
Aos 11 anos de idade, meu filho já exibe diversos traços legítimos de sua personalidade, e muitos dos hábitos que desenvolvemos refletem algumas de suas preferências e escolhas. Uma das “tradições” de que mais gosto, entre as diversas que estabelecemos juntos, é a de colhermos frutas no pé, prática cada vez mais rara para quem nasce e cresce em ambientes urbanos.
Meu menino é especialmente atento à sazonalidade das árvores frutíferas, e geralmente nota ou sabe qual a melhor época para se colher cada uma das que mais gosta. Mais que isso, ele também sabe exatamente onde encontrar algumas dessas preciosas árvores em ambiente público, de modo que não são raras as vezes em que o busco na escola e paramos em algum mirante bonito para curtirmos juntos um pôr do sol, enquanto subimos em algum pé e saboreamos algumas frutas frescas, colhidas na hora. Um privilégio que valorizo muito, não apenas por saber que meu filho está tendo contato com a natureza e aprendendo a respeitá-la, mas sobretudo porque foi algo que partiu totalmente dele.
O mais recente desses nossos encontros foi motivado por jabuticabas. Demorei um pouco a levá-lo, de modo que o pé em questão já não estava tão carregado quanto ele esperava. Ademais, nem todas estavam no ponto. Assim, no momento de se deliciar, meu filho topou com algumas que estavam excelentes, e outras que pareciam estar alcoolizando. E isso me provocou uma reflexão.
Expliquei ao meu filho que tudo que é natural é assim mesmo, sujeito a condições distintas, a inúmeras variáveis, e o resultado acaba sendo inevitavelmente plural. Mesmo num único pé, ele irá encontrar, num mesmo dia, certas frutas no ponto para serem colhidas, e outras que ainda não chegaram lá, ou já passaram do melhor momento. Há certo grau de imprevisibilidade envolvido, enfim, e é ele que em última análise abre uma janela para surpresas, para raras ocorrências do extraordinário, e também para as eventuais frustrações que dão o necessário parâmetro de comparação para que sejamos capazes de apreciar o quão especial pode ser uma fruta em sua melhor versão.
“Por outro lado”, expliquei a Francisco, “produtos industrializados e gerados pelo homem são quase sempre padronizados. Determinado refrigerante ou determinado sanduíche numa franquia mundial irão variar muito pouco em qualquer lugar do mundo em que sejam comercializados”, e isso é naturalmente compreensível e necessário para a saúde dos negócios. Ninguém espera, certamente, que o biscoito adquirido no supermercado esteja “verde” ou amadurecido demais, nem tampouco que esteja excessivamente doce ou azedo.
O resultado prático é que alimentos industrializados quase nunca estão ruins, ou fora de suas especificações. O controle dos processos de fabricação efetivamente consegue, na maioria dos casos, eliminar surpresas desagradáveis e entregar – ao menos no que diz respeito ao paladar – experiências majoritariamente positivas, ainda que decididamente artificiais.
A eliminação dos riscos, todavia, não vem sem seu próprio preço. Afinal, o mesmo ambiente controlado que assegura certos graus de satisfação e um piso mínimo de qualidade também engessa um teto e elimina qualquer possibilidade de uma combinação especialmente extraordinária.
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Até este ponto não mencionamos o esporte a motor, mas a verdade é que tudo que disse acima se aplica à perfeição à realidade das pistas.
A questão é muito óbvia quando se pensa a respeito. Afinal, as mesmas razões mercadológicas que requerem previsibilidade na indústria alimentícia – e em qualquer outra – também se manifestam sobre o universo esportivo, na proporção dos investimentos feitos. Claro, ninguém quer jogar dinheiro fora, e quanto mais mercadológico se torna o produto, mais seguranças comerciais ele demanda.
O problema, naturalmente, é que o interesse e o valor do esporte residem justamente em sua imprevisibilidade, que sob diversos aspectos antecipou o que mais tarde ficaria conhecido como reality shows. Certo?
Ora, então temos um conflito evidente aqui, não?
Temos, claro que temos. Restringindo nosso foco ao esporte a motor, são evidentes os esforços incorporados ao longo dos anos sob o pretexto de “gerar emoções” e aproximar por vias externas o desempenho dos conjuntos, de modo a assegurar que não tenhamos “corridas chatas”. Reabastecimentos, trocas de pneus obrigatórias, parque fechado, punições com perdas de posições no grid, interferências marotas de carro de segurança, ferramentas de equalização que punem a competência, aparatos de auxílio a ultrapassagem, virtual eliminação da possibilidade de defesa de posição, corridas sprint, experimentação de formatos mais ou menos estapafúrdios de classificação, pasteurização das pistas, e em casos mais extremos até mesmo distribuição de lastros e inversão de grid. Em verdade, alguém poderia ser perdoado por se sentir insultado diante de algumas dessas medidas, dado o nível de cinismo e desrespeito pela inteligência alheia exigidos para se assegurar, de maneira previsível, que cada prova terá sua dose mínima de “imprevisibilidades” programadas.
