Sem direito a resposta

Trem 68 — Conversa com Jim Clark
22/05/2026

A vitória de George Russell na Sprint Race e a pole conseguida à fórceps no sábado pareciam credenciar o inglês a finalmente dar uma resposta à Andrea Kimi Antonelli, que vinha de três vitórias consecutivas e liderava o campeonato. Ainda mais com George dando um chega pra lá em Kimi na Sprint, no que foi a primeira batalha direta entre os pupilos de Toto Wolff.

No entanto, a corrida desse domingo viu uma disputa fratricida entre os dois pilotos da Mercedes (foto que abre esta coluna), que deve ter deixado Toto Wolff com os cabelos em pé. Correndo atrás de Russell, Antonelli parecia ter mais ritmo, mas isso não pôde ser demonstrado claramente, pois Russell abandonou com o motor quebrado, deixando Kimi sozinho para conquistar sua quarta vitória consecutiva, já o colocando na história por ser o primeiro piloto a conseguir suas quatro primeiras vitórias na F1 de forma consecutiva.

Mais do que isso, Antonelli já abre uma boa diferença no campeonato e coloca ainda mais pressão em cima de George Russell.

Antes de começar a falar do final de semana canadense, não se pode deixar de relatar o que aconteceu na última quinta-feira com uma das estrelas do automobilismo americano. No começo daquela tarde surgiu a notícia de que Kyle Busch (foto abaixo) estava hospitalizado e não correria a festejada Coca Cola 600 em Charlotte, no final de semana seguinte. Para um atleta de 41 anos de idade, isso não parecia nada demais.

No entanto, poucas horas depois a Nascar chocou o mundo do esporte a motor ao anunciar que Kyle Busch estava morto. Piloto agressivo e dos poucos realmente carismáticos da Nascar atualmente, Kyle Busch era uma marca importante do automobilismo americano e sua morte repentina e trágica, devido a uma pneumonia, causou comoção em todo mundo, mesmo quem não acompanha a Nascar.

Quando Andrea Kimi Antonelli tomou gosto pela vitória, o italiano enfileirou logo três seguidas, se igualando na ocasião à Damon Hill e Mika Hakkinen. Isso deixava George Russell numa situação complicada dentro da Mercedes e pressionado, o inglês deu um chega para lá em Antonelli que tirou o italiano do prumo na Sprint.

A Sprint Race desse sábado foi de deja vú para Toto Wolff. O experiente chefe de equipe voltou dez anos no tempo, quando tinha que administrar Lewis Hamilton e Nico Rosberg dividindo a equipe. As duas crias de Toto largaram na primeira fila na minicorrida e rapidamente abriram do resto do pelotão. George e Kimi iniciaram uma disputa apertada pela liderança, com Kimi fustigando George e na sexta volta, o dois se tocaram na segunda curva, com Russell alargando a primeira curva e deixando Antonelli sem espaço. Os dois perderam tempo, mas Russell permaneceu na ponta. Logo depois Antonelli saiu da pista novamente e dessa vez Norris não perdeu a oportunidade de tomar a segunda posição de Kimi. Os três andaram próximos até a bandeirada, com uma última tentativa de Antonelli na última volta de tomar o segundo lugar se provando infrutífera. Contudo, antes disso, Antonelli não ficou imune a manobra agressiva de Russell e chamou o companheiro de equipe de ‘sujo’ e ‘que deveria ser punido’. Toto Wolff entrou no rádio duas vezes para tentar colocar Antonelli no seu lugar. O aperto de mão entre os pilotos da Mercedes após a Sprint foi claramente tenso.

Poucas horas depois a classificação ocorreu com Antonelli correndo com raiva, sempre à frente de Russell, que não parecia tão a vontade como antes. Assim como a Mercedes. Hamilton, especialista do Autódromo Gilles Villeneuve, e Lando Norris andaram muito forte. Isack Hadjar deu o ar da graça e liderou o Q2, colocando meio segundo em Verstappen, que pareceu sempre estar pouco à vontade no seu Red Bull.

No Q3 Antonelli parecia que ficaria com a pole, com Russell demorando a ganhar ritmo, mas o inglês abriu uma última volta e superou o companheiro de equipe mais uma vez. Lando conseguiu mais um terceiro lugar, com Piastri ao seu lado.

No ano passado todos ficaram estupefatos pela Liberty Media ter tirado o Grande Prêmio de Mônaco do último final de semana de maio, no que já estava ficando tradicional o superdomingo de Monte Carlo e Indianápolis no mesmo dia, com muitas horas de diferença. Para piorar, algum ‘jênio’ colocou o Grande Prêmio do Canadá no mesmo dia das 500 Milhas de Indianápolis, ou seja, com os dois eventos na mesma tarde na América do Norte.

Por mais que a corrida em Montreal tivesse a largada quase quatro horas depois do início das 500 Milhas, qualquer problema em Indiana respingaria no Canadá. E adivinhem? Choveu durante as 500 Milhas, a bandeira vermelha apareceu duas vezes e enquanto Felix Rosenqvist derrotava David Malukas por 23 milésimos de segundo (foto abaixo), as primeiras voltas do GP do Canadá já rolavam.

Só que a história da épica 500 Milhas de Indianápolis de 2026 eu deixo para o meu irmão Lucas Giavoni contar.

Assim como em Indiana, havia previsão de chuva para o momento da largada em Montreal e mesmo que a chuva tenha aparecido, foi bem mais amena do que o esperado, mas transformou a escolha de pneus num grande desafio para as equipes, que teriam que correr com essa configuração pela primeira vez nesse novo regulamento. Algumas equipes optaram pelos pneus intermediários, mesmo o asfalto estando longe de estar realmente molhado, com destaque para a McLaren, que ocupava a segunda fila. No entanto, as coisas não saíram como esperado para a turma de Zak Brown se seus papaia caps.

Primeiro que Arvid Lindblad, que largava entre os dez primeiros, teve problemas com o seu Racing Bulls e se tornou primeiro abandono do dia. A largada só aconteceu na terceira tentativa, pois os comissários demoraram a tirar o carro de Lindblad do grid. Piastri já dava o sinal via rádio de que a pista estava praticamente seca. No momento do apagar das luzes vermelhas, Lando Norris pulou para a ponta (foto abaixo), seguido por Russell e Antonelli, enquanto Piastri caía para quinto. Uma volta bastou para que McLaren, Audi, Williams e Cadillac erraram na estratégia e trouxeram seus carros para os pits colocar pneus slicks.

Isso deixou a dupla da Mercedes sozinha na luta pela vitória, com Hamilton ficando mais para trás na terceira posição. As reclamações de Kimi via rádio durante a Sprint deixaram Toto Wolff chateado e não precisa ser um gênio para imaginar que a reunião da Mercedes no sábado à noite deve ter sido bem animada e com instruções aos seus pilotos. O que quer que tenha sido dito, Russell e Antonelli devem ter descumprido, pois vimos uma das lutas mais empolgantes entre dois companheiros de equipe, lembrando a célebre corrida no Bahrein em 2014 com Hamilton e Nico Rosberg se engalfinhando a prova inteira.

A diferença entre os dois nunca era maior do que 1s, deixando o piloto de trás sempre podendo usar o ‘modo boost’ e atacando o da frente. Russell cometeu um pequeno erro no Hairpin e permitiu Antonelli ultrapassar, mas logo o inglês deu o troco. A sensação era de que Antonelli tinha mais ritmo e se ultrapassasse, abriria.

Quando Kimi ultrapassou o companheiro de equipe, contudo, Kimi cometeu um erro parecido de Russell voltas antes no Hairpin, permitindo o troco do inglês. Novamente Antonelli teve que remar tudo de novo, efetuando novamente a ultrapassagem. Logo depois Russell cortou uma chicane, no que parecia ser um erro. Infelizmente para Russell não era. O motor falhou e George claramente sentiu o golpe. Jogando longe seu apoio de cabeça e depois jogando suas luvas no chão com raiva (foto abaixo).

Com a Mercedes trazendo várias novidades para Montreal, a diferença dos tedescos para os demais aumentou bastante e Russell imediatamente percebeu que a corrida estava no colo de Andrea Kimi Antonelli. Correndo solto na frente, Antonelli fez uma segunda metade de corrida tranquilo, onde controlou o equipamento rumo a quarta vitória consecutiva e se solidificar ainda mais na liderança do campeonato. O único ligeiro problema de Kimi foi no rádio e talvez por isso que, para demonstrar a superioridade do equipamento da Mercedes no final de semana canadense, Antonelli marcou a volta mais rápida da corrida. Mais importante é que Antonelli já conta com mais de quarenta pontos de vantagem sobre Russell, que sentiu o golpe. Após anos lutando com uma Mercedes que não se adaptou com o regulamento do carro com efeito-solo, Russell esperava liderar a equipe nessa nova era onde a Mercedes tem claramente o melhor carro. O que George não esperava ter Antonelli tão forte e confiante.

Com a briga pela vitória decidida, a corrida ficou mais estática, mesmo com o Safety Car Virtual aparecendo mais duas vezes após o abandono de Russell. No entanto, uma velha rivalidade apareceu na F1. Após criticar novamente os regulamentos e falar em aposentadoria precoce, Max Verstappen voltou a mostrar sua genialidade ao se manter entre os primeiros e aproveitando o vacilo homérico da McLaren, o neerlandês partiu para cima de Hamilton e ultrapassou o inglês da Ferrari ainda no começo da corrida, sem que Lewis esboçasse qualquer reação (foto abaixo).

Numa corrida sem tantas nuances estratégicas, mesmo com a presepada de McLaren, Audi e companhia no início da prova, a luta entre Max Verstappen e Lewis Hamilton foi decidida na pista. Com Max perdendo temperatura dos pneus médios, Hamilton diminuiu a vantagem e passou a atacar o amargo rival nas voltas finais. E Hamilton sabia que Max não teria a sua atitude no começo da corrida numa luta por posição. Verstappen lutaria pelo segundo lugar.

Numa luta de alto nível, Hamilton resolveu tudo com um mergulho audacioso na primeira curva e garantir o melhor resultado da Ferrari em 2026 até o momento. Mais importante para Hamilton foi que ele voltou a andar constantemente na frente de Leclerc, que simplesmente não se encontrou em Montreal. Verstappen completou o pódio e no momento que importava, colocou Hadjar no seu lugar dentro da Red Bull. O francês fez uma corrida problemática, onde teve que pagar duas punições, uma por uma manobra perigosa em cima de Leclerc na luta pela quarta posição. Hadjar terminou uma volta atrás, mas finalmente voltou aos pontos.

Com a corrida prejudicada pelo erro estratégico da equipe, a dupla da McLaren tentou escalar o pelotão, mas seus pilotos foram impedidos por motivos diferentes. Lando Norris teve uma quebra quando se aproximava dos pontos, enquanto Oscar Piastri teve uma diarreia mental ao tentar ultrapassar Ocon e Albon, acertando o piloto da Williams bem no meio do carro. Tendo que fazer duas paradas extras (trocar o bico e pagar uma punição), Piastri ficou fora dos pontos e passa a sensação de que a perda do título ano passado ainda ressoa na cabeça do australiano. Com os problemas da McLaren e de Russell, abriu-se o caminho para que o sexto colocado fosse o melhor do resto, mesmo que um abismo houvesse entre o quinto e o sexto.

Após um início de ano discreto, Franco Colapinto começa aos poucos a desabrochar. O argentino andou mais rápido o tempo inteiro do que Pierre Gasly em Montreal e terminou num sólido sexto lugar, garantindo a melhor posição de Franco na F1. Gasly ainda marcou pontos, mas ficou bem distante do companheiro de equipe, quando anteriormente acontecia o contrário. Eclipsado por Lindblad, Lawson se aproveitou do abandono precoce do companheiro de equipe e de outros carros para ser sétimo, segurando Gasly nas últimas voltas.

Mesmo errando na estratégia, Carlos Sainz (foto acima) executou um bom segundo stint para marcar mais pontos para a Williams, que tenta ‘emagrecer’ o carro e diminuir o azar de Albon, que sofreu todo tipo de calamidade nesse final de semana, inclusive atropelar uma marmota na sexta-feira. Bearman marcou o último ponto do dia, superando com ampla vantagem Ocon, que começa a ser questionado dentro da Haas. A Audi sofreu com o erro estratégico e nem de longe esteve perto de pontuar, ficando fora dos pontos mais uma vez. Aston Martin e Cadillac ficaram longe dos pontos, mas chama atenção o quão Bottas está andando atrás de Pérez nesse momento.

O Grande Prêmio do Canadá (o pódio, foto abaixo) foi a melhor corrida da temporada 2026 sem sombras de dúvidas. Nada de efeito ioiô e com batalhas decididas na pista, principalmente dentro do seio da Mercedes, que viu seus dois pilotos lutarem pela liderança até Russell quebrar.

Se o inglês precisava dar uma resposta para as vitórias consecutivas do seu companheiro de equipe, esse direito lhe foi negado por culpa da Mercedes, mas Andrea Kimi Antonelli, que não teve nada com os problemas de George Russell, foi o principal beneficiado e começa a se distanciar no campeonato.

Abraços!

João Carlos Viana

 

 

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

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