A flecha nascida das sombras – Parte 1

O campeão em seus próprios termos
20/02/2026
Por Guilherme Ribeiro*

O nome Arrows parece ser já uma recordação distante para os adeptos da Fórmula 1 mas, para todos os que começaram a acompanhar a modalidade até à viragem do século XXI, esta equipa foi presença assídua no pelotão da F1 entre 1978 e 2002. Porém, nos 25 anos em que competiu, a escuderia nunca conseguiu ganhar um Grande Prémio, tornando-se na equipa com mais presenças em GP’s sem alcançar a tão sonhada vitória (a Arrows esteve inscrita em 394 provas e pelo menos um dos seus carros qualificou-se para 382), tornando-se numa das perenes ocupantes do meio da tabela, até que os custos crescentes a foram empurrando progressivamente para o fundo da grelha e, no Verão de 2002, para o seu fim. No entanto, tudo começou de uma forma muito promissora, no longínquo ano de 1977…

A Arrows surgiu de uma divisão interna na estrutura da Shadow durante a temporada de 1977. A equipa norte-americana, fundada pelo misterioso Don Nichols em 1968, tinha dado os seus primeiros passos nos Sport-Protótipos nos EUA, destacando-se a sua presença no campeonato Can-Am, para viaturas de Grupo 7. E, em 1973, Nichols decidiu dar o salto para o cenário internacional, ao inscrever a equipa no Mundial de F1. Da Can-Am trouxe também os seus pilotos, o norte-americano George Follmer e o britânico Jackie Oliver, vencedor em Le Mans em 1969 e já com experiência na F1, nomeadamente ao volante dos Lotus e BRM. De imediato a equipa mostrou ter capacidade para andar no meio da tabela e lutar pelos pontos e, em 1975, começou a época muito forte, aparentando ser capaz de “dar o salto” para o restrito grupo das equipas ganhadoras. Infelizmente, problemas mecânicos e a crónica falta de fundos puseram um travão a esta progressão.

Ancestral da Arrows, a Shadow acumulava momentos como a pole e liderança de JP Jarier em Interlagos 1975

A temporada de 1977 seria marcada pela glória e pela tragédia. No Grande Prémio da África do Sul, a grande promessa do automobilismo britânico Tom Pryce falecia num bizarro acidente, quando atropelou um comissário que, imprudentemente, atravessou a pista para acudir a um princípio de incêndio no carro de Renzo Zorzi (por ironia do destino, o outro piloto da Shadow), que tinha parado com o motor partido do lado oposto às boxes. Pryce não teve tempo de se desviar do desafortunado comissário, atropelando-o mortalmente, e foi fatalmente atingido na cabeça pelo extintor que aquele transportava. Meses depois, o australiano Alan Jones, que tinha sido contratado para substituir Pryce, daria à equipa a sua única vitória no Mundial de F1, após uma magnífica exibição à chuva no Grande Prémio da Áustria. Porém, por esta altura, as divisões na equipa começavam a fazer-se sentir…

Desde que a equipa perdeu o patrocínio da UOP no final de 1975 que a Shadow precisava de um patrocinador principal sólido, algo que ainda não tinha sido conseguido. Entretanto, depois de ter feito uma época com a equipa em 1973, Jackie Oliver tinha assumido o cargo de manager da equipa de F1 (embora continuasse a competir na Can-Am e F5000), juntamente com o ex-March Alan Rees, mas as dificuldades da equipa e a falta de dinheiro abriam diferenças entre Oliver e Don Nichols.

Meses após a tragédia com Pryce, a Shadow triunfava com Jones na Áustria

Além disso, o norte-americano estava indeciso quanto ao rumo a tomar, falando-se mesmo que a Shadow poderia não continuar em 1978. Desse modo, no outono de 1977, Jackie Oliver e Alan Rees optaram por deixar a Shadow e fundar a sua própria equipa. Seria o início de uma debandada geral entre os principais quadros da Shadow, que se juntariam a Oliver na sua nova criação, que seria denominada Arrows Racing Team a partir das iniciais dos seus fundadores – A de Franco Ambrosio, empresário italiano e um dos principais sponsors da Shadow em 1977, R de Alan Rees, O de Jackie Oliver, W de Dave Wass (projectista e adjunto de Southgate) e S de Tony Southgate, um dos melhores designers da sua época, com uma longa experiência de trabalho nas mais variadas categorias. E, para que o nome se tornasse mais legível, acrescentou-se um “R” no meio…

