Brasil na Pista

Cultura do cancelamento
13/05/2021
Geração 7
20/05/2021

A abertura a la Band of Brothers sugere mais uma hagiografia da saga brasileira na Fórmula 1. Nada disso. O jornalista falou mais alto que o fã e, assim, Ernesto Rodrigues registrou na série Brasil na Pista um retrato preciso, humano e surpreendentemente desapaixonado da nossa aventura na categoria.

Surpreendente porque a louvação pura e simples dos feitos de Landi, Emerson, Piquet, Senna & Cia é um caminho suave e plenamente justificável, dado o que conquistaram, e digo isso por experiência própria, pois segui esta trilha em meu livro Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria.

Não que Ernesto não honre as vitórias brasileiras – somos o 3º país com mais vitórias na F1 –, mas não para nelas; vai além e registra com qualidade técnica e jornalística superior as derrotas, tropeços e amarguras que, vistas em perspectiva, são tão meritórias quanto as vitórias.

Produção da Bizum e do Canal Brasil, Brasil na Pista estreou em dezembro (desculpem ter demorado tanto a vê-la…), está disponível na Globoplay e, em breve, também no F1TV. Ao longo de 2016 e 2017, antes que a tragédia da Covid-19 se abatesse sobre nós, Ernesto e sua equipe registraram em quase seis horas da série de oito capítulos depoimentos sinceros de 22 dos 26 pilotos brasileiros vivos que competiram na F1 – só ficaram de fora Mauricio Gugelmin, Pedro Paulo Diniz, Luiz Razia (que não disputou nenhum GP, mas foi inscrito como terceiro piloto em dois deles) e Pietro Fittipaldi, que estreou na categoria quando a série estava às vésperas de estrear. Além dos pilotos, a série traz mais de uma dezena de entrevistas de gente como Jackie Stewart, Joe Ramirez, testemunha de tantos momentos decisivos nas carreiras de Emerson e Senna, e de jornalistas tão capacitados quanto simpáticos aos brasileiros, como Joe Saward, David Tremayne e Alberto Sabatinni.

Quando digo “depoimentos sinceros”, me refiro àquele tipo de entrevista no qual o entrevistado confia no jornalista, relaxa, desliga o modo “RP” e simplesmente conta o que aconteceu diante dos seus olhos. E, a partir daí, emerge um mar de histórias, na sua maioria pouco conhecidas do público, que um assessor de imprensa recomendaria que fossem deixadas pra lá. Mas são exatamente estas o sal da terra de Brasil na Pista. O resultado é extraordinário para quem quer ir mais fundo na história do automobilismo, que quer ter uma ideia mais exata do porquê as coisas são como são.

E, de repente, se descobre que o cockpit do Minardi era tão apertado que as mãos de Christian Fittipaldi não conseguiam segurar o volante, que Rubinho percebe que seu primeiro teste na Jordan era uma farsa, a equipe só cumprindo um compromisso comercial ao deixá-lo andar no carro, que a equipe simplesmente não queria que Roberto Moreno classificasse seu Andrea Moda para a largada, para economizar nos custos de manutenção do motor, que o acidente em Singapura envolvendo Nelsinho Piquet foi produto de uma chantagem barata (mas que teve a grande virtude de livrar a F1 de Flavio Briatore), que a suspensão do Arrow de Enrique Bernoldi se quebrava repetidas vezes sem que a equipe soubesse o motivo – mas mesmo assim mandava seus pilotos para a pista.

Vemos também pilotos lembrando da carreiras com os olhos rasos d‘água, Roberto Moreno, a nossa mais sincera tradução, sendo o mais frequente, e a superação humana de pilotos como Raul Boesel em sua luta contra o próprio medo na busca por tempo capaz de classificá-lo para a largada do GP do Rio 82, um feito que, dado o carro que carregava nas costas, equivale a um pódio.

