Vencer não é tudo

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25/11/2019

Uma das provas mais interessantes das olimpíadas é a dos 3.000 metros obstáculos. Nesta prova se combinam resistência, técnica e velocidade. Resistência para manter um alto ritmo durante toda a prova. Técnica para superar os obstáculos de maneira fluida para perder o mínimo tempo possível e velocidade para atacar a fase final da corrida. Tudo isto ficaria indubitavelmente confirmado durante a prova que teve lugar nas olimpíadas celebradas em 1976 na cidade canadense de Montreal. Então, havia muita expectação por ver a disputa entre os dois favoritos: o sueco Anders Garderud e o polonês Bronislaw Malinowski. Do resto de participantes, dentre os quais se destacavam o finlandês Tapio Kantanen ou os alemães Michael Karst, da Alemanha ocidental, e Frank Baumgartl, da Alemanha oriental,  não se esperava que pudessem ameaçar esta dupla.

Assim, a final se esperava com ansiedade e logo resultou ser muito emocionante. O espanhol Antonio Campos sai disparado tão logo houve o tiro de largada e se mantém à frente durante umas voltas, até que Malinowski o supera, assumindo a liderança. Já próximo ao final, Malinowski começa a fraquejar e tanto Garderud quanto Baumgartl lhe superam na última volta, com Kantanen vindo logo atrás. Já em plena reta de chegada e com apenas um obstáculo por superar, Baungartl acelera seu ritmo e, avançando firme, se emparelha com Garderud, deixando a sensação que a vitória não se lhe podia escapar. Contudo,  ao alemão lhe falha a coordenação no último momento e, ainda que tentasse ajustar o passo, acaba golpeando a barreira quando tentava superá-la, perde o equilíbrio e cai. Com Baumgartl ainda dolorido na pista, Garderud se dirige a caminho da vitória em solitário, enquanto que Malinowski supera o alemão quando este ainda estava no chão. Com Kantanen se aproximando, Baumgartl, com dificuldade, consegue se levantar e ainda cruzaria a linha de chegada com direito a subir ao terceiro lugar do pódio.

Cinco anos depois, em 1981, Montreal seria cenário de outra corrida épica. Desta vez foi na formula um com motivo da disputa em seu circuito da penúltima prova da temporada. Carlos Reutemann e Nelson Piquet vinham protagonizando durante toda a temporada uma acirrada luta no topo da classificação do campeonato e chegavam a Montreal com apenas uma diferença de três pontos entre eles: Reutemann 46, Piquet 43 . Alan Jones e Alain Prost, empatados com 37 pontos, vinham logo atrás e ainda mantinham esperanças de conquistar o ansiado título. Precisamente estes quatro pilotos acabariam ocupando as duas primeiras linhas do grid, com Piquet na pole e o argentino em 2º, ficando o 3º e 4º lugares para Jones e Prost, respectivamente. Assim, parecia que a corrida seria disputada entre eles.

Domingo amanhecia chuvoso e, na hora da largada, caia uma intensa chuva sobre a pista. Tanto que a largada se retrasaria a espera de uma possível melhora das condições do circuito. Porem, como a chuva continuava sem nada que fizesse pressagiar que pararia em algum momento, e com 90 minutos de retraso sobre o horário previsto, a luz verde era acesa. Reutemann pula na frente de Piquet, com Jones fazendo o mesmo e assim chegam os três à primeira curva. Jones, com ousadia, se lança por fora de Reutemann e lhe supera, com Piquet colado em seu aerofólio e Prost ao do brasileiro.

Entrementes, ainda na metade dessa primeira volta, Gilles Villeneuve, que largava desde a 12ª posição, já se encontrava justo atrás de Renée Arnoux e, disputando-lhe o oitavo lugar, colide com o francês. Arnoux acabaria fora da pista enquanto que Villeneuve consegue se manter nela e, com o aerofólio dianteiro um pouco danificado, segue adiante, ainda que cairia à 10º posição, ao ser superado por Patrick Tambay e por John Watson.

Porém, Villeneuve, como era habitual nele, estava dando tudo de si e na sexta volta já ocupava a quinta posição, atrás de Jones, Piquet, Prost e Lafitte. Porem, na volta seguinte o australiano derrapa e obriga Piquet a fazer uma manobra evasiva para evitar a colisão, o que acaba deixando Prost na liderança, com Lafitte em segundo e Gilles em terceiro. Piquet conseguiria manter a quarta posição, apesar de ser o único desses pilotos a calçar os pneus Good Year, muito inferiores aos Michelin dos pilotos à sua frente naquelas terríveis condições. Pouco depois John Watson, outro piloto com os Michelin em seu McLaren, também supera o brasileiro.

Na volta 13, Lafitte, cujo Ligier com o velho Matra V12 se desenvolvia de maravilha naquele entorno adverso, supera a Prost. O baixinho francês, lastrado pelas condições pouco favoráveis ao motor turbo de seu Renault, seria uma volta depois também superado por um inspiradíssimo Villeneuve, cujos danos no aerofólio pareciam não afetar o rendimento de seu Ferrari. As posições se manteriam durante as seguintes voltas, com Prost em 3º lugar e Watson em 4º. Piquet perderia seu quinto lugar para Bruno Giacomelli, deixando as primeiras cinco posições nas mãos de pilotos com pneus Michelin, demonstrando que os pneus franceses tinham algo do que os americanos da Good-Year careciam.

