

Dando continuidade à entrevista que João Carlos Viana, Lucas Giavoni e eu fizemos com Stefan Johansson no último dia 27 de setembro, reproduzo abaixo algumas declarações muito interessantes a respeito da experiência mais insana que ele teve ao volante; comparações entre Prost, Senna e Bellof sob o ponto de vista de quem foi companheiro de equipe dos três; e por fim a surpreendente origem de sua carreira como artista plástico.
Antes de abrir aspas, contudo, cabe reforçar que estes são apenas trechos pontuais em meio a uma entrevista que abrange e cobre escopo muito maior, e que ver suas expressões e entonações certamente agrega informações preciosas a tudo o que foi dito. Por tudo isso, fica mais uma vez o convite para que considerem a hipótese de ver a entrevista, que dispõe de legendas em português.
![]()

GPTo: Stefan, você pilotou no Nordschleife com o Porsche 956. Como você descreveria essa experiência?
SJ: Honestamente, a experiência mais insana de todas as que tive correndo foi com o 956 em modo de classificação no Nordschleife. Era simplesmente insano, porque aqueles carros tinham tanta aderência… porque era túnel completo [sob o carro], sabe? E cerca de 7, 8 graus de caster, o que deixava a direção incrivelmente pesada, e o Nürburgring é muito, muito estreito. Quero dizer, é realmente estreito, mal cabe dois carros em algumas partes da pista. E eu me lembro de descer para a chamada Schwedenkreuz, que é provavelmente o trecho mais rápido da pista. São quase 400 km/h quando você entra na curva e a aderência era insana. Ocorre que normalmente você tem ondulações de alta frequência, mas o Nürburgring é tipo assim o tempo todo [fazendo gesto e som de uma oscilação lenta e forte], então quando o carro pega, sabe, com toda aquela aderência e tudo, literalmente arrancava o volante das suas mãos, então você tinha que se ajustar no banco e você tinha que segurar o volante assim [se agarrando ao volante por baixo] e apenas segurar assim, literalmente puxar o mais forte que pudesse para mantê-lo em linha reta, e então você chega ao Schwedenkreuz e é completamente de pé cravado na última marcha toda a primeira parte dessa curva. Você entra a 400 km/h e só puxa o volante com força, o máximo que pode para manter o carro, mas o carro ficava fácil na pista, porque tinha tanta aderência, sabe? A dificuldade era literalmente conseguir segurar o volante. Era completamente insano, sabe, se você pensar agora, é loucura.

GPTo: Você foi companheiro de equipe de Stefan Bellof, Ayrton Senna e Alain Prost, correu contra eles com o mesmo equipamento, então pode compará-los como pilotos, como competidores muito melhor do que nós. Quão rápidos eles eram, quais eram seus pontos fortes, seus pontos fracos, o que você pode nos dizer sobre eles como competidores?
SJ: Sim, quer dizer, eles… sabe, todos singularmente diferentes, claro. Mas a experiência que tive com o Prost foi tipo um baita abrir de olhos, sabe? Porque ele estava muitos níveis acima de todos nós naquele ponto, sabe, em como ele abordava as corridas, a maneira como ele abordava o carro, como ele distribuía todo o fim de semana de corrida, e como ele operava dentro da equipe e tudo… Quer dizer, eu aprendi mais naquele ano com ele do que no resto da carreira, antes ou depois, mesmo. Ele era extraordinário e, claro, o Ayrton estava em um nível diferente no que diz respeito a talento natural, não havia ninguém perto dele. Ele era como um acrobata num carro de corrida, sabe? Mas eu realmente acredito de verdade que até ele ter o Alain como companheiro ele… Ele ficou muito melhor depois, quando conseguiu sentar na mesma sala com o Alain e estudá-lo, porque até aquele ponto, acho que ele se apoiava no talento natural mais do que qualquer coisa, que já era muito superior ao de qualquer um no paddock claro, então ele já tinha grandes resultados. Mas depois disso, se você pensar, ele ficou em outro nível, e acho que é porque ele [Alain] era simplesmente tão bom em tudo. Digo, as primeiras as primeiras três ou quatro reuniões de briefing com o Alain era como se meu cérebro fritasse sabe? Porque era informação demais. Mas aí quando você começa a destrinchar e entende, é tudo tipo um sistema sabe? É tudo categorizado, então você entende. Ok, então, sabe, e aí vira algo como abrir como um mar de conhecimento que antes eu não tinha. E nós nos dávamos super bem, sabe, nos divertimos muito. Digo, ainda somos bons amigos, nos vemos para jantar com bastante regularidade sabe? E conversamos de vez em quando, então sim, foi uma ótima experiência com certeza.

GPTo: E quanto ao Bellof? Foi fácil para você andar mais rápido que ele? Porque ele era incrível em protótipos…
SJ: Sim, quero dizer, ele era obviamente muito, muito bom, mas naquela época eu realmente acho… Quero dizer, eu classifiquei à frente e cheguei à frente dele em todas as corridas que fizemos na Tyrrell, e eu entrei chamado de repente pela equipe sabe? Digo, eu estava faminto para mostrar a todos o que eu podia fazer … e acho que ele, por outro lado, já estava de saco cheio da Tyrrell, porque era um carro que mal iria se classificar. Então acho que ele não colocou o mesmo esforço que eu sabe? Porque eu queria provar um ponto e ele estava meio que procurando a próxima oportunidade que apareceria para ele, mas nos protótipos ele era inacreditável e. Claro, ele estava na Porsche de fábrica, que estava anos-luz à frente de qualquer outra. Você sabe, nós estávamos no carro da Joest, que era basicamente um [Porsche] 956 padrão, enquanto o carro de fábrica tinha câmbio diferente, eles tinham um monte de truques na manga. E você ainda está com a equipe de fábrica. Sem tirar o mérito, porque ele era um mega talento, claro. Mas, de novo, um cara super, super gente boa sabe? Nós nos conhecemos por pouco tempo, mas chegamos a nos conhecer bem. Se você quiser, você acaba conhecendo muito bem seus companheiros, porque você fica naquele maldito caminhão esperando e esperando e esperando e sabe, e só falando besteira basicamente, e rindo e brincando e seja lá o que for, o que aparecer, sabe? Então você desenvolve uma boa amizade com a maioria dos pilotos desse jeito.

