Graham Hill e a atitude que salvou a Lotus

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“Vamos em frente”. A atitude de Graham Hill no GP da Espanha de 1968 que garantiu a continuidade da equipe Lotus

Num dia comum, em 10 de maio de 1968, a equipe Lotus se encontrava perdida: seus mecânicos não sabiam bem o que fazer, Colin Chapman não apareceu no circuito – na verdade nem foi a Espanha – e fazia pouco mais de um mês que a equipe havia perdido sua principal estrela – Jim Clark havia morrido em Hockenheim em 7 de abril. Logo Clark, o maior dos maiores. Qualquer piloto poderia morrer, mas não Clark.

Para contextualizar, naquela época os pilotos conviviam com a morte lado a lado e era comum se perder ao longo de um ano cerca de 20% do grid. Para substituir Clark, Colin Chapman escolheu o inglês Mike Spence, mas eis que a tragédia não dando trégua ceifou a vida de Spence no treino para as 500 milhas de Indianápolis no dia 7 de maio, exatamente um mês após Clark e a apenas cinco dias do GP da Espanha.

Quando chegou aos boxes, Graham Hill repensou bastante se devia estar lá, e que talvez fosse a hora de parar. Mas sua atitude acabou sendo diferente; ele chamou os mecânicos e os reuniu para conversar e fez um bom discurso, tomando as rédeas da situação ele resolveu competir e transformou o ambiente da equipe numa frase: “vamos em frente”.

Seu caminho até ali nunca foi direto e ele tinha consciência disso, segundo palavras de sua esposa Bette, numa entrevista muitos anos depois desse episódio na Espanha.

httpv://youtu.be/asb92E8HU8s

Voltando no tempo, Graham Hill sentou pela primeira vez num carro de corrida quando já estava com 24 anos, isso em 1953, no famoso episódio em que ele pagou 1 libra para dar 4 voltas no circuito de Brands Hatch, num monoposto . Nesse mesmo dia ele conheceu Mike Costin, a quem pede uma carona de volta a Londres, já que ficara sem dinheiro. O motorista do caminhão era Colin Chapman e numa conversa entre eles, Hill pede um emprego e Chapman lhe oferece uma vaga de mecânico em tempo integral.

O que Hill queria mesmo era pilotar, mas Chapman não acreditava que ele tinha o potencial necessário para tal – apesar de em diversas oportunidades ele, como mecânico, conseguir dar voltas com tempos semelhantes aos dos pilotos da Lotus. Chapman acabou cedendo e deu a ele oportunidade em corridas de categorias menores, onde ele demonstrou que poderia sim pilotar com resultados consistentes.

Hill estreou na Fórmula 1 em 1958, no GP de Mônaco num Lotus 12, que não passava de um Fórmula 2 com motor reforçado. Largando na última fila, Hill faz uma corrida segura e regular, chegando a quarta posição até a volta 75 quando uma roda se solta e ele abandona.  Apesar de algumas boas atuações  Hill e Chapman se desentendem com constância , por conta disso e mais o fato dele perceber que na Lotus ele não tinha o espaço que almejava como piloto, eles rompem.

Na  temporada de 1960 ele se transfere para a BRM e seus dois primeiros anos na equipe foram de resultados pouco significativos. Na temporada de 1962 sua história começa a mudar. O piloto inglês venceu quatro das nove provas da temporada e com mais dois segundos lugares, o que lhe rendeu os pontos suficientes para se tornar campeão mundial de Formula 1.

A conquista do mundial de 1962 proporcionou a Graham Hill o reconhecimento de sua tenacidade como seu principal atributo como competidor. Nos anos seguintes ainda pela BRM, Hill conquistou três vice-campeonatos seguidos de 1963 a 1965, dessa forma ele também mostrou que o sucesso de 62 não foi uma obra do acaso.

Juntamente com o mundial de Fórmula 1, Hill também disputava provas de outras categorias do automobilismo. Ele fez parte da chamada invasão britânica às 500 milhas de Indianápolis, nos anos 60 , tendo participado dessa mítica corrida na edição de 1966 , onde na condição de rookie ele ganhou a prova.

Na Fórmula 1 o ano de 1966 foi muito fraco de resultados para Hill. A BRM, com o novo regulamento em vigor dos motores de 3 litros, tentou uma proposta bem ousada ao lançar um motor de 16 cilindros em “H”. Essa foi uma tentativa que se mostrou infrutífera e a partir daí a equipe começou o processo de decadência; com isso Hill logo estava se movimentando em busca de um carro mais competitivo para a temporada seguinte.

A Ford, em função de seu sucesso em Indianapolis e tendo em vista que lançaria o famoso Ford-Cosworth DFV ,pressionou Colin Chapman para contratar Hill de volta a Lotus. O que a Ford queria era juntar dois pilotos fortes, para que a Lotus dominasse a cena com seus motores, ora essa junção era perfeita para a época, Hill era considerado um excelente test-driver e Clark era considerado o melhor piloto da época.

A temporada de 1967, se não trouxe a conquista do mundial – Clark ficou em terceiro e Hill em sexto respectivamente – mostrou que a Lotus seria imbatível no ano seguinte.

