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A história de François Cevert: o piloto que morreu num grave acidente e que poderia ter sido o primeiro francês campeão da história da F1. Será isso mesmo?

Há cerca de seis anos, durante uma aula do curso de Letras, uma professora se aproximou de mim e, ao observar os livros que eu carregava, perguntou do meu interesse sobre Fórmula 1. Após minha resposta ela disse: “você conheceu um piloto chamado François Cevert? Ele foi meu amor de adolescência”.

Confirmei que o conhecia e que o mesmo era um dos meus personagens favoritos da história da F1. Em seguida me contou que na primeira segunda-feira de aula, após sua morte, todo o colégio em que estudava fez um minuto de silêncio, em respeito a sua memória. “Todas minhas amigas choravam copiosamente, ninguém queria acreditar”. Nesse momento, percebi que o fenômeno François Cevert tinha alcançado, em seu tempo áureo, uma proporção ainda maior do que a que sempre imaginei e estudei.

Desde meus primeiros contatos com a F1, em 1986/1987, sempre ouvi falar desse incrível personagem e piloto francês, chamado Albert François Cevert Goldenberg ou, como ficou conhecido, François Cevert.

Sua carreira meteórica, seus dotes físicos (que encantavam as mulheres do seu tempo), seu carisma como piloto e principalmente sua trágica e prematura morte, em Watkins Glen, 1973, deixaram um impacto muito maior do que seus quatro anos de Fórmula 1 poderiam prever.

Transformar personagens carismáticos em heróis, ou bons pilotos em futuros campeões, após mortes prematuras como a de Cevert, tem sido uma constante na história do Automobilismo desde os seus primórdios.

Tentar provar a veracidade dessas possibilidades é algo, ao mesmo tempo, tentador e desafiador, pois jamais teremos certeza do que poderia acontecer de fato caso esses pilotos não tivessem morrido.

No caso de François Cevert, a questão se torna ainda mais complexa, pois ao mesmo tempo em que seus ex-colegas de trabalho, como seu eterno companheiro de equipe, amigo e mentor, Jackie Stewart, afirma que Cevert seria um futuro campeão (opinião partilhada por seu chefe de equipe Ken Tyrrell e seu ex-mecânico Jo Ramírez), muitos outros, em sua maioria jornalistas, afirmam que Cevert era apenas um bom piloto que teve suas prestações mega valorizadas por sua imagem, estilo e, principalmente, por sua morte.

Como disse acima, afirmar qualquer coisa sobre um futuro que nunca aconteceu é certamente impossível, mas podemos dar um pouco de luz a essa discussão.

httpv://youtu.be/5KN1HaiACcM

Filho de um joalheiro de sucesso, Cevert nasceu em Paris e começou a correr aos 16 anos, pilotando motos em vez de carros. Mas sua carreira realmente começou a ser notada quando trocou as duas por quatro rodas, em 1966, aos 22 anos. Nesse mesmo ano venceu o troféu Shell, em uma competição que tinha, no começo, 200 pilotos. Nesse momento começou a ser apontado como uma grande promessa e um futuro campeão.

Uma má escolha de chassi (Alpine) resultou em um primeiro campeonato de F3 bem abaixo do que todos esperavam, mas logo em 1968, com um Tecno bem mais competitivo, Cevert se sagrou campeão da F3 Francesa, chegando à F2 como uma grande promessa francesa. Foi o terceiro colocado no campeonato de 1969, mas foram duas corridas em especial que delineariam seu futuro na F1, devido a momentos marcantes com aquele que seria seu grande amigo e companheiro, Jackie Stewart.

Em Reims, 1969, em uma clássica slipstream battle, Cevert mostrou sua categoria ao fazer a estratégia certa de esperar para atacar após a última curva, vencendo Stewart (e também Robin Widdows e Piers Courage) em cima da linha de chegada. No ano seguinte, uma grande batalha com Stewart, na mítica pista de Crystal Palace na Inglaterra, selou de vez o seu destino. Com recomendações do seu piloto número 1, Ken Tyrrell contratou François Cevert para o lugar da outra esperança francesa “Johnny” Servoz-Gavin que decidira abandonar as pistas após lesionar um olho em acidente de buggy.