Temos, é claro, influenciadores que não se importam com nada disso, não enxergam problemas, ou simplesmente vendem as próprias “opiniões”. Quantas vezes vimos alguém dizer que a F1 no passado era um porre, que a diferença entre o desempenho dos carros era muito maior, e que ultrapassar era muito mais difícil?
E quer saber? Há fragmentos de fatos em meio a tudo isso. Com grande frequência, narrativas tendenciosas e/ou convenientes são erguidas sobre cacos descontextualizados da realidade, e aqui não é diferente. Porque sim, a diferença média entre o desempenho de conjuntos era mesmo muito maior do que é atualmente, fazendo com que carros e pilotos se espalhassem mais pela pista e tornassem longas disputas por posição uma ocorrência mais rara e preciosa. O que tais vozes geralmente não observam, contudo, é que tal distanciamento era resultado, por um lado, de liberdade criativa muito maior para projetistas de carros e motores, e, por outro, de janela de atuação muito mais ampla concedida aos pilotos para que pudessem assumir riscos e explorar territórios desconhecidos. E, tanto por um aspecto quanto por outro, este é o tipo de preço que estou mais do que disposto a pagar.
Em essência, estamos falando sobre verdade aqui, sobre manifestações da realidade em seu estado natural. Porque se liberarmos engenheiros para que busquem soluções distintas e dermos a pilotos máquinas brutais e analógicas, cujo desenvolvimento precise ser orientado a partir de testes em pista e feedback por parte de quem acelera, bem como pistas rústicas e manhosas, o resultado certamente será o mesmo: alguns carros se adaptando melhor a contextos específicos, e alguns pilotos sendo mais de um segundo mais rápidos que os próprios companheiros de equipe.
Sob diversos aspectos, ao olharmos para a Fórmula 1 que, em maior ou menor grau, prevaleceu até 1991 e a ascensão do sinistro Max Mosley, nos vemos diante de algo análogo à volatilidade do alimento natural que citei na introdução deste texto. Poderíamos, de fato, nos referirmos a ela como a F1 pré-industrialização, na qual havia espaço para corridas monótonas e carentes de boas disputas, mas também para que o extraordinário pudesse se manifestar, com a raridade que lhe é intrínseca e que lhe dá nome.
Antes de ser taxado de saudosista, convido os amigos a apenas uma breve reflexão. A introdução do DRS a partir de 2011 multiplicou a incidência de ultrapassagens, da mesma forma como a adoção dos reabastecimentos – e, posteriormente, das trocas obrigatórias de pneus – estabeleceu rotas alternativas para a progressão através do grid e matou a possibilidade de um piloto mais lento defender posição ao longo da totalidade de uma corrida. Mas, quando pensamos a respeito das grandes ultrapassagens que vimos no topo do esporte, quantas delas foram realizadas após 2011? E se quisermos pensar a respeito das grandes atuações defensivas por parte de pilotos, quantas vezes temos visto algo assim em anos mais recentes?
Ora, não consigo escapar à lógica de que o valor de uma ultrapassagem reside nas chances que o ultrapassado dispôs de resistir a ela. Assim, entre ver uma corrida com mais de 100 ultrapassagens decorrentes do apertar de um botão ou da carga diferente de baterias, ou outra com poucas batalhas completas, que incluam atacar e defender, na qual as posições sejam muito mais estáveis e cada ultrapassagem seja recordada como um gol no futebol, e não uma cesta numa partida de basquete… Bom, eu decididamente fico com a segunda opção.
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Claro que não há propósito em brigar com a História, e que não se pode desaprender aquilo que se sabe. Tentar emular, nos dias de hoje, contexto análogo ao de 1986, seria tão artificial quanto o que temos visto nesta olvidável temporada de 2026.
Todavia, o respeito às peculiaridades e demandas de nosso tempo não inviabiliza, de forma alguma, a adoção de muitas medidas plausíveis que poderiam enriquecer, e muito, o caráter esportivo da F1 com efeito praticamente imediato.
A questão final que se apresenta, portanto, não deixa de ser um tanto perturbadora. Afinal, será que ainda somos maduros o bastante para lidar com frustrações e imprevisibilidades legítimas em nome da esperança raras vezes recompensada de vivermos algo verdadeiramente especial?
Um questionamento, por sinal, que certamente não se restringe ao universo das corridas.
Forte abraço a todos.