Inicialmente, Oliver e Rees planeavam comprar um chassis a outra formação para poderem competir em 1978, mas quando asseguraram os serviços de Southgate, Wass e alguns dos mecânicos da Shadow, optaram por inscrever o seu próprio carro, iniciando uma corrida contra o tempo para o ter pronto para a nova época, que começava em meados de Janeiro. A equipa instalou-se numa fábrica em Milton Keynes no final de Novembro, e o primeiro carro foi apresentado numa fria manhã de Janeiro em Silverstone, numa pista praticamente coberta de neve! A equipa iria ausentar-se do G.P. da Argentina, mas estaria presente no Brasil, sendo patrocinada pela saudosa companhia aérea Varig. Na verdade, o Arrows FA1-Cosworth ficou pronto em apenas 54 dias, um período recorde mesmo para a época, em que existia abundância de motores Cosworth DFV e caixas de velocidades Hewland, o que permitia que novos construtores tivessem alguma facilidade de construir um Fórmula 1.

A Arrows estreou na F1 no Rio de Janeiro com apenas um carro, para Patrese, e patrocínio da saudosa Varig

Porém, nos bastidores, os problemas acumulavam-se. Para começar, Franco Ambrosio estava a braços com a justiça, suspeito de fraude e evasão fiscal num escândalo que começava a sacudir a banca italiana, por isso já não esteve presente na apresentação da equipa e o seu nome desapareceria discretamente da F1. Pois bem, Ambrosio era o principal patrocinador da equipa, se bem que Oliver e Rees sempre tenham dito desde o anúncio da formação da Arrows que pretendiam atrair o patrocínio de uma grande empresa. O design era outro ponto que começava a dar “dores de cabeça” à jovem equipa, já que a imprensa não demorou a assinalar as semelhanças entre o FA1 e o Shadow DN9, que Southgate havia desenhado para o seu anterior empregador no final do ano transato. E Don Nichols, que tinha decidido continuar com a equipa e estava a ultimar os preparativos do lançamento do DN9 com uma nova equipa técnica, não tardou a levar a luta para os tribunais…

Por fim, a dupla de pilotos também começava a desmoronar-se. A Arrows tinha optado por Riccardo Patrese, uma das grandes promessas italianas da sua época, que já tinha feito parte da época de 1977 ao volante do segundo Shadow no lugar de Renzo Zorzi, ao mesmo tempo que se destacava entre os mais rápidos na Fórmula 2 (concluindo o campeonato em quarto), contratando para primeiro piloto o sueco da Lotus Gunnar Nilsson, vencedor do G.P. da Bélgica em 1977. Infelizmente, a saúde de Nilsson dava os primeiros sinais de alarme ainda nos últimos meses de 1977, e o sueco esteve ausente da apresentação da equipa e da ronda brasileira. Em Janeiro de 1978, não se sabia muito na imprensa, falando-se de uma infeção ou de uma cirurgia, mas os rumores apontavam para um tumor, mas que não impediria Nilsson de regressar na África do Sul ou, o mais tardar, no início da época europeia. O problema era, na verdade, muito mais grave. Gunnar Nilsson foi diagnosticado com um cancro nos testículos, explicando o desconforto que sentia ao apertar os cintos durante a segunda metade da época de 1977, e de imediato teve de iniciar um agressivo programa de tratamentos para combater a rápida progressão da doença (que, nos dias de hoje, seria provavelmente curável), que apresentava já um prognóstico desfavorável. Nilsson nunca regressaria à competição, falecendo a 20 de Outubro de 1978, um mês depois do seu compatriota Ronnie Peterson.