Até esse ponto, sua chegada a F1 teve pontos em comum com a de muitos futuros campeões: título em categorias de base, vitórias em campeonatos específicos e performances que marcaram história. Só que podemos afirmar o mesmo de vários outros pilotos que chegaram a F1 e nunca conseguiram passar da consistente, mas insuficiente regularidade de um meio de grid ou de lugares mais baixos do pódio.

Entre sua estréia no GP da Holanda de 1970 e o derradeiro GP dos EUA de 1973 (Cevert já havia participado do GP da Alemanha de 1969, mas com um Tecno de F2), conseguiu 1 vitória (Watkins Glen, 1971), 13 pódios, fez 2 voltas mais rápidas e marcou 89 pontos nas 47 corridas (46 largadas) que participou.

Seu principal ponto fraco era, sem dúvida, a baixa performance em treinos de classificação. Durante os 42 Grande Prêmios oficiais que Stewart e Cevert disputaram como companheiros de equipe (descontando as 3 últimas provas de 1970, quando Stewart já usava o Tyrrell 001 e Cevert continuava com o March que a equipe de Ken Tyrrell havia usado naquela temporada), o placar nas qualificações ficou 37 a 5 a favor do escocês.

Muitos alegam o fato de, para Cevert, terem sido entregues revisões atrasadas dos chassis Tyrrell, com as novidades sempre indo primeiro para Stewart, o natural número 1 da equipe. Mas mesmo em seu último e, disparado, melhor ano na F1, 1973, Cevert foi amplamente derrotado pelo seu companheiro nos treinos, com o placar de 10 a 4 para Stewart, enquanto os dois partilharam, na maioria das provas do mesmo Tyrrell 006.

Alguns erros infantis também lhe deixaram longe de resultados melhores, como o que cometeu na segunda volta do GP de Mônaco de 1973, quando perdeu a liderança (após ter feito uma excelente largada), com um toque forte no meio-fio, que causou o furo de um pneu.

Mas Cevert tinham também suas qualidades como um ritmo forte de corrida, boas largadas e certa propensão a fazer boas provas em situações difíceis. Sua única e memorável vitória, nos EUA, 1971, foi conquistada após ter largado da quinta posição do grid.

Após uma boa largada, François pulou logo para a terceira posição, tendo ultrapassado Denny Hulme nas voltas seguintes e finalmente Stewart na volta 14 (que estava com sérios problemas de dirigibilidade, devido a pneus que se desgastavam excessivamente). No final da corrida, Cevert teria os mesmos problemas de desgaste que afetaram o desempenho de Stewart, mas com o segundo colocado Ickx abandonando quando estava a apenas 2 segundos de sua Tyrrell, Cevert pode respirar aliviado com 29 segundos de vantagem, que controlou até a chegada, não sem antes passar por um susto, chegando a tocar na proteção após escorregar no óleo deixado pela Ferrari de Ickx.

Seu forte ritmo de corrida ficou mais claro em seu último ano de competição, 1973, tanto na F1, quando nunca esteve tão próximo de Stewart, quanto no Mundial de Marcas, onde fez um ótimo campeonato. Cevert era também um ótimo piloto de corridas de longa duração. Vencendo os 1000km de Vallelunga e fazendo por seis vezes a volta mais rápida, Cevert foi considerado o piloto mais rápido daquele ano e ajudou a Matra a reconquistar o título mundial de Marcas de 1973.

Na F1, suas performances em corrida estavam cada vez mais próximas de Stewart. Ele não venceu nenhuma corrida de F1 em 1973, mas conseguiu 6 segundos lugares, incluindo três dobradinhas com Stewart. Em algumas situações, como na dobradinha do GP da Alemanha, Stewart chegou a dizer para Ken Tyrrell que Cevert só não o ultrapassou por respeito, pois tinha velocidade para tanto.