Histórias como estas, apresentadas em ritmo industrial pela série, chocam corações piedosos como os de nós, fãs. “Como assim? Mas eles não estão lá para competir, para dar o melhor de si, para ultrapassar limites?” Não, não estavam. Estavam cumprindo o papel que um soldado de infantaria cumpre numa batalha, na qual pode ser sacrificado a qualquer momento, sem explicações ou um motivo minimamente válido. As equipes, em sua maioria eram oficinas de fundo de quintal, mal ajambradas e temerárias, que ali estavam para atender no mais das vezes apenas à cupidez e vaidade de seus proprietários.

Ao expor em sequência estas histórias, entre tristes e patéticas, Brasil na Pista revela uma F1 que nada tem a ver com os valores do esporte. É chocante, é desanimador, mas é verdade, apenas verdade. Se devemos ou não as conhecer em toda a sua crueza é discussão para outro dia. Afinal, a lucidez é um estorvo…

Se a série valoriza os coadjuvantes, não decepciona em relação aos campeões. Podemos ver um Emerson em sua melhor face: humano, sempre simpático e bem-humorado e um Piquet ponderado e totalmente desarmado das suas fantasias de bad boy, que lhe caem tão mal e das quais ele parece ter tido recaída nas últimas semanas, ao juntar-se a Jair Bolsonaro em sua cruzada genocida contra a realidade e a vida.

Meus sentimentos depois de assistir Brasil na Pista?

Além de reforçar a admiração antiga que eu já tinha pelo trabalho de Ernesto, a série restabeleceu o meu respeito e admiração pelos pilotos que não ganharam na F1. O saldo negativo foi perceber quão distantes estamos de uma nova vitória na categoria. Não temos no momento nem qualidade nem quantidade de pilotos que possam conquistar uma das quatro ou seis vagas que permitem sonhar com algo mais do que uma figuração – e mesmo estas não serão fáceis.

Não imagino que esta tenha sido a intenção de Ernesto e equipe, mas Brasil na Pista resultou aos meus olhos menos um monumento e mais um epitáfio, ainda que muito digno, do automobilismo brasileiro.

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

4 Comments

  1. Edu,

    Já vi parte da serie e sim, é um retrato cru das situações de cada um dos pilotos brasileiros, nós, fãs, distantes, apenas vemos os melhores.
    A realidade é cruel e sincera, fiquei um pouco abismado com tudo, mas convenhamos que foi um retrato muito bom da realidade.
    Respeito, é o que devemos a todos os pilotos que chegaram ou tentaram chegar lá.
    Belo relato, como sempre.

    Grato,
    Antonio Manoel Cardoso Ribeiro

    • Mauro Santana disse:

      Grande Edu!

      Gostei demais desta série, e as histórias que ela nos apresenta parece ter acontecido em um outro mundo.

      Grande abraço!

      Mauro Santana

  2. Carlos disse:

    Desconheço país que trate tão mal quem cometeu o “erro” de não ser campeão. Vemos na atual temporada David Coulthard, Paul di Resta, Martin Brundle entrevistando os pilotos em destaque. Alguém acha que esses 3, só para pegar alguns exemplos, são ridicularizados, objeto de piadas no Reino Unido? Concordo integralmente com os irmãos Fittipaldi quando dizem que a imprensa não especializada foi determinante para decretar o fim dessa equipe brasileira na F1. Quando estava madura, pronta para competir em outro nível, os patrocinadores sumiram. “Minha marca exposta no carro que apelidaram de açucareiro?” Ao invés de tratar com o merecido respeito quem fez sacrifícios, deu muito duro, sem ajuda oficial, para chegar à F1 e se destacar, os jornalistas partem do princípio que, para “ser imparciais” não podem passar nem perto do elogio. Ao invés do incentivo, ênfase nos aspectos negativos. Sou testemunha.

  3. Fernando Marques disse:

    Edu,

    Vou tentar ver “Brasil nas pistas”. …
    Pelo seu relato deve ser sensacional.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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