Cultura do cancelamento

3 x 1
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Brasil na Pista
17/05/2021

27 anos passados da morte de Ayrton Senna, é natural que sua figura comece, aos poucos, a se tornar nebulosa no imaginário popular. Muitos dos que acompanharam Senna em sua totalidade já não estão mais entre nós, e quem tenha nascido há no máximo 31 anos praticamente não teve acesso a Senna, exceto nos youtubes, documentários e reportagens da vida.

“Será que ele era tudo isso mesmo?”. Trata-se de uma pergunta natural e até mesmo justa, quando feita de modo honesto, sincero e com verdadeira dúvida. Meu querido amigo Vinícius Chaer, colaborador deste site,  discorreu sobre o assunto em conversa que tivemos no final do ano passado.

É contra? Então, sou a favor

Das redes sociais atuais, me parece que o twitter está tomando o lugar principal no que tange a notícias, a interações populares com famosos e ao destilar de opiniões com juízo de valor sobre fatos, feitos e personalidades.

Funciona de modo parecido ao que vemos na política (é um microcosmo, digamos): os favoráveis ao item X se movem em grupos (não quero usar a palavra “gado”, acho desrespeitosa) para defendê-lo e, necessariamente, atacar ao Y.

Semana retrasada, o cantor Liam Gallagher (ex-Oasis), torcedor do Manchester City antes de o City ser um time qualquer coisa relevante, tweetou de forma bastante ácida contra Neymar. Houve um movimento manada – não resisti… – para “cancelar” o artista inglês e defender a honra (?) do jogador brasileiro.

É claro que 99% dos comentários foram em português e 97,83% deles eram sem fundamento, mas deu bastante repercussão.

Não consigo dissociar a turma dos neymarzistas (fãs virtuais de um atleta que, perto de completar 30 anos, ainda é promessa) dos imediatistas revisionistas.

Estão tentando a todo custo desconstruir Roberto Carlos (atribuindo sua existência à Globo e uma história insana de que Tim Maia é o “Verdadeiro rei”) e Pelé (dizendo que ele ter feito mais de mil gols é uma grande mentira e que Garrincha era “o cara” etc.).

Não surpreende, portanto, que Ayrton Senna seja também alvo dessa artilharia.

Calcanhar de Aquiles

Primeiro no aniversário póstumo (ele faria 61 anos) e, principalmente, na data mortem, twitter e outras mídias foram invadidas pelo “mas será que ele era tudo isso?”, “Por que ele é considerado herói?”, “por que não admitem que Schumacher (escolha outro nome) foi melhor?”. Houve até uma “influencer” do tipo lacradora que questionou Senna ser herói/ídolo enquanto “as meninas do vôlei fizeram muito mais”.

Francamente.

No entanto, há um estepe (como Garrincha para Pelé e Tim Maia para RC) que é sempre evocado: “prefiro o Piquet”, “Piquet foi muito melhor”, “Piquet foi tricampeão também e antes”, etc. Até aí, tudo bem.

Mas aos poucos o “desconstrutivismo” em cima de Senna tomou cara: “a irmã apoia o governo”, lembrou um. “Já li que ele era malufista”, descobre outro. Um terceiro revela: “tem vídeo dele descendo a rampa com o Collor”.

E aí as duas coisas se ligam: “Piquet é contra a Globo, por isso que não dão o mesmo espaço“, conclui alguém em momento Arquimedes Eureka. “É, ele mandou um globolixo no ar“, diz outro sem associar NP com JB.

José Trajano, referência na mídia esportiva nacional, diz que Piquet perdeu um fã após posar para foto com o atual presidente brasileiro. Mas, é claro, os tuiteiros canceladores não se preocupam com coerência.

“Morre o homem, fica sua obra”

Quem se interessa verdadeiramente por Fórmula 1 não tem como não admirar o piloto Ayrton Senna. “É como mergulhar no rio e não se molhar”, diz a música.

Se uma determinada parcela, ainda que significativa (dessa, que quer cancelar autores de livros que não leram), dos fãs do piloto o tratam como fazem os seguidores de Neymar, paciência. Senna não era Neymar. Antes de seus 30 anos já havia sido campeão do mundo e quebrado o recorde de poles de Jim Clark, por exemplo.

Quem é fã de Fórmula 1 se molha ao mergulhar no rio – e sabe do que ele era capaz.

Encerro este texto mencionando uma conversa que tive com outro amigo de GPtotal, o grande João Carlos Viana.

Relembramos a temporada de Alain Prost em 1993, e ficamos em dúvida sobre se ele foi, naquele ano, mais do que uma sombra de seu passado.

De fato tivemos imensa dificuldade de lembrar algum GP em que ele tenha sido algo além de burocrático.

Horas mais tarde, fui assistir os treinos do GP da África do Sul, abertura da temporada daquele ano.

