
Há histórias que não deveriam ser contadas como biografias, o que as vezes nos leva ao caminho das metáforas
Porque algumas vidas são grandes demais para caber numa sequência de datas, vitórias e estatísticas.
Há homens que não passam simplesmente pelo mundo. Eles o atravessam como uma rajada de vento atravessa uma janela aberta, deixando atrás de si alguma coisa que não conseguimos mais ignorar.
Ayrton Senna foi um desses homens.
E talvez por isso, quando penso em sua chegada à Fórmula 1, não consigo imaginá-lo apenas como o jovem brasileiro que desembarcou na Europa carregando um capacete amarelo, alguns títulos nas categorias inferiores e uma enorme ambição.
Prefiro imaginá-lo como uma gaivota, personagem de um dos livros que me marcaram bastante da infância, me refiro a Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach, que conta a história de uma gaivota que prefere aperfeiçoar a arte de voar a apenas voar para buscar comida e sobreviver como o resto do bando
Uma gaivota que chegou a um céu onde todas as outras já haviam aprendido a voar dentro de determinados limites.
E então perguntou:
— Por que precisamos voar apenas até aqui?
A pergunta parece simples.
Mas algumas perguntas são perigosas.
Porque, quando feitas por alguém obstinado, elas não procuram uma resposta.
Procuram uma fronteira.
E, depois de encontrar a fronteira, procuram ultrapassá-la.
Foi assim com Fernão Capelo Gaivota.
E, de uma maneira a meu ver, foi assim com Ayrton Senna.
Quando Senna chegou à Fórmula 1, em 1984, a categoria já possuía seus deuses.
Lauda, Prost, Piquet, Mansell.
Era um mundo sofisticado, veloz e politicamente complexo. Os carros já eram máquinas extraordinárias. Os motores turbos haviam transformado a velocidade em algo quase brutal. As equipes tinham estruturas cada vez mais profissionais. Os pilotos eram celebridades, mas ainda pertenciam a um universo relativamente fechado.
Havia maneiras de fazer as coisas, de pilotar, de falar, de se comportar.
Havia, sobretudo, uma espécie de consenso silencioso sobre até onde um piloto deveria ir.
E então apareceu aquele garoto magro, de cabelos escuros, sotaque brasileiro e uma determinação que parecia maior do que seu próprio corpo.
Senna não chegou dizendo que queria destruir a Fórmula 1.
Ele queria compreender a Fórmula 1.
Mas compreender, para ele, nunca significou aceitar.
Era necessário descobrir, experimentar, testar, ir um pouco além, e depois mais um pouco.
Como Fernão.
Fernão não queria voar mais alto para humilhar as outras gaivotas, não queria ser coroado como a melhor gaivota do bando, seu conflito era mais profundo.
Ele queria descobrir até onde uma gaivota poderia ir.
A diferença parece pequena.
Mas muda tudo.
Porque existe uma distância enorme entre querer ser melhor que os outros e querer descobrir o melhor que existe dentro de si.
Senna parecia viver nessa segunda dimensão.
O menino que não aceitava o limite
Nas categorias de base, Senna já havia demonstrado algo que não era simplesmente velocidade, era obsessão, ele estudava, testava, repetia, voltava à pista. Tentava compreender o comportamento do carro em cada condição.
Quando chegou à Fórmula 1, essa característica não desapareceu, aumentou.
Sua primeira temporada, pela Toleman, não lhe entregou uma máquina capaz de disputar vitórias regularmente.
Mas entregou ao mundo uma pista do que estava chegando.
E então veio Mônaco, chovia, quando a chuva caía, a hierarquia começava a desaparecer, os carros mais poderosos já não necessariamente seriam os mais rápidos, os grandes nomes já não tinham tanta vantagem, o asfalto molhado transformava a corrida em uma conversa íntima entre piloto, máquina e pista.
Nesse dia Senna começou a avançar, e avançar, naquela tarde, um jovem que ainda não havia vencido uma corrida de Fórmula 1 passou a ameaçar o campeão mundial Alain Prost.
O mundo percebeu, e talvez tenha percebido apenas a superfície.
Porque o que Senna estava fazendo não era simplesmente andar rápido na chuva, ele queria descobrir um território.
Como Fernão descobrira que havia possibilidades de voo que nenhuma outra gaivota parecia interessada em explorar.
A chuva, para Senna, não era apenas um obstáculo, era uma porta.
E ele tinha uma característica perigosa: quando encontrava uma porta, queria saber o que havia do outro lado.
