

Na primeira parte, encerramos em um momento delicado: a Shadow havia levado a Arrows aos tribunais.
Na verdade, os dois carros eram muito semelhantes, já que Southgate havia desenhado o DN9 e, quando Jackie Oliver decidiu deixar a Shadow e formar a sua equipa, trouxe os desenhos consigo e usou-os para o FA1. No entanto, o projectista inglês alegava que não tinha infringido quaisquer direitos de autor, já que não era funcionário da Shadow, mas sim um consultor. Deste modo, os direitos do design seriam seus e não da equipa norte-americana.
No entanto, apesar desta estratégia de defesa, os homens da Arrows estavam conscientes que o caso estava praticamente perdido. Por isso, enquanto as deliberações decorriam em tribunal, Tony Southgate deitou mãos à obra para desenhar um novo modelo.

O A1 foi a resposta antecipada da Arrows ao processo que, no fim, excluiu o FA1 de 1978
Tal como era esperado, Southgate e a Arrows perderam o processo e foram impedidos de voltar a usar o FA1, sendo obrigados a desmantelar os carros e devolver os chassis e componentes a Don Nichols. Ainda assim, a Arrows conseguiu sobreviver e não perder nenhum Grande Prémio, já que o novo carro, denominado A1, ficou pronto em menos de dois meses, mais um trabalho em tempo record da equipa.
No entanto, as consequências foram bem maiores. Os custos judiciais e da multa que a Arrows teve que pagar, aliado à interrupção do desenvolvimento do FA1 e ao custo do desenvolvimento do A1, ao mesmo tempo que a época decorria, travaram o ímpeto de crescimento da Arrows.
O A1 estreou-se no G.P. da Áustria, mas a equipa não teve tempo para o testar, por isso os resultados tardaram em surgir. E, para piorar a situação, Patrese viu-se envolvido no acidente na largada para o G.P. de Itália, que viria a causar a morte de Ronnie Peterson. James Hunt acusou Patrese de ser um dos principais culpados do acidente (na verdade, os erros do director de prova no procedimento de largada foram a principal causa da tragédia), tornando-o no bode expiatório perfeito, já que o italiano era conhecido por um estilo de pilotagem agressivo e bastante difícil de ultrapassar, aliado à sua relativa inexperiência. Numa acção algo exagerada, os principais pilotos de F1 ameaçaram boicotar o G.P. dos EUA-Leste se Patrese fosse autorizado a correr, levando assim à suspensão do piloto italiano. Na verdade, Hunt tinha sido mais responsável do que Patrese, mas manteve a sua versão até ao fim.

Argentina 1979: o visual exótico com tons vermelhos logo seria abandonado…
Apesar do abalo, Patrese regressou no Canadá e deu o melhor resultado até então ao novo Arrows, terminando em quarto lugar. Por outro lado, Stommelen acumulava desilusões, falhando a qualificação em cinco das últimas sete provas, e deixaria a Arrows no final do ano, bastante agastado com o facto de ter sido sempre relegado para o papel de segundo piloto.
Na verdade, se a Arrows teve sempre alguma dificuldade em ter dois carros bem equipados, os custos da construção de um segundo modelo durante a época só agravaram a disparidade entre os dois carros e para a frustração do alemão. No entanto, a Arrows conseguiu segurar o patrocínio da Warsteiner, contratando outro alemão, o experiente Jochen Mass, para o lugar de Stommelen.
À partida, a Arrows tinha uma dupla bem mais forte para a temporada de 1979 e podia encarar a época com algum optimismo. A opção de Tony Southgate foi a de melhorar o modelo A1, que mantinha o efeito-solo através de asas de perfil invertido ao invés da adopção do efeito Venturi, introduzido pela Lotus no ano anterior com o modelo 79, enquanto trabalhava na elaboração de um modelo revolucionário.

…em favor de uma pintura dourada e preta da Warsteiner
Quando a F1 regressou ao activo, no G.P. da Argentina, os responsáveis da Arrows cedo perceberam que o A1B estava em clara desvantagem em relação à maioria dos rivais, que tinha adoptado a técnica aerodinâmica do Lotus 79. Ainda assim, o A1B era um modelo fiável e os Arrows andaram consistentemente no meio da tabela, com Jochen Mass a estar perto de oferecer um pódio a equipa no Mónaco, já que estava em terceiro na segunda metade da prova, até que os travões [freios] começaram a falhar. Ainda assim, conseguiu obter pontos com o sexto lugar.
O novo Arrows A2 estava pronto para o Grande Prémio de França e, a nível estético, era uma clara ruptura com o passado, com as suas linhas fluídas e a ausência de asas dianteiras e traseiras convencionais. O motor e a caixa de velocidades estavam inclinados, de forma a que o fundo do chassis tivesse tubos de Venturi por toda a sua extensão, o que, aliado ao perfil das asas, permitia gerar um elevadíssimo downforce.
Infelizmente, os pilotos não tardariam a perceber que esta aproximação revolucionária tinha bastantes falhas, a começar pelo insistente “porpoising” do carro, especialmente em aceleração e travagem, tornando-o extremamente difícil de guiar. Além disso, a vibração constante dos chassis desgastava os componentes mecânicos e as suspensões eram demasiado macias para a carga aerodinâmica gerada. A posição do piloto também era mais reclinada do que o habitual, tornando a condução ainda mais desconfortável.