Ayrton Senna fez uma volta qualquer coisa perfeita, mítica: não à toa, o piloto mais próximo dele no grid, um certo Michael Schumacher, marcou um tempo 1,5 segundo atrás de Senna. A outra Williams, de Damon Hill, ficou a milenares 1,8 s.

Reginaldo e Galvão, na narração, falaram perfeitamente: “é pole para Senna”. Basicamente, eles afirmaram que Prost tinha capacidade de baixar, mas teria que virar outro piloto, outra pessoa, fugir de suas características, renunciar ao seu estilo, para conseguir aquela pole.

E foi o que aconteceu. Prost foi além de seus limites e superou a volta de Ayrton por menos de um centésimo. O brasileiro retornaria à pista, mas sofreu com pane hidráulica antes de partir para nova tentativa.

Não se pode dizer que esse tenha sido um dos maiores feitos da carreira de Alain Prost, mas foi certamente um dos mais surpreendentes. Guardadas as devidas proporções, lembra a mágica que Piquet fez para superar Senna na Hungria, 7 anos antes.

Senna extraía mais do que seu equipamento podia oferecer — e com uma frequência assustadora. Mais do que isso, fez os outros pilotos candidatos ao posto de melhores de todos os tempos tirarem força de onde não imaginavam.

É por isso que ele jamais poderá ser cancelado.

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

6 Comments

  1. Wladimir disse:

    Excelente texto, Marcel.
    Fico espantado como veneram Senna e ignoram completamente que o piloto fenomenal foi um homem com falhas graves. Várias vezes usou de manobras, no mínimo, discutíveis. Várias vezes quando foi atrapalhado e perdeu corridas quis partir pra briga com quem ele achava que atrapalhou. Quanto a posições políticas dele ou do Piquet eles deveriam, dependendo da situação, guardar para si em vez de alardear aos quatro ventos com palavras ou atitudes. Peço sua ajuda e de outros colunistas pois não me recordo qual era a posição de Jody Scheckter quanto ao apartheid já que os fãs de Senna e Piquet evocaram assuntos semelhantes. Em 1993 é fato que Prost, com o carro que tinha, não foi tão superior a Senna como muitos esperavam, ainda mais com o massacre da Williams no ano anterior. Senna superou Damon Hill, que todos esperavam que fosse vice de Prost, e Schumacher que o derrotou em 1992 (primeira temporada completa). Até eu estava cego quando lidava com os acontecimentos de Suzuka/89 e 90, especialmente 90 quando Senna provocou o acidente. Porém não eximo Prost das atitudes reprováveis de recorrer à cartolagem (Ballestre) no Brasil/82 e Suzuka/89, dando a impressão de que não seria campeão sem apelar para o dirigente. Em 82 perdeu para a fragilidade do Renault RE30 e a revolta de René Arnoux, de partida para a Ferrari, que lhe tomou duas vitórias importantíssimas. Não sei como não exigiu de Ballestre a cassação da superlicença de Arnoux! Em 89 Senna errou ao cortar caminho mas o fez talvez para evitar um possível acidente. Muitos acham que a desclassificação foi exagerada e Senna cutucou a fera com vara curta ao reclamar que foi roubado. Mas diante de vários abandonos durante a temporada certamente não teria chances de superar Prost que, mesmo assim, apelou para Ballestre. É fato que a pilotagem de Senna encantou não só brasileiros como japoneses e outros povos que assistiam a Fórmula 1 independente da frieza dos números, mas é pura perda de tempo procurar o melhor de todos os tempos (que, a meu ver, é Jack Brabham pois o feito dele é inigualável). Fiquemos com o melhor do legado de Senna para o Brasil e para o mundo mas não ignoremos o homem por trás do piloto.

  2. Carlos disse:

    Palmas pela escolha do tema. Atualíssimo. Faço parte de um grupo intitulado Filhos de Lobato, que reune admiradores do escritor Monteiro Lobato.
    Fico pasmo com a quantidade de pessoas que é capaz de adaptar a realidade, exposta em um contexto diferente do atual, para justificar uma crença.
    Estão chegando ao ponto de alterar trechos das obras de Lobato. Vejo sofismas de montão sobre os mais variados assuntos. Com a quantidade de meios e informações à disposição nos tornamos escafandristas de espelho d’água, capazes de adquirir certezas com conhecimentos totalmente superficiais. Mal dos tempos, me parece. Para finalizar, registro mais uma vez que considero inútil selecionar o melhor piloto de todos os tempos porque existem inúmeras variáveis, conhecidas e desconhecidas, dentro de cada contexto. Considero inviável tentar arrolar tudo e obter um resultado justo. Forte abraço e parabéns.