Na estreia da dourada Warsteiner, Patrese liderou com solidez em Kyalami, mas o motor não permitiu a glória…

Deste modo, a Arrows optou por alinhar apenas com um carro no Brasil, pilotado por Patrese. O FA1 era um “carro-asa”, inspirado no Lotus 78, algo em que Tony Southgate estava relativamente à vontade, já que havia trabalhado brevemente na Lotus durante a conceção daquele modelo, optando por desenhar um perfil de asa invertida nos sidepods do monolugar, de forma a maximizar a carga aerodinâmica. Também prestou especial atenção aos travões, em especial ao sistema de refrigeração dos travões traseiros, por forma a aumentar a sua eficácia. Na prova brasileira, disputada pela primeira vez no circuito de Jacarepaguá, Patrese qualificou-se no meio da tabela e até demonstrou bom andamento mas, no dia da prova, deparou-se com vários problemas no sistema de alimentação do motor, terminando em décimo. Ainda assim, os sinais foram positivos.

Entretanto, a Arrows conseguia assegurar um patrocínio de relevo, a cervejeira alemã Warsteiner, que substituía assim o problemático Franco Ambrosio. A Arrows adoptaria então a clássica pintura dourada e negra que já se havia celebrizado em diversas categorias, com particular destaque para os Turismos e Sport-Protótipos. A chegada deste sponsor trouxe também o experiente piloto alemão Rolf Stommelen, que iria assumir o lugar do malogrado Nilsson. O intervalo entre a ronda brasileira e a prova na África do Sul permitiu também à Arrows corrigir vários problemas de juventude no carro, e os resultados não demoraram a aparecer. Em Kyalami, Patrese foi sétimo nos treinos de qualificação e, durante a corrida, andou sempre com os homens da frente, assumindo a liderança na volta 27!!

Shadow e Arrows 1978 em comparação direta: tirem suas conclusões…

O jovem italiano parecia estar a caminho de uma vitória merecida até que, na volta 63, o motor partiu… Terminava assim de forma inglória uma magnífica exibição de Patrese e da Arrows. Jackie Oliver explicou, mais tarde, que a causa da quebra havia sido o sobreaquecimento nos treinos devido a danos no radiador mas, sem um motor suplente, tiveram que arriscar correr com esse motor na prova e esperar que não quebrasse…

Este seria um problema recorrente para a Arrows ao longo da história. Apesar de bons pilotos, uma excelente equipa técnica e um design bem conseguido, a falta de dinheiro foi quase sempre uma constante. Ainda assim, os resultados continuaram promissores em 1978, já que Patrese deu os primeiros pontos da equipa ao ser sexto em Long Beach, repetindo o resultado no Mónaco. E, apesar dos problemas de juventude, a Arrows voltaria a dar nas vistas no Grande Prémio da Suécia, aonde Patrese se qualificou em quinto, seguindo-se mais uma excelente exibição no dia da corrida. Numa prova marcada pela estreia do inovador Brabham BT46B “ventoinha”, Patrese lutou taco-a-taco com Peterson (Lotus) e Watson (Brabham), herdando o segundo lugar quando Andretti foi forçado a abandonar. Lauda estava já destacado na frente com o outro Brabham, conseguindo a única vitória para o curioso modelo, enquanto Patrese aguentou a intensa pressão de Peterson para assegurar o segundo lugar e dar o primeiro pódio à marca de Milton Keynes. E, no G.P. de Inglaterra, Patrese voltou a demonstrar o andamento do FA1 com mais uma qualificação em quinto lugar, seguindo-se de uma excelente performance, rodando em segundo a meio da prova, até furar um pneu, sendo forçado a abandonar devido aos danos na suspensão.

No entanto, nuvens negras aproximavam-se. Como foi mencionado anteriormente, Don Nichols acusou Tony Southgate de copiar o Shadow DN9 no design do FA1 e interpôs uma acção judicial nos tribunais britânicos.

Continuaremos na próxima parte!

Abraços desde Portugal!

* Morador da cidade do Porto, Portugal, Guilherme é formado em História e mestre em História Contemporânea pela Universidade do Porto. Já realizou trabalhos para a Motor Sport Magazine, Autosport, Auto Tradition e atualmente colabora como freelance no site Inside F2. Desde 2021, é responsável pelo site The Realm of Motoring History. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *