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Vencedor dos últimos dois campeonatos mundiais. No ano anterior, foi campeão por boa margem, embora a diferença de pontos final não reflita exatamente a distância de equipamento. Neste ano, porém, a Williams Renault melhorou ainda mais e as perspectivas internas na equipe não são as melhores.
O parágrafo acima se refere a Michael Schumacher em 1996 ou a Ayrton Senna em 1992? Acertou quem pensou em Senna, acertou quem pensou em Schumacher. O alemão saiu da Benetton em direção à Ferrari, equipe que, embora em melhora sensível desde 1994, ainda estava longe de ser um carro de ponta. Senna permaneceu na McLaren, mas já sabia-se que a Honda iria embora ao final daquela temporada. E as mudanças radicais (o câmbio e o motor, principalmente) do modelo MP4-6 para o MP4-7 não eram promissoras.
Companheiros de equipe
A primeira batalha que um piloto deve vencer é aquela contra seu companheiro de equipe: é necessário ser mais rápido em todas as circunstâncias possíveis e entregar resultados melhores no curto, médio e longo prazos. Em 1992 e 96, tanto Senna quanto Schumacher cumpriram bem esse papel.
É verdade que um olhar superficial – como sempre – irá dizer que 1992 foi o ano em que Berger andou mais perto de Senna: terminou o ano apenas um ponto atrás (49 x 50) e venceu duas corridas, diferente dos dois anos anteriores, onde Berger venceu apenas uma corrida, entregue por Senna.
No entanto, basta um pouquinho de análise para entender que a história foi bem diferente: dos 16 treinos, Senna largou à frente de Berger 15 vezes, o austríaco apenas na primeira etapa conseguindo partir do top 3 (a posição média de largada de Senna foi 2,81; de Berger, 4,56). Inclusive, o 1 de Berger no placar das qualificações se deu na corrida seguinte, Berger partindo em 5º, Senna em 6º – curiosamente, nas duas corridas a McLaren ainda usou o modelo de 91, precisando apressar a estreia do modelo 92 devido aos maus resultados.
As 14 corridas seguintes registraram um mesmo padrão: Senna largava à frente de Berger, andava muito mais durante toda a prova, brigava pela ponta, tinha algum problema e ia aos boxes 200 vezes ou abandonava o GP — o austríaco, então, capitalizava alguns pontos a mais. Por exemplo, na última etapa o placar interno da McLaren registrava 50 a 39 para Senna quando o brasileiro e Mansell se chocaram na volta 19. Naquele momento, Berger era o quarto colocado.
Com Michael Schumacher em 96, a discrepância de desempenho dentro da equipe também se refletiu na tabela de pontos (59 x 11), e parte disso, obviamente, se dá pelo fato de Eddie Irvine ser um piloto alguns degraus abaixo. Consideravelmente inferior a Berger, por sinal.
Assim como o austríaco, Irvine superou seu companheiro nos treinos apenas uma vez (a posição média de largada de Schumacher foi 2,62; de Irvine, 6,93), o fazendo logo na etapa de abertura: Eddie partiu em terceiro, Michael em quarto. O norte-irlandês terminou a prova na mesma posição, Schumy abandonando, o que o levou a liderar o “certame interno” (Berger também ficou à frente de Senna na tabela entre a segunda e a quarta etapas do Mundial de 92).
A partir dali, Irvine nunca mais se aproximaria do alemão, embora na tabela se mantivesse à frente até a 3ª etapa (terminou em quinto na Argentina, Schumacher não pontuou). Nos treinos, por exemplo, a melhor largada de Irvine seria o quarto lugar na Hungria, prova em que Schumacher fez a pole.
Falhas no equipamento
O grande adversário interno que Senna e Schumacher enfrentaram foi o próprio equipamento, em ambos os casos muito suscetíveis a falhas mecânicas e eletrônicas.
Senna foi ao pódio 7 vezes (terminou outra em quinto) e abandonou 8 provas. Desses 8 abandonos, houve falhas diversas no equipamento em 5 ocasiões, além de uma sexta em que o brasileiro foi vítima de um erro do adversário (no GP da França), impossibilitando sua participação na relargada.
Schumacher foi ao pódio 8 vezes (terminou outra em quarto) e abandonou 7 provas, 6 delas por problemas de equipamento diversos, aí incluído um motor que explodiu em plena volta de apresentação (coincidentemente – ou não -, também no GP da França), corrida que em muitos rankings não aparece como participação do alemão.
