latrinário GP da Austrália –, ele está sendo decidido em alguma sala de reuniões, quase certamente em Nova York, nas imediações de Wall Street, onde o fundo de investimentos CVC negocia a venda da sua participação majoritária na empresa que controla os direitos comerciais da categoria a outro fundo ou fundos igualmente movido pela lógica abjeta das vendas e lucros crescentes, expressos em balancetes trimestrais.

Como se ficou sabendo recentemente, a CVC tem de vender a sua posição acionária na F1 até julho próximo, de forma a atender necessidades estatutárias ou financeiras, não consegui apurar bem, me desculpem por isso.

Dados os valores envolvidos, do outro lado da mesa certamente estão fundos de investimento provavelmente maiores do que o CVC. Alguns, como o gigantesco BlackRock – quase US$ 5 trilhões em recursos administrados – ou o Mubadala, fundo soberano do Abu Dhabi, já detêm participação na Fórmula 1.

O que ali se discute foge à compreensão de nós, mortais, pelas implicações financeiras, fiscais, legais, de contratos, direitos e sabe-se lá mais o que. Dificilmente estão falando de motores, aerodinâmica, regulamentos técnicos e esportivos. Imagino, também, que não se discute a permanência de Bernie Ecclestone à frente da Fórmula 1 após a conclusão das negociações. A idade e opiniões peculiares, digamos assim, repetidamente expressas por ele não podem – pelo amor de Deus! – deixar de conduzi-lo à ansiada aposentadoria.

Feito isso, espero que o bom senso e a indiferença dos futuros proprietários pelo dia-a-dia da categoria prevaleçam e ela seja deixada em paz para reconstruir os próprios fundamentos.

Não acredito que a F1 precise necessariamente se “reinventar” ou “mudar para atrair os jovens”. O futebol não fez isso e segue sendo largamente popular. Creio que isso aconteceu porque os donos dos direitos comerciais dos principais campeonatos mantiveram-se ou foram mantidos distantes das regras e fundamentos do esporte.

Sinceramente, não sei como isso aconteceu. Creio tratar-se de um milagre, dado o histórico policial de quem normalmente se envolve com clubes e federações mas o fato é que ninguém se atreveu a mexer por pouco que seja nos fundamentos tampouco nas regras do futebol (e no pouco que interferiu – o horário das partidas durante a semana, por exemplo – piorou…).

Vencido este desafio, teremos uma chance de ver refundada a Fórmula 1, respeitando os seus fundamentos, sua verdade, sua inteireza como esporte. Estou – incrível! – ligeiramente otimista, os últimos problemas da categoria, a começar pelo triste acidente com Jules Bianchi, me sugerindo uma espécie de gota d´água.

Mesmo cabeceando de sono, consegui perceber que a Mercedes poupou seus carros em Melbourne. Trinta segundos de vantagem no final sobre Sebastian Vettel? Tá bom… Os alemães tinham carro pra por uma volta no 3º colocado e suspeito fortemente que se tenha costurado algum acordo de não agressão nas pistas entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg, tipo aquele entre Ayrton Senna e Alain Prost até Imola 89, de forma a garantir a tranquilidade geral.

Mesmo porque o regulamento prevê apenas quatro motores para a temporada inteira, um sensível agravamento sobre a situação de 2014, quando se podia usar cinco motores. Logo, poupar carro não é só uma questão de boniteza.

A quem espera por um pouco de emoção e disputa na categoria resta torcer para que embacem as negociações de renovação do contrato do Hamilton. The Times informa que o inglês está sonhando com US$ 77 milhões por ano, por um contrato de três anos, o maior valor já pedido na categoria.

Acorda, menino!

Que cartas você tem na mão? Sair? Pra onde? A McLaren talvez abra uma vaga no ano que vem, a RBR também. Você acha que a Mercedes terá alguma dificuldade para preencher a sua vaga?

A boa notícia da Austrália é que – milagre! – os carros se tornaram mais rápidos. Comparando os tempos de Hamilton no Q1 de 2014 e 2015 (choveu no Q2 e no Q3 de 2014) vê-se uma melhora superior a três segundos!

Mas não comemorem ainda: Vettel já trafegou pela mesma pista, em 2011, cinco segundos abaixo deste tempo.

A Fortuna é uma senhora melíflua. Com quem estaríamos comparando Felipe Nasr se ele tivesse danado o seu carro naquele toque, logo na primeira curva?

Aliás, os problemas da Sauber podem estar longe de uma solução. Segundo AutoSprint, a equipe tem contrata assinado também com Adrian Sutil. Ele vai entrar na justiça contra a equipe?

Por sinal, a quebra do princípio da extraterritorialidade da categoria perante a justiça pode representar um divisor de águas, o tipo do assunto que deve estar sendo discutido entre os fundos de investimento.

O regulamento de motores para 2015 prevê que cada fabricante pode fazer 32 atualizações técnicas em diferentes sistemas, equivalendo a quase metade das especificações dos motores a explosão e elétricos.

Na Austrália, a Mercedes informou oficialmente a FIA que já fez 25 atualizações (podendo fazer as demais nas próximas corridas), a Ferrari 22, a Renault 20. A Honda, por sua condição de novata, poderá fazer nove aperfeiçoamentos durante a temporada.

Jacques Villeneuve disse a AutoSprint que os carros de Fórmula 1 mais difíceis que pilotou em sua carreira foram os de 98, aqueles com pneus estreitos e sulcos, equipados com motores de 900 cavalos, um freio-motor tão potente que desequilibrava o carro em desaceleração. Além disso, o canadense lembrou que a carência da telemetria naquela altura exigia uma sensibilidade aguçada de piloto e engenheiro para acertar o carro. Villeneuve sofreu com seu Williams em 98. Campeão na temporada anterior, ele conseguiu catar pobres 21 pontos, terminando o ano em 5º lugar.

Ele incluiu na lista também os carros de 2005 e 2006, quando pilotou para a Sauber e BMW. Os carros, disse Villeneuve, eram tão rápidos em curvas que, submetido a uma aceleração de até 5G, ele chegava a ter a visão turvada, o sangue fugindo, literalmente, das suas órbitas.

Bom final de semana a todos

Eduardo Correa

PS: se você, leitor, não conseguir postar seu comentário na própria coluna, tente via FaceBook. Nos últimos dias, a caixa de  mensagens do GPTotal tem sido vítima de centenas de spams :/

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

7 Comments

  1. Olavo Ito disse:

    Olá amigos do Gepeto…faz tempo hein? mas continuo por aqui sempre acompanhando vocês, mas infelizmente sem tempo para escrever.
    Vai um pitacozinho sobre como seriam as regras para mim. Um liberou quase geral, de regra só as dimensões do carro, tamanho do motor, tamanho do tanque, quantidade de conjunto de motores por ano, e uma verba máxima por carro (ai entra o depto de contabilidade da FIA, com as equipes justificando peças, serviços e RH).
    É isso por enquanto, um grande abraço a todos.

    Olavo

  2. Mauro Santana disse:

    Gostaria de deixar uma sugestão para uma futura coluna aqui no Gepeto, cujo o tema seria a volta da pole position do Keke Rosberg para o GP de Silverstone de 1985.

    Fica aqui a minha dica.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques disse:

    Eduardo,

    se olharmos os esportes de forma geral a cada dia/ano que se passa os interesses financeiros estão ficando acima dos interesses esportivos. Ninguém mais neste planeta pratica um esporte em alto rendimento apenas por amor ao esporte. Todos visam o lado financeiro acima de tudo.
    Com isso, creio que o glamour e o romantismo perde espaço, se já não se acabou por inteiro.
    Imagina o quanto se ganharia de dinheiro se Pelé tivesse aparecido no futebol apenas agora e não no século passado.
    A Formula 1 como não poderia deixar de ser sofre deste mesmo problema.

    Com relação ao que acontece aqui no Brasil é triste saber que o poder publico não presta. Não temos uma educação decente, não temos uma saúde decente, não temos uma segurança decente, não temos uma justiça decente … por que para eles o mais importante é fazer corrupção. O povo é apenas um detalhe …

    Vovô Xaruto

  4. Rafael Carvalho disse:

    Quem foi o gênio que teve a brilhante ideia de deixar os carros de F1 mais parecidos com os GP2 da vida? Esse foi um dos fatores para a queda de audiência!

  5. Lucas dos Santos disse:

    Brilhante texto, Edu.

    Quanto aos motores, não sei se entendi certo, mas tive impressão que o repórter Ted Kravitz, da TV britânica Sky Sports F1, afirmou que o regulamento desse ano, além de limitar o número em 4 unidades para a temporada toda, não permite mais o reparo de unidades usadas.

    Ou seja, se for isso mesmo, Kevin Magnussen (ou Fernando Alonso) e Daniel Ricciardo já começam a segunda etapa da temporada com um motor a menos. Dizem que essa medida é para estimular a construção de motores mais duráveis. Mas sabemos que, na prática, não é assim. Veremos pilotos “correndo devagar” ou abandonando corridas para poupar motor, ou veremos uma “chuva” de punições na segunda metade da temporada para os pilotos que utilizarem mais de quatro unidades de potência.

  6. Fabiano Bastos das Neves disse:

    Eduardo,
    Você defende muito bem seu ponto de vista, mas não creio que olhar para trás seja solução para a queda de audiência da F1. Acho que sua percepção apenas entrega a saudade que você tem dos “tempos de outrora”.
    Não acredito que simplesmente trazer carros e pilotos das décadas de 70, 80 ou 90 vá resolver o problema da F1. Na verdade acho que os carros de hoje são tão rápidos quanto aqueles, e se já não fazem as curvas de maneira a expor os pilotos a uma aceleração lateral de 5G, como nos tempos do Jaques Villeneuve, isto ocorre por uma opção de regulamento que buscava maior facilidade nas ultrapassagens. Pensou-se que retirando down force os carros pudessem fazer as curvas mais próximos e isto facilitaria as ultrapassagens, o que todo mundo pedia.
    Olhando os tempos de prova do GP da Austrália vemos que o tempo de prova deste ano não perde para muitos outros de outros anos. Mesmo tendo contado com quatro voltas (se não me engano) atrás do carro de segurança, este GP só perdeu para o de 2011 (aquele do recorde da pole) por dois minutos e meio. Descontado o tempo perdido atrás do carro de segurança acho que seriam quase iguais. Isto tudo gastando cerca de 1/3 de gasolina a menos.
    Isto só me faz pensar que os carros atuais andam em configuração de corrida mais próximo da configuração de treino do que os carros anteriores, e que a reclamação de que os pilotos tem que se preocupar mais em poupar equipamento do que pilotar durante as provas perde força.
    Continuo achando que o problema na queda na audiência da F1 está muito mais ligado ao anacronismo daqueles que a administram do que aos regulamentos hoje vigentes.
    Além disto, há que se colocar na balança que, de uma forma geral, com exceção dos eventos da moda (MMA, Champions League, etc.) há uma queda geral nas audiências dos programas de televisão. E não é por queda na qualidade do produto que é oferecido, mas por haver uma crescente oferta de bons produtos concorrendo no mercado.
    Aqueles que tem perto de 40 anos devem se lembrar da escassez de bons programas ofertados na TV há 20 ou trinta anos atrás. Quem morava nos grandes centros tinha acessoa a perto de uma dúzia de canais, e quem morava no interior dispunha de meia dúzia de canais ou menos. Naquele contexto, uma prova de F1 tinha uma determinada importância.
    Hoje, uma grande parcela da população tem ao seu alcance a TV fechada (com centenas de canais recheados de atrações) e ainda tem acesso a internet (a pior das concorrentes para qualquer atração da TV).
    A “Vênus Platinada” já não tem a mesma audiência em nenhum dos seus programas, e a tendência é que a difusão da audiência seja cada vez maior, e cada vez menor na frente da TV.
    Se a F1 quer voltar a ser uma atração de massa, não será através do retrocesso que ela conseguirá.

  7. Mauro Santana disse:

    Grande Edu

    Sempre com textos de muita classe.

    Pois é, acho que a F1 não precisa ficar mais se reinventando, basta olhar para o seu passado mais que rico, e buscar lá algumas das inúmeras coisas boas que deram certo.

    Sempre falo que a F1 começou a ter carros feios a partir da temporada de 98, com aqueles pneus sulcados e os carros com os eixos mais estreitos, ali a F1 começou a se perder pelo caminho, e dar tiros e mais tiros no próprio pé.

    Na F1 de hoje, fazem muita falta figuras como a de Jacques Villeneuve, que sempre falou e ainda fala o que vem na cabeça.

    Abraço a todos e um ótimo final de semana.

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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