  3. Fernando Marques disse:

    Marcel,

    eu tenho muitas teorias a respeito da Formula 1 num todo, obviamente todas formadas apenas como um mero apaixonado leitor e telespectador por corridas de automóveis, sem deixar de ser um incorrigível e apaixonado flamenguista e por consequência amante do futebol também. Adoro a Formula 1 e por isso venero o GP TOTAL, não só pela qualidade daqueles que fazem o site ser o que é, mas também pelo meu lado saudosista, pois as histórias e eternas lembranças sobre a formula 1 e o automobilismo em si, são sempre muito bem contadas aqui.
    Lembrar do Senna, das suas glórias, dos seus grande feitos, das suas melhores qualidades é sempre um salutar prazer de ler aqui no GEPETO.
    Mas me orgulho de não fazer parte daqueles que consideram o Senna como o melhor piloto que já existiu na Formula 1. Sinceramente nem sei se ele faria parte de meu TOP 3. Sei que sou minoria.
    E por que penso assim. Como disse sou saudosista, e gosto mais do tempo e dou mais valor aos carros e pilotos do chamado automobilismo raiz em detrimento da velocidade evolução tecnológica e eletrônica e do chamado “politicamente correto” que passamos a ver no mundo principalmente a partir do final dos anos 80. Isso pra mim pesa muito.
    Por isso, não sei se certo ou errado, dou mais valor aos feitos e conquistas do Piquet, Lauda, Stewart e Emerson se comparado com os de Prost, Senna, Schumacher, Vettel e Hamilton que em números possuem mais glórias e conquistas. Mesmo sabendo que todos foram fenomenais.
    E é aí que em muitas vezes não concordo com as avaliações das estatísticas e suas ponderações dos números que cada um desses campeões mundiais alcançaram na Formula 1. Por que os números também não permitem comparações se levado em conta o como era a Formula 1 em cada década da sua existência … cada década que passou foi muito distinta das outras se comparadas … é difícil achar a melhor ponderação … assim como os números não traduzem o real trabalho e sacrifícios que cada um dos pilotos que tiveram o privilégio para alcançar a glória máxima de ser campeão na Formula 1.

    Especificamente sobre o piloto Ayrton Senna, certamente o mais veloz de sua época, mas nem sempre o mais rápido, principalmente em corridas.
    Em 1989, fato explorado por você e o Vinicius no vídeo, penso que o Prost levou muito em consideração na sua estratégia de poder ser mais rápido que o Senna nas corridas. Isso se levar em consideração as medias de velocidades/tempo que ele fazia por volta sempre muito próximas nas corridas. O cara era um relógio. Poderia não ser o mais rápido numa volta mas era no somatório de 10/15 voltas seguidas até … fruto sempre de ter um melhor acerto no carro.
    Outra coisa coisa que penso em relação ao Senna. Ele poderia ter batido Prost na pista em Suzuka 1990, tinha mais carro e era mais piloto, mas preferiu jogar sujo assim como Prost fez em 1989. Isto para mim é falta de esportividade e jogo sujo. Vale para ambos e talvez por isso o principal fato deles não estarem no meu TOP 3, e Schumacher também . Prefiro a grandeza do Mansel que disse que jamais jogaria de propósito um adversário pra fora da pista ou batesse para poder conquistar um dos três títulos que perdeu conforme mesmo fala, que ele perdeu.
    Quando toquei no politicamente correto acima, sempre achei o Senna um falso politicamente correto. Prefiro mais a sinceridade e sarcasmo do Piquet, mesmo que as vezes de forma inconveniente.

    Quanto ao Neymar, peladeiro, dê por satisfeito e feliz por ter sido o terceiro melhor jogador do planeta. Nunca jogou mais bola que Messi e CR7.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Fernando Marques disse:

      O falso politicamente correto do Senna se baseia muito quando achou por melhor devolver ao Prost na mesma moeda em Suzuka 1990. Ele se nivelou ao baixo nível do Prost.
      Isso proporcionou a meu ver os anos mais feios e vergonhosos que a fórmula 1 teve na sua história.
      A maior rivalidade sim. Mas dá forma mais fria possível.

      Fernando Marques

  4. Sandro Serzedello disse:

    Marcel, parabéns pelo texto! Sempre muito preciso nas palavras. Abs

  5. Mauro Santana disse:

    Grande texto mais uma vez, Marcel!

    Senna elevou o nível na sua época dentro e fora das pistas, mostrando uma garra e concentração absurda.

    Já o menino Ney enquanto vai colecionando bobagens e consequentemente atraindo mais seguidores, Messi e CR7 foram enfileirando bolas de Ouro.

    Daqui alguns anos, muitos destes seguidores vão lembrar do menino Ney da seguinte maneira:

    “Não fosse o Messi e o CR7, e o menino Ney teria sido várias vezes eleito o melhor do mundo”.

    “Ou seja, vamos cancelar Messi e CR7, eles são os culpados!” Rsrsrsrs

    Abraço!!

    Mauro Santana

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