Em outra, no trágico GP da Holanda, Stewart errou uma marcha na última volta e Cevert se recusou a ultrapassar seu amigo, dizendo que não gostaria de vencer daquela forma. Jo Ramírez afirmou várias vezes que, em 1973, Stewart parecia cada vez mais atento e feliz com a forma de Cevert pilotar, como se sua idéia de deixar um herdeiro para o trono da Tyrrell estivesse finalmente se concretizando.

É muito difícil precisar o quão verdadeira são declarações exacerbadas como essas, já que existe toda uma carga emocional por trás delas, multiplicadas pelo triste fim do piloto francês.

Cevert teria disputado o título de 1974 como seu substituto, Jody Scheckter, o fez de forma muito competente? Ele teria sido o primeiro francês campeão do mundo? Essas respostas nunca serão 100% respondidas, mas pelo que vimos na pista, principalmente na temporada de 1973, Cevert com certeza andaria no pelotão da frente em 1974 e teria conquistado vitórias. Daí a conquistar o título para a França é uma grande distância, ainda mais que os Tyrrell acabariam perdendo muito terreno para Ferrari e McLaren nos anos seguintes.

O que aquela manhã de 6 de Outubro de 1973, com um guard-rail estupidamente mal fixado, nos privou de ver, nunca vamos realmente saber, mas de uma morte trágica nasceu uma história épica, dramática, triste e com um final perturbador. Cevert sempre será lembrado como um dos símbolos de uma então nova era da F1.

Os Tyrrel azuis, os patrocinadores, seus óculos escuros e estilo de galã de cinema. Carros velozes, pilotos ricos, acidentes espetaculares e mortes macabras. Elementos que se coadunam com o começo da cobertura global da F1, com o que ela se precisava e se alimentava para gerar mídia, sucesso e história. Tudo inserido no clima o característico e muitas vezes moribundo dos anos de 1970. Um esporte que falava a língua do seu tempo.

De um bom e carismático piloto, nasceu um mito. O personagem acima do piloto.

De histórias como essa, a grande F1 se agigantou. Criou e destruiu seus próprios heróis, nos fez amar e admirar algo que parecia ser muito maior que nós. Fez nascer paixões improváveis, como a da minha professora, que 40 anos depois ainda se emociona ao lembrar de Cevert e sua morte. Como um filme de Hollywood, só que real e com um final muitas vezes triste e desolador.

…Histórias como essa que andam cada vez mais distantes do mundo atual da F1.

Júlio Oliveira Slayer
Júlio Oliveira Slayer
Músico profissional e professor de bateria, acompanha Fórmula 1 desde o GP da Áustria de 87. Sua grande paixão é a história da categoria.

12 Comments

  1. O Cévert era um gentleman até nas pistas. Corria por prazer. Era milionário, não precisava da grana da F1, que naquele tempo não era tanta. Ele fez corridas maravilhosas, como na Bélgica em 73, quando sumiu de todos, sozinho na liderança. Acabou se desconcentrando, rodou, mas garantiu a segunda colocação. Outra foi uma largada antológica na Argentina, também em 73, saindo em oitavo e tomando a liderança. Compará-lo com Prost é exagero. Pode ser que um dia ele chegasse a tanto, mas infelizmente não chegou. Dentre as várias belas mulheres que namorou, uma foi a atriz canadense Alexandra Stewart, nada a ver com o corredor. Ele a trouxe ao Brasil quando correu o GP em 73 em Interlagos. E cá entre nós, sua beleza era espantosa.

  2. Bruno Wenson disse:

    Pelo lamentável e horrível estado do capacete dele (aparente na foto do início da coluna) dá pra imaginar a segurança da época.
    Parece capacete de motoboy relaxado com a vida.
    Hoje podemos saber se um piloto deu ou não pro negócio, pois dificilmente ele morre em corrida. Felizmente. A morte de alguns serviu pra preservar a vida de outros.

