MUITAS COISAS PARA CONTAR

Alesi, Japão, Massa
12/10/2001
Tazio Nuvolari
15/10/2001

Edu,

E acabou a temporada 2001. Ainda estou meio sonado pela maratona televisiva, pois além da F 1 assisti aos GPs de moto que aconteceram na Austrália. Tenho assuntos variados para repercutir com você.

Lembra-se do meu palpite de semanas atrás, apontando Michael Schumacher e Juan Pablo Montoya como favoritos ao título de 2002? O GP do Japão teve exatamente eles como candidatos à vitória. O alemão ganhou a corrida e, assim, pulverizou mais três recordes: total de pontos marcados na carreira (801, ultrapassando os 798,5 de Alain Prost), de pontos em uma mesma temporada (123) e de vantagem final sobre o vice-campeão (58 pontos; o recorde anterior era de 52, de Mansell sobre Patrese em 1992).

Foi uma corrida interessante, embora não tenha havido disputa direta pela liderança. Schumacher abriu uma barbaridade de Montoya nas duas primeiras voltas (mais de 8 segundos), mas depois a progressão foi mais lenta. Quando Barrichello parou, pensou-se que todos seguiriam uma tática de três paradas, mas apenas o brasileiro o fez. No fim, o alemão confirmou sua vantagem e venceu.

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Sobre Barrichello, vou me ater apenas aos fatos e àquilo que todos viram na TV, para que não me acusem de “pegar no pé” dele:
– Largou mal, chegando a ser ultrapassado por Fisichella e recuperando a posição na primeira curva com uma manobra ousada;
– Com um carro mais leve, não conseguiu superar Montoya – ou melhor, conseguiu, mas levou o troco logo em seguida e ficou atrás do colombiano até fazer sua primeira parada;
– Com isso, chegaria na melhor das hipóteses em 3º lugar, mas a demora em seu segundo pit-stop e o tempo perdido na disputa com Ralf Schumacher enterraram de vez suas chances de chegar ao pódio, já que precisaria fazer mais uma parada. De qualquer maneira, a essa altura suas chances de ser vice-campeão já haviam diminuído de “mínimas” para “quase inexistentes”;
– Terminou a corrida em 5º lugar e encerrou a temporada em 3º, sua melhor colocação final em um campeonato. Mas, ao contrário do ano passado, não conseguiu em 2001 nenhuma vitória, nenhuma pole position e nenhuma volta mais rápida. Foi um caso único entre os pilotos das equipes vencedoras (Ferrari, McLaren e Williams).

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Chamou minha atenção o comportamento de Ralf Schumacher em sua disputa com Barrichello. Foi exatamente como em Monza: ele estava visivelmente perturbado por estar (bem) atrás de Montoya e, no desespero de evitar a ultrapassagem do brasileiro, acabou cortando uma chicane – apenas para dar passagem mais adiante e, assim, evitar uma punição.

Durante a semana que passou, Ralf pediu a Frank Williams para definir logo quem é o primeiro piloto da equipe. Foi um erro político terrível (a Williams nunca aceitou esse tipo de intimidação) e cometido em um momento pouco favorável para Ralf, que no segundo semestre foi sistematicamente superado por Montoya. Se tivesse que decidir hoje, Frank Williams certamente optaria pelo colombiano.

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A despedida de Jean Alesi terminou com um acidente entre ele e Kimi Raikkonen. O finlandês rodou e Alesi desviou para onde foi possível mas não teve como evitar a batida. Voltou aos boxes aplaudido e cumprimentou um a um todos os integrantes da Jordan.

O acidente impediu que Alesi igualasse a façanha conseguida por Richie Ginther em 1964: terminar classificado em todas as corridas da temporada. Mas, ao contrário do que alguns escreveram antes de Suzuka, houve outra corrida este ano em que o francês não recebeu a bandeirada, embora fosse classificado por ter percorrido mais de 90% da distância coberta pelo vencedor. Foi em Nurburgring, onde Alesi saiu da pista e ficou na brita na última volta ao tentar ultrapassar… Raikkonen.

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Faço minhas suas palavras de boas-vindas ao Felipe Massa. É a nova esperança de renovação, pois Barrichello já vai para sua décima temporada na F 1 e, depois dele, não surgiu ninguém que acendesse as esperanças dos torcedores brasileiros.

Para evitar expectativas frustradas, a capacidade de Massa deverá ser avaliada sem levar em consideração os resultados que a Sauber conseguiu em 2001. Ela terminou em 4º lugar no Mundial de Construtores, mas isso aconteceu em parte porque equipes como Jordan e Benetton caíram demais em comparação a 2000. No ano que vem, a disputa pelo posto de quarta maior equipe deverá ter mais integrantes, pois espera-se mais de equipes como Renault, Jordan, BAR e Jaguar.

Barrichello e Massa são, por enquanto, os únicos brasileiros confirmados para o ano que vem. Luciano Burti e Enrique Bernoldi têm alguma possibilidade de continuar na Prost e na Arrows, respectivamente, mas disputam as vagas com muitos candidatos – e um deles é outro brasileiro, Tarso Marques. Já Ricardo Zonta, que este ano fez duas corridas como piloto substituto, dificilmente terá uma vaga de titular no ano que vem. Deve continuar como piloto de testes da Jordan.