Mesmo as provas em que não abandonaram, tiveram problemas diversos: em Portugal, por exemplo, Senna foi segundo a maior parte do tempo, até passar a sofrer com problemas no câmbio, tendo que realizar paradas extras. Em Mônaco, na sua lendária vitória, o motor explodiu 100 metros após a linha de chegada. Schumacher, em sua obra-prima da F1 (Espanha), precisou usar o carro reserva – o qual teve problemas no início (câmbio) e durante a prova (cilindro).
Nos treinos, porém, compensaram no braço quando havia oportunidades: Senna fez apenas uma pole, mas conseguiu outras 4 primeiras filas. Teve também um “recorde torto” na história da F1, com 10 largadas em terceiro. Portanto, partiu do top 3 em 15 das 16 provas. Schumacher, por sua vez, conseguiu mais poles – largou na ponta impressionantes 4 vezes –, além de uma partida em segundo lugar (totalizando as mesmas 5 primeiras filas de Ayrton quatro anos antes) e outras 8 largadas em terceiro, perfazendo 13 partidas no top 3.
Números finais
Os desempenhos dos dois ficam mais claros quando comparados aos de Riccardo Patrese e Jacques Villeneuve, os segundos pilotos da Williams nos respectivos anos.
Patrese marcou apenas 6 pontos a mais do que Ayrton, conseguiu a mesma 1 pole e teve uma posição média de largada apenas 0.31 melhor que a do brasileiro (2,50 x 2,81). Senna venceu 3 corridas, Patrese apenas uma. O brasileiro liderou um total de 415 km, sendo 3º na estatística, enquanto Patrese foi o segundo que mais liderou (com 805 km na ponta). Porém, Senna foi apenas o 11º em km percorridos (3.332); Patrese, o terceiro (4.182).
Villeneuve somou 19 pontos a mais do que Schumacher, mas marcou 1 pole a menos e teve posição média de largada inferior (3,06 x 2,62). O alemão liderou um total de 590 km, sendo 3º na estatística, enquanto Jacques foi o segundo que mais liderou (com 1.370 km na ponta). Porém, Schumy foi apenas o 7º em km percorridos (3.593), enquanto o canadense foi o líder na estatística (4.494).

No comparativo das performances de Senna e Schumacher nos respectivos anos, resulta curioso, também, que os melhores desempenhos de ambos ocorreram em pistas semelhantes: Senna venceu em Mônaco, Hungria e Itália e liderou boa parte da prova na Bélgica, perdendo por conta de uma estratégia equivocada. Nessas mesmas corridas, em 1996, Schumacher marcou pole (Mônaco e Hungria) mas abandonou ou se sagrou vencedor (Itália e Bélgica). Ainda, ambos foram ao pódio em performances sólidas tanto em San Marino (Schumy também fez a pole) quanto em Portugal (Senna marcou sua melhor volta do ano).
Os únicos desempenhos destoantes foram Senna no Canadá em 1992 (pole e liderança absoluta por 37 voltas, até a quebra) e Schumacher na Espanha em 1996 (a vitória mais bonita e impressionante de sua carreira). Nas mesmas pistas, Schumacher (96) e Senna (92), respectivamente, tiveram dias para esquecer.
Muita lenha pra queimar
Conforme a tabela (59 do alemão, 50 do brasileiro) de pontos mostrou, o desempenho de Schumacher em 1996 foi levemente superior ao de Senna em 1992, fato impulsionado sobretudo pelos estágios de carreira de ambos (Senna com 32 anos, Schumy com 27; Senna dando adeus à Honda, Schumacher iniciando uma nova era na Ferrari), mas nos dois casos ficou demonstrando que havia, sim, um gap considerável da dupla para os rivais postos, quando se fala de talento.
Prova maior acontece no ano seguinte, quando Senna (agora com os Ford da Benetton na McLaren) e Schumacher (agora com Ross Brawn e Rory Byrne vindo da Benetton) realizaram duas de suas melhores temporadas na F1, conquistando dois dos mais impressionantes vice-campeonatos [não oficial, no caso de Schumacher], cada um ganhando 5 corridas — e realizando épicos sob chuva — diante de concorrentes ainda mais fortes do que em 1992 e 96.
Simbolicamente, a Williams não renovou/demitiu o piloto campeão em ambas as temporadas, não desfilando com o carro número 1 no ano seguinte: em 1993, vimos a equipe com o 0 e o 2; em 1997, teríamos o 3 e o 4.
É que os pilotos número 1 do mundo ostentaram o 8 e o 5, respectivamente.
Abraços,
Marcel Pilatti