    • Fernando Marques disse:

      Breno,

      se não me engano os pilotos reclamaram da altura do guard-rail … que pode ter sido crucial neste acidente pois Cevert foi degolado … e aí sejamos sinceros … nem capacete dos dias atuais dava jeito …

      Fernando Marques
      Niterói RJ

  3. Mauro Santana disse:

    Grande coluna Slayer, Parabéns!

    E que história interessante esta da sua Professora.

    Realmente a história de Cevert é muito rica, como é rica a história da F1 nos anos 70.

    Nunca pesquisei a fundo a carreira dele, sendo que pra mim muito das informações descritas nesta belíssima coluna , são novidades.

    No especial feito pela 4 rodas em DVD para os dois títulos do Emerson Fittipaldi, é possível ver detalhes dele na temporada de 72.

    Fernando

    O link que você postou, não esta disponível.

    Qual era a foto?

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Fernando Marques disse:

      Mauro,
      a foto está comentada em meu comentário abaixo. Tenho umas fotos arquivadas dos tempos romanticos da Formula 1, e numa delas está a foto da condessa, que deveria ser namorada do Cevert …
      Eu cliquei no endereço que forneci e a foto abriu … não sou expert em mexer em computador e de repente só abre em meu PC … a condessa mostrava na epoca ter belas pernas … hehehehehe

      Fernando Marques

    • Mauro Santana disse:

      Ahh, sei qual foto é Fernando, aquela que ela esta deitada numa janela e na outra janela o macacão do Cevert.

      Alguém consegue imaginar algo do tipo em Mônaco nos dias atuais!?

      rsrs

      Abraço!

      Mauro Santana
      Curitiba-PR

  4. Lucas disse:

    Curiosamente, tenho uma aluna cujo namorado se chama François Cevert. Hoje em dia parece surreal a ideia de dar a um filho o nome de um piloto estrangeiro de F1…

  5. Fernando Marques disse:

    Mônaco 1973
    François Cevert, não era só bom de braço. A moça é a Condessa Cristina Caraman,
    que lógicamente recusou-se a lavar o macacão.
    Infelizmente o francês morreu em Watkins Glen naquele mesmo ano.

    Fernando Marques

  6. Fernando Marques disse:

    Eu tive a felicidade de poder acompanhar as corridas de Formula já no inicio dos anos 70.
    Não tenho duvidas que o F. Cevert era um dos Top Drivers de sua época … sempre foi tido como um piloto muito rápido. E em muitas vezes acho que ele não ganhou disputas com Stewart por que tirava o pé do acelerador …
    Esta historia de “se” ele não tivesse morrido certamente teria sido campeão não sei muito o que dizer mas de uma coisa eu tenho certeza … ele foi muito mais piloto que o Tetra Alain Prost … foi o melhor frances que vi na Formula 1 …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Robinson Araujo disse:

      Poxa Fernando. Não morro de amores pelo Prost mas colocar o Cevert acima dele acho um pouco exagerado.
      O narigudo correu com uma concorrência braba nos anos 80, perdeu 3 campeonatos o qual poderia ter se sagrado campeão (83,84 e 88) e ainda deu um olé no FW11 em 1986 com o cansado MP4/2C que pilotava, ou seja, poderia ter 7 títulos! Mesmo correndo ao lado de Senna, em números absolutos ficou a frente do brasileiro em ambas temporadas que dividiram os MP4.
      Cevert para mim é a lembrança de uma época romântica, simples, daqueles que estavam ali simplesmente pelo amor ao esporte, sendo o auge da categoria em relação a capacidade técnica dos pilotos, encerrando este ciclo no final dos anos 80, início dos 90.

      Neste mesmo contexto cito um vídeo que revi esta semana, o do GP Brasil de 1980. Nele aparecem Villeneuve, Scheckter e uma provável funcionária da Ferrari embarcando em um FIAT 147 sem sequer motorista, sendo guiado por Gilles e identificado como carro Oficial da escuderia italiana. Impossível imaginar isso hoje em dia nem com os jogadores de pelada dos timinhos aqui de Cuiabá.

      Robinson Araujo
      Cuiabá

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