
Uma ficção sobre a alma da Fórmula 1 na visão de um fã
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A noite em Edimburgo parecia feita de carvão molhado e silêncio, as ruas dormiam sob uma névoa espessa quando encontrei a estação. Não constava em mapas. Não aparecia em fotografias. Não existia em lugar algum além daquela madrugada.
As letras enferrujadas do letreiro balançavam ao vento:
PLATAFORMA 68
Havia cheiro de madeira antiga, fumaça de carvão e chuva escocesa. Um relógio parado marcava exatamente 2h17. Nem um minuto antes. Nem depois. O homem do embarque usava luvas brancas e um velho relógio de bolso preso ao colete.
Quando me aproximei, ele ergueu os olhos como quem já me esperava havia décadas.
— Senhor Mário Salustiano… sua cabine está pronta.
Atrás dele, o trem respirava como um animal vivo. Não era uma locomotiva comum.
Era memória sobre trilhos.
Entrei. Os bancos eram de couro vinho gasto pelo tempo. Pequenos abajures dourados tremiam com o balanço da composição. As janelas pareciam embaçadas não por vapor, mas por décadas inteiras. Quando o trem começou a andar, percebi algo impossível: o mundo do lado de fora estava voltando no tempo.
Os carros diminuíam de tamanho. Os outdoors desapareciam. As luzes modernas se apagavam como estrelas morrendo. O século estava sendo rebobinado. Então a porta da cabine se abriu.
E ele entrou. Blazer cinza claro. Gravata estreita. Olhos serenos. Um rosto que parecia incapaz de pertencer à morte.
Jim Clark.
O piloto mais puro que a Fórmula 1 já conheceu. O escocês que fazia carros parecerem extensões da própria alma. Ele sorriu discretamente antes de sentar-se diante de mim.
— Então você veio do futuro.
Sua voz era calma. Sem dramatização. Sem peso. Como se conversar com desconhecidos em trens fora do tempo fosse algo absolutamente normal.
Meu coração batia como um V12 Ferrari dos anos 70.
— Vim, Jim.
Ele observou a paisagem correndo pela janela.
— E o que aconteceu depois de 1968?
A pergunta ficou suspensa entre nós como fumaça de cigarro. Respirei devagar.
Como explicar quase sessenta anos de glória, tragédia, genialidade e velocidade para um homem que partiu cedo demais?
O trem avançava. Lá fora, surgiam bandeiras das equipes de F1 tremulando ao vento. Me veio o pensamento nos templos do automobilismo que vi ao longo do tempo. Monza, Spa, Brands Hatch, Interlagos anos 70, Mônaco
A Fórmula 1 ainda era romântica. Ainda pertencia aos pilotos.
— Depois que você partiu… tudo mudou.
Jim inclinou levemente a cabeça.
— Mudou como?
Olhei para ele.
— Primeiro, o mundo percebeu que vocês estavam morrendo rápido demais. O silêncio dele não era desconfortável. Era respeitoso.
— Seu acidente em Hockenheim abriu uma ferida enorme. Os carros eram belos, mas frágeis. As pistas eram velozes demais. E acidentes graves haviam se tornado rotina.
Ele encarou as próprias mãos.
— Nós sabíamos disso.
— Jackie Stewart decidiu lutar contra aquilo.
Um brilho discreto apareceu em seus olhos.
— Jackie…
— Ele começou uma revolução pela segurança. Brigou com dirigentes, pistas, patrocinadores. Muitos o chamaram de covarde. Mas ele salvou gerações inteiras de pilotos.
Jim sorriu tristemente.
— Finalmente entenderam que coragem não é morrer.
O trem cruzava agora os anos 70. As cores surgiam mais fortes. Os carros ganharam asas. As marcas de cigarro dominavam os circuitos como brasões de guerra. Gold Leaf, Marlboro, John Player Special.
A Fórmula 1 parecia perigosa e elegante como um filme proibido.
— Colin Chapman enlouqueceu de vez depois da sua partida.
Jim riu baixo.
— Isso parece bastante provável.
— Ele criou carros impossíveis. Inventou o efeito solo. Fez a Lotus grudar no chão como se desafiasse a física.
— Ah, Colin…
Era impressionante como o nome do velho chefe de equipe transformava o rosto de Clark. Havia carinho ali. Admiração verdadeira.
— E quem dominou aqueles anos?
— Muitos homens extraordinários. Emerson Fittipaldi colocou o Brasil no topo do mundo. Niki Lauda transformou inteligência em velocidade. James Hunt transformou caos em espetáculo.
Jim ergueu as sobrancelhas.
— James Hunt?
— Um playboy brilhante. Rápido, autodestrutivo, carismático. O oposto perfeito de Lauda.
Lá fora, Nürburgring apareceu pela janela. Longo, sombrio, quase sobrenatural, a névoa envolvia a pista como um aviso. Em 1976, Lauda quase morreu ali.
Jim ficou imóvel.
— Queimaduras severas. Fumaça. Sangue. O rosto destruído. Disseram que ele nunca mais correria.
— E ele voltou?
— Quarenta dias depois.
Jim soltou o ar lentamente.
— Então ele entendia.
— Entendia o quê?
— Que pilotos não pertencem completamente ao mundo comum.
O trem seguia. Agora os motores soavam diferentes. Mais agressivos. Mais violentos. Entrávamos nos anos 80, motores turbo, potência absurda, pressão brutal.
A era em que os carros tentavam matar seus próprios pilotos em cada saída de curva.
— Você talvez teria odiado os motores turbo — falei.
Jim riu.
— Tão ruins assim?
— Mais de mil cavalos em classificação.
Ele arregalou os olhos.
— Mil?
— Eram foguetes. Selvagens. Brutais. O atraso do turbo fazia os carros parecerem animais enlouquecidos.
Pela janela surgiu Nelson Piquet, capacete branco, olhar frio, a Brabham nervosa deslizando entre zebras.
— Esse homem era especial — falei.
— O brasileiro?
— Nelson Piquet, sim, ele foi o primeiro campeão com motor turbo, conquistou três títulos, inteligente como um engenheiro e sagaz como um estrategista militar.
Jim observava tudo com atenção quase infantil.
— E a Lotus?
— Ainda brilhava, não mais como antes, e teve em Ayrton Senna a estrela que precisava sem Chapman não conseguia mais inventar coisas. E os tempos estavam mudando. A política começou a dominar os boxes.
— Política…
Ele disse a palavra como quem lamenta a chegada inevitável da idade adulta.
— A inocência acabou, Jim.
Então Suzuka apareceu. McLaren vermelha e branca. Dois homens. Dois gênios. Dois adversários duros Ayrton Senna e Alain Prost.
Jim ficou em silêncio.
Mesmo sem conhecer Ayrton, parecia sentir sua presença.
— Esse é o homem de quem você falou antes.
Assenti.
— Ayrton Senna.
A chuva começou a escorrer pela janela do trem.
Como se o próprio tempo respeitasse aquele nome.
— Ele era diferente, Jim.
— Diferente como?
Olhei novamente para a pista japonesa surgindo ao longe.
— Alguns pilotos dirigem carros. Outros pilotam máquinas. Ayrton parecia pilotar algo invisível.
Jim permaneceu calado.
— Ele acreditava que velocidade era uma forma de transcendência. Como se cada volta perfeita aproximasse o homem de algo maior.
— Entendo isso.
E eu sabia que entendia.
Porque Jim Clark também pilotava assim.
Não como um competidor.
Mas como alguém tentando alcançar uma espécie de pureza impossível.
— Senna transformou a Fórmula 1 numa religião no Brasil. Quando ele corria, o país inteiro parava.
— E ele era o melhor?
Demorei alguns segundos para responder.
Porque certas perguntas não aceitam respostas simples.
— Ele era intensidade absoluta.
As imagens mudavam rapidamente. Mônaco, Interlagos, Spa, Donington Park, voltas impossíveis na chuva, Pole positions sobrenaturais. A McLaren dançando no limite.
— Prost era o cérebro. Senna era o incêndio.
Jim sorriu discretamente.
— Sempre existem dois tipos de campeões.
— Eles se desafiavam mutuamente tentando vencer um ao outro.
— E quem venceu?
Olhei para ele.
— Nenhum dos dois saiu intacto, porém dessa luta nós fãs ganhamos muitas competições que foram obras insqueciveis
O trem ficou silencioso por alguns minutos. Só o barulho metálico das rodas preenchia a cabine.
Então chegamos a Imola. E até o trem pareceu diminuir a velocidade.
A luz do vagão tornou-se fria.
Pesada.
Lá fora, bandeiras tremulavam em câmera lenta.
— Foi aqui?
Assenti.
Jim encarava a curva Tamburello pela janela.
Sem desviar os olhos.
— Eu reconheço essa sensação.
Sua voz quase não saiu.
— A Fórmula 1 perdeu a inocência naquele fim de semana. Ratzenberger morreu no sábado. Senna no domingo.
Jim fechou os olhos lentamente.
— Então o mundo finalmente sentiu o que vocês sentiam desde os anos 60.
Não respondi.
Porque ele tinha razão.
A geração de Clark corria convivendo diariamente com a morte.
Mas em 1994 a televisão mostrou aquilo ao planeta inteiro.
Sem filtros.
Sem romantização.
Sem distância.
— O que aconteceu depois? — perguntou ele.
— A segurança mudou radicalmente. Os carros ficaram mais fortes. Os circuitos mais seguros. A tecnologia salvou vidas.
A paisagem começou novamente a mudar.
Agora os boxes pareciam laboratórios espaciais.
Computadores.
Telemetria.
Simulações.
Aerodinâmica complexa.
Os motores perderam o grito metálico dos antigos V10.
— Michael Schumacher dominou o mundo depois disso — continuei. — Frio, preciso, obsessivo. Transformou preparação física em ciência. Reescreveu todos os recordes.
— E depois?
— Fernando Alonso surgiu como um gladiador moderno. Kimi Räikkönen correu como um homem que parecia não precisar de emoções para existir. Sebastian Vettel dominou com perfeição técnica.
Jim observava tudo com curiosidade genuína.
Então apareceu Lewis Hamilton.
Capacete brilhante.
Multidões.
Luzes de LED.
Redes sociais.
Uma Fórmula 1 global.
Gigantesca.
— Esse rapaz parece diferente.
— Porque ele é. Hamilton levou a Fórmula 1 para além das pistas. Tornou-se símbolo cultural, político, social. Igualou recordes que pareciam eternos.
— E ainda existe espaço para romantismo nisso tudo?
Sorri.
— Às vezes menos. Mas ainda existe.
Então Max Verstappen surgiu pela janela.
Agressivo.
Instintivo.
Implacável.
Como um predador criado em simuladores, mas moldado pela brutalidade antiga.
Jim observou a Red Bull desaparecer na reta.
— Esse teria sobrevivido nos anos 70.
— Sim. Teria.
O trem começou a desacelerar novamente.
Do lado de fora surgiu uma última plataforma.
Sem placas.
Sem nome.
Apenas névoa.
Jim levantou-se devagar.
Pela primeira vez desde que entrara na cabine, parecia cansado.
— Então a Fórmula 1 continua viva.
— Continua.
— Mesmo diferente?
— Talvez justamente por isso.
Ele colocou as mãos nos bolsos do blazer.
E sorriu daquele jeito simples que tornava impossível associá-lo à tragédia.
— Sabe, Mário… quando eu corria, acreditávamos estar apenas pilotando carros.
Olhou pela janela uma última vez.
— Mas agora percebo que estávamos construindo memória.
A locomotiva soltou um apito longo.
Melancólico.
Quase humano.
— Vocês, os fãs… são os verdadeiros guardiões disso tudo.
Senti um aperto no peito.
Porque naquele instante compreendi algo:
pilotos morrem.
Carros envelhecem.
Circuitos desaparecem.
Mas a paixão permanece.
Sempre permanece.
Jim caminhou até a porta da cabine.
Antes de sair, virou-se mais uma vez.
— Diga-me uma coisa, Mário.
— Claro.
— Ainda existem pilotos que fazem curvas por amor?
Olhei para a escuridão além da janela.
Para décadas inteiras acelerando dentro da memória humana.
Então respondi:
— Sim, Jim. Ainda existem.
Ele assentiu devagar.
Como quem finalmente encontra paz.
Nesse momento antes de descer Jim me pergunta
-Mário e você como fã, o que te trouxe a essa jornada? Como você foi acompanhando? Como é a jornada de um fã?
Respondi: Jim muitas coisas acontecem ao longo de uma jornada quando se é fã, tenho a minha e algumas histórias de amigos que conheci ao longo dessa minha jornada, incluindo a que considero fundamental, conhecer amigos que fazem o GP Total, mas vou deixar essa história para nosso próximo encontro
Jim desceu do trem.
A névoa o engoliu lentamente.
Mas antes de desaparecer completamente, ouvi sua voz pela última vez:
— Então valeu a pena?
As portas se fecharam, o trem voltou a andar. Agora sozinho. Ou talvez não.Porque enquanto a locomotiva avançava rumo ao futuro, percebi que todos eles ainda estavam ali.
Clark, Stewart. Lauda. Villeneuve. Piquet. Prost. Senna. Schumacher. Hamilton. Verstappen.
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A Fórmula 1 são histórias de pessoas separados por décadas, unidos pela mesma obsessão impossível: domar o tempo por alguns segundos dentro de uma curva, do lado de fora, a aurora começava a nascer sobre os trilhos.
E pela primeira vez entendi que a Fórmula 1 nunca foi apenas velocidade. Foi sempre sobre mortalidade. Sobre memória. Sobre homens tentando deixar marcas antes que a fumaça desapareça.
O trem avançou rumo ao horizonte. E o som distante do motor parecia carregar uma última mensagem:
A corrida nunca termina para quem continua lembrando, e sim vale a pena continuar essa jornada
Até a próxima
Mário Salustiano
1 Comments
Rapaz como não ser Gepeto? Um dia ainda vou aprender a me expressar assim. Meus parabéns. Bom fim de semana a todos e sem F1 na tv aberta, lamentável Globo.