Malandragem

Um outro caso Dreyfus – final
26/06/2026

Final do Q3. Max Verstappen estava prestes a terminar sua segunda volta rápida e estava com setores bem competitivos. A dupla da Ferrari estava com a primeira fila provisória e Max tinha condições de superar Leclerc e Hamilton. De forma repentina, Max perdeu o controle do seu carro na curva 9 e bateu forte no muro de pneus. Bandeira amarela dupla. Atrás do neerlandês, vinha a dupla da Mercedes. Andrea Kimi Antonelli tirou o pé completamente, abortando sua volta rápida. George Russell foi avisado no rádio, mas só viu a sinalização de uma bandeira amarela. Ou seja, bastava tirar o pé no setor. Russell o fez, provavelmente recarregando sua bateria para fazer a última curva e o início de reta dos boxes com a bateria cheia e superar Leclerc, enquanto a Ferrari comemorava nos boxes a pole do monegasco. Estupefação. Como assim Russell era o pole com o carro de Verstappen no muro? A FIA investigou e rapidamente verificou-se que o painel não mostrava a bandeira amarela dupla e que Russell realmente tirara o pé.

Com essa pole na base da malandragem, George Russell começou a pavimentar sua vitória no domingo (foto que abre esta coluna). Com o posicionamento a seu favor, Russell pôde administrar melhor o forte desgaste de pneus no Red Bull Ring e triunfar pela segunda vez no ano. Mais importante foi Russell diminuir ainda mais a distância que tem para seu companheiro de equipe Antonelli no campeonato, com o italiano subindo ao pódio depois do seu abandono em Barcelona, tendo o genial Max Verstappen entre eles.

A Mercedes dominou os treinos livres na Áustria, na tentativa de dar uma resposta à vitória da Ferrari em Barcelona. Mesmo usando uma melhoria no motor por causa do ADUO (uma espécie de BOP enrustido), a Ferrari fazia um final de semana até mesmo discreto, com a McLaren aparentando estar mais próxima da Mercedes.

A classificação na escaldante Spielberg não mostrava muitas surpresas. No Q1, as três piores equipes do momento ficaram pelo caminho: Williams, Cadillac e Aston Martin. Nessa ordem. A novata Cadillac já começa a alcançar a veterana Williams, mesmo com a equipe americana vendo seus carros se desmancharem ao longo do ano. Pior é a Aston Martin. Num circuito de 70s, a equipe altamente financiada por Lawrence Stroll perde mais de 1s para um time novato e provavelmente com um dos menores orçamentos da F1. Alonso claramente está mais e mais impaciente.

Correndo em casa a Red Bull trouxe alguns updates e mesmo não mostrando muito potencial nos treinos livres, Max Verstappen mostrou na classificação mais uma vez porque a Red Bull faz tanta força para ficar com ele nos próximos anos. O neerlandês conseguiu uma volta espetacular no Q3, surpreendendo a todos e superado apenas por poucos centésimos de segundo pela dupla da Mercedes.

Então a dupla da Ferrari apareceu com força e se Hamilton fora mais rápido no geral, Leclerc veio com tudo no momento decisivo e superou seu companheiro de equipe quando importava. Então Max vinha voando com seu carro, pronto para tirar a pole de Leclerc quando perdeu o controle do seu carro e bateu. Logo atrás vinha a dupla da Mercedes. Antonelli dominava Russell no final de semana e abortou sua volta. George não. O inglês completou sua volta e garantiu o tempo mais rápido. A sensação era de que Russell perderia a pole, mas a FIA constatou que Russell tirara o pé no setor em bandeira amarela, além da sinalização do local indicar bandeira amarela única, não dupla. A Ferrari, que comemorava a primeira fila, teve que engolir essa.

Photo by Jakub Porzycki/NurPhoto via Getty Images

O final de semana austríaco fez um calor quixadaense e não foi diferente no domingo, com os termômetros passando dos 30°C. Isso significava que novamente o desgaste de pneus fosse um fator determinante para o resultado da corrida, como ocorrera na quinzena passada em Barcelona. Gerir os pneus faria bastante diferença, mas Russell tratou de garantir um bom posicionamento na corrida ao fazer uma largada bem diagonal (foto acima), fechando a linha de Charles Leclerc e confirmar sua pole ao emergir na primeira curva na ponta. Já seu companheiro de equipe Antonelli fez uma primeira volta bem atrapalhada, onde saiu da pista nas curvas um e três, mas sem maiores prejuízos ao italiano. Leclerc começava o seu calvário ainda na primeira volta, quando se viu atacado por Hamilton e o inglês assumiu a segunda posição, enquanto Charles iniciava uma corrida lamentável com a outra Ferrari.

Hamilton em segundo no começo da prova acendeu uma luz vermelha na Mercedes, pois em Barcelona Lewis fez uma grande corrida e garantiu sua primeira vitória com a Ferrari executando uma agressiva estratégia aliada ao forte calor em Barcelona. Na Áustria Hamilton estava numa situação similar, com o inglês da Ferrari ainda melhor posicionado e isso criou uma expectativa boa para os lados de Maranello.

Um pouco mais atrás o pobre ritmo de Leclerc o fez ser atacado por Antonelli, mas corroborando com o início de corrida atabalhoado do italiano, Kimi ultrapassou Leclerc saindo da pista, o obrigando a devolver a posição. Max Verstappen enxergou nessa manobra uma chance de ouro e enquanto Antonelli cedia sua posição de volta para Leclerc, Max ultrapassou a ambos, assumindo o terceiro lugar. Hamilton estava num ritmo de espera, mas tinha Russell nas suas vistas. Já Max Verstappen, impelido pela sua torcida que lotou uma arquibancada inteira em Red Bull Ring, alcançava o inglês da Ferrari (foto abaixo).

Desde 2021 os encontros entre Lewis e Max são garantia de entretenimento e Red Bull Ring não foi exceção. Max tentou um ataque na curva 3, mas recebeu o troco logo em seguida. Foi irônico ouvir Max pedir punição por um comportamento em que muitas vezes ele o faz. Tudo isso deixava Russell ainda mais tranquilo, pois se antes da batalha pela segunda posição o inglês tinha 2s de vantagem sobre Lewis, a disputa fez essa vantagem subir para 5s. Hamilton rapidamente foi aos pits e pela volta (11º), Lewis novamente iria para uma estratégia de três paradas.

Algumas voltas depois George e Max fizeram suas paradas, enquanto Antonelli, que reclamava dos freios e de si mesmo via rádio, ficava mais tempo na pista. E o italiano teria mais do que reclamar quando entrou no pit-lane no exato momento em que Carlos Sainz abandonava seu Williams na reta dos boxes, trazendo o Safety-Car Virtual. Mais uma volta e Kimi ganharia um terreno enorme…

De forma surpreendente a Ferrari trouxe Hamilton aos boxes mais uma vez e colocou pneus macios no carro do inglês, fazendo-o cair para trás de Hadjar e logo à frente de Lando Norris, que tinha acabado de fazer sua parada. Mais importante do que isso foi constatar que Russell, agora com pneus duros, não tinha o mesmo rendimento e Verstappen se aproximava lentamente. Antonelli voltou à pista em quarto após sua parada e teve que ultrapassar Leclerc novamente para ficar em terceiro. A corrida estava nas mãos dos três primeiros e o momento da parada de cada um deles definiria a corrida.

Com claras dificuldades com os pneus, Russell foi o primeiro a parar pela segunda vez, com Max parando seis voltas mais tarde e Antonelli esperando mais três voltas para realizar a parada de número dois. Isso criou uma espécie de efeito sanfona nos três primeiros. A parada mais cedo de Russell o deu uma ligeira vantagem nas primeiras voltas, mas com dificuldades com os pneus duros, o inglês perderia rendimento para Max e Kimi com o passar das voltas. Em menor grau, o mesmo ocorreria com Antonelli em relação à Verstappen. As voltas finais foram tensas, com o terceiro colocado (Antonelli) mais rápido que os dois primeiros, além do líder da corrida (Russell) sendo o mais lento dos três.

Porém, se nada demais ocorresse, as posições seriam mantidas, mesmo que os três cruzassem a linha de chegada bem próximos. Kimi conseguiu uma grande aproximação na última volta, mas conhecendo Max Verstappen, ele defenderia sua posição com unhas e dentes. Como consequência Verstappen se aproximou bastante de Russell. Na bandeirada, George Russell tinha menos de 2s o separando do terceiro colocado Antonelli, com Max Verstappen no meio do sanduíche da Mercedes.

Não foi uma vitória brilhante de George Russell, mas com a pole polêmica conseguida no sábado e com o melhor posicionamento, administrou muito bem a corrida, mesmo com Max e Kimi mais rápidos do que ele nas voltas finais. Apesar de Russell continuar sofrendo com os pneus mais duros de cada final de semana e não ter sido o ‘melhor homem em campo’ nesse domingo, essa vitória poderá fazer bem à confiança de Russell, que parecia abalada pelas constantes derrotas sofridas para Antonelli nas últimas semanas

O início claudicante de corrida de Antonelli, admitido pelo próprio depois da corrida, fez com que o italiano se atrasasse de forma definitiva e não lutasse pela vitória, mas Kimi não pode renegar os pontos do terceiro lugar, que o colocam ainda com uma liderança confortável no campeonato, enquanto Russell reassumiu a vice-liderança, mesmo ainda quarenta pontos atrás de Antonelli (foto abaixo, ao lado de Leclerc).

Photo by Andy Hone/LAT Images

No entanto Toto Wolff e seus blue caps tem que abrir o olho para a concorrência, cada vez mais próxima da Mercedes. Se em Barcelona a Ferrari quebrou a invencibilidade prateada em 2026, nesse domingo Max Verstappen levou novamente seu Red Bull nas costas a brigar pela vitória. Ainda mancando pela pancada no sábado, Verstappen usou muito bem os updates da Red Bull para uma segunda posição excelente. As brigas com Hamilton atrasaram Verstappen e pode ter feito muita diferença para o que seria uma surpreendente vitória do neerlandês.

Já a Ferrari foi a grande decepção do domingo. Num cenário parecido de Barcelona, dessa vez os italianos não foram tão cuidadosos com os pneus quanto o foram na Catalunha e mesmo repetindo a tática de três paradas, Lewis Hamilton teve que se conformar com uma apática quinta colocação, bem longe dos líderes. Pior foi Leclerc, que esteve sempre com um ritmo abaixo do companheiro de equipe e lento na pista nas voltas finais, teve que fazer um pit-stop extra que o fez cair para oitavo, o último dos pilotos das quatro grandes.

Os treinos livres indicavam uma McLaren forte em ritmo de corrida, mas na prática isso não foi visto. Piastri largou melhor do que Norris e com isso garantiu as melhores opções para os táticos da McLaren, mas isso só garantiu um quarto lugar ao australiano, enquanto Norris teve que se contentar com a sétima posição, logo atrás de Hadjar, que fez uma prova discreta, mas pelo menos garantindo bons pontos para a Red Bull no Mundial de Construtores. Ou seja, fazendo o que dele, Hadjar, é esperado pela equipe.

Largando entre os dez primeiros, a dupla da Racing Bulls liderou o pelotão intermediário de ponta a ponta, mesmo Liam Lawson tendo reclamado de um pequeno incêndio em seu carro no começo da prova. De alguma forma o fogo se apagou e o neozelandês garantiu a nona posição, à frente de Lindblad. Gabriel Bortoleto fez uma corrida sólida, surpreendeu ao largar com pneus macios, manteve um ritmo superior ao do seu companheiro de equipe Hulkenberg e pela terceira corrida consecutiva, conseguiu a 11º posição. A Audi parece ter um ótimo chassi, mas sofre com o primeiro motor construído pela montadora.

Alpine e Haas brigaram pelas posições seguintes, enquanto a Williams continua seu ano horrível e o barulho feito pelo carro de Sainz quando ele abandonou exemplifica bem a temporada pífia da Williams. Mesmo Albon tendo feito uma corrida miserável, Alonso ainda terminou um minuto atrás do anglo tailandês com sua Aston Martin que toma 1s em média de uma equipe como a Cadillac, que abandonou com seus dois carros por incêndios ainda nas voltas iniciais.

Durante a semana os primeiros dominós começaram a cair na dança de cadeiras para 2027 na MotoGP. A Ducati anunciou a contratação de Pedro Acosta, enquanto Bagnaia anunciou sua ida para a Aprilia, correr ao lado de Bezzecchi. De saída da equipe, Jorge Martín ficou com a pole em Assen, seguido pela dupla da Trackhouse, que se destacou na Sprint Race e completou uma dobradinha, com Raul Fernández na frente de Ogura.

O dia prometia para a Aprilia, porém Marco Bezzecchi sofreu uma violenta queda ainda no começo da prova, levando o italiano ao hospital e perder a liderança do campeonato após três corridas consecutivas zerado. Martín se manteve na ponta, seguido de perto pela dupla da Trackhouse.

O pódio e a luta pelo pódio eram todinhos da Aprilia. Martín liderou a maior parte da corrida, mas Ogura escrevia o mesmo script visto em outros momentos da temporada. O nipônico estudava os rivais e ficava à espreita, enquanto cuidava de sua moto e dos pneus no forte calor em Assen. Quando a corrida se aproximou do seu final, Ogura cresceu como fizera antes, mas estando mais perto da ponta, uma vitória estava ao seu alcance, mesmo dando um susto quando acionou acidentalmente o rebaixamento de suspensão de sua Aprilia. Sem perder muito tempo, Ogura viu Fernández atacar Martín e vulnerável, o piloto da equipe oficial foi superado por Ogura poucos metros depois. O japonês não demorou muito para superar Fernández rumo a uma vitória consagradora (foto acima). Depois de 22 anos, um japonês voltava a vencer na MotoGP, mas se o atrapalhado Makoto Tamada não parecia ter condições de lutar pelo título, Ai Ogura, com seu estilo cerebral, pode ser considerado um dos pilotos a serem observados até o final do ano.

A corrida no Red Bull Ring pode marcar o ressurgimento de George Russell no campeonato, mesmo o inglês estar longe de fazer um certame de levantar as sobrancelhas. George soube usar as circunstâncias ao seu favor para vencer na Áustria e essa vitória pode fazê-lo a recuperar a confiança perdida.

Mesmo em terceiro, a sensação que ficou foi que Antonelli performou mais do que seu companheiro de equipe, mas a Mercedes tem que observar pontos como a falta de confiabilidade (o motor de Sainz foi mais um Mercedes a quebrar) e a chegada dos seus rivais na luta por vitórias.

Abraços!

João Carlos Viana

 

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

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