Fernão e Senna não queriam a mesma coisa que os outros
Existe uma passagem essencial na história de Fernão: as outras gaivotas não compreendem sua obsessão.
Para elas, voar é uma necessidade.
Voar era para procurar alimento.
Voar era para sobreviver.
Voar dentro daquilo que todas aprenderam a considerar normal.
Fernão transforma o voo em conhecimento.
O voo deixa de ser apenas um meio, torna-se um fim.
É exatamente aí que a metáfora encontra Senna.
Para muitos pilotos, dirigir significava vencer.
Para Senna, vencer era consequência de uma busca muito maior.
Ele queria compreender o limite da máquina, o limite do corpo, o limite da concentração, o limite da coragem, o limite da própria percepção.
E, sobretudo, queria compreender aquela estranha fronteira que existe entre controlar um carro e tornar-se parte dele.
Por isso sua preparação sempre pareceu um ritual.
Não bastava entrar no carro, era preciso conhecê-lo, sentir, ouvir, antecipar., decifrar.
Como se cada volta contivesse uma pergunta.
E cada volta seguinte fosse uma tentativa de responder.
A pequena gaivota diante do bando
Fernão descobriu cedo que romper limites tem um preço.
Quando alguém ultrapassa aquilo que os outros consideram possível, nem sempre recebe aplausos.
Às vezes recebe desconfiança.
Depois críticas.
Depois rejeição.
E, quando continua insistindo, pode receber algo ainda mais duro:
Solidão, Senna conheceu isso.
Não porque fosse simplesmente incompreendido, mas porque sua obstinação frequentemente o colocava em rota de colisão com o sistema, ele não aceitava facilmente a ideia de que certas decisões deveriam ser simplesmente obedecidas, não gostava de autoridades que, em sua visão, não compreendiam aquilo que acontecia dentro do cockpit, não aceitava que regras fossem aplicadas de maneira que considerava injusta.
Não gostava de silenciar aquilo que acreditava, e isso o tornou incômodo.
Porque existe uma característica comum entre os homens que transformam épocas: eles raramente são confortáveis para o seu tempo, Senna não queria apenas disputar o campeonato.
Queria disputar também o direito de definir o que significava ser piloto.
Lotus: quando a gaivota descobriu o céu
Em 1985, Senna chegou à Lotus., e ali encontrou uma máquina que finalmente permitia que seu talento respirasse.
Portugal, Estoril, Chuva.
Aquele foi um daqueles dias em que a Fórmula 1 parece esquecer todas as suas regras. Senna venceu, primeira vitória, primeira confirmação, primeiro grande grito do mundo.
Mas talvez o momento mais simbólico daquela corrida não tenha sido a vitória.
Foi a maneira.
A chuva transformou o circuito em uma paisagem quase líquida, e Senna parecia enxergar caminhos onde os outros enxergavam apenas dificuldade.
Fernão teria compreendido. Porque para a gaivota, o vento não era inimigo. Era matéria-prima.
Senna parecia ter essa mesma relação com a adversidade.
Quanto mais difícil a condição, mais seu instinto parecia despertar.
A procura pela volta perfeita
Mas havia algo ainda mais profundo.
Senna começou a perseguir aquilo que talvez seja a obsessão secreta de todo grande piloto: a volta perfeita.
Não a volta mais rápida simplesmente aquela volta em que tudo desaparece, a máquina, o público, o medo, o ruído.
A própria consciência.
Restam apenas trajetória, velocidade, aderência, frenagem, aceleração.
Um instante em que homem e máquina parecem compartilhar o mesmo pensamento.
Em Mônaco, em 1988, Senna atingiria uma espécie de estado de pilotagem que se tornaria lendário. Não é necessário transformar aquilo em misticismo. Basta compreender a descrição que ele próprio fez posteriormente de sua percepção naquele momento. Era como se tivesse ultrapassado uma fronteira de consciência. Como se o carro estivesse simplesmente obedecendo a algo que vinha de um lugar mais profundo.
É aí que Fernão encontra Senna novamente.
Fernão não queria apenas voar.
Queria descobrir o que existia além daquilo que acreditava ser possível para uma gaivota.
Senna não queria apenas fazer uma pole, queria descobrir até onde sua própria capacidade de pilotar poderia chegar, a diferença está na intenção.
Não era: “Vou provar que sou melhor que vocês.”
Era: “Preciso descobrir até onde consigo ir.”
No próximo encontro vamos continuar essa conversa sobre a gaivota e o capacete amarelo
Até lá!
Mário Salustiano