GPTo: E com o Ayrton você teve tempo de se dar bem com ele? Como foi sua relação com ele?
SJ: Sim… Quero dizer, o Ayrton era um indivíduo complexo, sabe? Digo, ele era incrivelmente focado em fazer o trabalho, e dava para perceber… Quero dizer, se ele não fosse piloto ele seria o chefe do JP Morgan já naquela idade. Ele era simplesmente esse tipo, essa personalidade, incrivelmente determinado. E eu lembro, porque ele também estava bem no começo da carreira quando corremos pela Toleman, obviamente, e naquela corrida que fizemos em Portugal houve um problema com os pneus Michelin e o pobre engenheiro de pneus, coitado, ele levou um verdadeiro interrogatório do Ayrton sabe? Tipo: “e isso aqui?”, “e aquilo ali?” e claro, ele não tinha resposta pra metade das perguntas que o Ayrton fazia, sabe? Então ele ficou meio sem saída e o Ayrton simplesmente não largava o osso, ele precisava absolutamente daquela resposta que queria sabe? E, quer dizer, 0é isso que faz um grande campeão, não importa em qual área. É assim que tem que ser, então foi muito impressionante, já naquela idade.

GPTo: Como começou a sua segunda carreira, com a pintura?
SJ: Então, a pintura é realmente o que agora ocupa, digamos, a maior parte do meu tempo e da minha energia, e minha paixão está definitivamente na pintura agora. Quero dizer, sempre gostei de uma certa estética apurada desde muito jovem, sabe? Como carros bem desenhados, ou arquitetura, roupas, o que você disser… Quero dizer, eu tinha interesse nisso, digamos. Quando comecei a ganhar algum dinheiro na Fórmula 1, sabe, comecei a colecionar algumas obras de arte nas viagens ao redor do mundo e tal, mas nunca, jamais pensei em realmente fazer algo eu mesmo. Nunca, de verdade, durante todo esse período. E então, na Fórmula 1, fiquei muito amigo do Elio de Angelis, nós desenvolvemos uma amizade super próxima em um período bem curto de tempo, então a gente estava sempre junto sabe, saindo pra jantar muito frequentemente, e apenas passando muito tempo juntos, e quando ele sofreu o acidente, sabe, nós estávamos sentados no muro dos boxes em Paul Ricard conversando cinco minutos antes sobre qualquer coisa, ele saiu e aí eu vi aquela grande nuvem de fumaça à distância e quando cheguei lá vi que o carro estava pegando fogo, então corri pra lá. O Alain [Prost] estava lá também e acho que era o Jacques Laffite ou o Alan Jones, não lembro direito, mas enfim, tentamos virar o carro de volta sabe, mas não conseguíamos mover o carro de jeito nenhum… Então toda essa experiência realmente me afetou sabe, de um jeito bem ruim. Eu estava arrasado quando voltei pra casa sabe e tentando processar tudo isso. Por algum motivo, não faço ideia do que me levou a isso, mas fui a uma loja e comprei algumas tintas e uma tela e só quis fazer algo em memória dele sabe? Qualquer coisa, meio como uma terapia acho, mais do que qualquer outra coisa. E foi como se um raio tivesse me atingido, tipo “uau! isso é algo que eu realmente amo fazer”, sabe? então basicamente tenho pintado desde então.
![]()
A entrevista completa inclui diversas outras passagens interessantes, como a descrição de como era guiar um Fórmula 1 da era turbo em modo de classificação, o famoso atropelamento do cervo na Áustria em 1987, a forma como recebeu o pagamento da Onyx numa maleta cheia de dinheiro vivo, ou quando atropelou uma cobra no kartódromo do Maqui-Mundi no Rio de Janeiro e acreditou que ela estivesse dentro do cockpit, entre muitas outras histórias.
Forte abraço a todos.
1 Comments
Marcio e Lucas,
poder fazer entrevistas com ex-pilotos que passaram pela Formula 1 está sendo uma experiência rica em informações, ainda mais com pilotos que correram e conviveram com grandes pilotos na década auge de 80, certamente a melhor da Formula 1 que pude acompanhar.
Gostei da pergunta pelo fato do sueco ter sido companheiro de equipe do S. Bellof, Senna e Prost na Formula 1 … e pelo visto quem mais o impressionou foi o francês … hehehehe
O relato dele quando do acidente que vitimou o Elio de Angelis foi tocante também ainda mais pelo relato dele,que juntos com outros pilotos presentes (inclusive o Prost) na tentativa de revirar o carro e tirar o Elio do meio das chamas … um relato que jamais a midia esportiva publicou ( ao menos que eu tivesse informação) pois a narrativa não fica nada a dever sobre tudo o que foi publicado sobre Imola 94
Fernando Marques
Niterói RJ