Efeito borboleta

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No fim, Max Verstappen não superou o “Grande recorde de Schumacher. No entanto, isso não irá pesar contra ele no futuro. Pelo contrário, e evocando as palavras do próprio holandês, “não era pra ele ter chegado na última etapa de 2025 com chances de título”. Mesmo com suas excepcionais vitórias e poles na primeira metade do ano, tudo era entendido como um caso parecido aos de Senna em 1993 e Alonso em 2012, como exaustivamente já falamos aqui: pilotos que foram além do que o equipamento lhes permitia, que realizaram performances históricas e que estão gravados na memória de quem viveu ou leu sobre o que aconteceu lá.

Mas em nenhum dos casos o título foi uma realidade no final. Fernando conseguiu terminar 3 pontos atrás em parte pelo caos absoluto de Interlagos e também pelo segundopilotismo de Felipe Massa. Mas, ainda assim, foi preciso que Vettel quase abandonasse a prova logo na largada para que o espanhol sonhasse de fato. Foi necessário, também, que em Abu Dhabi Vettel (punido nos treinos por sua pane seca) largasse em último. No caso de Senna, houve a nítida sensação de que ele estava fazendo algo que nenhum outro piloto conseguiria. Mas sendo justo, isso terminou no GP do Canadá daquele ano. As outras duas vitórias – magistrais – vieram após Prost colocar o tetra no bolso.

Nesse sentido, o 2025 de Max é maior do que o realizado pelos latinos: ele foi o único que de fato chegou a “colocar uma mão na taça”. Mas o fez exclusivamente por méritos. Ok, “exclusivamente” incorre algum exagero, mas o próprio desenvolvimento da Red Bull e as falhas da McLaren que permitiram que víssemos uma última rodada com 3 postulantes à taça só ocorreram porque Max era o piloto no carro que estampava o número 1.

No retrospecto, comparo a temporada de 2025 à de 1979. Lá como cá, tivemos uma equipe dominante (Ferrari e McLaren). Lá, como cá, tivemos um piloto em uma outra equipe que colecionou vitórias e chegou muito perto dos pilotos da equipe vencedora ao final (Jones e Max). Lá, como cá, uma terceira equipe com um piloto vencendo alguns GPs também (Laffite e Russell). Lá, como cá, tivemos a chefia da equipe dominante influenciando na disputa de forma direta (Enzo e Zak). Não comparo os nomes em suas carreiras, trajetórias e talentos per se, mas os papeis são muito claros e semelhantes: Norris como Scheckter, Piastri como Gilles e Jones como Max. Mas a maior semelhança é de Zak Brown com Enzo Ferrari. 

Em Monza 1979, Enzo teria chamado Gilles na chincha e pedido que ele não buscasse aquela vitória, deixando-a com Jody – piloto menos brilhante, certamente, mas já mais experiente na categoria (boas temporadas em 1974 e 77) e com alguma consistência e inspirando mais confiança no comparativo a Gilles, que poucas semanas antes (GP da Holanda) havia protagonizado mais uma de suas insanidades. Como resultado, Jody (largaria em terceiro) e Gilles (partiria em quinto) rapidamente chegam à ponta, e o que temos é um comboio do canadense para o sul-africano — 0.4s de vantagem ao final –, consagrado campeão com duas corridas de antecedência.

Em 2025, também foi em Monza que o momento decisivo aconteceu, com Zak interferindo na disputa de Piastri (até então líder do mundial e com um desempenho consistentemente melhor) e Norris, por motivos que podemos imaginar (inglês numa equipe inglesa, influências de patrocínio etc.), mas que, no fim das contas, só fazem sentido no campo da suposição e da conspiração. Podemos pensar que houve algum erro de cálculo por parte da McLaren, uma vez que naquele momento Verstappen estava 70 pontos atrás de Lando, vice-líder, o qual tinha 36 pontos de desvantagem para Piastri. A galera de Woking, portanto, pensava que tal decisão não interferiria no título, pois, imaginavam, seus dois pilotos poderiam continuar disputando livremente e Max não conseguiria incomodá-los.

Ironia das ironias, se a equipe devolvesse a posição a Piastri, o título ficaria com Max, já que Lando perderia 7 pontos da vitória — não, eu não sou reducionista, estou apenas sendo irônico.

O que nos leva a outro ponto interessante: a entrevista pós-corrida do GP de Abu Dhabi.

Dentre as várias perguntas realizadas, uma irritou Max. A questão sobre o GP da Espanha: no circuito da Catalunya, nas voltas finais, após ser orientado pela equipe a “devolver posição” (“Não, eu tava na frente, p&%#@!”), Max “deslizou o carro” na curva à esquerda, aparentando num primeiro momento reduzir a velocidade para ceder a posição, mas em seguida, de modo deliberado, causando o choque entre ambos. Max, que estava em quarto antes da batida e seria quinto se deixasse Russell à frente, caiu para décimo ao final, punido com 10 segundos de acréscimo ao seu tempo de prova.

Assim como a versão reducionista de que foi a McLaren quem garantiu o título de Norris entre os pilotos ao não forçá-lo a devolver a posição para Piastri em Monza, o que tenho visto é um festival de críticas a Verstappen por ele ter “jogado o título pela janela” com a manobra tosca – reprovável e injustificável, obviamente – em Barcelona. Ora, se Verstappen não fosse Verstappen, a tal manobra nem sequer seria lembrada, pois outro piloto (talvez a própria dupla da McLaren, ou os Ferraristas, os Mercedianos…) nunca teria vencido 8 corridas, muito menos disputado a última da temporada com chances reais de título.

A mim isso parece óbvio. De todo modo, uma conta farsesca e oportunista irá dizer que os 10 pontos que Max anotaria na Espanha ficando em quinto (ele terminou somando apenas um) seriam mais do que suficientes para lhe garantir o título, uma vez que ele perdeu o certame por apenas dois tentos. É a versão atualizada de “Prost perdeu o título de 1984 por apenas meio ponto. Se tivesse terminado em segundo em Mônaco com a prova indo até o final, seria campeão com um ponto de vantagem, pois somaria 6 em vez de 4,5 com a vitória na corrida interrompida.” Ou então uma atualização do patético processo judicial de Massa, alegando que “se Singapura fosse anulada, Felipe seria campeão, já que Hamilton perderia os 6 pontos conquistados lá, e foi campeão com apenas 1 de vantagem”.

Patéticos tais cálculos e afirmações. É como a turma que afirma que um gol (mal) anulado da seleção brasileira na estreia da Copa de 1978 foi o fator decisivo para que o título daquela Copa não ficasse com o Brasil. Ou os colorados que querem que se “desanule” o que foi anulado após comprovação de manipulação, pois “se valesse a tabela original” terminariam o campeonato em primeiro. Em todos os casos citados, tais contas ignoram toda a consequência do que poderia acontecer – maior ou menor motivação, diferentes abordagens das equipes, ajustes técnicos internos, interferências externas… –, querendo mudar apenas um pequeno trecho, uma passagem de um episódio de um livro com 24 capítulos.

É reducionismo barato.

É como o filme “Efeito borboleta”: mudo um fato, e quero que tudo que aconteceu depois seja rigorosamente igual. Só que não é, nunca é. Ora, um torcedor mais “fanboy” de Max pode fazer a mesma coisa e atribuir a perda do título de Verstappen ao choque de Kimi Antonelli com o holandês na Áustria. “Se não fosse aquilo, o Max chegaria em sexto na corrida, somaria 8 pontos e seria campeão. Com certeza!”, diria o torcedor de análises superficiais.

Fico com outra frase de Max, dita em entrevista anterior à decisão: “Se estivéssemos no outro carro (McLaren), o campeonato já teria acabado faz tempo”.

Difícil discordar.

Feliz Natal e um ótimo 2026 a todos nós!

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

2 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Marcel,

    Não resta dúvidas que se Max Verstappen tivesse uma McLaren em 2025, mesmo tendo Lando Noris ( piloto inglês, equipe inglesa ) o campeonato teria acabado muito antes nessa temporada.
    Inclusive me arrisco a dizer se a McLaren deixasse, Piastri tbm teria pulverizado o título antecipadamente.

    Aproveitando para dizer que o GEPETO deu mais um show de bola em 2025 … que venha mais em 2026 … e já sentindo saudades das transmissões da Band … não precisa nem dizer i por que …

    Um feliz Natal pra vc
    E desejando muito sucesso com saúde e paz em 2026

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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