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Li em algum lugar uma notícia que achei bastante estranha. David Hunt (irmão do falecido James e proprietário do nome Team Lotus) compraria a BAR com a ajuda de Craig Pollock. Juntos, ambos mudariam o nome da equipe para Lotus.

Parece ser mais um daqueles boatos lançados como balão de ensaio. Primeiro, porque a Lotus Cars, fabricante de carros esportivos, pertence hoje à Proton, fabricante de automóveis da Malásia. Segundo, porque os direitos de imagem, merchandising e uso do nome Team Lotus ainda são motivo de litígio entre a família de Colin Chapman e o próprio David Hunt, que comprou a Lotus depois do encerramento da temporada de 1994 (a última da equipe na F 1). E terceiro, pela soma das anteriores: a volta do nome Lotus à F 1 obrigaria a complicadíssimas e imprevisíveis negociações em que dificilmente alguém aceitaria abrir mão de qualquer coisa, por menor que seja.

Seria fantástico ver o nome Lotus de volta à F 1. Em carisma e charme, era a única equipe que rivalizava com a Ferrari. Mas torço para que isso só aconteça como resultado de uma iniciativa séria e bem respaldada, tanto financeira quanto tecnicamente. Senão, será um vexame igual ao da BRM, que ficou um ano afastada da F 1, voltou em 1977 sem ter um mínimo de condições de honrar sua história de campeã mundial e meses depois acabou entre escombros.

Colocar uma operação dessas nas mãos de um Craig Pollock me parece uma temeridade. O momento de maior notoriedade da BAR aconteceu antes mesmo da estréia da equipe. Pollock queria (vendeu essa idéia para a BAT, British American Tobacco) que cada um de seus carros tivesse uma pintura: cigarros Lucky Strike para Jacques Villeneuve e 555 para Ricardo Zonta. A FIA baixou uma norma obrigando as equipes terem pinturas iguais em seus carros (a FIA também gosta de encher o saco às vezes…), Pollock insistiu mas no fim teve que aceitar as regras. Daí surgiu aquela pintura esquisitíssima dos carros da BAR de 1999, com cada lado tendo uma decoração diferente.

A BAR torrou dinheiro nos primeiros meses de operação comprando espaço em revistas e jornais de todo o mundo, promovendo viagens, gastando os tubos em promoção. Não foi surpresa que os resultados de 1999 (ano de estréia da equipe) fossem tão ruins. Em 2000 e 2001 a BAR ficou em quinto lugar entre as equipes, mas até hoje não justificou os milhões de dólares investidos em sua operação.

Essa história da BAR me fez lembrar do Sid Mosca, famoso pintor de carros e capacetes de corrida, até hoje em atividade em São Paulo. Certa vez (lá pelos primeiros anos 70), ele preparou um Fusca para disputar a antiga Divisão 3 (lembra dela?) e se preocupou muito mais com a pintura do que com a mecânica. Sid encerrou sua carreira de piloto com uma capotagem na curva 2 de Interlagos e confessou: “Fiquei triste mesmo é pela pintura, que estava linda…”.

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Finalizo com um registro sobre o Mundial de Motovelocidade (como você sabe, é outra competição que acompanho com grande interesse). Antes do GP do Japão, assisti ao GP da Austrália da categoria 500 cm³ em Phillip Island. O italiano Valentino Rossi, da Honda, sagrou-se campeão vencendo uma corrida sensacional. Durante boa parte das 27 voltas da corrida, pelo menos cinco pilotos (incluindo a do brasileiro Alexandre Barros, que fez uma bela corrida) “se esfaquearam” na disputa pela liderança.

Rossi, de 21 anos, é filho do ex-piloto Graziano Rossi, que ganhou alguns GPs de moto no final dos anos 70. Graziano era um dos pilotos mais extrovertidos da modalidade. Tinha cara de maluco, fama de maluco e criava pinturas exóticas para seus capacetes, usando desde motivos psicodélicos até paisagens de contos de fadas.

Valentino herdou do pai a paixão pelas motos, mas tem um talento ainda maior e um carisma inigualável. A cada GP, faz a maior festa com a torcida. Manda distribuir travessas de frango assado nas arquibancadas, aparece nos grids com mensagens das mais diversas (desde votos de rápida recuperação ao jogador Ronaldinho até manifestações a favor da quebra de patente dos remédios contra a AIDS por países africanos). Suas comemorações por vitórias são memoráveis: já usou mulheres infláveis, amigos fantasiados de anjo, faz saudações diferentes a cada corrida. Em 1999, quando ainda estava na categoria 250 cm³, venceu o GP da Espanha, em Jerez, e parou no meio da volta de honra para ir ao banheiro.

Nos últimos tempos, tem sido muito raro ver um esportista que, além de talento, esbanja simpatia e alegria por viver. Bem que poderia aparecer alguém assim na Fórmula 1.

Um grande abraço e boa semana,

Panda

GPTotal
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A nossa versão automobílistica do famoso "Carta ao Leitor"

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