O A2 era incrivelmente ousado… mas não se provou competitivo
Qualquer inovação corre o risco de falhar, e o Arrows A2 acabaria por se tornar num dos maiores fiascos da F1 e da carreira de Tony Southgate. Mas, na verdade, o A2 estava muito à frente do seu tempo, usando um conceito de efeito-solo mais semelhante ao regulamento da F1 entre 2022 e 2025 do que dos seus rivais. Só que, com o conhecimento e tecnologia da época, os princípios aerodinâmicos do carro não eram totalmente compreendidos e a Arrows não tinha dinheiro para investir no desenvolvimento do modelo, condenando o A2 ao falhanço.
Com todos estes problemas, compreende-se que os resultados nunca tenham surgido, com o carro a nunca demonstrar ser rápido ou fiável. Jochen Mass conseguiu dois sextos lugares, na Alemanha e na Holanda, e a Arrows optou mesmo por regressar ocasionalmente ao A1B, enquanto Southgate se dedicava ao design de um modelo mais convencional que pudesse ser utilizado em 1980. A equipa terminou novamente no nono posto no Mundial de Construtores, mas com 5 pontos, ao invés dos 11 obtidos na época de estreia.
Continuaremos na próxima parte!
Abraços desde Portugal!
7 Comments
Muito bom relembrar a Arrows, principalmente o final da de década de 70 e inicio dos carros asa na Formula 1 .
Fernando Marques
Niterói RJ
Muito obrigado!!
Patrese foi envolvido na tragédia que vitimou Ronnie Peterson porque James Hunt, o verdadeiro culpado ainda que sem dolo, o acusou para se safar e ainda armou o circo acusador com outros campeões e veteranos. Não só um novato com atuações brilhantes foi prejudicado por um alcoólatra, toxicômano, misógino, covarde e mentiroso e seus maria-vai-com-as-outras como uma equipe que tinha tudo para brilhar na F1 sofreu o segundo grande golpe depois da ação judicial movida por Don Nichols.
Acho que não acusaria o James Hunt de tanta coisa assim; é verdade que os comportamentos da época eram diferentes dos de hoje, mas ele também era uma pessoa conturbada, o que lhe custou muito sucesso na carreira, porque poderia ter feito muito mais. E, ironicamente, quando parecia estar a endireitar a vida pessoal e estava longe dos vícios, acaba por morrer de enfarte… Até se poderia pensar que a vida de excessos seria o principal factor, mas teve um irmão, se não me engano, que morreu também relativamente jovem com o mesmo problema e fala-se que pode ter resultado de um problema genético.
Quanto às acusações ao Patrese, isso sim, foram indecentes; foi o típico passa-culpa no novato, que ele não se pode defender, e o pior foi a forma como Andretti & Co. alinharam na narrativa. Não tenho dúvida que isso deixou muita mossa psicológica no Riccardo Patrese.
Guilherme e Vladimir,
esta questão do Patresi em Monza 78, a forma como Andretti, Reutamn, Lauda James Hunt e Emerson Fittipaldi acusaram o italiano sempre me trouxe um certo questionamento … Patresi foi a justiça provar e provou que as acusações contra eles eram infundandas … e nunca ouvi do Andretti, Reutamn, Lauda , Hunt e do proprio Emerson sobre a decisão em relação ao que a justiça decidiu a favor do italiano … nunca entendi esse silêncio por partes deles … afinal se eles se julgavam tão certos das indecentres acusações que fizeram deveriam ter se manifestado …
Fernando Marques
Niterói RJ
Grato pelo apoio, Fernando. Você provou ser um dos maiores habitués do GPTOTAL! Pena que eu não nasci vinte anos antes de 1972, pois já seria advogado licenciado(hoje sou estudante de direito) e ofereceria meus serviços a Patrese contra os cinco autoproclamados membros da comissão de segurança dos pilotos: Hunt, Emerson, Andretti, Lauda e Scheckter. Moveria uma ação judicial contra eles por calúnia , difamação e abuso de poder. Cobraria o maior valor indenizatório de cada um, pois todos tinham recursos de sobra para pagar. A dita comissão deveria manifestar preocupação e advertir, não usurpar a autoridade da federação, acusar falsamente um colega piloto e vetar a participação do mesmo por um acidente que ele não provocou. Jody Scheckter provocou acidentes bem piores quando novato e nunca foi vetado em nenhuma corrida. James Hunt tinha o apelido “the shunt” pelos motivos que muitos leitores conhecem e nunca foi vetado em nenhuma corrida. E depois de tudo isso todos os membros da “comissão”, exceto Hunt, foram tentar resolver as coisas com Patrese através de meros pedidos de desculpas. Enquanto isso o italiano era arrolado por homicídio culposo numa ação judicial movida pela justiça italiana, que se arrastou por três anos até Patrese e o diretor de prova Gianni Restelli serem absolvidos. Na temporada de 1979 Jody Scheckter, um dos acusadores, foi contratado pela Ferrari e ganhou o título de pilotos. Que conveniente.
Como eu disse, Guilherme: Culpado sem dolo. Foi um acidente de corrida que virou uma caça às bruxas contra Patrese. Hunt poderia ter deixado quieto mas, por ter sido abalroado por Patrese em Zolder/78, pode ter aproveitado o momento para uma vingança torpe usando o pretexto de dar uma lição ao italiano. A narrativa mais ampla do acontecido devemos à coluna em duas partes “Sonhos frustrados”, publicada aqui por Manuel Blanco. Eu também vi fotos que provam que o Arrows de Patrese não bateu no McLaren de Hunt nem em qualquer outro carro. Patrese falou do acontecido no canal Enerto do Youtube. Inclusive mencionou uma última tentativa de conciliação entre Hunt e Patrese promovida por Bernie Ecclestone. O hoje lendário dirigente inglês sugeriu que Hunt pedisse desculpas e este recusou-se. Por fim Patrese respondeu: “Sabe, Hunt, não preciso de suas desculpas. Vai t.n.c!” (abreviei para não incorrer em conduta indecorosa no site).