Mostrando a que veio

Um outro caso Dreyfus – 2ª parte
05/06/2026

Antes de Mônaco, as vitórias de Andrea Kimi Antonelli tinham como característica principal uma luta direta contra seu companheiro de equipe, já que a Mercedes tem nesse momento o carro dominante de 2026. A queda livre de George Russell ajudou a causa de Antonelli, ajudando-o a vencer quatro corridas consecutivas. Havia o sentimento que faltava a Kimi uma vitória em que ele teria que fazer um algo a mais.

No entanto, o cenário em Monte Carlo era diferente das primeiras corridas do calendário 2026. A característica travada da pista monegasca, em teoria, mostrava que a Mercedes poderia ter problemas por lá. ‘A Ferrari é favorita’, muitos falavam antes do final de semana. Na prática, Andrea Kimi Antonelli (foto que abre esta coluna) respondeu com um final de semana dominante no principado, não se perturbando nas duas largadas, seu maior problema em 2026, não se intimidou com Lewis Hamilton, dono de oito pódios em Mônaco, e chegou a colocar uma volta em Russell.

Uma vitória retumbante, daquelas de mostrar que Andrea Kimi Antonelli chegou ao estrelato da F1 para ficar.

Os primeiros treinos livres confirmaram que a Ferrari vinha muito forte para Mônaco e seus dois pilotos falavam que era a melhor chance de vitória em 2026, mas no terceiro treino livre de sábado, Antonelli apareceu como um furacão, já assustando a scuderia. Em tempos de Copa do Mundo… faltou a Ferrari combinar com Antonelli.

Correr em Mônaco significa ganhar confiança aos poucos e Hadjar e Bearman tiveram seu desenvolvimento prejudicado com acidentes durante os treinos livres. Pior foi Gabriel Bortoleto, que bateu no final do Q1, entrando forte demais na entrada da Nouvelle Chicane e quebrou a suspensão dianteira do seu Audi, justamente no melhor final de semana da equipe desde a primeira etapa em Melbourne. Gabriel lamentou bastante e com razão. Hulkenberg parecia que iria ao Q3, mas erros do veterano o deixaram no Q2, tornando um sábado bastante decepcionante para a Audi.

O mesmo acontece com a Aston Martin. Após diminuir os problemas de vibrações que assombraram seus pilotos no começo do ano, era esperado um crescimento da Aston Martin em termos de desempenho, ainda mais em Mônaco, onde o fraco motor Honda não faria tanta diferença, mas Monte Carlo provou que não se pode apontar os dedos unicamente para os nipônicos. O chassi da Aston Martin é ruim e a dupla da equipe verde ficou na última fila, dando mais munição para Alonso reclamar.

Com a Ferrari tendo dominado a sexta-feira, mas Antonelli surpreendido no terceiro treino livre, a classificação se mostrou aberta. Além de Kimi, Max Verstappen usou sua genialidade para sempre se manter entre os líderes, enquanto a dupla da Ferrari, Leclerc em particular, não se mostrava tão à vontade como antes durante a classificação.

Isso fez com que Verstappen se colocasse como favorito a pole, mesmo com Leclerc conseguido uma voltassa no final do Q3. O neerlandês superou o piloto da casa, mas Antonelli desbancou Max no apagar das luzes em sua melhor classificação até agora. Se antes Kimi tinha a vantagem do carro, esse não foi o caso nesse sábado e basta olhar o treino para lá de discreto de George Russell para provar que a Mercedes não tinha o carro dominante do final de semana. Antonelli conseguiu a pole no braço, dando um claro recado na classificação mais determinante do ano.

A primavera às margens do Mediterrâneo nos presenteou com mais um belo cenário para o Grande Prêmio de Mônaco, mesmo que isso também poderia prever uma corrida bem ao estilo de Monte Carlo, com poucas emoções e tudo decidido na largada. Contudo, antes mesmo da largada problemas afetaram dois pilotos, endo que um só seria aparente no apagar das luzes vermelhas. Quando estava levando seu carro para o grid, Gabriel Bortoleto teve problemas em seu carro e com isso, o brasileiro teve que largar do pit-lane, estragando ainda mais a sua corrida. O outro problema ficou claro quando Max Verstappen ficou praticamente parado na largada, numa cena perigosa pela estreiteza da reta (?) dos boxes em Monte Carlo. Felizmente ninguém acertou o Red Bull de Max, mas o neerlandês falou depois da corrida que o problema em sua unidade de potência já havia se manifestado na volta de apresentação. E depois das entrevistas protocolares foi para casa…

A engasgada de Max Verstappen na largada ajudou sobremaneira Andrea Kimi Antonelli, que mesmo vendo a dupla da Ferrari largar bem, não teve maiores problemas em segurar a ponta da corrida. Numa largada conservadora dos pilotos, destaque apenas para Pierre Gasly (foto acima) ultrapassando Lando Norris, iniciando algo bastante comum na longa história do Grande Prêmio de Mônaco: um piloto mais rápido ficar preso atrás de um carro nitidamente mais lento. Norris fustigou o quanto pôde, mas Gasly, um dos destaques da prova, simplesmente não errou. Mais tarde, foi a vez de Isack Hadjar começar a ter problemas com a sua unidade de potência e mais uma vez Hadjar demonstrou seu descontrole emocional via rádio, mesmo que tenha segurado com bastante resiliência George Russell, contudo, esse não seria o maior dos problemas de Russell durante a prova.

Se a Mercedes não subia ao pódio fazia tempo em Monte Carlo e a Ferrari era favorita antes de iniciar o final de semana monegasco, Andrea Kimi Antonelli reverteu todo o quadro adverso. O italiano não olhou para trás e despachou Hamilton (foto acima) e Leclerc, não dando quaisquer chances a dupla ferrarista. Por muito tempo a corrida parecia que seria um passeio de Antonelli, mas as voltas finais do Grande Prêmio de Mônaco ficariam bastante tumultuadas e mostrariam também que nada parece abalar o italiano da Mercedes.

Quando a corrida estava próxima do seu fim Lance Stroll bateu seu Aston Martin na Rascasse, no que parecia ser mais uma ‘Strollada’. O Safety Car consequente ao incidente do canadense fez com que praticamente todo o grid fizesse uma segunda parada, causando até uma pequena confusão com a Mercedes e outra presepada para a Ferrari, mas o dano ao time italiano seria ainda maior na relargada, quando Leclerc (foto abaixo) bateu no mesmo local de Stroll. Parecia que era sujeira na pista, mas logo se constatou que era na verdade o asfalto se soltando no local. Bandeira vermelha.

A largada aconteceria com os carros parados, o que seria outro ponto de atenção para Antonelli, que driblou o problema com uma saída sem retoques, não dando chances à Hamilton. Para provar quem mandava no principado nesse domingo, Kimi abriu 6s em oito voltas. Ao receber a bandeirada, Andrea Kimi Antonelli vencia pela quinta vez na carreira e de forma inédita na F1, as cinco primeiras vitórias de Kimi foram de forma consecutiva.

Para completar, por ter saído da pole, ter marcado a volta mais rápida e liderado todas as voltas, Antonelli conseguiu seu primeiro Grand-Chelem. Logicamente se tornando o mais jovem a conseguir a proeza, se garantindo também por ser o mais jovem a vencer em Mônaco. Enfim, vai ser muito difícil tirar o título de Antonelli com o italiano ganhando tanta confiança e George Russell executando finais de semana tenebrosos como esse.

George se livrou de Hadjar pela estratégia de boxe, mas acabou punido por excesso de velocidade no pit-lane (ele não foi o único…), sendo que o inglês já tinha escapado de ser punido por uma infração na largada. No momento em que o SC apareceu, Russell tinha acabado de tomar uma volta do companheiro de equipe e foram juntos aos pits. Porém, alguém da Mercedes pareceu ter esquecido que George teria que cumprir uma punição, a parada do inglês aconteceu normalmente, mesmo com alguma hesitação, resultando num drive-through com bandeira verde para George.

Com a punição, George saiu da zona de pontos e perdeu também a vice liderança do campeonato para Hamilton. Enquanto Kimi esbanja otimismo, George Russell precisa de um psicólogo.

Depois da corrida Hamilton chegou a desculpar por ter perdido a corrida. Com a Mercedes tão forte em 2026, dizia-se que Mônaco seria a chance da Ferrari em vencer, principalmente pelo bom chassi projetado pelos italianos, combinado com a falta de potência do motor Ferrari. Hamilton tinha uma boa chance na relargada, mas faltou um maior ímpeto ao heptacampeão e depois não teve ritmo para se aproximar de Antonelli. Porém, o bom segundo lugar de Hamilton o deixa nessa mesma posição no campeonato, indicando que após um ano de transição, finalmente Lewis se adaptou à Ferrari.

Contudo, hoje não foi um dia exatamente tranquilo para a scuderia. Num dia em que o fotossensor da FIA trabalhou bastante, Hamilton foi punido em 5s por excesso de velocidade nos pits. Nesse momento Leclerc estava menos de 3s atrás de Lewis e tranquilamente teria o segundo lugar na mão, quando o SC apareceu e de forma estranha, para dizer o mínimo, os dois pilotos da Ferrari foram chamados ao mesmo tempo. Hamilton pagou seus 5s e Leclerc acabou punido também, pois ficou esperando Lewis terminar a operação, deixando Charles furibundo dentro do carro. Seu acidente na Rascasse apenas amenizou o sentimento ruim que Leclerc tinha naquele momento.

Depois da corrida Leclerc culpou os freios pela sua saída de pista, causando um incidente com a Brembo, parceira histórica da Ferrari, que emitiu um comunicado irado, criticando Charles pelas suas palavras.

Como citado anteriormente, Pierre Gasly foi um dos destaques do dia, ao segurar sem maiores arroubos os ataques de Lando Norris e na relargada, ultrapassar Isack Hadjar (foto acima) e cruzar a linha de chegada em terceiro, no melhor momento da Alpine nesse ano, contudo, Gasly foi mais um punido por excesso de velocidade e acabou cruelmente punido, caindo para sétimo. Quem se beneficiou com isso foi Hadjar, que mesmo reclamando bastante do carro, subiu a mais um pódio em terceiro, seu segundo na carreira e o primeiro com a Red Bull. Depois da prova surgiu um problema durante a bandeira vermelha e Hadjar poderia ser até desclassificado, mas tudo não passou de um susto para o francês.

Na milésima corrida da McLaren na F1, o time comandado por Zak Brown não tinha muito o que comemorar. Piastri fez uma corrida discretíssima, terminando em um quarto lugar solitário. Norris perseguiu Gasly em boa parte da corrida, mas acabou tendo problemas em sua unidade de potência, a segunda no final de semana, abandonando a prova bem longe do pódio.

Com tantas punições e problemas, a equipe Racing Bulls sorriu, com Lawson e Lindblad em quinto e sexto, marcando bons pontos para a equipe. Albon teve que trocar de posição com Sainz, reclamou bastante, mas acabou premiado quando Hulkenberg bateu em seu companheiro de equipe, causando o abandono de Sainz e depois Hulkenberg foi punido, abrindo caminho para Albon terminar em oitavo, seguido por Ocon e… Sérgio Pérez! O mexicano teve uma corrida atribulada, mas provando sua boa relação com Mônaco, Checo se sobressaiu, contudo, o mexicano errou duas vezes o local onde colocar seu carro na largada e foi punido pelos vacilos. O que deveria ter sido o primeiro ponto da Cadillac em sua curta história, se transformou no primeiro ponto da Aston Martin em 2026. Mesmo num final de semana miserável, Fernando Alonso soube capitalizar os problemas alheios e sair do zero nesse ano.

Poucos dias após uma cirurgia no pé direito e no ombro direito, retornando a uma moto que não é mais a melhor da MotoGP, Marc Márquez (foto acima) não tinha muitas expectativas para a etapa no horroroso circuito de Balaton Park. No entanto, não se pode subestimar a força desse espanhol, que uma semana depois de ter retornado às pistas varreu o final de semana húngaro.

Mesmo tendo vencido na Sprint Race no sábado com um ritmo avassalador, Marc Márquez contou com a ajuda da falta de inteligência de Jorge Martín na primeira curva em Balaton Park. O espanhol da Aprilia tentou uma manobra banzai na apertada primeira curva, mas acabou perdendo o controle de sua moto. Martin promoveu um verdadeiro strike, derrubando quatro motos, incluindo a do seu companheiro de equipe e líder do campeonato Marco Bezzecchi. Felizmente ninguém se machucou seriamente e Massimo Rivola criticou publicamente Martín, principalmente por Bezzecchi ter perdido pontos importantes no campeonato.

Isso deixou que Marc Márquez e Pedro Acosta decidissem entre si a vitória. Largando com pneus macios na traseira, Acosta tinha um melhor ritmo no início e rapidamente tomou a ponta de Márquez, liderando os primeiros dois terços de prova. Porém, de forma esperada, o pneu traseiro de Acosta foi se desgastando e Márquez, com pneus médios, encostou, iniciando uma disputa forte pela primeira posição. Desesperado em finalmente conseguir sua primeira vitória, Acosta lutou o quanto pôde, mas não foi capaz de segurar um Marc Márquez inspirado, que partiu para a vitória. E não seria uma vitória qualquer! Contando as três categorias do Mundial de Motovelocidade, Marc chegou a sua centésima vitória, se tornando o terceiro piloto a conseguir essa proeza. O nível desse feito é medido pelos os outros dois pilotos a conseguir esse feito: Giacomo Agostini e Valentino Rossi. Queiram ou não, Marc Márquez está nesse nível entre os grandes da história da motovelocidade.

A corrida em Mônaco foi tumultuada e somente assim temos uma corrida realmente emocionante no principado. No entanto, não podemos subestimar a importância histórica de Monte Carlo para a F1 e querer a saída da lendária pista monegasca do calendário, mesmo com a virtual impossibilidade de se ultrapassar em Mônaco, é não conhecer o contexto histórico da F1.

Além das inúmeras punições, batidas e abandonos, vimos um Andrea Kimi Antonelli brilhante, fazendo algo a mais do que o esperado. Sua quinta vitória na F1 pode garantir à Antonelli que ele além de ser o maior favorito ao título em 2026, ele pode estar criando estofo para ser um dos grandes num futuro bastante breve.

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *