Escutando os sinais

Inimagináveis
08/10/2026

Photo by Colin McMaster/LAT Images

No extenso calendário da F1, Max Verstappen venceu em praticamente todas as pistas. Madring estreou em 2026 e não conta muito, mas Singapura está na F1 desde 2008 e mesmo Verstappen tendo mais dez anos na categoria e tendo períodos dominantes na F1 com a Red Bull, ainda não tinha triunfado na pista de rua singapuriana. A fome de vencer na cidade-estado asiática estava clara quando Verstappen fez pouco da vitória na Sprint. ‘Isso aqui não conta, quero vencer no domingo’. E Max não perdeu a oportunidade.

Com um carro da Red Bull revivido devido às atualizações, Verstappen voltou a 2023, quando dominou a F1 como poucas vezes se viu e triunfou de forma enfática no circuito de rua de Marina Bay, neutralizando até mesmo a tática diferente da Ferrari, enquanto Andrea Kimi Antonelli vê seu primeiro título cada vez mais próximo com mais um pódio.

Finalizando mais uma rodada tripla no ano, a F1 chegou à Marina Bay, local da primeira corrida noturna da categoria e uma das pistas que mais ‘maltratam’ os pilotos, com a alta umidade e o forte calor formando um combo que exige bastante do físico dos 22 pilotos da F1. Porém essa exigência física deve ter influenciado a turma da TI da FIA, que mais uma vez fez a F1 passar um vexame por motivos tecnológicos. Durante a classificação da Sprint Race na sexta-feira, além do cronômetro travar acabando por atrapalhar os pilotos durante o SQ2, a FIA anunciou que o modo ultrapassagem ficou inativo por algum tempo por um erro humano, mas que atrapalhou ainda mais alguns pilotos, que não tiveram à sua disposição o aparato.

Já no sábado foi a vez da Pirelli mostrar mais uma vez que seu pneu de chuva extrema não tem serventia alguma. Uma tempestade caiu sobre Singapura minutos antes da largada da Sprint, acabando por adiar a largada por alguns minutos. Parte da pista estava nitidamente alagada, mas em outras estava seco, contudo, o receio de usar os pneus de banda azul fez com que a F1 esperasse a situação em que os pneus intermediários fosse a escolha unânime de todos os pilotos.

Após seu abandono no final da corrida em Sepang, Russell ainda amargou uma troca na sua unidade de potência que o fez ser punido em Marina Bay, um circuito de difíceis ultrapassagens. Para piorar, ele já sabe que terá que trocar novamente a sua unidade antes do final da temporada. E ser punido de novo. Perdido por um, perdido por dez, George pediu à Mercedes para utilizar a antiga especificação do carro, enquanto Antonelli ficaria com as atualizações que chegaram em Sepang. Após a classificação da Sprint, a escolha de George se mostrou acertada, com o inglês largando em segundo (a punição só se deu no grid da corrida principal) e Antonelli apenas em sétimo, com meio segundo de diferença na cabeça.

Era mais uma chance de George Russell descontar alguns pontinhos de Antonelli no campeonato, correto? Nem tanto. Russell largou melhor do que Verstappen e liderava a Sprint no final da primeira volta quando chegou na parte mais molhada da pista e escorregou na entrada da reta dos boxes, batendo seu Mercedes.

Com a pista cada vez mais seca, Verstappen (foto acima) controlou bem a Sprint, seguido de perto por Hamilton, que efetuou uma ótima largada. Leclerc sofreu com o superaquecimento dos seus pneus intermediários e viu a dupla da McLaren encostar nele nas voltas finais, trazendo Antonelli a reboque. Era nítido que a Ferrari segurava todo o pelotão, mas na última volta Norris resolveu que podia fazer melhor que o companheiro de equipe e colocou por dentro em cima de Piastri, que lhe deu um espaço mínimo. Foi então que ocorreu o pesadelo de todo chefe de equipe: Norris e Piastri bateram, rodando de forma tão sincronizada que pareciam num balé. Zak Brown se desesperava no pit-wall, enquanto Antonelli levou seu Mercedes na maciota, sem ultrapassar ninguém, ganhando três posições por erros de pilotos à sua frente e ainda aumentou sua vantagem no campeonato com o vacilo de Russell.

Quando a classificação começou, a pista estava seca, mas sem a borracha acumulada dos últimos dias. O único incidente aconteceu com Isack Hadjar, que havia abandonado a Sprint com problemas no motor do seu carro, agradeceu à equipe pelo trabalho via rádio assim que deixou o pit-lane para alguns metros mais tarde parar com problemas no motor novamente. Lewis Hamilton parecia o grande favorito à pole, marcando os melhores tempos nos Q1 e no Q2 com certa folga, enquanto Max Verstappen fazia um papel mais discreto, mas evoluindo sem maiores problemas numa classificação sem grandes surpresas.

Porém, no Q3, o maior poleman da história da F1 não confirmou o favoritismo. Pequenos erros em suas duas voltas fizeram com que Hamilton fosse superado por Verstappen e por Leclerc. Max apareceu quando era preciso, marcando sua segunda pole consecutiva. A dupla da Ferrari veio logo atrás, com Antonelli em quarto, mais uma vez superando com folga Russell, mesmo o inglês usando a versão anterior da Mercedes, mais estável que a atual. Com a punição de Russell, a dupla da McLaren vinha logo a seguir, com ambos com as orelhas quentes pelo carão recebido nos boxes.

O fato de Singapura ter sediado mais um final de semana de Sprint fez com que as equipes não tivessem muitas referências quanto a durabilidade dos pneus, até mesmo porque o treino livre de luxo, que foi que se transformou as corridas Sprint de F1, se deu com os pilotos utilizando os pneus intermediários. Provavelmente por isso não houve unanimidade das equipes com relação ao composto a usar, com metade do grid largando com pneus macios e a outra indo com os médios.

Os protagonistas da primeira fila estavam com os pneus de banda vermelha, com Max e Charles querendo o melho posicionamento nas primeiras voltas. No apagar das luzes vermelhas (foto acima), Leclerc claramente largou melhor, mesmo saindo do lado sujo da pista. Se não repetiu a largada horrorosa da Sprint, Verstappen estava em desvantagem no aproche da primeira curva e foi extremamente agressivo. Espremeu Leclerc até o limite e com o ferrarista tendo pouco espaço e no lado sujo, Verstappen conseguiu manter a ponta da corrida por muito pouco.

No resto do pelotão as posições pouco se modificaram, com Gasly perdendo duas posições e Nico Hulkenberg ganhando duas, enterrando a tese de que a Audi tem um problema crônico de largar, algo que Gabriel Bortoleto parece não ter aprendido ainda, pois o brasileiro perdeu três posições na primeira volta. Nos primeiros giros Leclerc pôs bastante pressão em Max Verstappen, mesmo que em nenhum momento tenha realmente tentado uma ultrapassagem, enquanto Lewis Hamilton, que preferiu largar com os pneus médios, claramente segurava Antonelli e a dupla da McLaren.

Photo by Joe Portlock/Getty Images

Russell fizera uma largada cautelosa, lembrando a tática de Antonelli em Baku quando o italiano teve problemas na classificação no Azerbaijão. Largando do pit-lane, Hadjar (foto acima, ao lado de Alonso) também partia para cima dos carros mais lentos do pelotão intermediário, incluindo Bortoleto, que vinha tendo um final de semana bastante ruim e que foi coroado com uma quebra de câmbio na oitava volta, fazendo o brasileiro estacionar seu Audi na saída dos boxes e trazendo o primeiro Safety Car Virtual do dia. No entanto, as equipes se mantiveram impávidas dentro dos pits, não trazendo nenhum piloto para antecipar as paradas.

O motivo era muito simples. Mesmo com vários pilotos largando com pneus macios, o desgaste de pneus estava muito baixo e as equipes poderiam postergar ao máximo suas, prováveis, únicas paradas dos seus pilotos. Com a corrida transcorrendo sem maiores problemas ou emoções, ficava nítido que Singapura seria mais uma corrida com apenas uma parada e por isso a surpresa em ver Lewis Hamilton (foto abaixo) indo aos pits ainda na volta 18 de 62 colocar pneus macios. Os compostos médios não estavam tão bons quanto os macios, algo já visto em Sepang, mas a parada de Hamilton parecia cedo demais a ponto dos demais pilotos não responderem de imediato a manobra de Lewis.

Interessante foi ver Leclerc fazer sua parada na volta 25 e retornar à pista imediatamente à frente de Hamilton, iniciando mais um drama via rádio, com Lewis pedindo passagem e como resposta, Leclerc fez a volta mais rápida da corrida com os pneus médios, abrindo 2s para o companheiro de equipe. Piastri foi o último dos pilotos de ponta a fazer sua parada naquele momento, com metade da corrida já tendo sido percorrida e as posições eram exatamente as mesmas, sendo que Max Verstappen sequer perdeu a ponta quando fez sua parada. A corrida tinha tudo para ir até a bandeirada num marasmo que lembrou a esquecível prova em Madri quando Stroll, sempre ele, teve problemas em seu Aston Martin e encostou ao lado de uma agulha, mas o suficiente para trazer o VSC de volta à corrida. E animar um pouco as coisas.

Isso porque a Ferrari, vendo que não poderia fazer muita coisa para alcançar Verstappen, pensou diferente e chamou seus dois pilotos para os pits colocar pneus macios. Leclerc foi ao pit-lane sem titubear, mas Hamilton errou a entrada dos pits e resolveu ficar na pista com seus pneus macios desgastados. A corrida foi reiniciada com 22 voltas para o fim com Hamilton à frente de Leclerc, mas com pneus bem piores. Dessa vez Leclerc nem resmungou muito via rádio, pois seu ritmo 2s superior falou por si e sete voltas depois da relargada, o monegasco reassumiu a segunda posição. Outro que escolheu fazer uma segunda parada foi Antonelli, enquanto Piastri teve que retornar aos pits por causa de um furo lento.

Inicialmente Leclerc passou a virar bem mais rápido do que Verstappen, mas quando a diferença baixou dos 9s, o neerlandês passou a controlar a vantagem sobre Leclerc. Mesmo não estando tão confortável com os pneus médios no segundo stint, Max Verstappen venceu pela primeira vez em Singapura com um script muitas vezes visto nos últimos anos na F1: se manteve na ponta após a largada, despachou o segundo colocado e administrou até o fim. A segunda vitória seguida de Max Verstappen dá o tom do que pode vir em 2027, com a Red Bull crescendo bastante nas últimas provas a ponto de o neerlandês assumir a quarta colocação no campeonato e ver o vice como algo bastante plausível. Isack Hadjar se revoltou com seu sábado bastante problemático, mas fez uma boa corrida de recuperação saindo do pit-lane para o décimo lugar, marcando mais um pontinho no campeonato.

Leclerc chegou na mesma posição que largou, mas não se pode acusar a Ferrari de ter tentado algo para dirimir a vantagem da Red Bull em Singapura. O segundo lugar era o máximo que Leclerc pôde fazer nesse domingo e aos poucos Charles entra na luta pelo vice campeonato, mesmo que a fase atual de Verstappen coloque o piloto da Red Bull como grande favorito a conseguir o feito. Hamilton falhou em ficar na pista, algo que o próprio inglês admitiu após a corrida, e se tornou presa fácil para os carros atrás dele.

Com pneus médios menos desgastados, Norris encostava no seu compatriota, mas a maior ameaça vinha de Antonelli, que mesmo reclamando de pequenos problemas no seu carro, era mais rápido que os dois. Lando tentou atacar Lewis em vários lugares, mas é notório que o ‘dog fight’ de Norris é medíocre a ponto de forçar os dois pilotos ingleses saírem da pista na curva um e Antonelli ultrapassar Lando na curva seguinte e Hamilton metros mais tarde. Mesmo não estando confortável em todo o final de semana e a Mercedes ter desempenhos abaixo em Singapura mesmo nos anos áureos, Andrea Kimi Antonelli (foto abaixo) ainda tirou um pódio da cartola e abriu mais de cem pontos para o seu companheiro de equipe.

Photo Jiri Krenek / Active Pictures

Extremamente suado depois da corrida, Antonelli soube através do entrevistador Jenson Button da possibilidade de se tornar campeão já na próxima etapa, em Austin. Mesmo Kimi dizendo não ligar para a matemática, o título é algo já esperado e o italiano pilota pensando nisso faz algum tempo.

Norris depois ultrapassou Hamilton, que nas voltas finais caiu para sexto ao ser alcançado por Piastri. O clima na McLaren depois da presepada na Sprint ficava claro com Norris insistindo em ajudar Piastri, quanto era nítido que não tinha nada a fazer. Após um período em que a McLaren deu pinta que poderia bater de frente com a Mercedes, tudo não passou de fogo de palha para o time papaia e hoje a McLaren é a quarta força do campeonato. Tendo assumido a culpa pela estratégia errada depois da corrida, Hamilton ainda passou mal após a corrida e teve que ser assistido no ambulatório.

George Russell avançou bem até o sétimo lugar, mas teve azar quando foi fazer sua parada durante o segundo período de VSC e quando estava entrando nos pits, a bandeira verde foi dada, custando precioso tempo à George. Perdendo terreno, Russell correu contra o tempo, ainda ultrapassou Gasly, mas não teve como ultrapassar Hulkenberg, se conformando apenas com a nona posição. Em 62 pontos possíveis nas duas últimas semanas, George só conquistou dois e até mesmo o vice-campeonato ficou em risco, o que seria uma derrota ainda maior para o inglês, que começou a temporada como o maior favorito ao título de pilotos de 2026.

O tempo que passou na Red Bull pareceu ter feito muito bem à Liam Lawson (foto acima), o principal piloto do pelotão intermediário mais uma vez, conquistando um sólido sétimo lugar e marcando bons pontos que deixa a Red Bull numa situação complicada para 2027. A fase de Lawson não permite uma demissão, enquanto Nikola Tsolov, que briga com Rafael Câmara pelo título da F2, já bate na porta da F1. Arvid Lindblad faz uma temporada de estreia decente, além de ser jovem e inglês. A Racing Bulls tem três pilotos para duas vagas, mas no momento Lawson parece sair na frente.

Nico Hulkenberg conseguiu segurar George Russell nas últimas voltas para voltar a marcar pontos e ultrapassar Bortoleto na tabela de classificação. O alemão cresceu bastante nas últimas corridas, mesmo a Audi sofrendo com alguns problemas de confiabilidade. Gasly andou boa parte da corrida na zona de pontuação, mas ultrapassado por Russell e Hadjar nas voltas finais, o francês ficou zerado e novamente lembramos da pisada de tomate de Colapinto, que hoje abandonou, em Baku.

No pit-wall da Haas, Ayao Komatsu deve ter ficado com as mãos na cabeça com a luta bastante próxima entre seus dois pilotos no início da corrida, lembrando o histórico nada abonador de Ocon em disputas com companheiros de equipe. Entre mortos e feridos, a contendo foi vencida por Bearman, mas isso não gerou pontos. Sainz chegou a correr em décimo, mas depois o espanhol perdeu rendimento e saiu da zona de pontos, enquanto Albon mal apareceu.

Após sua ótima corrida em Sepang, Alonso voltou à mediocridade proporcionada pela Aston Martin, com um rádio do espanhol vazando criticando novamente o motor Honda, mais de dez anos depois. Por fim, Valtteri Bottas (foto acima) resolveu percorrer os pouco mais de 300 km entre a Malásia e Singapura de bicicleta e talvez isso explique o finlandês ter tomado mais de um minuto (!) para Sergio Pérez. A Cadillac não pode normalizar uma diferença abissal entre seus pilotos, mesmo Marcin Budkowski olhando para o lado e ver Colton Herta passando vergonha na F2.

Photo by Alex Bierens de Haan/LAT Images

Com a indefinição sobre as corridas no Oriente Médio, o título de Andrea Kimi Antonelli (no pódio, foto acima) pode acontecer em algum momento na segunda passagem da F1 pelas Américas, porém, Max Verstappen deu mais mostras que ainda é o melhor piloto do grid atual da F1. Quando teve equipamento para vencer, Max não perdeu as oportunidades que surgiram, enquanto Kimi já corre com o regulamento debaixo do braço.

Como fala Alceu Valença, já escutamos os sinais de um 2027 com uma luta mais direta entre Max e Kimi em condições parecidas ao longo de um campeonato, fazendo provar de verdade um Antonelli motivado frente ao consolidado Max Verstappen. Pois Russell é que não consegue (ou tem condições) de fazer frente à Kimi nesse momento.

Com apenas 37 pontos separando o segundo (Russell) e o sexto (Norris) colocados, a briga pelo vice campeonato será um dos destaques desse final de temporada, mas precisa dizer quem é o favorito?

Abraços!

João Carlos Viana

 

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

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