
A primeira parte desta coluna você lê aqui:
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Assim, chegamos ao término desta primeira e atribulada fase que deixaria a classificação oficial do campeonato dos dez pilotos mais bem sucedidos nela da seguinte maneira:

O interessante desta etapa é que nos deu muito que comentar. Aquela desclassificação de Piquet e Rosberg no Brasil, mais do que uma questão puramente técnica, acredito que se inscrevia no âmbito das disputas de poder e da animosidade pessoal entre Balestre e Ecclestone, e teve sua origem em 1966, quando a FISA estabeleceu no regulamento a equivalência de 2:1 entre os motores atmosféricos e os turboalimentados. Naquela época, os motores turbo eram considerados mais próprios para caminhões do que para automóveis, e talvez a FISA achasse que ninguém desenvolveria um motor turbo para competição. No entanto, a Renault foi a primeira a perceber o campo que se abria diante dela com os motores turbo e, em 1977, entrou no campeonato de protótipos com o Alpine 442, uma evolução do 441 com o qual havia vencido o campeonato europeu de 2 litros e cujo motor Gordini V6 foi adaptado com um turbo Garrett, enquanto, nesse mesmo ano, entrou na Fórmula 1 com o modelo RS01, propulsado por uma variante desse motor com a cilindrada reduzida para 1.500 cc.
Depois de muitas dificuldades, em 1978 o 442 venceu as 24 Horas de Le Mans e, em 1979 a Renault, conquista sua primeira vitória na Fórmula 1 no Grande Prêmio da França. A partir desse momento, a evolução do motor turbo tornou-se imparável. No entanto, enquanto a tecnologia avançava e os motores turbo se tornavam cada vez mais eficientes, a FISA não fazia nada e mantinha essa regra inalterada ano após ano, de maneira que o que pretendia ser uma regra para garantir o equilíbrio da competição foi seu “pecado original”: manter essa regra estática em um mundo em constante evolução. Essa seria a origem do que acabaria provocando a guerra FISA-FOCA. Portanto, quando as equipes que utilizavam o motor Cosworth se viram em desvantagem, a única forma de compensar a maior potência dos turbos foi reduzir o peso de seus carros, e esses tanques de água faziam exatamente isso, mas cumpriam estritamente o regulamento.
Pode-se argumentar que se tratava de uma astúcia para contornar o regulamento, mas o que a norma sanciona é a infração, não a astúcia. O pior é que esses tanques já vinham sendo utilizados desde o final da temporada anterior e a FISA não alterou o regulamento, o que constitui seu segundo “pecado”. No entanto, diante da reclamação da Renault e da Ferrari, Piquet e Rosberg foram desclassificados, enquanto John Watson, cuja McLaren também utilizava esse tanque, não foi.
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A situação havia chegado a tal ponto que a FISA, diante do dilema de mudar as regras para equilibrar o poder — o que teria enfurecido as principais montadoras que já haviam investido fortunas no desenvolvimento de motores turbo e começavam a colher os frutos do seu trabalho — ou punir as equipes que simplesmente tentavam sobreviver aos dois pecados anteriores, acabou cometendo um terceiro: arbitrariedade. Essa decisão da FISA foi uma mensagem clara para a FOCA sobre quem detinha o poder na Fórmula 1: ela ditava que um resultado poderia ser alterado DEPOIS da corrida… sem qualquer modificação no regulamento ANTES. Como costuma acontecer, o poder aliou-se aos poderosos.
No Grande Prêmio de Long Beach, a turbulência continuou, e a Ferrari equipou o carro de Villeneuve com uma asa dupla ilegal, numa espécie de paródia para criticar tanto a FOCA quanto a FISA por suas interpretações absurdas das regras. Isso me leva a crer que a Ferrari talvez tenha encarado aquela temporada sem esperança de lutar pelo título e ainda focada no desenvolvimento de seu motor turbo, pois, caso contrário, seria difícil explicar por que enviariam seus pilotos para a pista sabendo que seriam desclassificados.
Contudo, foi na corrida seguinte, em San Marino, que a guerra entre FISA e FOCA explodiu com toda a força, quando as equipes Brabham, McLaren e Williams não compareceram em protesto contra os eventos do Rio de Janeiro. Assim, Renault e Ferrari pareciam ter o caminho livre para uma vitória tranquila após dominarem os treinos livres. Arnoux assumiu a liderança na largada, com as duas Ferraris em seu encalço (Prost durou apenas seis voltas), até que, na volta 43, o Renault de René começou a apresentar problemas e Villeneuve o ultrapassou, feito que Pironi repetiria na volta seguinte, deixando os dois pilotos da Ferrari bem à frente (foto que abre esta coluna). Como era tradição na Ferrari, em tal situação, e para evitar disputas, as posições precisavam ser mantidas. No entanto, Pironi atacou Villeneuve e o ultrapassou na volta 46.