Na primeira prova de 1968, na África do Sul, disputada em 1° de janeiro ,a Lotus faz uma dobradinha com seus dois pilotos, com Clark quebrando o recorde de vitórias de Fangio, ao alcançar sua 25° vitória na categoria e Hill como um bom escudeiro terminando em segundo lugar.

Aí tivemos uma Hockenheim no caminho… a morte de Clark foi um tremendo golpe no mundo automobilístico, mas na equipe Lotus o golpe foi muito mais profundo.

Voltamos aos boxes de Jarama, na Espanha, dia 10 de maio, pouco mais de quatro meses haviam se passado desde a África do Sul, onde a Lotus de imbatível assumia uma postura minguada e desanimada, sem saber o que fazer naquele momento.

Graham Hill também estava muito abalado com tudo o que vivenciara nesse período, só que ele tinha uma tenacidade e perseverança muito acentuadas e já havia passado por muitas dificuldades para simplesmente entregar os pontos.

“Vamos em frente”, disse ele aos mecânicos, e eles assim o fizeram. Nos treinos, Hill conquista um modesto sexto lugar no grid, essa corrida marca a primeira pole de Chris Amon que corria de Ferrari.

Na corrida, Hill mantém um ritmo seguro e constante desde o inicio, já na largada ele cai para sétimo, mas gradualmente vai subindo de posições até chegar a liderança da prova na volta 58, mantendo-a até a bandeirada na volta 90.

Depois Graham Hill declarou: “ganhei essa corrida por mim, por Jimmy, por Colin e pela equipe Lotus”.

httpv://youtu.be/j6QJST86w7w

No restante da temporada ele volta a vencer em Mônaco e no México, e ao final da temporada conquista o bi campeonato de pilotos pela Lotus.

Colin Chapman, a despeito de tudo o que haviam vivenciado nos últimos anos, admirava Hill. Mas, poxa, havia um Jim Clark para dividir essa admiração! E convenhamos: não devia ser fácil competir com Clark também nesse quesito.

Antes de assumir o automobilismo, Hill passou vários anos envolvido ativamente em competições de remo. Inicialmente, ele remou em Southsea Rowing Club, enquanto estava na Marinha Real e em Auriol Rowing Club, em Hammersmith.

Em 1952 ele se juntou ao London Rowing Club, um dos maiores e mais bem sucedidos clubes na Grã-Bretanha. De 1952 a 1954, Hill remou em quase vinte finais de competições, conquistando oito vitórias em campeonatos.

Graham Hill admitiu que a experiência adquirida no remo o ajudasse em sua carreira no automobilismo. Ele escreveu em sua autobiografia:

“Eu realmente gostei muito de ter participado de competições no remo. Isso realmente me ensinou muito sobre mim mesmo, e eu também acho que promoveu uma grande construção do meu caráter sobre o esporte. A autodisciplina necessária para o remo e à atitude – Never Say Die – obviamente, me ajudou a atravessar os anos difíceis que estavam por vir”.

Bi-campeão de Fórmula 1(1962 e 1968), vencedor de uma edição das 500 milhas de Indianapólis (1966) e uma edição das 24 horas de Le Mans(1972).

Graham Hill em maio de 1968 usou de toda a sua autodisciplina, tenacidade e motivação para não deixar a Lotus parar e com isso seguir em frente.

Amigos, 2015 está apenas começando. Por isso, vamos em frente.

Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

4 Comments

  1. Manuel disse:

    Caro Mário, aplaudo de pé esta coluna !!!

    Manuel, Valencia – ESP

  2. Mauro Santana disse:

    Grande coluna Mário!

    Parabéns!!!

    São por histórias assim, que a F1 é tão apaixonante.

    E vamos em frente.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Fernando Marques disse:

    Mario,

    houve aqui, há pouco, uma coluna que questionava exatamente do caráter bom ou ruim dos pilotos que foram campeões mundiais na Formula 1. Inclusive com caráter ruim suficiente de jogar até contra a própria equipe para ser campeão.
    Acho que o G. Hill foi o que teve o carater mais gentleman de todos os campeões … digno de ser um Lorde … digno acima de tudo de trabalhar em pró da equipe … para alcançar os seus feitos … um belo exemplo de como ser campeão …
    G. Hill também foi considerado o Mister Mônaco pelas suas 5 vitorias no Principado … feito somente alcançado pelo A. Senna que com suas 6 vistorias lhe tomou o posto de Mister … e somente, um campeão do mundo, triunfou em Mônaco, Indianápolis e Le Mans …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. A.Maria disse:

    “ganhei essa corrida por mim, por Jimmy, por Colin e pela equipe Lotus”.
    Esta frase descreve a tenacidade de um grande homem. Raras são as vezes que podemos encontrar pessoas determinadas pela equipe. Não importa o esforço, mas todos irão aproveitar a vitória. Determinação. Agradecida, mais uma vez, pela sua tarefa apaixonada de trazer a público uma imagem histórica e humana, rica em detalhes da personalidade e estratégias da vitória após um embate. Aprendi mais uma vez.. vamos em frente.

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