
Aqui você lê a 1ª parte desta coluna: https://gptotal.com.br/pioneiros-1-3/
No final de 1977 houve outro “Fan Car”: o Tyrrell 008.
Maurice Philippe foi contratado para ocupar o cargo de projetista da equipe Tyrrell, deixado por Derek Gardner, que abandonou a competição profundamente decepcionado com a falta de apoio dos fornecedores (principalmente a Goodyear) no desenvolvimento do P34 de seis rodas. Embora a Tyrrell equipasse motores Cosworth, que permitiam projetar um carro com venturis laterais para gerar carga aerodinâmica, Philippe estava convencido de que o conceito seria seriamente limitado ou mesmo proibido, devido às mudanças na regulamentação relativa às saías de vedação.
Ele, então, assim como Murray, tentou reduzir a resistência ao avanço causada pelos radiadores, colocando-os atrás do chassi e em cada lado do motor… planos ao nível do fundo do chassi. Isso deixava toda a carenagem livre de “obstáculos” e permitia um fluxo de ar limpo para o aerofólio traseiro. Imagino que seria algo assim:

No entanto, Philippe ainda tinha um trunfo na manga, pois sua ideia original era aproveitar essa configuração para colocar um ventilador que aspirasse o ar debaixo do carro através dos radiadores, gerando uma depressão que aumentasse sua estabilidade ao ser sugado contra a pista.
John Gentry, outro dos engenheiros da Tyrrell na época, conta como Philippe o recrutou para se juntar a ele e a Gene Varnier em um novo projeto e como os três trabalhavam em uma pequena sala nos fundos da fábrica. O projeto consistia no desenvolvimento do 008 com ventilador, mas o desafio era fazer com que o sistema parecesse ter como função principal a refrigeração do motor e, portanto, cumprir com o regulamento além de toda dúvida. O aspecto do carro creio que devia ser algo assim: acima sem os radiadores à vista e abaixo com a configuração convencional.

Após Philippe deliberar a ideia com seus colaboradores e para não deixar dúvidas sobre a função principal do ventilador, concordou-se que este seria instalado à frente do motor e conectado ao seu eixo de comando por meio de uma bucha silentbloc. Essa era a disposição habitual de refrigeração nos carros de rua, portanto era algo comum que não levantaria suspeitas sobre o seu propósito.
Depois de decidir o que fazer, tudo foi colocado em prática e Brian Lisles seria o encarregado de dirigir a construção de todo o sistema. Assim, o ventilador foi construído e instalado no espaço entre o motor e o cockpit e também foram construídos dutos que direcionavam adequadamente o fluxo de ar que era aspirado através dos radiadores pelo ventilador e daí expelido para cima do motor, onde era exaurido por uma abertura feita na parte superior da carenagem.

Agora só restava provar todo o sistema e um teste seria realizado durante uma sessão privada no circuito de Paul Ricard, no final de 1977, sendo Patrick Depailler o encarregado de pilotar o carro. Infelizmente, as esperanças depositadas no sistema logo seriam frustradas, pois o motor não demorou em sofrer problemas de superaquecimento, apesar de ser um dia frio.
Aquele teste foi mantido em tal segredo que nem sequer existem fotos desse carro. Portanto, mais uma vez, só podemos imaginar como ele seria em base às escassas informações disponíveis – veja na ilustração que abre esta coluna.
O pequeno ventilador, limitado em tamanho devido ao pouco espaço disponível para sua instalação, não era suficiente para refrigerar o motor. Assim, com a temporada de 1978 prestes a começar em 15 de janeiro, na Argentina, a ideia foi descartada e, durante testes regulares de várias equipes no mesmo circuito pouco tempo depois, o 008 foi apresentado com radiadores dispostos de maneira convencional, com os de água nos flancos a cada lado do motor e os de óleo simplesmente montados sobre a carenagem de forma rudimentar, e se manteriam assim durante toda a temporada.
Aquela disposição não deixava dúvidas respeito a que se tratava de uma solução desesperada de último momento. Curiosamente, a abertura na carenagem sobre o motor seria mantida. É possível que essas peças já estivessem construídas e, como a abertura não representava nenhum inconveniente, foram utilizadas no carro convencional.
Segundo Jonathan Greaves, então engenheiro da Tyrrell, que anos mais tarde revelaria a existência desse carro em um breve comentário em seu blog sobre o teste em Paul Ricard, o insólito foi que o carro, apesar de não ter radiadores à vista, não despertou a curiosidade de ninguém, passando totalmente despercebido. No entanto, devido à semelhança no conceito entre o 008 e depois o BT46B, surgiram várias versões a respeito dessa coincidência.
Concluo esta série em nosso próximo encontro, dia 16. Até lá
Manuel Blanco