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Aquele comportamento agressivo de Pironi surpreendeu Gilles, que reagiu e retomou a liderança na volta 49. Nos boxes da Ferrari, já haviam percebido que a tradição não seria respeitada desta vez e, preocupados com as possíveis consequências da disputa, mostraram a ambos os pilotos por primeira vez o sinal de “SLOW” na volta 50, ordenando-lhes que diminuíssem o ritmo e mantivessem suas posições, garantindo uma dobradinha que a Ferrari não conquistava havia três anos. Villeneuve diminuiu a velocidade conforme instruído, reduzindo seu tempo em dois segundos, mas Pironi continuou à frente e ultrapassou Gilles na volta 53. Confuso com o comportamento do francês, mas pensando que ele devolveria a posição, Gilles permaneceu atrás. No entanto, logo ficou claro que não seria esse o caso, e Gilles partiu para o ataque, retomando a liderança na volta 59, a penúltima, e diminuiu a velocidade novamente, na esperança de que desta vez Pironi obedecesse à ordem de manter suas posições. Mais uma vez, Gilles estava errado, pois na última volta, Pironi o ultrapassou na curva Tosa, graças a uma manobra incorreta de um companheiro de equipe, não lhe deixando opção de contra-atacar e, assim, “roubando” uma vitória certa.
Villeneuve, profundamente desapontado, diria:
“Pensei que tinha um amigo. Estava enganado, sou apenas um idiota. Esta corrida permitiu-me descobrir as verdadeiras cores de Pironi. Ele travou uma guerra estúpida contra mim; ambos poderíamos ter ficado sem fôlego. Diminuí o ritmo para chegar ao final, não para ser traído assim…”
Jody Scheckter, então campeão da Ferrari, confirmou a tradição da equipe ao comentar o ocorrido:
“Quando as coisas se acalmavam nas corridas, quem estivesse na liderança permanecia na liderança. Se estivéssemos em primeiro ou segundo lugar à frente de todos, tínhamos que manter nossas posições.”
Por sua vez, Christopher Hilton, um dos comentaristas mais respeitados da época, escreveu uma coluna sobre o assunto intitulada “O Homem Traído”, na qual afirmou:
“Em sua ingenuidade, Villeneuve pensou que, com apenas sete carros na pista, Pironi estava simplesmente tentando dar um espetáculo para o público. Eles duelariam e o público ficaria encantado, sabendo que Pironi deixaria Villeneuve passar… respeitando a tradição. Isso nunca aconteceu!”
Como podemos ver, se Pironi tivesse respeitado a tradição e a ordem estabelecida para a manutenção das posições, aquela vitória jamais teria ido para o francês. A atitude desafiadora de Pironi criou um clima tenso na Ferrari, já que o canadense era muito querido e a opinião geral era de que Gilles lhe “devia” um campeonato. Esse incidente gerou temores sobre o que poderia acontecer se Gilles e Didier se encontrassem novamente disputando posição na pista. Contudo, esse temor se dissipou quando Gilles perdeu a vida na sessão de qualificação para o GP seguinte, o Grande Prêmio da Bélgica. Assim, infelizmente, essa “dívida” jamais seria paga.
Com esse Grande Prêmio da Bélgica conclui esta primeira fase e, como podemos ver, houve vários incidentes que acabaram alterando os acontecimentos, de modo que, sem essas distorções, a classificação, que chamarei de “Hipotética”, deveria ter permanecido como mostrada aqui:

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Sigo no tema em nosso próximo encontro, em junho.
Até lá
Manuel
1 Comments
Manuel,
a narração na coluna ” A tartaruga – parte 2 ” continua sublime.
Eu estava la no autódromo do Rio , na arquibancada logo no inicio do retão do autódromo e me deliciei com a ultrapassagem de Nelson Piquet sobre o Giles … foi um deleite … só quem estava no inicio do retão pode ver …
sobre o ocorrido no GP de Imola e depois tragicamente na Belgica foi o grande sinal que a temporada ia se dar forma bem diferente do habitual, né ?
Não podemos esquecer, face ao acidente que vitimou o Giles Villenueve, que Piquet disse que a Ferrari era uma cadeira elétrica ou algo parecido, face a total insegurança que o carro oferecia … Giles foi cuspido do carro junto com seu banco …
Fernando Marques
Niterói RJ