No entanto, o irlandês não se conformaria com aquela posição e vai enfrente com determinação. Sua primeira “vítima” seria Prost , a quem supera sem problemas, para fazer o mesmo com Villeneuve na volta 37, alcançando a segunda posição, ainda que muito longe de Lafitte. Enquanto Lafitte e Watson lideravam sem problemas, Villeneuve encontra na volta 40 a Élio de Angelis em seu caminho, quem já havia perdido volta respeito aos dois primeiros, mas quando também se dispunha a superá-lo, colide com a traseira do Lotus e seu já danificado aerofólio ficaria ainda mais entortado.

Assim, ainda que este permanecesse preso ao bico, não parecia estar muito firme, a julgar por como se movia. Assim mesmo, Villeneuve segue adiante e na volta 48 seria Prost quem abandonaria ao bater na traseira do Lotus de Mansell, quando o francês se preparava a ultrapassá-lo. Com isto Bruno Giacomelli ascendia até o quarto lugar, com Piquet e Andrea de Cesaris a continuação. Na volta 51, De Cesaris tenta ultrapassar o brasileiro e os carros se tocam, mas enquanto Piquet consegue controlar o carro, o italiano vai para fora da pista e acaba encalhado na grama e barro. Lafitte aproveita o momento para ultrapassar os dois.

Na frente, as posições se estabilizam, com Villeneuve mantendo bravamente o terceiro lugar. Porem, como o que vai mal pode ir pior, quando faltavam apenas algumas voltas para a bandeirada final, o canadense teria um novo incidente, desta vez com o Alfa-Romeo de Mario Andretti, que terminaria por entortar para cima todo o bico do carro, deixando o aerofólio justo à frente do cockpit. Deste modo, o aerofólio, além de não servir para nada em termos aerodinâmicos, estava quase privando Villeneuve de visibilidade e constituía um verdadeiro perigo. Outro piloto teria abandonado lá mesmo, mas Gilles… não era desses pilotos ! .

Assim, pilotando nessas precárias condições e guiando-se pelas zebras nos limites da pista, Villeneuve segue adiante com o bico num estado que não pressagiava nada bom até que, duas voltas mais tarde, num trecho reto e quando parecia que a bandeira preta lhe seria mostrada a qualquer instante, todo o bico se desprenderia definitivamente, fazendo que Villeneuve quase perdesse o controle do carro, quando a roda traseira esquerda passa por cima dos restos.

O melhor do lance é que Gilles, finalmente, podia ver a pista à sua frente. Assim, com seu Ferrari em lamentável estado e sem aderência no eixo dianteiro, as quatro últimas voltas seriam todo um desafio para Villeneuve, que tinha que lidar com um carro cujas rodas dianteiras, em mais de uma ocasião, se elevavam no ar, qual se fosse o cavalinho rampante do escudo da Ferrari que adorna os carros da escuderia. Com o público ainda enaltecido e incrédulo perante a exuberante demonstração de pericia e arrojo que seu ídolo lhes estava oferecendo, se alcançam às duas horas de tempo máximo regulamentário e a prova se dá por concluída quando se girava a volta 63, sete menos das inicialmente programadas. Jacques Lafitte receberia a bandeirada quadriculada de vencedor, com John Watson a continuação, enquanto por trás de ambos e fazendo verdadeiros malabarismos para conseguir manter seu castigado 126CK na pista, Villeneuve conquistaria o direito a subir ao terceiro degrau do pódio.

Perguntado sobre a corrida que nos havia acabado de brindar, Villeneuve simplesmente diria: “…Enquanto à chuva, realmente não me importava. Nada no mundo me teria detido. Eu queria acabar entre os três primeiro e subir ao pódio, e se tivesse entrado nos boxes todo meu esforço teria sido em vão. Foi um risco que assumi e conhecia as consequências. Essa é a minha forma de correr e eu não consigo achar nenhuma justificação para fazê-lo de outra forma! “.

Assim, em ambos os casos, tanto Baumgartl quanto Villeneuve, com sua determinação e tenacidade, haviam atraído para si todas as atenções do público e, apesar de terem acabado apenas em terceiro lugar, terminaram ofuscando os vencedores de suas respectivas provas, o que não deixava de ser até injusto, pois Garderud cruzaria a linha de chegada estabelecendo um novo recorde mundial, enquanto que Lafitte havia oferecido um verdadeiro recital de pilotagem em condições extremas, e tanto um quanto outro teria merecido mais protagonismo pelo que conseguiram. O caso é que aquela final olímpica ainda é recordada como a melhor da especialidade, enquanto que aquele GP se considera o melhor dos disputados no Canadá. O curioso é que aquelas vitórias de Garderud e de Lafitte seríam as últimas para os dois.

No entanto, é compreensível que as duas provas se recordem muito mais pelo que fizeram seus terceiros colocados do que pelos vencedores, pois tanto Baumgartl quanto Villeneuve, com sua atitude de superação terminariam não apenas mostrando-nos o verdadeiro espírito da competição, mas, ante tudo, oferecendo uma verdadeira lição a todos que continha uma mensagem inequívoca e irrefutável que todos deveríamos ter sempre muito presente :

Vencer não é tudo, mas a vontade de vencer… sim “.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

2 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Manuel Blanco,

    concordo 100% com o Mauro.
    Já pensaram em Gilles e Senna na chuva duelando na pista?????

    Fernando marques
    Niterói RJ

  2. Mauro Santana disse:

    Fantástico texto Manoel!

    Belas lembranças, de dois momentos épicos do esporte.

    Grande abraço, e Parabéns!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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