A hora do voto

A carona do Maestro – parte 1
15/10/2026

The 1986 World Championship contenders: (L to R) Ayrton Senna (BRA), Lotus; Alain Prost (FRA) McLaren; Nigel Mansell (GBR) Williams; Nelson Piquet (BRA) Williams. Formula One World Championship, Portuguese GP, Estoril, 21 September 1986.

Segundo turno, a urna lá, piscando pra você. Em quem vota como a melhor combinação para a Fórmula 1 e o automobilismo em geral:

  1. Bernie Ecclestone e Jean-Marie Balestre, presidente da Fia/Fisa entre 1979 e 93
  2. Bernie e Max Mosley, presidente da Fia entre 93 e 09
  3. Liberty Media, dona da F1 a partir de 2017

Difícil? Põe difícil nisso, tudo – numa hipótese generosa – malandro com contrato, com gravata e capital. Pra complicar, escolhi deliberadamente os mais finórios, deixando de fora a dupla Bernie-Jean Todt, presidente da FIA entre 09 e 21, menos, digamos, polêmica. Pelas minhas lembranças, foi um período em que a autoridade esportiva manteve uma relação mais discreta com o esporte do que as citadas acima.

Mas voltemos à nossa eleição hipotética. Ninguém nos três casos é totalmente bom, ninguém é totalmente mau – ainda que alguns pareçam se esforçar mais nessa direção. Todos têm pecados graves pelos quais devem responder nos termos da lei.

Cada opção, um caráter, uma história, objetivos nem sempre declarados, o momento, os interesses múltiplos que convergem e divergem rápida e imprevisivelmente em meio a centenas, milhares, milhões de atores. Talvez não fossem pessoas bem-vindas em nosso círculo próximo. A política, porém, tem seus próprios caminhos e certamente não foram eles os primeiros a se e nos submeterem a essa dinâmica perversa, frequentemente mal cheirosa e cheia de interesses escusos. Apenas é assim, desde os tempos bíblicos ou mesmo antes deles.

Difícil, bem difícil, mas temos de escolher uma das três opções. Ou não; você pode apenas se deixar levar, uma folha no vento, e não há nada de errado nisso. Apenas não reclame depois. Você optou por se abster…

Talvez ajude apelar para a lógica, para o racional, para uma análise tão fria quanto o possível para se chegar a uma escolha, mesmo que não seja a melhor, mas a menos ruim, como é mais comum nas eleições em regimes democráticos.

Eu colocaria em primeiro lugar na minha lista de fatores para uma escolha racional a redução das mortes no automobilismo. Pra ter um termo de comparação – o que é indispensável quando se busca uma base racional para uma decisão –, pedi ao Claude que criasse o gráfico abaixo.

Olhando apenas para a F1, a análise do gráfico e o racional decorrente seriam simples: houve uma drástica e bem-vinda redução das mortes a partir dos anos Balestre-Bernie. Olhando também para o WEC e WRC, a análise complica, estendendo uma linha de corte para 94, o que coloca Mosley-Bernie na equação.

Melhor seria olhar a questão da redução das mortes como um continuum, uma jornada iniciada nos anos 70, por melhores condições gerais de segurança nos carros e pistas, que poupou dezenas, talvez centenas de vidas e que, por não ter sofrido retrocessos, tornou a questão menos importante em minha decisão.

Passo, então, a um segundo critério de análise: as interferências das autoridades/proprietários da categoria na essência do esporte.

Como vimos em minha série Regulamentos, houve uma forte guinada a partir do começo dos anos 80 (Balestre-Bernie), com intervenções cada vez mais pesadas no regulamento técnico e esportivo das principais categorias do automobilismo, culminando neste ano com o BoP secreto da WEC e a cadeira elétrica na qual se transformou a F1.

Mas aqui também o continuum é evidente e sobre ele há influência cada vez maior de interesses comerciais, algo muito ruim, mas inevitável, a não ser que, como Sonny Hayes, o personagem de Brad Pitt em F1: O Filme, larguemos tudo para pilotar off-road/buggies em algum lugar do México.

Vamos, então, a um terceiro critério: competitividade entre de pilotos, engenheiros e, por que não? chefes de equipe.

Trazendo este critério para o jogo, creio que todos nós concordamos: a época de ouro da F1 se dá entre as temporadas de 83 e 92 (e claro que aceito discutir os exatos limites desta época). Niki Lauda, Alain Prost, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Nigel Mansell, quatorze Mundiais juntos, e mais os grandes carros da McLaren e da Williams, uma sequência extraordinária de temporadas, GPs inesquecíveis, disputados em altíssimo nível técnico e esportivo.

Tudo somado e descontado, fecho meu voto: ele vai para a combinação Balestre-Bernie.

Ficarei feliz em saber qual seria o seu voto.

Não preciso dizer aos amigos leitores que nunca, por incapacidade absoluta, estudei filosofia. Tenho, porém, apreço pelo tema e nos últimos tempos, me interessei em entender um pouco sobre o pensamento do alemão Jürgen Habermas, falecido em março, aos 96 anos.

Me socorrendo da Wikipedia, descubro os pontos centrais do pensamento dele: defesa intransigente da democracia, do estado de direito e da racionalidade como pilares para a emancipação humana.

Racionalidade! Habermas propôs algo que denominou “razão comunicativa”, o uso da linguagem voltado para o entendimento mútuo, onde o consenso é alcançado pela força do melhor argumento, livre de coerções. Imagino que por “coerção”, podemos entender paixão.

Foi o que tentei fazer acima: diante de uma escolha difícil, usei a razão, deixando de lado minhas paixões em busca de uma escolha menos ruim. Escolhi argumentos, reuni dados, os coloquei na balança e cheguei ao meu voto.

Me parece uma boa forma de decidir o voto, já que estamos quase todo o tempo diante de escolhas sobre as quais temos pouca ou nenhuma influência. Certamente é uma forma muito melhor que o “flood the zone with shit” de Steve Bannon.

Em tempo: já decidiu seu voto para presidente domingo próximo? Qual será a sua escolha? Adianto a minha, pensando o mais racionalmente que sou capaz e pondo a paixão de lado. Paixão, na hora do voto, pode ser um grande problema…

Dito isso, votarei Lula.

Boa semana, bom voto

Edu

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

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