
Numa F1 estranha, onde a produtora de TV omite o tamanho do vexame que é a enorme perda de velocidade no terço final da reta oposta da Circuito Internacional de Xangai, ainda por causa do novo regulamento técnico que estreou em 2026, é muito bom ver algo histórico acontecendo pelos motivos corretos. No sábado, Andrea Kimi Antonelli entrou para a história da F1 ao se tornar o mais jovem piloto a conseguir uma pole, aos 19 anos, 6 meses e 18 dias. No domingo, controlando a corrida como um veterano e se aproveitando dos percalços de George Russell, Antonelli se tornou o 116º vencedor diferente na F1 (foto que abre esta coluna), tirando a Itália de uma fila de vinte anos sem vitória na F1. Quando o próprio Antonelli nem tinha nascido.
O animado Grande Prêmio da China foi mais ‘normal’ em comparação ao que foi visto em Melbourne, na semana passada. Não houve ultrapassagens ‘sem querer’, como afirmou Gabriel Bortoleto após a etapa australiana sobre a gestão de energia, mas ainda assim a Mercedes manteve a sua força frente aos demais, com George Russell completando a dobradinha do time comandado por Toto Wolff, que ainda viu seu amigo e antigo piloto Lewis Hamilton conquistar seu primeiro pódio (foto abaixo) com a Ferrari, depois de uma vibrante luta com Charles Leclerc, mostrando quem é a segunda força destacada desse início de nova era.

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A semana posterior à corrida em Melbourne foi de críticas ao novo regulamento da F1 e sua artificialidade. O primeiro treino livre na China mostrou um gerador de caracteres confuso na transmissão de TV, com carros claramente perdendo rendimento ao final da reta oposta, até mesmo de forma audível, mas a velocidade travada. Um mero bug ou a F1 (leia-se Liberty Media) está querendo manipular o vexame, com os motores elétricos literalmente morrendo ao final de longas retas? O fato foi que as câmeras onboards eram cortadas antes do final da reta dos boxes, além de não serem mais mostradas as velocidades.
Logo no segundo final de semana do calendário teríamos Sprint, diminuindo o tempo de treino livre para equipes ainda tateando um terreno desconhecido. A Mercedes continuou mostrando o que se viu em Melbourne, mesmo Xangai sendo uma pista muito diferente de Albert Park. Russell ficou com a pole na Sprint de forma tranquila, mas a largada foguete da Ferrari fez a diferença, enquanto Antonelli perdeu inúmeras posições após sair da primeira fila. George Russell teve trabalho com a dupla da Ferrari (foto abaixo) para se consolidar na ponta e vencer a mini-corrida, enquanto Leclerc e Hamilton se estranharam para se garantirem no pódio. Mesmo punido em 10s por um toque com Hadjar, Antonelli ainda foi quinto, não alcançando a McLaren de Norris. Verstappen largou pessimamente, chegou a bater rodas com a dupla da Aston Martin e só conseguiu um nono lugar, ficando fora dos pontos.

Russell parecia que repetiria a pole da Sprint na corrida principal, mas um problema no início do Q3 quase pôs tudo a perder para o inglês, que só teve chance de completar uma volta rápida nos segundos finais. Com os pneus não aquecidos devidamente e a bateria não carregada apropriadamente, Russell não manteve o 100% e foi nesse momento onde Andrea Kimi Antonelli conseguiu ter tranquilidade para se sobressair e mesmo pressionado pela dupla da Ferrari, fez o melhor tempo e conseguiu a primeira pole de um italiano na F1 desde 2009. Russell teve que se contentar com a segunda posição em sua única volta no Q3, com a Mercedes claramente mais rápida em ritmo de classificação, usufruindo a potência absurda de sua unidade de potência. A Ferrari dominou a segunda fila, como fizera na Sprint, com a McLaren na terceira fila. No entanto, o dia de domingo não seria dos mais auspiciosos para Zak Brown e seus papaias caps…
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Regulamentos novos sempre significaram mais desconfortos para equipes e montadoras na F1. Se até ano passado abandonar uma corrida era uma anormalidade na F1, antes mesmo da largada do Grande Prêmio da China, já contávamos com quatro desistências. Se na Austrália Nico Hulkenberg teve problemas antes da corrida, dessa vez foi Gabriel Bortoleto o representante da Audi que ficou de fora por um problema técnico não especificado.
A Williams continua seu suplício em 2026. Foi anunciado que Alexander Albon largaria dos boxes, mas logo ficou claro que o anglo-tailandês não faria parte do grid na China, fazendo a Williams ter apenas um representante na prova. Porém, o que mais chamou atenção foi a dupla da McLaren sendo retirada do grid com um problema na unidade de potência da Mercedes, fazendo Lando Norris e Oscar Piastri (foto abaixo) não participarem da prova. Papaya Rules? A verdade é que o time capitaneado por Zak Brown e atual bicampeão do Mundial de Construtores ainda não disse a que veio em 2026, com a McLaren, pelo ritmo mostrado na Sprint Race, sendo uma terceira força, mas longe de Mercedes e Ferrari. Isso sem contar que Oscar Piastri não fez uma única largada de um Grande Prêmio oficial em 2026.

E falando em largadas, a Ferrari novamente não tomou conhecimento da Mercedes no apagar das cinco luzes vermelhas e Lewis Hamilton rapidamente pulou para a ponta, seguido por Antonelli, que soube fechar Leclerc na complicada curva um, enquanto a dupla da Cadillac se encontrou nessa curva, mas com um carro bem abaixo dos demais, não fez muita diferença.

A primeira volta (a largada, na foto acima) foi marcada por uma briga muito forte no meio do pelotão entre Oliver Bearman e Isack Hadjar, com o francês rodando de forma espetacular na entrada da reta oposta, fazendo Bearman perder bastante tempo para evitar a batida. A saída de pista de Hadjar foi outro golpe na Red Bull, que viu Max Verstappen emular sua terrível largada na Sprint e cair para as últimas posições. Isso tudo trouxe Franco Colapinto para junto do seu companheiro de equipe Gasly, que sem ter nenhum carro da McLaren à sua frente, assumiu a quinta posição. Novamente Alonso pulou para décimo na primeira volta com uma largada incrível, mas a saltitante Aston Martin não deixou o espanhol se animar muito e logo Alonso retornava às últimas posições.
Enquanto isso nas primeiras posições, as duplas de Ferrari e Mercedes já se destacavam frente às demais, sendo que não demorou muito para a potência do motor Mercedes fazer a diferença. Kimi assumiu a ponta na segunda volta, enquanto Russell demorou outras três voltas para assumir o segundo lugar, enquanto as Ferraris se engalfinhavam, com Hamilton segurando a terceira posição dos ataques de Leclerc. Antonelli tinha uma vantagem pouco inferior a 2s quando Lance Stroll apareceu com seu carro parado na curva um na décima volta. Safety Car na pista e com muitos pilotos largando com pneus médios (apenas a dupla da Red Bull arriscou os macios), boa parte do grid aproveitou o momento e entrou nos pits. Mercedes e Ferrari fizeram parada dupla e isso foi determinante para a vitória de Antonelli.
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Lawson e Verstappen tinham feito suas paradas pouco antes da entrada do SC, perdendo várias posições em consequência, enquanto Colapinto e Ocon, que largaram com pneus duros, optaram por ficar na pista. Antonelli foi capaz de sair dos boxes logo à frente dos dois, mas não foi o caso de Russell, que relargou em quarto, tendo ainda Hamilton em seu encalço. A Mercedes não tinha treinado com pneus duros e o clima frio desse domingo fez com que o aquecimento não fosse a coisa mais fácil para a dupla da Mercedes, mas se Kimi tinha ar limpo, Russell estava no meio do pelotão.
Logo na relargada Hamilton ultrapassou seu compatriota, enquanto Leclerc deixava Lindblad para trás e atacava um indefeso Russell, que reclamou via rádio não ter aderência. Até o trio se livrar de Colapinto e Ocon, Antonelli já tinha 4s de frente. Com os pneus devidamente aquecidos, Russell partiu para cima da dupla da Ferrari, numa disputa animada e que foi o ponto alto da prova, mas até George reassumir a segunda posição, Antonelli já estava 7s na frente do companheiro de equipe com metade da corrida ainda por vir.
Havia o receio de uma segunda parada, mas os pneus duros resistiram muito bem mais de quarenta voltas e, no geral, todos optaram por uma única parada. Afora um ligeiro erro nas voltas finais na freada da reta oposta, a corrida de Antonelli foi impecável e sua vitória foi bastante merecida. Sua emoção no rádio e na entrevista pós-corrida comoveu a comunidade da F1, mesmo que tenha sido chamado de ‘Kimi Raikkonen’ no pódio. Uma vitória como essa pode mexer na motivação de Kimi, que pode querer ainda mais do que ser apenas o segundo piloto de George Russell.
O problema do carro do inglês no Q3 se mostrou decisivo para a corrida de Russell, que teve que se virar em vários momentos contra a dupla da Ferrari e ainda pode ver surgiu um real competidor dentro do box da Mercedes na luta pelo título, que nesse momento parece se decidir dentro do seio da Mercedes.
A luta pelo lugar mais baixo do pódio foi entre a dupla da Ferrari, com algumas trocas de posição que devem ter deixado Fred Vasseur bastante tenso no pit-wall ferrarista, mas como não houve toques (por enquanto…) tudo estava bem para os lados da Ferrari, com Lewis Hamilton finalmente conquistando seu primeiro pódio com a Ferrari, mas mais importante do que isso, o veterano inglês demonstra uma outra atitude em 2026, sendo mais incisivo nas disputas e uma postura mais condizente com um multi-campeão da F1. Leclerc falou pelo rádio que foi uma disputa divertida, mas a pergunta que fica é: e quando houver um toque entre ambos?
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Sem quebras ou toques entre os quatro primeiros, a disputa pelo melhor do resto ficou entre os recuperados George Bearman e Max Verstappen. Após sair da pista para não bater em Hadjar, Bearman fez outra corrida de gente grande e parando no momento do SC, logo Bearman estava de volta na zona de pontuação e na relargada, ultrapassou Gasly para se posicionar muito bem, ultrapassando seu companheiro de equipe Ocon e Colapinto na medida em que os dois perdiam desempenho dos seus pneus.
Verstappen arriscou em colocar pneus macios na largada, mas rapidamente ficou ‘descalço’ e fez sua parada antes do SC, o que acabou lhe atrapalhando, no entanto, o neerlandês rapidamente ultrapassou vários carros, mas quando se posicionou atrás de Bearman, a evolução de Verstappen terminou, com Max sempre 2,5s atrás da Haas de Bearman. Isso, até a Red Bull ter problemas no sistema de arrefecimento e Verstappen abandonar já na parte final da corrida. Um dia esquecível para a Red Bull, que além de sofrer com problemas de confiabilidade, ainda se viu num ritmo parecido de uma Haas. Até quando a paciência de Max Verstappen irá suportar tudo isso?

Porém, o abandono de Max Verstappen não tira o brilho da excelente prova de Bearman, que terminou num ótimo quinto lugar, enquanto Ocon (a dupla da Haas, na foto acima) manteve sua ‘coerência’ ao bater num adversário, nesse caso, em Colapinto, quanto o portenho saía dos boxes e os dois se acharam. Ocon nem deu muito trabalho aos comissários ao se declarar culpado pelo incidente via rádio e após punição Ocon terminou em último. Para quem precisa renovar contrato, situação nada boa para Esteban Ocon. Seu compatriota Gasly fez uma boa prova com a Alpine, mesmo sendo superado por Bearman na relargada, mas sempre se manteve perto do inglês e no momento em que Max abandonou, Gasly se aproximava do neerlandês. Para melhorar ainda mais o dia da Alpine, mesmo com os danos pelo toque com Ocon, Colapinto (foto abaixo, seguido por Gasly) ainda foi capaz de conseguir um pontinho, seu primeiro com a Alpine.

Lawson se colocou entre os dez primeiros a maior parte da prova, mesmo tendo parado na hora errada nos pits, superando o badalado companheiro de equipe Lindblad, terminando em sétimo, sendo o melhor piloto da ‘família’ Red Bull, pois Hadjar chegou logo atrás do neozelandês e numa corrida apática e bem longe do mostrado na Austrália, Lindblad terminou fora dos pontos.
Hulkenberg foi um dos que não pararam durante o SC e teve que fazer sua única parada com bandeira verde. Para piorar, a Audi teve problemas na parada e Nico perdeu muito tempo, estragando de vez sua corrida, ficando fora da zona de pontos. Novata na F1, a Audi precisa resolver seus problemas de confiabilidade que fizeram seus dois pilotos abandonarem antes mesmo da largada em suas corridas consecutivas. Numa corrida de sobrevivência, Sainz terminou em nono e marcou os primeiros pontos de uma combalida Williams em 2026.
Mesmo com o toque na primeira volta, a Cadillac completou a prova com seus dois veteranos pilotos, enquanto a Aston Martin segue sofrendo com um carro lento e que vibra a ponto de Alonso soltar o volante em determinados momentos durante a corrida, como flagrado algumas vezes em câmeras onboard. A causa do abandono de Alonso foi justamente pelas dores que sentia nas mãos e pés pela excessiva vibração causada pelo motor Honda. Uma situação vexatória.
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Uma semana depois de tudo o que foi visto em Melbourne, vimos uma corrida mais ‘normal’ em Xangai. Pilotos e equipes ainda estão aprendendo sobre um regulamento muito distinto do que já foi visto e uma semana depois, todos pareciam mais ‘em casa’ com o novo carro. Não teve ultrapassagens em profusão, mas a corrida em Xangai pareceu mais uma corrida de F1 de verdade. Não que os problemas tenham desaparecido depois de uma semana e muita coisa ainda deve ser ajustada até mesmo antes de finalizar a temporada 2026.
O Poweranking visto na Austrália permaneceu o mesmo, com Mercedes muito na frente da Ferrari, que por sua vez está muito à frente das demais. Se na Ferrari já vemos uma briga apertada entre seus pilotos, quem sabe a primeira vitória de Antonelli não o faça enfrentar mais vezes Russell e que tenhamos um campeonato.
Abraços!
João Carlos Viana